NOTÍCIAS

 

 

3/6/2010
O Rio contra a ESCRAVIDÃO


Há quem acredite que a escravidão não exista no Brasil desde 1888. Há quem acredite também que a Constituição Federal já tenha conseguido garantir os direitos do trabalhador. A realidade, porém, é vergonhosa e precisa ser conhecida e mudada.

Há sete anos tramita no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional nº438 (PEC 438), que pune com a expropriação de terras os proprietários em cujas fazendas for encontrado trabalho escravo. A proposta é fundamental para combater o problema, mas inexplicavelmente continua engavetada.

O tema já foi abordado algumas vezes no âmbito estadual pelo deputado Alessandro Molon. Em 2006 o parlamentar aprovou a Lei Nº 4.744 que proíbe a administração pública de celebrar contratos com quem se beneficia, direta ou indiretamente, desta prática. Em maio deste ano também apresentou o Projeto de Lei nº 3080/2010, que cria a COETRAE, Comissão Estadual de Combate ao Trabalho Escravo. A Comissão já existe em outros estados, como Pará e Tocantins, mas não no Rio de Janeiro, onde só no ano passado 1.902 pessoas foram libertadas da escravidão - o maior número em todo o país.

Diante dessa cruel realidade e do descaso do Congresso Nacional, nosso mandato se uniu à "Frente Nacional Contra o Trabalho Escravo e pela Aprovação da PEC 438" e convoca todo o povo fluminense a fazer o mesmo.

Precisamos denunciar essa vergonha, esclarecer nossos amigos, e pressionar o Congresso Nacional pela urgência da PEC 438.


Quase 172.000 pessoas já assinaram o abaixo-assinado!
Faça a sua parte e levante sua voz!

Visite http://www.trabalhoescravo.org.br/abaixo-assinado e saiba mais.

Privação de liberdade e usurpação da dignidade
são crimes contra os Direitos Humanos,
e devem ser tratados como tal.

 

 

Manifestação pela aprovaçao da PEC 438 em Brasilia, dia 27 de maio

Mais de 300 manifestantes de movimentos socaiis, da via campesina e de artistas do movimento Humanos direitos do Rio de Janeiro, realizaram manifestação em frente ao congresso nacional dia 27 de maio passado.
Deixaram plantadas, mais de 100 cruzes com o nome dos fazendeiros, que a Policia federal encontrou trabalho escravo, nos ultimos anos.
A media anual está sendo de 4 mil trabalhadores libertados pela PF;
Mas os fazendeiros nao sao punidos. Por isso é fundamental para interromper a impunidade a aprovaçao da PEC 438, que ja passou pelo Senado, qye determinado a desaprorpiaçao das fazendas que ainda tem coragem de acumular riqueza com trabalho escravo.

Já a grande imprensa, apesar do registro de seus fotografos, nao colocou uma linha.
Nao é por nada que a Rede Globo, o grupo abril e o grupo estado são membros efetivos da Associaçao Brasileiro do agronegocio. Tudo a ver!

 

Fábrica clandestina de fogos explode e destroi 3 casas na BA

22/05/2010
Olhar Direto

Uma fábrica clandestina de fogos de artifício explodiu na noite de sexta-feira, no bairro de Santa Madalena, periferia do município de Santo Antônio de Jesus (a 185 km de Salvador), pólo da produção de fogos no interior da Bahia.

A fábrica funcionava no quintal de uma casa, rodeada por árvores, onde mulheres produziam traques de riscar. Sem qualquer tipo de segurança, a tenda improvisada explodiu assim que as mulheres acabaram a fabricação do dia. Ninguém ficou ferido, mas a explosão foi tão forte que destruiu três casas, num raio de 30 m.

A Defesa Civil do município suspeita de que uma combustão tenha causado a explosão. Vizinhos não souberam dar mais informações sobre o que poderia ter provocado o acidente.

A dona de casa Tereza Pereira dos Santos, que mora ao lado da fábrica, contou que a explosão foi tão forte que rachou paredes, derrubou mantimentos do armário e destruiu o telhado e o quintal da casa dela.

"Eu estava na frente de casa retirando as roupas do varal com minha filha. Já era de tardezinha quando a gente ouviu a explosão. Foi tudo muito rápido. Gritei e saí correndo. De longe vi minha casa caindo e uma fumaça preta no céu saindo da casa vizinha", disse. Tereza perdeu ainda móveis, geladeira, televisão e armários.

Para as autoridades, o maior problema da produção dos fogos de artifício na região são as milhares de fabriquetas informais espalhadas pela zona rural de Santo Antônio de Jesus, onde se encontram irregularidades ainda mais graves.

As fábricas funcionam sem autorização, em instalações precárias e sem a mínima segurança. No município, a fabricação clandestina de fogos de artifício é uma atividade que vem sendo praticada sem respeitar qualquer norma de segurança ou fiscalização. No fundo de quintal ou nas portas de casa, qualquer lugar é usado por milhares de famílias para se produzirem fogos, principalmente o traque de riscar e o estalinho, que envolve pessoas de várias idades, incluindo crianças e idosos.

São cerca de 500 fábricas ilegais na cidade
Só no município, segundo dados do Movimento 11 de Dezembro (criado após a explosão de uma fábrica clandestina que matou 64 pessoas), são 500 fábricas na ilegalidade. Dados da Associação dos Produtores de Fogos de Santo Antônio de Jesus e Região (Asfogos) dão conta da existência de cerca de mais de cem fábricas clandestinas.

Segundo a Asfogos, somando-se os legalizados, Santo Antônio chega a produzir anualmente quase 50 t de fogos. O silêncio e a entrada clandestina da matéria-prima são os principais obstáculos à atuação dos órgãos fiscalizadores.

De acordo com a Polícia Civil, a fiscalização só pode ser feita após denúncias da população, já que a maioria das fábricas são ilegais. Por sua vez, o Exército diz que só pode fiscalizar as fábricas legalizadas.

Segundo Ana Maria Santos, presidente do Fórum de Direitos Humanos de Santo Antônio de Jesus (FDH/SAJ), a fábrica existe há mais de um ano.

"Vamos fazer uma petição falando sobre a clandestinidade que acontece na região, principalmente em Santo Antônio, a falta de fiscalização e a negligência dos órgãos responsáveis pela omissão. Sempre informamos que a clandestinidade continua sendo fiel a esse sistema e as autoridades nada fazem. Só porque não feriu ninguém não apareceu uma autoridade no local? É preciso morrer mais 64 pessoas?", lamentou.

As peripécias de Eike Batista - Mortes na OGX de Eike

18-05-2010

Houve ontem acidente com duas vitimas e dois feridos em uma plataforam da BRASDRILL, em um teste com baleeira, que opera para a OGX, segue abaixo uma matéira do boletim do Sindipetro NF, onde relata o histórico da empresa BRASDRILL, com demissão de cipistas e com acidente em 11/04 com amputação da perna direita do petroleiro Felipe, de 22 anos, no mesmo local já havia ocorrido um acidente seis meses antes com outro trabalhador.

Matéria do Jornal do Sindipetro-Norte Fluminense, em 04/05/2010:

Brasdrill é campeã de insegurança
A insegurança a que os trabalhadores da Brasdril estão sujeitos são de dois tipos. A primeira em relação a sua segurança física e a segunda em relação à estabilidade profissional. Nos últimos anos a empresa teve dois graves acidentes com amputação e demitiu cipistas que pela legislação brasileira tem direito a se manter no emprego até um ano após o término de seu mandato.

Para tratar de temas ligados a esses assuntos, diretores do Sindipetro-NF estiveram reunidos como Chefe da US-SS/SC, José Luiz de Oliveira Penteado. Nessa reunião os diretores do NF denunciaram que a Brasdrill tem praticado ações truculentas e anti-sindicais em relação aos seus Cipistas. Nove cipistas foram demitidos nos últimos anos.
Além disso, o sindicato recebeu denúncias que estrangeiros com cargos de comando desrespeitam trabalhadores brasileiros nas plataformas, dizem que não aceitam nossas normas e impedem o trabalho
dos cipistas. Esse útimo fato, se tornou grave, porque a impossibilidade atuação dos cipistas contribui para ocorrência de acidentes graves, que causam mutilações e mortes de trabalhadores.
A direção do Sindipetro-NF insistiu durante a reunião da necessidade de mudanças urgentes na política de segurança da Petrobrás e das empresas privadas do setor petróleo. “Ao invés de apenas se empenhar
somente na obtenção de bons resultados financeiros, as empresas deveriam estar comprometidas prioritariamente com a segurança e a vida de seus trabalhadores” - comentou o Coordenador do sindicato José Maria Rangel.

O último acidente

O petroleiro da Brasdrill Felipe de Andrade do Carmo, 22 teve a perna direita amputada em razão de um acidente sofrido no último dia 11, na SS-52, no campo de Albacora, na Bacia de Campos.
O acidente ocorreu durante atividade de troca da tela da peneira de lama. A perna do petroleiro ficou presa no parafuso que leva o cascalho ao secador de cascalho. Em menos de seis meses, este mesmo
sistema havia provocado o acidente com outro trabalhador.
No último dia 12, o sindicato indicou o diretor Norton Cardoso Almeida para participar da Comissão de apuração do acidente de Felipe de Andrade, através de ofício ao gerente geral da US-SS, Carlos Siqueira

Matéria do Jornal, O Globo de 18/05:

CAMPOS - Um acidente no navio-sonda (embarcação projetada para a perfuração de poços petrolíferos) Ocean Ambassador, na Bacia de Campos, nesta segunda-feira, matou dois petroleiros e deixou outros dois feridos, que estão hospitalizados no Rio de Janeiro. O problema ocorreu por volta das 14h30m, quando uma baleeira (pequena embarcação) se desprendeu do navio e caiu no mar, com os quatro funcionários. O Ocean Ambassador é de propriedade da Diamond Offshore e estava prestando serviço para a OGX - empresa petrolífera que pertence ao empresário Eike Batista.

De acordo com uma nota divulgada pela OGX, o acidente no navio-sonda aconteceu durante um teste de rotina da baleeira, para atender à legislação internacional. Ainda segundo a nota, todos os envolvidos no episódio estavam treinados para esse tipo de operação e eram funcionários da Brasdril.

A Capitania dos Portos informou que determinou a abertura de um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação para apurar as causas do acidente. A previsão de conclusão é de 90 dias.

Atividades são paralisadas para investigação
Segundo a OGX, duas aeronaves foram imediatamente acionadas para o resgate dos feridos no mar, que foram removidos para um hospital. As atividades no navio-sonda foram interrompidas temporariamente, para permitir que as causas do acidente sejam investigadas.
Os nomes dos funcionários feridos não foram divulgados, mas todos os parentes das vítimas já foram avisados. A OGX disse que lamenta o ocorrido e informou que a Brasdril e a Diamond estão tomando todas as providências necessárias para o atendimento aos feridos e às suas famílias.

 


Por causa do cartel criado pela Cutrale, empresa de grilagem de terras para a produção de suco de laranja, desde 1994, ano das primeiras denúncias, cerca de 20 mil produtores perderam suas terras em São paulo.


"Também perdemos 80 milhões de pés de laranja", explica Flávio Viegas, presidente de Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus).

Leia a matéria a seguir, da insuspeita revista do agronegocio. Com a palavra a rede Globo!

REVISTA DINHEIRO RURAL
ABRIL 2010

O que há por trás do cartel da laranja
Novas denúncias de irregularidades complicam a situação de um dos mais importantes setores do agronegócio brasileiro

Que o Brasil é o maior produtor e exportador de suco de laranja concentrado não é novidade. Só no ano passado foram embarcadas quase 600 mil toneladas do produto, para mercados como o dos Estados Unidos, da Europa e Ásia, o que renderam cerca de US$ 1,619 bilhão.
Apesar de estar na liderença do comércio da commodity, o País se vê às voltas com as novas denúncias sobre o suposto cartel da laranja, formado pela Cutrale, Louis Dreyfus, Citrosuco e Citrovita e que é alvo de investigações do Ministério Público e Política Federal desde 2006, originando a Operação Fanta. No dia 15 de março, o ex-empresário Dino Tofini botou a boca no mundo ao revelar novos detalhes sobre o cartel do qual ele fez parte quando era dono da CTM Citrus. "A idéia foi de José Luís Cutrale (sócio-proprietário da Cutrale e filho do fundados, José Cutrale Júnior, falecido em 2004), no início da década de 90", contou ele. Na mesma semana, foram abertos os documentos do último lote apreendido durante a operação de 2006 que pertenciam à Citrovita.

Procurado pela reportagem de DINHEIRO RURAL, Dino Tofini não quis dar mais detalhes sobre o assunto. O advogado Bruno Vasconcelos e Souza, um dos responsáveis pela defesa do empresário, que é réu no processo, explicou que, por medida de segurança, ele só voltará a falar com a imprensa depois de ser ouvido pela Secretaria de Direito Econômico (SDE) e Ministério Público de São Paulo.
"Após esse período, o sr. Tofini estará à disposição para falar a respeito". Entre as denúncias estão as confirmações de que o cartel funcionava no mercado interno e externo e que o negócio tinha como objetivo jogar o ônus sobre o produtor e permitir às empresas a compra de laranja pelo preço que o cartel determinasse. "O problema foi tão sério que matou a citricultura paulista", disse em sua declaração.

Não é de hoje que as empresas do setor estão envolvidas em polêmicas. Há anos os produtores de laranja do interior de São Paulo reclamam dos valores pagos pela produção. "Ou você vende para eles ou perde o que produziu", conta um produtor de Itápolis, que não quis se identificar. Segundo ele, o preço praticado pela Cutrale chega a ser 40% abaixo do valor de mercado, o que torna a atividade inviável.
Por trás dessa prática se esconde um plano perverso: as empresas se reuniam para combinar preços e dividir os produtores de quem comprariam. Paulo Ricardo Machado, ex-diretor-comercial citrícola da Lous Dreyfus, foi um dos responsáveis pelas denúncias que originaram a Operação Fanta. Ele conta que participou de algumas reuniões na qual detalhes do cartel eram acertados e que alguns desses encontros foram liderados por José Luís Cutrale. "Ele era um magnata duro na queda", relembra. Procurada pela reportagem, a empresa não autorizou entrevista.

Esse tipo de atuação tem sérias consequências para o agronegócio. Desde 1994, ano das primeiras denúncias, cerca de 20 mil produtores já abandonaram as lavouras. "Também perdemos 80 milhões de pés de laranja", explica Flávio Viegas, presidente de Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus).
Muitos venderam suas terras, que foram adquiridas pelas indústrias. Só a Cutrale tem 30 fazendas nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Em 2005, o Incra notificou a empresa sobre uma de suas fazendas, em Borebi (SP), que está na área pertencente à União. "Eles alegam que possuem a documentação", conta Raimundo Pires Silva, superintendente regional do Incra/SP. Machado protesta: "Eles (Cutrale) e as demais empresas estão desestruturando a citricultura e ninguém faz nada".

O QUE ESTÁ NA MIRA
Desde 2006 o Ministério Público investiga a suposta formação de cartel por parte das quatro maiores empresas citricultoras do País.
EMPRESAS ENVOLVIDAS: Cutrale, Louis Dreyfus, Citrosuco e Citrovita
PRINCIPAIS DENÚNCIAS: formação de cartel, determinação de preços e combinação da área de compra de cada empresa
PUNIÇÕES PREVISTAS EM LEI: multa ou reclusão de dois a cinco anos

DINHEIRO RURAL/066-ABRIL 2010 (Página 87).

 

Boa Noticia! Juri condenada fazendeiro mandante do crime de irma Dorothy a 30 anos! 1 de maio

Júri condena fazendeiro a 30 anos de prisão

O fazendeiro Regivaldo Galvão, o Taradão, foi condenado por maioria de votos a 30 anos de prisão pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, ocorrido em Anapu (PA) em 2005. Ele terá de cumprir a pena em regime fechado sem direito de apelar em liberdade da condenação. A decisão foi comemorada por familiares da vítima e militantes de direitos humanos que se encontravam dentro e fora do Tribunal do Júri.

A reportagem é de Carlos Mendes
O Estado de S. Paulo,
01-05-2010.


O juiz Raimundo Moisés Flexa leu a sentença no começo da madrugada deste sábado, lembrando que cinco homens e duas mulheres, na condição de jurados, entenderBoa Noticia! Juri condenada fazendeiro mandante do crime de irma Dorothy a 30 anos! 1 de maioam que o réu, acusado de ser um dos mandantes do crime, agiu para satisfazer sua "cobiça e ambição pessoal". Galvão foi levado para um presídio na região metropolitana de Belém, onde cumprirá a pena. O advogado Jânio Siqueira, defensor de Galvão, anunciou que pretende recorrer contra a condenação.

O promotor Edson Cardoso, com assistência dos advogados Nilo Batista, Aton Fon Filho e José Batista Afonso, buscou demonstrar aos jurados a culpabilidade do réu no processo e o seu envolvimento no plano de assassinato da missionária Dorothy Stang.

Eles chamaram a atenção dos jurados para que atentassem para o tipo de crime, correspondente ao crime de encomenda. A acusação sustentou a tese de homicídio qualificado, com promessa de recompensa, motivo torpe e uso de meios que impossibilitaram a defesa da vítima. O promotor ressaltou ainda a ameaça que a vítima representava para os fazendeiros, em virtude das atividades sociais que exercia, principalmente na região da Transamazônica.

A acusação demonstrou o elo que existia entre os réus no processo e as declarações de Amair da Cunha apontando Vitalmiro Moura e Regivaldo como responsáveis pelo planejamento do homicídio. Os advogados Jânio Siqueira e César Ramos, defensores de Galvão, rebateram a tese de homicídio qualificado sustentada pelo Ministério Público, contrapondo-a com a tese de negativa de co-autoria. Durante o tempo que lhes coube (uma hora e meia) os defensores afirmaram não existir provas que comprovassem a participação do réu. Exploraram também o testemunho de Amair da Cunha, o Tato, apresentado na sessão de júri, que pediu perdão ao acusado por tê-lo envolvido no crime como mandante.


Eldorado dos Carajás: chacinas são um bom negócio no Brasil


Leonardo Sakamoto
Especial para o UOL Notícias
17/04/2010


O Massacre de Eldorado dos Carajás, no Sul do Pará, que matou 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos após uma ação violenta da Polícia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, completa 14 anos hoje. A estrada estava ocupada por uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que se dirigia à Marabá a fim de exigir a desapropriação de uma fazenda, área improdutiva que hoje abriga o assentamento 17 de Abril. A Polícia recebeu ordens de retirá-los e deu no que deu. O Massacre é considerado o maior caso contemporâneo de violência no campo, tanto que esta data passou a ser lembrada como o Dia Mundial de Luta pela Reforma Agrária.


A sem-terra Andreina Araújo, com o filho no colo, chora a morte do marido à beira de sepultura no cemitério de Curionópolis (PA), na época do massacre

Matérias:

Após Carajás, ao menos 180 morreram em conflitos no campo no PA; Estado é o mais violento do país

Massacre de Eldorado dos Carajás completa 14 anos com responsáveis em liberdade


Desde então, a realidade pouco mudou na região. O Pará, sob forte influência de proprietários rurais e de mineradoras, é o estado com maior número de casos comprovados de trabalho escravo e um dos lideres no desmatamento ilegal. É também campeão no número de assassinatos de trabalhadores rurais em conflitos agrários e de lideranças sociais e religiosas que, marcadas para morrer, já têm uma bala batizada com seu nome. Isso sem contar o descaso com a infância, que toma forma de meninas nos bordéis e de meninos em serviços insalubres no campo. Garotas com idade de “vaca velha”, como dizem garimpeiros e peões, ou seja, com 10, 12 anos, trocam a sua alegria pela dos clientes.

O que é justiça? É punir apenas aqueles que apertaram o gatilho ou inclui os que, através de sua ação ou inação, também garantiram que uma tragédia acontecesse? Em 1992, 111 detentos foram mortos na já desativada Penitenciária do Carandiru após uma ação bizarra da Polícia Militar. Mais de 153 pessoas ficaram feridas, das quais 23 policiais. O falecido Coronel Ubiratan Guimarães, que coordenou a invasão/banho de sangue para conter a rebelião, foi eleito posteriormente deputado estadual, tripudiando a memória dos mortos – candidatava-se com o número 14.111. Luiz Antônio Fleury Filho, governador na época do massacre, aprovou a conduta da polícia. Hoje é deputado federal.

E por aí vai: Quem foi responsável pela Chacina da Castelinho, quando um comboio de supostos criminosos foi parado próximo a um pedágio na rodovia Castelinho, em Sorocaba (SP), e 12 pessoas executadas em 2002? E pelo Massacre de Corumbiara (RR), no qual 200 policiais realizaram uma ação armada para retirar cerca de 500 posseiros que ocupavam uma fazenda no município, resultando na morte de dois PMs e nove camponeses, entre eles uma menina de 7 anos em 1995? Ou ainda Vigário Geral, em que 50 policiais militares, que estavam fora de seu horário de serviço, entraram atirando na favela e mataram 21 inocentes em 1993 como uma “prestação de contas”?
No caso de Eldorados dos Carajás, as autoridades políticas na época, o governador Almir Gabriel e o secretário de Segurança Pública, Paulo Câmara, não foram nem indiciados.

Todos esses massacres e chacinas têm em comum o fato de vitimarem pessoas excluídas socialmente: camponeses, trabalhadores rurais, pobres da periferia, presos. Enquanto isso, o envolvimento de policiais militares tem sido uma constante. Se, hoje, massacres como os de 10, 20 anos atrás são mais raros, o mesmo não se pode dizer da violência policial. Comportamento que, muitas vezes, é aplaudido pela classe média, pois isso lhes garante o sono diante das hordas bárbaras. Muitas chacinas passaram a ocorrer em conta-gotas, no varejo, de forma silenciosa que não chame a atenção da mídia daí e aqui de fora.

O Poder Judiciário tem sua grande parcela de responsabilidade no clima de impunidade que alimenta a violência. A Justiça, que normalmente é ágil em conceder liminares de reintegração de posse e determinar despejos no caso de ocupações na cidade, é lenta para julgar e punir assassinatos e outras formas de violência contra trabalhadores.

Para que direitos humanos sejam efetivamente respeitados no país são necessárias mudanças reais, pois há impunidade também quando o governo não atua para acabar com a situação de desigualdade ou exploração que estava na origem do conflito. Seja ao permitir que garimpeiros continuem a explorar reservas indígenas, seja ao tolerar que crianças durmam na rua ou trabalhadores precisem perder a vida na luta pela reforma agrária.

Há uma relação carnal que se estabelece entre o patrimônio público e a propriedade privada não só na Amazônia, mas em outras partes do país. Muito similar ao que se enraizou com o coronelismo nordestino da Primeira República, o detentor da terra exerce o poder político, através de influência econômica e da coerção física. O já tênue limite entre as duas esferas se rompe. É freqüente, por exemplo, encontrar policiais que fazem bicos como jagunços de fazendas. O Massacre de Eldorado dos Carajás é um dos tristes episódios brasileiros em que o Estado usou de sua força contra os trabalhadores e a favor dos grandes proprietários de terra.

E, ao final, quem estava no topo da cadeia de responsabilidade pode continuar indo para sua casa tomar um uísque e coçar a barriga. Pois sabe que sua contribuição de violência é apenas mais uma, entre outras tantas que povoam a mídia ou, pior, passam despercebidos dela e da opinião pública

 

É lei lutar por Reforma Agrária!

Lutar pela Reforma Agrária no mês de abril, especialmente no dia 17, está previsto na lei.

Nesta semana, o MST dá início à Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária, realizada em memória dos 19 companheiros assassinados no Massacre de Eldorado de Carajás, durante operação da Polícia Militar, no município de Eldorado dos Carajás, em 1996.

Ao longo do mês, o MST intensifica suas manifestações, com ocupações de terras, ações em prédios públicos e protestos contra a ampliação da concentração de terras no país, com a expansão do agronegócio.

Em 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto que transformou o 17 de abril, data do massacre, no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária .

A Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária é realizada em memória dos 19 companheiros assassinados no Massacre de Eldorado de Carajás, durante operação da Polícia Militar, no município de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. O dia 17 de abril, data do massacre que teve repercussão internacional, tornou-se o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Depois de 14 anos, o país ainda não resolveu os problemas dos pobres do campo, que continuam sendo alvo da violência dos fazendeiros e da impunidade da justiça. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), foram assassinados 1.546 trabalhadores rurais entre 1985 e 2009. Em 2009, foram 25 mortos pelo latifúndio. Do total de conflitos, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso.

POR QUE ESTAMOS MOBILIZADOS?

A Reforma Agrária está parada em todo o país. Diante deste quadro, exigimos:
1- Assentamento das 90 mil famílias acampadas do MST;
2- A atualização dos índices de produtividade;
3- Garantia de recursos para as desapropriações, dos processos já prontos e das áreas para assentar as famílias acampadas;
4- Investimentos públicos nos assentamentos (crédito para produção, habitação rural, educação e saúde).

Temos famílias acampadas há mais de cinco anos, vivendo em situação bastante difícil à beira de estradas e em áreas ocupadas, que são vítimas da violência do latifúndio e do agronegócio. Com as nossas ações, queremos denunciar a existência de latifúndios que não cumprem a Constituição Federal (artigo 184) e que deveriam ser desapropriados para a Reforma Agrária.

OCUPAÇÃO DE TERRA É UM DIREITO!

A ocupação de terras que não cumprem a sua função social é um instrumento legítimo dos trabalhadores rurais que lutam pela Reforma Agrária. É a nossa principal forma de fazer pressão para enfrentar a concentração fundiária. Mais de 70% das áreas foram desapropriadas depois da ocupação de terras.
De acordo com o último censo agropecuário do IBGE (2006), 15 mil fazendeiros com mais de 2 mil hectares controlam nada menos que 98 milhões de hectares.
O governo federal não cumpriu as suas promessas da jornada de lutas de agosto. Com o Acampamento Nacional em Brasília, tivemos um processo de negociação com o governo, que se comprometeu com a atualização dos índices de produtividade e a ampliação do orçamento do Incra para a desapropriação. Até agora, nada disso foi encaminhado. Vamos exigir a imediata atualização dos índices de produtividade (defasados desde 1975), que é uma medida administrativa prevista na Lei Agrária de 1993. Vamos reivindicar que o governo encaminhe com urgência ao Congresso um projeto de lei para o suplemento orçamentário para obtenção de terras de R$ 1,3 bilhões para este ano.

ÍNDICES DE PRODUTIVIDADE

A atualização dos índices de produtividade da terra significa nada mais do que cumprir a Constituição Federal, que protege justamente aqueles que de fato são produtores rurais. As propriedades rurais, cujos proprietários produzem acima da média por região e respeitam a legislação trabalhista e ambiental, não poderão ser desapropriadas, assim como os pequenos e médios proprietários que possuem menos de 500 hectares. A Constituição determina que, além da produtividade, sejam desapropriadas também áreas que não cumprem a legislação trabalhista e ambiental, o que vem sendo descumprido pelo Estado brasileiro. Mesmo assim, o latifúndio e o agronegócio não admitem essa mudança.

AMPLIAÇÃO DO ORÇAMENTO DO INCRA PARA DESAPROPRIAÇÃO

O governo prometeu complementar o orçamento de 2009 em R$ 380 milhões para desapropriação de terras. Além do governo não cumprir, deixou de aplicar R$ 190 milhões de um pacote de áreas que já estavam encaminhadas para imissão de posse, no final de dezembro. Como o governo não fez o reajuste, o orçamento de 2010 foi reduzido para apenas R$ 480 milhões e está comprometido com áreas desapropriadas no ano passado.

Os nossos assentados também passam por uma situação bastante difícil, com a falta de investimento público para crédito rural e infra-estrutura em áreas de Reforma Agrária - como casa, saneamento básico, escola e hospital. Nesse contexto, apresentamos a nossa proposta de desenvolvimento para o campo brasileiro, baseado na geração de emprego, na melhoria de vida nos assentamentos e na produção de alimentos. O primeiro passo é o assentamento de todas as famílias acampadas no Brasil.

PROGRAMA DE AGROINDÚSTRIAS PARA ASSENTAMENTOS

Precisamos fortalecer os assentamentos com a implementação de um programa de agroindústrias. Com a industrialização dos alimentos, a produção ganha valor agregado, elevando a renda das famílias. A criação das agroindústrias vai formar uma cadeia produtiva para a geração de empregos no campo. Há um grande potencial de criação de postos de trabalho.

RENEGOCIAÇÃO DAS DÍVIDAS DOS ASSENTADOS

Queremos abrir um processo de renegociação das dívidas dos assentados. Cerca de 60% das famílias assentadas estão inadimplentes no Pronaf, programa voltado a pequenos agricultores que estão há muito tempo na terra. Por isso, não atende as necessidades do público da Reforma Agrária, que tem as suas especificidades e enfrenta maiores dificuldades com a burocracia. Apenas 15% das famílias conseguem acessar o Pronaf, e têm dificuldades para pagar os empréstimos. Queremos negociar as dívidas dos assentados, com a perspectiva de anistia ou perdão da parte do governo. Além disso, continuamos defendendo uma linha de crédito especial para as famílias assentadas, para fomentar a produção de alimentos e garantir renda às famílias. O agronegócio, que absorve a maior parte dos créditos agrícolas, não paga as suas dívidas. Desde 1995, os fazendeiros já renegociaram suas dívidas quatro vezes.

 

Pedro Alcântara, da Fetraf Pará, é mais uma vítima da violência no campo brasileiro

É com tristeza e pesar que a Central Única dos Trabalhadores comunica o falecimento do companheiro Pedro Alcântara, coordenador de Políticas Agrárias da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Pará (FETRAF), covardemente assassinado ontem, 31 de março, alvejado com 5 tiros, no município de Redenção, no sul do estado, quando caminhava com a esposa pela cidade no final da tarde.

Segundo testemunhas, Pedro foi executado numa emboscada por dois pistoleiros de moto, que fugiram após os disparos.

A vítima chegou a relatar ao fórum de direitos humanos que há um mês vinha sofrendo ameaças de fazendeiros. Atualmente, Pedro Alcântara não estava na coordenação de nenhum grupo de ocupação.

A Polícia Civil já iniciou as investigações sobre a morte de Alcântara em conjunto com as equipes a Superintendência Regional do Araguaia Paraense e da DECA (Delegacia de Conflitos Agrários).

A CUT, em nome de 22 milhões de trabalhadores, se solidariza aos familiares, amigos e companheiros de luta de Pedro Âlcantara que, lamentavelmente, é mais uma vítima da impunidade à violência que ainda domina o campo brasileiro.

Não podemos mais aceitar que nossos trabalhadores e trabalhadoras que lutam pela reforma agrária e pelo fortalecimento da agricultura familiar, continuem a ser criminalizados e covardemente executados por pessoas que querem impedir o desenvolvimento de nosso país. Não é possível que o Judiciário brasileiro ainda permita que esses crimes continuem impunes.

Um basta à violência e à impunidade! Direitos Humanos e Democracia deve ser para todos!

 

Cortadores de cana são libertados de trabalho escravo em Goiás

A reportagem é de Bianca Pyl e publicada pela Agência Repórter Brasil, 06-04-2010.

A partir do pagamento de salários com cheques sem fundo, fiscalização descobriu 143 trabalhadores aliciados por "condomínio de gatos" que trabalhavam sem descanso semanal e ocupavam alojamentos precários.


O que parecia ser um mero episódio de salários pagos com cheques sem fundo escondia, conforme veio a ser constatado por equipe de fiscalização, mais um caso do trabalho escravo. Depois que um supermercado se negou a aceitar cheques recebidos como pagamento pelo plantio e corte de cana-de-açúcar em duas fazendas do grupo Sada em Aragarças (GO), trabalhadores decidiram denunciar o ocorrido à Promotoria de Justiça local.

No papel, eles tinham vínculo com a prestadora de serviços Cana Barro, que era subcontratada pela Berc Etanol e Agricultura Ltda., braço do conglomerado mineiro Sada dedicado ao agronegócio. Na prática, atuavam diretamente no cultivo de mudas e na derrubada de cana-de-açúcar em fazendas registradas em nome da Transzero Transporte, outro braço da Sada, que pretende instalar, de acordo com informações apuradas pela fiscalização trabalhista, instalar duas usinas sucroalcooleiras na região.

Alguns cortadores de cana receberam colchões; outros tiveram de dormir no chão (Foto: SRTE/GO)

Quando partiram para a checagem da situação, representantes do poder público constataram que a Cana Barro era composta por duas donas de casa, esposas de dois indivíduos que estavam à frente das contratações, que não tinham capacidade financeira para arcar com despesas trabalhistas de mais de uma centena de cortadores. "Na verdade, pode-se dizer que criaram um ´condomínio de gatos´ (aliciadores de mão de obra)", explica Roberto Mendes, auditor fiscal e coordenador do grupo de fiscalização rural da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO).

"Além de terceirizar serviços inseridos nas suas atividades-fins, o que não é permitido pela legislação brasileira, a empresa Berc Etanol cometeu o erro grave de contratar um terceiro totalmente incapacitado do ponto de vista administrativo e econômico", avalia Roberto. O resultado disso, segundo ele, poderia ser verificado na total desorganização documental e nos vários cheques sem fundos distribuídos pela Cana Barro (um único mercado teve prejuízo de mais de R$ 18 mil). O salário pago pela subcontratada era inferior ao salário mínimo e era comum o atraso no pagamento dos vencimentos.

Os graves problemas não se resumiam aos salários. Os empregados tinham sido contratados de forma irregular em janeiro no Maranhão, Piauí, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Ao chegar a Goiás, foram colocados em casas e barracos sem as mínimas condições de moradia. As casas ficavam nas cidades de Aragarças (GO), Montes Claros de Goiás (GO) e no povoado de Ponte Alta do Araguaia.

Alguns receberam colchões. Outras tiveram de dormir no chão. O aluguel e a alimentação ficavam por conta dos próprios trabalhadores. A convenção coletiva de trabalho da categoria determina que o empregador ofereça alimentação e alojamentos para contratados em localidades diferentes daquela de prestação do serviço.

Cerca de cem trabalhadores tiveram suas Carteiras de Trabalho e da Previdência Social (CTPS) retidas ilegalmente no escritório de contabilidade da Cana Barro, em Barra do Garças (MT). Outras tiveram suas CTPS extraviadas.

Nas frentes de trabalho, não havia instalações sanitárias. Os empregados não tinham acesso à água potável. As jornadas eram contínuas: de segunda a segunda, sem descanso semanal renumerado. Os cortadores eram transportados em veículos sem autorização e inspeção do órgão de trânsito.

Os "gatos" (aliciadores) cobravam pelos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) que, segundo a fiscalização, não cumpriam as normas. A legislação trabalhista determina que o empregador forneça EPIs sem custos aos trabalhadores. A empresa se apropriava indevidamente do valor descontado dos empregados, que deveria ser repassado à Previdência Social, e não recolhia o valor referente ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

No final da operação realizada entre 10 e 24 de março, 143 trabalhadores foram libertados de condições análogas à escravidão. Além dos auditores fiscais da SRTE/GO, a ação contou com a participação de membros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ministério Público do Trabalho (MPT).

Gerente de desenvolvimento da Sada Bioenergia, Jean Carlo esteve pessoalmente no local e efetuou o pagamento das verbas de rescisão do contrato de trabalho e das despesas com passagem e alimentação dos empregados libertados. A soma dos débitos ficou em R$ 500 mil; 24 autos de infração foram lavrados.

O gerente disse em entrevista à Repórter Brasil que a empresa fez o que foi solicitado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). "Essa situação foi um caso isolado, a empresa contratada não cumpriu as obrigações trabalhistas e pagou os trabalhadores com cheques sem fundos e gerou esse problema todo".

A empresa Berc Etanol Agricultura Ltda., parte integrante do grupo Sada, firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o MPT com o compromisso de não mais terceirizar serviços inseridos nas atividades-fim da empresa, bem como a cumprir a legislação trabalhista. Jean afirmou que a empresa não irá mais terceirizar o serviço de plantio e corte de cana.

O grupo Sada está há 30 anos no mercado e é controlado pelo empresário e político Vittorio Medioli, que já foi deputado federal pelo PSDB e pelo PV. Atualmente, está filiado ao Partido Humanista da Solidariedade (PHS). A Sada tem atuação em diversos setores - fabricação de autopeças, transportes, concessionárias, setor gráfico e reflorestamento. Este ano, o grupo pretende investir R$ 120 milhões na construção de uma planta industrial conjugada de etanol e biodiesel. Para tanto, planeja ocupar 11 mil hectares com cana e outros 5 mil com pinhão-manso em Minas Gerais.

 

Cristina Pereira e Chico Diaz são indicados para prêmio Shell
01/04/2010


A atriz Cristina Pereira e o o ator Chico Diaz, os dois do Movimento Humanos Direitos, concorrem ao Prêmio Shell de 05 de abril de 2010, como melhores atriz e ator, Cristina em função de seu trabalho na peça "A tartaruga de Darwin"e Chico pela peça “Moby Dick”.

Atrizes que integram o Movimento Humanos Direitos são premiadas em 2010.

Dira Paes e Letícia Sabatela são reconhecidas por trabalho como atrizes na televisão. A primera, diretora do Movimento Humanos Direitos, recebeu o prêmio como melhor atriz coadjuvante no programa de Fausto Silva, domingo, 28 de março de 2010. A segunda, Letícia Sabatela, também ficou entre as três finalistas do mesmo prêmio. O MHUD se alegra com o reconhecimento das duas.

Letícia Sabatela recebeu em 2009 o prêmio como melhor atriz.

Em dezembro de 2009, Letícia Sabatela, atriz que integra o Movimento Humanos Direitos, foi reconhecida como melhor atriz como uma vilã em novela da TV Globo. A escolha de seu nome foi em juri popular promovido pelo jornal Extra. (Veja:

http://extra.globo.com/lazer/premiotv2009/posts/2009/12/01/leticia-sabatella-leva-premio-extra-de-melhor-atriz-246206.asp)

 

 

Justiça Global

Trabalho escravo no caminho da impunidade

 

Quase metade dos empregadores flagrados pelo Ministério do Trabalho entre 2003 e 2007 não responde pelo crime na Justiça.
Ninguém cumpre pena por esse tipo de exploração no país.

 

Lei essa matéria na íntegra em DENÚNCIA, neste site.

 

Esquecida’ na Câmara, PEC do trabalho escravo completa seis anos

À espera de votação no Plenário há quase 6 anos (após aprovação em 1º turno em 2004), a emenda que prevê o confisco de terras de escravagistas corre sério risco de "perecer" engavetada por mais uma legislatura.

A reportagem é de Rodrigo Rocha e Maurício Hashizume e publicado pela Agência Repórter Brasil, 22-03-2010.


A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que prevê a expropriação da terra em que ficar comprovada a exploração de trabalho escravo e tem apoio de um abaixo-assinado com mais de 168 mil adesões, se tornou quase um sinônimo do combate à escravidão contemporânea.

À espera de votação no Plenário da Câmara dos Deputados há quase seis anos (após aprovação em primeiro turno em agosto de 2004), a PEC do Trabalho Escravo corre sério risco de "perecer" engavetada por mais uma legislatura caso não seja "ressuscitada" pelas lideranças da Casa até 5 de abril, quando se encerra o prazo acordado até aqui para a escolha (ou descarte completo) de emendas que ainda poderão ser apreciadas em 2010.

Como a definição da agenda de votações está a cargo do Colégio de Líderes, a Repórter Brasil entrou em contato com as principais lideranças na Câmara Federal e com a presidência da Casa legislativa para aferir as chances reais de desbloqueio do andamento da PEC 438/2001.

No ano passado, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), chegou a anunciar planos para colocar a PEC do Trabalho Escravo em votação. Desta vez, porém, ele prefere a cautela absoluta. Por meio de sua assessoria de imprensa, declarou apenas que decidiu não se manifestar porque essa decisão deverá ser tomada pelo Colégio de Líderes e que, por esse motivo, não emitirá opinião sobre o mérito de PEC alguma antes que isso ocorra.

Outras 62 PECs também aguardam votação pelo pleno. A assessoria de imprensa da Presidência da Câmara reitera ainda que são votadas, em média, três PECs por ano. Estima-se que, se a opção pelas votações prevalecer, serão priorizadas no máximo quatro emendas para 2010.
Líder do governo, Cândido Vacarezza (PT-SP) vem se posicionando contra a votação de PECs em ano eleitoral. À imprensa, ressalvou, contudo, que o governo tende a apoiar a apreciação da PEC do Trabalho Escravo, vez que a mesma já foi votada em primeiro turno. Ocorre que, diante do alvoroço generalizado da Copa do Mundo de futebol em junho, as probabilidades de votação de emendas - que exigem ao menos 308 votos (3/5 do total de 513) favoráveis para aprovação - caem substancialmente.

Já o discurso de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), líder do bloco PMDB/PTC, dá a medida do real interesse pelo tema na maior bancada (91 deputados). A assessoria do parlamentar informou à reportagem que a PEC 438/2001 não está na pauta de discussão no momento. A matéria só fará parte do rol de pedidos do PMDB junto ao Colégio de Líderes, continua a assessoria, caso a maioria dos membros da bancada decida votar a favor da mesma. Essa súbita preferência, quando matérias mais "populares" - como a emenda dos donos de cartórios e a do aumento para policiais civis e militares - seguem pendentes, dificilmente deve se concretizar.

"A PEC do Trabalho Escravo é um compromisso da bancada do PT. Mas, pragmaticamente, acho bem difícil que a emenda seja votada ainda este ano", coloca Fernando Ferro (PT-PE), atual líder da bancada petista (77 integrantes). De acordo com ele, a última vez que a possibilidade de votação da proposta em plenário foi aventada no Colégio de Líderes se deu em meados de 2009. "Mais recentemente, sequer foi discutida", complementa.

Fernando Ferro atribui a estagnação da PEC em questão diretamente à resistência "muito forte" da bancada ruralista, pautada pelos interesses dos proprietários rurais. Daniel Almeida (PCdoB-BA), que lidera o bloco PSB/PCdoB/PMN/PRB (50 deputados) no Congresso Nacional, também aponta a emenda que intensifica a punição contra quem explora trabalho escravo como prioridade, pois "mexer no patrimônio é sempre eficiente no Brasil". Para o congressista, os ruralistas "relutam em admitir que existem práticas incompatíveis com a legislação nas fazendas brasileiras".
A resposta mais surpreendente encaminhada à Repórter Brasil foi a de João Almeida (PSDB-BA), líder de 57 políticas e políticos tucanos.

Perguntado sobre a PEC do Trabalho Escravo, o congressista admitiu que "desconhece" a proposta, até porque, conforme a sua assessoria, a emenda não foi colocada em debate nas reuniões de lideranças das quais participou.

Eleito pela quinta vez seguida como deputado federal, João Almeida é geólogo e ocupa uma das cadeiras da Casa desde 1991. O desconhecimento acerca da PEC surpreende por dois motivos. Nos últimos anos, fiscalizações têm recorrentemente libertado trabalhadores em fazendas na Bahia, que também assiste à migração e ao aliciamento de muita mão de obra para outras regiões. E em 2004, o líder do PSDB fez parte, como suplente, da comissão especial que tratou justamente da PEC 438/2001.

A assessoria de Paulo Bornhausen (DEM-SC), que lidera 55 deputados do partido, afirma que o tema ainda não foi avaliado, pois a PEC do Trabalho Escravo ainda não entrou em pauta de votação. Somente quando isso acontecer, a proposta deve passar por análise técnica da liderança do partido. Ainda segundo a assessoria, o DEM - que abriga contingente significativo de ruralistas - costuma priorizar as pautas de autoria de sua bancada.

Há na oposição, entretanto, quem veja pessoalmente a PEC com bons olhos. Gustavo Fruet (PSDB-PR), que assumiu a liderança da minoria na semana passada, declarou apoiar a matéria, como parlamentar. Na condição de líder, ele ainda averiguará o andamento das negociações acerca da escolha do que poderá ou não ser submetido à votação no Plenário, mas tem frisado que prefere as propostas direcionadas ao interesse geral da sociedade.

Gustavo Fruet, aliás, faz parte da Frente Parlamentar Mista pela Erradicação do Trabalho Escravo, que foi registrada oficialmente no último dia 10 de março e tem atualmente 195 membros da Câmara dos Deputados e 55 integrantes do Senado Federal. Um dos principais objetivos da articulação consiste na aprovação da PEC do Trabalho Escravo - classificada pelo senador José Nery (PSOL-PA), presidente da Frente Parlamentar, como "segunda Lei Áurea".

A aprovação da PEC 438/2001 aparece como uma das metas de curto prazo do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2003, e consta novamente como meta de curto prazo do II Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, de 2008.

A matéria já passou pelo Senado em 2003. Se for aprovada em segundo turno pela Câmara, a emenda retornará ao Senado por causa das modificações promovidas pelos deputados. A primeira proposição de confisco de terras dos escravagistas é de autoria do deputado Paulo Rocha (PT-PA) e foi apresentada originalmente em 1995, há 15 anos. Ela foi apensada à PEC 438/2001, do senador Ademir Andrade (PSB-PA).

 

Cartilha aborda a relação entre polícia e comunidade

JORNAL EXTRA
14/03/2010

Poucos dias após a implantação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Santa Marta, em dezembro de 2008, MC Fiel teve uma arma apontada para seu rosto. Ele estava num bar com amigos, na véspera de Natal, quando todos foram intimados a sair para uma revista policial.

Pouco tempo depois, no mesmo estabelecimento, local que costuma receber atividades culturais da comunidade, PMs tentaram acabar com uma apresentação musical. Fiel reagiu e, de acordo com ele, foi xingado. A partir disso, passou a ser perseguido. Segundo ele, foram três meses sendo revistado diariamente, quando saía e chegava da comunidade em que vive há quatro anos.

Coordenador da ONG Visão da Favela Brasil, Fiel entendeu que precisava fazer alguma coisa para mudar a situação. Procurou apoio de outras entidades e conseguiu produzir a "Cartilha Popular do Santa Marta: Abordagem Policial". O livreto reúne direitos e deveres da população no que diz respeito à relação com a autoridade policial. O lançamento da cartilha, com edição inicial de dois mil exemplares, está marcado para a próxima quinta-feira, às 14h, na comunidade. Na ocasião, além da distribuição de cartilhas, serão realizadas atividades culturais.

— Sou uma pessoa visível na comunidade porque tenho um trabalho cultural, mas imagina quem não tem essa visibilidade? A ameaça de um policial é muito grave. Vivemos numa país de impunidade— disse o agitador cultural, de 30 anos.

Consciente de que a UPP trouxe avanços e colaborou para a redução da violência no Santa Marta, Fiel acredita que a ação do governo precisar ser ampliada:

— A cartilha é apenas um avanço na nossa fome de direitos. Queremos também cultura, educação e lazer.

A cartilha de abordagem policial do Santa Marta teve o apoio de entidades como Anistia Internacional, Justiça Global, Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e Grupo Eco. O deputado Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, acredita que a divulgação do documento ajudará a esclarecer moradores da comunidade e policiais.

— É uma cartilha da maior importância e espero que seja apoiada pela polícia também. Se há o intuito da pacificação é preciso haver também participação. É ótimo que a polícia ocupe e não haja mais troca de tiros. É óbvio que é bom que as pessoas não estejam sendo mortas. É uma avanço. Mas os moradores já entenderam os seus deveres. E os seus direitos? Se é uma polícia pacificadora não pode ser uma polícia que transgrida a lei — disse o deputado.

Diálogo

Para o presidente do Grupo Eco, Itamar Silva, a cartilha pode servir como base para uma melhoria e ampliação de diálogo.

— A cartilha ajuda e qualifica as relações dos moradores com a polícia — explicou Itamar

Com dados publicados em 2005 pelo sitio da Reporter Brasil vemos outra faceta da criminalização dos movimentos sociais, é vergonhosa a conduta no Congresso Nacional. Como reação ao dinheiro de projetos voltados para entidades ligadas aos trabalhadores, uma CPMI para apurar cada centavo, já para o bilhão entregue aos ruralistas silêncio e conivência.

Vejam fragmento da matéria abaixo.

Marcelo Zelic
Vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo
Coordenador do Projeto Armazém Memória
09/03/10


Milhão x bilhão

O relatório toma como base, logo de início, o Cadastro Nacional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para dar contornos quantitativos do nível de concentração fundiária. “De acordo com dados desse Cadastro, 1,6% dos proprietários com imóveis acima de mil hectares detêm 46,8% da área total existente no País, ao passo que as propriedades com área de até 10 hectares representam 32,9% do total de imóveis, mas possuem apenas 1,6% da área total”, destaca o relator.

A despeito dos quase inacreditáveis índices de concentração de terra no Brasil, a comparação entre as cifras e os privilégios ofertados às organizações camponesas, de um lado, e às entidades ruralistas, de outro, é ainda mais chocante. Acusadas de desvio e malversação de recursos públicos ainda durante a CPI, três organizações de trabalhadores e trabalhadoras sem terra - a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab) e o Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra) – receberam nos últimos dez anos, em convênios com o governo federal, um total de R$ 41,758 milhões.

No mesmo período, cinco entidades ligadas aos chamados “ruralistas” - a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) – amealharam juntas R$ 1,052 bilhão, por meio de convênios e repasses de valores arrecadados pelo Ministério da Previdência Social a título de contribuições mensal compulsória.

www.armazemmemoria.com.br
[email protected]
(11) 3052-2141
(11) 9206-9284

 

Vamos manter viva a universidade dos trabalhadores!

José Arbex Jr.
(texto originalmente publicado na revista Caros Amigos)
02/03/2010



A Escola Nacional Florestan Fernandes pede a sua ajuda urgente para se manter em funcionamento (veja como contribuir, no final deste texto).
Situada em Guararema (a 70 km de São Paulo), a escola foi construída, entre os anos 2000 e 2005, graças ao trabalho voluntário de pelo menos mil trabalhadores sem terra e simpatizantes. Nos cinco primeiros anos de sua existência, passaram pela escola 16 mil militantes e quadros dos movimentos sociais do Brasil, da América Latina e da África. Não se trata, portanto, de uma “escola do MST”, mas de um patrimônio de todos os trabalhadores comprometidos com um projeto de transformação social. Entretanto, no momento em que o MST é obrigado a mobilizar as suas energias para resistir aos ataques implacáveis dos donos do capital, a escola torna-se carente de recursos. Nós não podemos permitir, sequer tolerar a ideia de que ela interrompa ou sequer diminua o ritmo de suas atividades.

A escola oferece cursos de nível superior, ministrados por mais de 500 professores, nas áreas de Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo e Estudos Latino-americanos. Além disso, cursos de especialização, em convênio com outras universidades (por exemplo, Direito e Comunicação no campo).
O acervo de sua biblioteca, formado com base em doações, conta hoje com mais de 40 mil volumes impressos, além de conteúdos com suporte em outros tipos de mídia. Para assegurar a possibilidade de participação das mulheres, foram construídas creches (as cirandas), onde os filhos permanecem enquanto as mães estudam.
A escola foi erguida sobre um terreno de 30 mil metros quadrados, com instalações de tijolos fabricados pelos próprios voluntários. Ao todo, são três salas de aula, que comportam juntas até 200 pessoas, um auditório e dois anfiteatros, além de dormitórios, refeitórios e instalações sanitárias. Os recursos para a construção foram obtidos com a venda do livro Terra (textos de José Saramago, músicas de Chico Buarque e fotos de Sebastião Salgado), contribuições de ONGs europeias e doações.

Claro que esse processo provocou a ira da burguesia e de seus porta-vozes “ilustrados”. Não faltaram aqueles que procuraram, desde o início, desqualificar a qualidade do ensino ali ministrado, nem as “reportagens” sobre o suposto caráter ideológico das aulas (como se o ensino oferecido pelas instituições oficiais fosse ideologicamente “neutro”), ou ainda as inevitáveis acusações caluniosas referentes às “misteriosas origens” dos fundos para a sustentação das atividades. As elites, simplesmente, não suportam a ideia que os trabalhadores possam assumir para si a tarefa de construir um sistema avançado, democrático, pluralista e não alienado de ensino. Maldito Paulo Freire!
Os donos do capital têm mesmo razões para se sentir ameaçados. Um dos pilares de sustentação da desigualdade social é, precisamente, o abismo que separa os intelectuais das camadas populares. O “povão” é mantido à distância dos centros produtores do saber. A elite brasileira sempre foi muito eficaz e inteligente a esse respeito. Conseguiu até a proeza de criar no país uma universidade pública (apenas em 1934, isto é, 434 anos após a chegada de Cabral) destinada a excluir os pobres.

Carlos Nelson Coutinho e outros autores já demonstraram que, no Brasil, os intelectuais que assumem a perspectiva da transformação social sempre encontraram dois destinos: ou foram cooptados (mediante o “apadrinhamento”, a incorporação domesticada nas universidades e órgãos de serviços públicos, ou sendo regiamente pagos por seus escritos, ou recebendo bolsas e privilégios etc.), ou os poucos que resistiram foram destruídos (presos, perseguidos, torturados, assassinados).
Apenas a existência de movimentos sociais fortes, nacionalmente organizados e estruturados poderia fornecer aos intelectuais oriundos das classes trabalhadoras ou com elas identificados a oportunidade de resistir, produzir e manter uma vida decente, sem depender dos “favores” das elites. Ora, historicamente, tais movimentos foram exterminados antes mesmo de ter tido tempo de construir laços mais amplos e fortes com outros setores sociais.

A ENFF coloca em cheque, esse mecanismo hist órico. A construção da escola só foi possibilitada pela prolongada sobrevivência relativa do MST (completou 25 anos 2009, um feito inédito para um movimento popular de dimensão nacional), bem como o método por ele empregado, de diálogo e interlocução com o conjunto da nação oprimida. Esse método permitiu o desenvolvimento de uma relação genuína de colaboração entre a elaboração teórica e a prática transformadora.
É uma oportunidade histórica muito maior do que a oferecida ao próprio Florestan Fernandes, Milton Santos, Paulo Freire e tantos outros grandes intelectuais que, apesar de todos os ataques dos donos do capital, souberam apoiar-se no pouquíssimo que havia de público na universidade brasileira para elaborar suas obras.
Veja como você pode participar da
Associação dos Amigos da Escola Florestan Fernandes
Em dezembro, um grupo de intelectuais, professores, militantes e colaboradores resolveu criar a Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, com três objetivos bem definidos: 1 – divulgar as atividades da escola, por todos os meios possíveis, incluindo sites, newsletter e blogs; 2 – iniciar uma campanha nacional pela adesão de novos sócios; 3 – promover uma série intensa de atividades, em São Paulo e outros estados, para angariar fundos, com privilégios especiais concedidos aos membros da associação.
O seu Conselho de Coordenação é formado por José Arbex Junior, Maria Orlanda Pinassi e Carlos Duarte. Participam do Conselho Fiscal: Caio Boucinhas, Delmar Mattes e Carlos de Figueiredo. A sede situa-se na Rua da Abolição n° 167 - Bela Vista - São Paulo – SP – Brasil - CEP 01319-030
Existem duas modalidades de associação: a plena e a solidária. A única diferença entre ambas as modalidades consiste no valor a ser pago. Ambas asseguram os mesmos direitos e privilégios estendidos aos associados.
Para ficar sócio pleno, você deverá pagar a quantia de R$ 20,00 (vinte reais) mensais; para tornar-se sócio solidário, você poderá contribuir com uma quantia maior ou menor do que os R$ 20,00 mensais. Esses recursos serão diretamente destinados às atividades da escola ou, eventualmente, empregados na organização de atividades para coleta de fundos (por exemplo: seminários, mostras de arte e fotografia, festivais de música e cinema).
Para participar e contribuir, envie a ficha de adesão (em anexo) preenchida e assinada, se tiver dúvidas procure a secretaria executiva através dos telefones: 3105-0918; 9572-0185; 6517-4780, ou do correio eletrônico: [email protected].

Magali Godoi
9572-0185 / 6517-4780
Skype: magali_godoi
--
Secretaria Geral
Escritório Nacional do MST/RJ
Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Fone: (21) 2240.8496

 

Irmão de Caiado é autuado por Fiscalização do Trabalho

10 de fevereiro de 2010
MARCELO AULER - Agencia Estado


RIO DE JANEIRO - O Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho, na companhia de uma procuradora do Trabalho, autuou a Fazenda Santa Mônica, no município de Natividade, ao sul do Estado de Tocantins, de propriedade de Emival Ramos Caiado, irmão do deputado federal e líder do DEM, Ronaldo Caiado. Na fazenda foram encontrados 26 trabalhadores, que, embora registrados, estavam submetidos ao chamado trabalho degradante: permaneciam no meio do mato consertando a cerca, sem disporem de água potável, sem equipamento de proteção individual e dormindo em um acampamento precário.

Por exigência dos auditores fiscais do trabalho, os contratos de todos os empregados foram rescindidos com o pagamento de indenização a cada empregado, calculada com base no tempo de serviço deles, que não superou os três meses. Foram pagos em torno de R$ 100 mil em dinheiro vivo. Coube a outro Caiado, o advogado Breno, irmão de Emival, levar o dinheiro ao hotel Serra Verde, no município de Campos Belos (GO), onde os fiscais do trabalho estavam sediados.

O Grupo Móvel fiscalizou outras seis fazendas na região descobrindo, na Fazenda Olho D''Água, em Montes Claros de Goiás, dois menores de idade trabalhando em carvoaria, conforme consta do registro feito pelos auditores fiscais cuja cópia foi entregue ao presidente do Conselho Tutelar da cidade, Gregório Batista dos Passos Neto.

Emival Caiado alega que "a legislação nacional não está de acordo com os costumes locais. Nas cidades grandes se tem um padrão de comportamento, uma relação em termos de acomodação que é diferenciada", diz. "No nosso caso encontraram todos os empregados registrados, mas tinham umas pessoas consertando uma cerca de arame muito longe da sede e estas pessoas, como é de hábito delas, estavam acampadas no mato. Eles falaram que aquilo não era uma acomodação condigna e decente. Era um acampamento, mas é o usual na região", argumentou.

Na crítica à fiscalização, Breno e Emival apegaram-se na história dos menores que os fiscais disseram estar trabalhando ilegalmente em carvoaria. Na explicação dos dois, os menores são filhos de um trabalhador que prepara o carvão e estariam "em férias na fazenda e tinham ido levar água para o pai" quando a fiscalização chegou. No relatório dos auditores consta que as crianças estavam há mais tempo na fazenda, apresentavam marcas de fuligem, ferimentos e queimaduras típicas do trabalho neste setor.

 

Brasil precisa combater mais o trabalho escravo


O Brasil é referência no combate ao trabalho escravo, mas precisa acelerar suas ações para erradicar o problema. A aprovação de uma emenda constitucional para garantir o confisco de propriedades que exploram mão de obra análoga à escravidão é uma das metas para 2010 das instituições envolvidas no tema.

A reportagem é de Daniel Cassol e publicada pelo Jornal do Comércio, 28-01-2010.

"Não há democracia com a permanência do trabalho escravo", defendeu ontem o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Ele participou de um seminário sobre o tema no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.


Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem no mundo cerca de 12 milhões de pessoas submetidas a trabalhos degradantes, sendo que 1,2 milhão na América Latina. Em 2009, o número de trabalhadores resgatados foi de 3.571 em todo Brasil. Apesar de estar mais associado ao meio rural, como lavouras de cana e carvoarias, o trabalho escravo está presente também nos centros urbanos. "O trabalho forçado é um fenômeno generalizado e que vem crescendo no mundo globalizado", diz a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo.

Para o juiz do trabalho Marcus Barberino, as ações da Justiça devem enfrentar também a prevenção e a conscientização de empresas e consumidores, evitando atacar o problema de forma pontual. "O trabalho escravo não é apenas algo ligado ao trabalho rudimentar nos rincões do País. É uma exploração sistemática que ocorre em toda a cadeia produtiva", avalia.

Atualmente, é considerado trabalho escravo aquele que envolve cerceamento da liberdade dos trabalhadores, condições degradantes, jornada exaustiva e ameaças de violência por parte dos contratantes. Segundo Vannuchi, nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso cerca de seis mil trabalhadores foram libertados, enquanto no período de Luiz Inácio Lula da Silva já foram 30 mil. "O que está aumentando é o enfrentamento ao problema", destaca.

Uma das metas de Vannuchi e das instituições que atuam no combate ao trabalho escravo é garantir a aprovação, ainda no primeiro semestre deste ano, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438, que determina a expropriação de propriedades rurais nas quais forem flagrados trabalhadores em condições degradantes. O projeto está parado na Câmara dos Deputados desde agosto de 2004, quando foi aprovado pelo Senado. De acordo com o senador José Nery (P-Sol-PA), além da PEC existem nove projetos que tratam de trabalho escravo tramitando no Senado e outros 12 na Câmara, todos parados. "É impressionante o grau de tolerância com que este crime é tratado", critica.

A data de hoje marca o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, em alusão ao episódio que ficou conhecido como chacina de Unaí, ocorrida em 2004, quando quatro funcionários do Ministério do Trabalho foram assassinados enquanto realizavam uma fiscalização na região de Unaí, em Minas Gerais. As investigações apontaram como mandantes os fazendeiros Norberto e Antério Mânica, mas até hoje ninguém foi condenado.

Trabalho escravo está presente em toda cadeia produtiva brasileira

Apesar de o Brasil ser considerado, no âmbito internacional, a vanguarda do combate ao trabalho escravo, a prática está inserida em toda a cadeia produtiva do país. Elemento inerente à reprodução do sistema capitalista, o trabalho escravo é uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo. Atividade no Fórum Social Mundial discutiu o que falta fazer para erradicar a prática em nosso território.

A reportagem é de Bia Barbosa e publicada por Carta Maior, 29-01-2010.
“Tudo começa com um moço chamado gato, que é um homem que vai a uma cidade com pessoas vulneráveis e chega lá com boas promessas. A pessoa se anima. Eles dizem que o patrão paga a passagem. Quando chega lá, a escravidão já começou. Quando começa o pagamento, vem o desconto da passagem, das ferramentas, do que você precisa comer. Já está tudo no caderno, anotado, e você tem que pagar. Os vigias passam armados na frente do da gente e deixam claro que o ambiente não é tranqüilo.”

O relato acima é de Francisco José dos Santos Oliveira, da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Prevenção do Trabalho Escravo em Monsenhor Gil, no Piauí. Escravo liberto, Francisco hoje vive no assentamento Nova Conquista, junto com outras 40 famílias de agricultores. Teve sorte de sobreviver a uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo, e esteve nesta quarta-feira no Fórum Social Mundial para contar sua experiência, numa atividade que buscou fazer do balanço do caminho que o país ainda precisa percorrer para erradicar o trabalho escravo de sua cadeia produtiva.

Segundo levantamento da ONG Repórter Brasil, que integra a Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, a produção de gado bovino é a campeã em número de propriedades que utilizam mão de obra escrava no Brasil. Metade das fazendas onde a prática foi registrada por operações do Ministério do Trabalho e Emprego era de gado. Já em relação ao número de trabalhadores libertos nessas operações, a produção da cana ocupa o triste primeiro lugar. Muitas vezes, mais de mil trabalhadores são libertos de uma só vez nas ações dos grupos móveis de repressão.
Hoje, cada uma dessas hipóteses corresponde ao trabalho análogo ao escravo no Brasil: o trabalho forçado, onde a pessoa é obrigada a trabalhar pela força das armas; a servidão por dívida; a jornada exaustiva, quando de alguém, para além da jornada legal, é exigida uma produtividade que o corpo não agüenta; e o trabalho degradante, quando são suprimidas as condições básicas de saúde e segurança. Todas elas são encontradas nas cadeias produtivas brasileiras, e seus produtos chegam a toda a rede de varejo nacional.

“O trabalho escravo tem crescido no contexto da globalização. Hoje há mais de 12 milhões de pessoas em situação de trabalho forçado no mundo. Na América Latina, são 1,3 milhão. O lucro obtido por esta forma de trabalho ao ano passa de 30 bilhões de dólares, e o custo para os trabalhadores que estão submetidos a esta situação é de mais de 21 bilhões de dólares. Ou seja, apesar de muito poucos Estados nacionais reconhecerem oficialmente a existência do tema, este é um fenômeno mundial, presente na cadeia produtiva de grandes e modernas empresas multinacionais”, afirma Laís Abramo, diretora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.

“A sociedade brasileira está acordando para o fato de que o trabalho escravo contemporâneo não é restrito à atividade rudimentar nos rincões do país. Trata-se de uma atividade sistemática, que perpassa toda a cadeia produtiva e está na mesa de todos os brasileiros. É algo central da organização do próprio mercado de trabalho”, explica Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15ª região e coordenador das oficinas jurídicas da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. “Ao contrário do que pensam, o trabalho escravo não é exceção. É termômetro do mercado de trabalho brasileiro, que continua a explorar o trabalhador de uma forma bastante excessiva”, acrescenta.
Referência internacional

De acordo com a OIT, o Brasil é uma referência internacional positiva em relação à luta contra este crime, estando na ponta dos esforços mundiais de erradicação. Há 15 anos o Estado desenvolve políticas de combate à prática. De acordo com os números da Secretaria Especial de Direitos Humanos, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foram seis mil trabalhadores resgatados. No governo Lula, foram 30 mil, como resultado do aumento do enfrentamento.

No entanto, muito ainda precisa ser feito para eliminar em definitivo tal violação de direitos. Um dos maiores desafios no campo legislativo é a aprovação da Emenda Constitucional 438/01, que prevê a expropriação de terras, sem direito a indenizações, onde for encontrada mão de obra escrava. Em 2001, a PEC foi aprovada em pelo Senado, mas até hoje espera a aprovação em segundo turno na Câmara dos Deputados, onde se encontram diversos parlamentares que já figuraram na chamada lista suja do trabalho escravo.

“Há anos lutamos pela aprovação prioritária da PEC. Mas apesar dos compromissos manifestados, não conseguimos avançar”, relata o senador José Nery, do PSOL/PA, presidente da subcomissão de combate ao trabalho escravo da Comissão de Direitos Humanos do Senado. “O trabalho escravo nada mais é do que um elemento inerente à reprodução do sistema capitalista vigente em nosso país e as forças degradantes de trabalho são algo que se reproduz historicamente desde a colonização. Aprovar a PEC e garantir o confisco de terras sem indenização aos escravagistas contemporâneos corresponde para nós a uma segunda lei áurea”, acredita.

No dia 13 de maio deste ano, um abaixo assinado que já conta com mais de 200 mil assinaturas será entregue ao presidente da Câmara dos Deputados reivindicando a votação da PEC em segundo turno na Casa. O objetivo é aprovar a emenda constitucional ainda no primeiro semestre de 2010. Em fevereiro, será lançada uma Frente Parlamentar de combate ao trabalho escravo no Congresso Nacional.

No campo jurídico, além de ações de formação e treinamento de juízes, o Ministério Público do Trabalho tem ampliado sua atuação no combate ao crime. Em vez de trabalhar a partir do recebimento de denúncias, como era feito anteriormente, os procuradores agora desenvolvem um trabalho menos reativo, de busca de dados e maior abrangência das ações movidas na Justiça.

“É preciso ir além de uma atuação pontual, em que algumas empresas são acionadas e outras não, já que a violação permeia todo um setor produtivo”, explica Sebastião Caixeta, procurador do trabalho à frente da Coordenação Nacional do Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho. “Também estamos movendo ações de dano moral coletivo, na construção de uma teoria que vem se firmando, com acolhimento da Justiça do Trabalho, que é a imposição de um pagamento pelo dano genérico já causado por essa violação, com os valores sendo revertidos para a classe trabalhadora. Hoje o trabalho escravo não ataca apenas a liberdade individual, mas também a dignidade da pessoa humana. Por isso, merece a repressão criminal, administrativa, trabalhista e civil do sistema de Justiça”, afirma.

Neste 28 de janeiro, Dia Nacional de combate ao trabalho escravo, a esperança dos ativistas e militantes que participam da décima edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre é acabar com a sensação de impunidade que ainda paira sobre aqueles que praticam o crime, e construir mecanismos que, de fato, erradiquem o trabalho escravo no país.

“E isso só vai acontecer quando o Brasil realizar a reforma agrária. É algo que passa por uma mudança no modelo de desenvolvimento no país, um modelo não exploratório, que não utilize pessoas como bucha de canhão para obter lucro”, concluiu Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter Brasil.

 

Campanha em Pernambuco arrecada 250 toneladas para HAITI

CREMEPE - 27 Dde Janeiro 2010
Comitê finaliza primeira etapa da Campanha

Em 14 dias da campanha Ajude o Haiti, os pernambucanos doaram 253 toneladas, das quais 113 foram de alimentos, 105 de água e 35 de roupas. Os números foram divulgados durante balanço da primeira fase da campanha realizado pelo Comitê de Solidariedade ao Haiti na manhã desta quinta-feira (28), na sede do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).

A partir de sábado (30), um dia após o encerramento dessa primeira etapa, cinco pontos de coletas serão desativados (Praça Professor Fernando Figueira, Parque da Jaqueira, Segundo Jardim, além das sedes do Instituto de Assistência Social e Cidadania – Iasc e da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB).

Também concluem a participação na campanha as seguintes entidades: Cremepe, Sindicato dos Médicos, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - Imip, Unicred Recife, Unimed Recife, Coordenadoria de Defesa Civil do Recife – Codecir, Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Recife, Federação Nacional dos Médicos e Iasc). Os supermercados estarão recebendo donativos até o domingo (31).

Darão prosseguimento à campanha, até o próximo dia 11 de fevereiro, a Polícia Militar, o Exército Brasileiro, a Associação das Igrejas Batistas de Olinda – Assibol, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, a Cúria Metropolitana, a Secretaria de Direitos Humanos de Olinda, o INSS, o Instituto Pró-cidadania, a Faculdade Maurício de Nassau, a Faculdade Joaquim Nabuco e o Conselho Regional de Enfermagem de Pernambuco (Coren-PE). Essa última assume a coordenação da campanha a partir desta sexta-feira (29).

A prioridade continuam sendo os alimentos de consumo imediato, como latas de sardinha, atum e carne, biscoitos, leite em caixa, barra de cereal, e água (garrafas de até 5 litros). A pedido do Governo do Haiti, a campanha não está mais arrecadando roupas devido à urgência por
alimentos e à dificuldade de envio.

Todos os dias, quatro caminhões do Exército Brasileiro e um da Polícia Militar coletam as doações arrecadadas nos vários pontos e os levam ao 7º depósito de armazenamento do Exército, onde todo o material está armazenado.

Comitê de Solidariedade ao Haiti - Foi criado no dia 14 de janeiro, durante encontro que reuniu diversas entidades de Pernambuco na sede do Cremepe. O objetivo é arrecadar alimentos não-perecíveis e água mineral para as vítimas do terremoto no Haiti.

Confira os pontos de coleta da segunda etapa:

Quartel do Derby – Das 8h às 18h
Igreja Matriz das paróquias – De acordo com o horário das Igrejas
Igrejas Batistas de Olinda – De acordo com o horário das Igrejas
Faculdade Joaquim Nabuco - Av. Senador Salgado Filho S/N; Av. Guararapes, 233 - Prazeres
Faculdade Joaquim Nabuco - Av. Senador Salgado Filho S/N – Boa Vista
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Guilherme Pinto, 114 – Derby
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Fernandes Vieira, 110 - Boa Vista
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Fernando Lopes, 778 – Graças
Business School Mauricio de Nassau - Rua 13 de Maio, S/N - Santo Amaro
Conselho Regional de Enfermagem (Coren) - Rua Barão de São Borja, 243 - Boa Vista – Horário Comercial
Instituto Pró-Cidadania - Rua Castro Alves, 343 – Encruzilhada
Gerência Executiva do INSS – Av. Mário Melo, 343 – Santo Amaro

Até domingo (31):

Extra Madalena (Rua Benfica, 715) – 24h
Extra Boa Viagem (Av. Domingos Ferreira, 1818) – Das 7h às 24h
Pão de Açúcar Aflitos (Av. Rosa e Silva, 614) – Das 6h30 às 24h
Pão de Açúcar Parnamirim (Rua Desembargador Góes Cavalcanti, 261) – Das 6h30 às 24h
Arco-Íris Prazeres (Avenida General Barreto de Menezes, 497) – Das 7h às 20h
Hiper Bompreço Boa Viagem (Rua Padre Carapuceiro, 800) – Das 7h às 24h
Hiper Bompreço Casa Forte - Praça Francisco Pessoa de Queiroz, 23
Hiper Bompreço Avenida Recife - Av. Recife, 3777
Hiper Bompreço Olinda - Av. Gov. Carlos de Lima Cavalcanti, 1306

CONTATOS:

Agely Pereira (Coren) – 9946 1623
Lula Portela (Assessor de Imprensa do Coren) – 9976 6847

Mayra Rossiter
Da Assessoria de Comunicação do Cremepe
(081) 2123 5755

Como VEJA está depredando o jornalismo

NOTA DO MST-PA SOBRE REPORTAGEM DA REVISTA VEJA

DIREÇÃO ESTADUAL DO MST DO PARÁ
Marabá, 12 de janeiro de 2010

1-O MST do Pará esclarece que não tem nenhuma fazenda ocupada no município de Tailândia, como afirma a reportagem da Revista Veja “Predadores da floresta” nesta semana. Não temos nenhuma relação com as atividades nessa área. A Veja continua usando seus tradicionais métodos de mentir e repetir mentiras contra os movimentos sociais para desmoralizá-los, como lhes ensinou seu mestre Joseph Goebbels. A reportagem optou por atacar mais uma vez o MST e abriu mão de informar que o nosso movimento não tem base social nesse município, dando mais um exemplo de falta de respeito aos seus leitores.

2-A área mencionada pela reportagem está em uma das regiões onde mais se desmata no Pará, com um índice elevado de destruição de floresta por causa da expansão do latifúndio e de madeireiras. Em 2007, a região de Tailândia sofreu uma intervenção da Operação Arco de Fogo, da Polícia Federal, e latifundiários e donos de serrarias foram multados pelo desmatamento. Os madeireiros e as empresas guseiras estimulam o desmatamento para produzir o carvão vegetal para as siderúrgicas, que exportam a sua produção. Por que a Veja não denuncia essas empresas?

3-Na nossa proposta e prática de Reforma Agrária e de organização das famílias assentadas, defendemos a recuperação das áreas degradas e a suspensão dos projetos de colonização na Amazônia. Defendemos o “Desmatamento Zero” e a desapropriação de latifúndios desmatados para transformá-los em áreas de produção de alimentos para as populações das cidades próximas. Também defendemos a proibição da venda de áreas na Amazônia para bancos e empresas transnacionais, que ameaçam a floresta com a sua expansão predatória (como fazem o Banco Opportunity, a Cargill e a Alcoa, entre outras empresas).

4-A Veja tem a única missão de atacar sistematicamente o MST e a organização dos camponeses da Amazônia, para esconder e defender os privilégios dos verdadeiros saqueadores das riquezas naturais. Os que desmatam as florestas para o plantio de soja, eucalipto e para a pecuária extensiva no Pará não são os sem-terra. Esse tipo de exploração é uma necessidade do modelo econômico agroexportador implementado no Estado, a partir da espoliação e apropriação dos recursos naturais, baseado no latifúndio, nas madeireiras, no projeto de exportação mineral e no agronegócio.

5-Por último, gostaríamos de comunicar à sociedade brasileira que estamos construindo o primeiro assentamento Agroflorestal, com 120 famílias nos municípios de Pacajá, Breu Branco e Tucuruí, no sudeste do Estado, em uma área de 5200 hectares de floresta. Nessa área, extraímos de forma auto-sustentável e garantimos renda da floresta para os trabalhadores rurais, que estão organizados de maneira a conservar a floresta e o desenvolvimento do assentamento.

Igor Felippe Santos
Assessoria de Comunicação do MST
Secretaria Nacional - SP
Tel/fax: (11) 3361-3866
Correio - [email protected]
Página - www.mst.org.br

 



Estado brasileiro pouco avançou na reforma agrária, avalia MST


Robson Braga
Adital - BRASIL
Dezembro 2009

O Estado brasileiro pouco avançou nas políticas voltadas ao campo. Algumas medidas pontuais não foram suficientes para solucionar questões como a reforma agrária, que exige estratégias amplas para a desapropriação das terras improdutivas espalhadas pelo país. A avaliação foi feita, em entrevista à ADITAL, por Marina dos Santos, uma das coordenadoras nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Marina cita nomes de legisladores e magistrados do Brasil como responsáveis pela perseguição ao MST, que, em sua avaliação, acentua-se a cada ano. No último dia 9, o Congresso Nacional criou uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para investigar supostos repasses ilegais do governo federal para o movimento. A medida tenta "inviabilizar qualquer avanço da reforma agrária, destruir os movimentos sociais do campo e impedir a realização de lutas sociais pela classe trabalhadora", afirmou Marina.

Na avaliação da coordenadora do MST, a bancada ruralista do legislativo federal tenta impedir a atualização dos índices de produtividade das terras brasileiras, atrasados há 29 anos. Muitas fazendas que, à época, eram consideradas produtivas hoje podem estar sendo subutilizadas pela iniciativa privada, impossibilitando que a agricultura familiar supra as necessidades alimentares do país.

Adital - Em 2009, houve avanços com relação à reforma agrária no Brasil? Que pontos a senhora destacaria das políticas adotadas pelo governo federal nesse sentido?

Marina dos Santos - Não houve muitos avanços concretos. O ritmo da criação de assentamentos está quase parado e não foram implantadas novas políticas para industrialização dos alimentos e geração de renda nas áreas da Reforma Agrária. Depois do acampamento em Brasília que fizemos em agosto, o governo federal anunciou mais uma vez a atualização dos índices de produtividade, que servem de referência para a desapropriação de latifúndios, que ainda não foi efetivada. Prometeu também reverter o corte no orçamento da Reforma Agrária por conta da crise econômica, que aconteceu em parte.

De concreto, tivemos uma vitória com a desapropriação da fazenda Nova Alegria, onde aconteceu o Massacre de Felisburgo, em 2004, e o aumento do crédito para moradias em assentamentos. Infelizmente, os assentamentos do governo são criados para resolver conflitos isolados, em vez de constituir um programa amplo para acabar com o latifúndio e combater a concentração de terras.

Adital - Desde sua fundação, o MST é perseguido politicamente por latifundiários, agentes políticos ruralistas e setores da mídia. Em 2009, essa perseguição foi acentuada?
 
Marina dos Santos - O nosso movimento vem sofrendo uma ofensiva violenta dos setores mais conservadores no país, que estão articulados em frações do Poder Judiciário, do Ministério Público, do TCU [Tribunal de Contas da União], do Parlamento e da mídia burguesa. A repressão aos movimentos sociais do campo tem diversas formas: o pagamento de jagunços para atacar trabalhadores rurais (Daniel Dantas, no Pará), o uso da Polícia Militar em estados governados pelo PSDB (Yeda Crusius, José Serra e Aécio Neves), manifestações públicas de políticos reacionários (como o deputado Ronaldo Caiado e o presidente do STF Gilmar Mendes), perseguição aos programas de ministérios em assentamentos e a criação de falsos escândalos pela mídia burguesa. No final do ano, os "demos" [integrantes do DEM, Partido Democratas, antigo PFL] [Ronaldo] Caidado, Katia Abreu e Onyx Lorenzoni conseguiram criar uma CPMI contra a Reforma Agrária e o MST.

Adital - Na avaliação da senhora, qual a motivação do Congresso Nacional ao instalar a CPMI sobre o MST?
 
Marina dos Santos - Os três parlamentares do DEM do Arruda [José Roberto, governador do Distrito Federal, atualmente envolvido em caso de corrupção], com sustentação da bancada ruralista, criaram essa CPI para inviabilizar qualquer avanço da Reforma Agrária, destruir os movimentos sociais do campo e impedir a realização de lutas sociais pela classe trabalhadora. Já fomos investigados em duas CPIs nos últimos cinco anos, mesmo sem existir nenhum elemento novo.

Está em curso no Parlamento uma ofensiva do agronegócio contra a Reforma Agrária, com projetos para burocratizar a atualização dos índices de produtividade e a desapropriação de terras e a tentativa de destruir o Código Florestal para liberar a devastação ambiental. É uma ofensiva orquestrada para consolidar o modelo agrícola devastador e concentrador do latifúndio. Para isso, precisam desmoralizar e destruir o nosso movimento.

Adital - O que o Movimento pretende fazer com relação às investigações do legislativo, anunciadas para iniciar em 2010?
 
Marina dos Santos - Queremos aproveitar a criação dessa CPI, que coloca a Reforma Agrária no centro do debate político, para falar sobre os modelos que disputam a agricultura: o latifúndio do agronegócio e a agricultura familiar/Reforma Agrária. Os dados do censo agropecuário divulgados neste ano servem como ponto de partida. A agricultura familiar produz 70% dos alimentos e emprega 75% da mão-de-obra, em apenas 24% das áreas agricultáveis, onde gera 40% do valor bruto da produção.

Essa CPMI pode também investigar a grilagem de terras, a expansão de empresas estrangeiras na compra de terras no campo, a devastação ambiental pelo modelo do agronegócio, os repasses de dinheiro público para entidades do latifúndio (como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, Organização das Cooperativas Brasileiras e Sescop). Também vamos monitorar essa CPI para denunciar toda e qualquer tentativa de criminalização dos movimentos sociais e da Reforma Agrária.
 
Adital - Qual a avaliação da senhora sobre as estratégias que o MST tem utilizado para dar visibilidade à reivindicação pela reforma agrária?  Em que medida essas estratégias são repensadas?
 
Marina dos Santos - As nossas ações são resultado do acúmulo histórico do movimento camponês e da classe trabalhadora, que fizemos nos 25 anos do nosso movimento e na luta permanente pela Reforma Agrária. As ocupações de terras são formas de luta que começaram com os indígenas expulsos das suas terras, dos escravos em seus quilombos e das famílias de trabalhadores rurais sem-terra. Esse instrumento voltou a ganhar força com o trabalho pastoral da Igreja, no final da década de 70, ainda em plena ditadura.

Cerca de 70% dos assentamentos foram criados depois da pressão de ocupações de terra. Isso demonstra que sem organização dos trabalhadores rurais e a ocupação de terras não há Reforma Agrária. Nos últimos anos, a agricultura passou por uma grande transformação, com a consolidação do agronegócio, que é o casamento dos latifundiários capitalistas com grandes conglomerados internacionais para a produção de commodities para exportação. Assim, o latifúndio foi colocado a serviço de empresas transnacionais e do capital financeiro, enquanto trabalhadores rurais são expulsos do campo. A expansão do agronegócio impôs a paralisação da reforma agrária e das políticas em benefício da pequena agricultura. Por isso, passamos a fazer protestos para denunciar os efeitos sociais e ambientais do agronegócio.
 
Adital - Como a população brasileira percebe o MST atualmente? Essa percepção tem sido alterada ao longo desses 25 anos de atuação do Movimento?
 
Marina dos Santos - Em primeiro lugar, é difícil definir sem homogeneizar os diversos setores da sociedade na percepção sobre a luta do nosso movimento. Claro que aqueles que conhecem o MST sob a ótica da televisão terão uma percepção distorcida. Infelizmente, a cobertura da mídia não dá elementos para que a opinião pública tenha um juízo de valor correspondente à realidade dos trabalhadores rurais. Por isso, não lemos ao pé da letra as pesquisas de opinião sobre o nosso movimento.

Avaliamos que a melhor forma de mensurar a percepção do nosso movimento é analisando o comportamento das comunidades onde estão nossos acampamentos e assentamentos. As forças organizadas e os cidadãos  que conhecem a vida dos homens e mulheres que fazem a luta pela Reforma Agrária dão apoio político ao nosso movimento. Mais do que isso, ajudam os nossos acampamentos nos momentos de dificuldades, contribuem materialmente com nossas lutas, ocupações e marchas e compram os alimentos produzidos nos nossos assentamentos. Sem o apoio do povo brasileiro, o nosso movimento teria sido destruído.

Adital - A Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária acontece todos os anos, mesmo com todo o investimento negativo de certas mídias. Que resultados estas atividades têm apresentado?
 
Marina dos Santos - Todas as conquistas que tivemos foram resultado das nossas jornadas de lutas. Não podemos ver os avanços da Reforma Agrária como atos isolados, mas são resultados da luta permanente entre as classes no campo. De um lado, estão os latifundiários associados às grandes empresas, que defendem o modelo do agronegócio. Do outro lado, está a pequena propriedade e trabalhadores rurais sem-terra, que lutam pelo fortalecimento da agricultura familiar e da Reforma Agrária. Atualmente, a correlação de forças está favorável para o agronegócio e só temos conquistas por meio das lutas.

Adital - Como coordenadora de um dos principais movimentos sociais da América Latina, que avaliação faz dos avanços dos governos progressistas que resultam em iniciativas como a Alba? No que isso pode trazer de positivo para os movimentos sociais?
 
Marina dos Santos - As experiências dos países que fazem parte da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), especialmente a Venezuela, Bolívia e Equador, são bastante positivas, porque estão implementando medidas que resgatam a soberania nacional, ampliam a democracia e beneficiam setores populares.

Para isso, tiveram que enfrentar os fortes interesses do imperialismo dos Estados Unidos e as elites associadas nos seus países. Isso demonstra que é possível e necessário enfrentar os interesses da burguesia associada ao imperialismo para fazer as mudanças sociais. E sem movimentos sociais fortes e a organização popular não é possível fazer mudanças estruturais, aprofundar as transformações e evitar retrocessos para o povo.

 

Lula lança programa de Direitos Humanos que prevê casamento gay.

Autodeclaração de gays e lésbicas seria considerada no sistema público.

Texto prevê também ensino da diversidade religiosa na escola.

Eduardo Bresciani Do G1, em Brasília 21/12/09

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta segunda-feira (21), no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Um dos aspectos abordados pelo programa é a defesa do projeto de lei do casamento gay, que permite a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

De acordo com o material divulgado à imprensa pela Secretaria de Direitos Humanos, que coordena o programa junto com outros 30 ministérios, além de apoiar o projeto sobre união civil, o programa prevê que os sistemas de informação pública passem a considerar como informações autodeclarações de gays, lésbicas, travestis e transsexuais. O projeto defende ainda que travestis e transsexuais possam escolher seus nomes em documentos sem necessidade de decisão judicial.

O presidente Lula destacou a realização no ano passado de uma Conferência do movimento LGBT e destacou que o evento foi uma aula contra o preconceito. “Lembro do famoso encontro com o LGBT. Lembro da preocupação que reinava no Palácio. Tinha sido um decreto presidencial convocando a conferência. Aí, o pessoal começou a dizer: e se tiver problema, se quiserem te beijar, tirar foto? Eu falei que se alguém quiser vai fazer porque nós vamos lá. Olha, foi a maior aula de cidadania contra o preconceito que eu participei”.

Símbolos religiosos

Outro tema polêmico do programa é a criação de mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União. O programa prevê também a inclusão no currículo escolar do ensino da diversidade religiosa com destaque para as religiões africanas.

O programa abrange ainda o chamado “direito à memória e à verdade”. É proposta a criação de um grupo de trabalho para elaborar um projeto de lei para instituir uma comissão nacional da verdade com o objetivo de investigar violações dos direitos humanos durante o regime militar.

O direito de pessoas com deficiência também está contemplado no programa. Coloca-se como prioridade a acessibilidade nas cidades que sediarão a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Há a intenção também de colocar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como disciplina facultativa nos currículos escolares.

 

MANIFESTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DE MARABÁ.

CPT 04 de Dezembro de 2009

 No momento em que Marabá recebe a visita do presidente da mais alta corte de justiça desse país para lançar um ?mutirão agrário? que tem como objetivo cumprir liminares que beneficiam fazendeiros e grileiros de terras públicas na região, os movimentos sociais vêm a público dizer:

1 ? As causas das ocupações e dos conflitos. Nos três últimos anos ocorreram 67 ocupações na área rural da região, envolvendo 10.600 famílias e 22 ocupações urbanas, só em Marabá, envolvendo cerca de 18 mil famílias. O aumento das ocupações se deve à crescente migração de famílias pobres para a região devido a agressiva propaganda dos governos e das grandes empresas sobre a geração de milhares de empregos na implantação de grandes obras do PAC e de imensos projetos de mineração da VALE. Atraídas pela falsa propaganda do emprego que não está ao alcance dos mais pobres, milhares de famílias ao chegarem à região só tem dois destinos: as ocupações urbanas e os acampamentos rurais. A ausência de políticas publica de habitação e Reforma Agrária, empurra essas famílias para a pobreza, a miséria e a violência. Marabá é a 2ª cidade mais violenta do país. É a região com maior número de assassinatos no campo, registros de ameaça de morte e de vítimas de trabalho escravo. Ao invés de responder ao grave problema social com políticas públicas, o Estado e o Judiciário respondem de modo irresponsável com violência policial. São quase 10 mil famílias urbanas e rurais que poderão ser despejadas e que não terão para onde ir!

2 ? A justiça não pode proteger produto de crime. O Estado do Pará é também campeão dos crimes de grilagem e de apropriação ilegal de terras públicas. São mais de 6 mil títulos falsos registrados ilegalmente pelos cartórios, são milhões de hectares em poder dos criminosos. A Comissão Estadual de Combate à grilagem rastreou e comprovou essa situação no Estado e propôs que o Tribunal de Justiça do Pará (TJ) cancelasse, administrativamente, as matrículas objeto do crime. Para a surpresa e indignação de todos nós, o TJ Pará se negou a fazer isso. Só aceita o cancelamento judicial, o que jamais vai ocorrer devido à morosidade da justiça. A comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça  que precisa dar uma resposta urgente a esse crime. Arrecadando essas terras, milhares de famílias poderão ser assentadas, diminuindo assim os conflitos. Mesmo com a posição firme e corajosa da juíza da Vara Agrária de Marabá em ouvir o INCRA e o ITERPA antes de decidir os pedidos de liminares, o TJ Pará insiste em deferir liminares e exigir o despejo de famílias das fazendas do banqueiro Daniel Dantas. São terras já confiscadas pela Justiça Federal por terem sido compradas para lavar dinheiro sujo, são imóveis multados pelo IBAMA em centenas de milhões de reais por crimes ambientais, grande parte são compostas de terras públicas apropriadas ilegalmente ou griladas já comprovado pelo INCRA e ITERPA. Um verdadeiro flagrante de desrespeito aos requisitos da posse agrária e ao cumprimento da função social da propriedade previstos na Constituição Federal. A Justiça não pode rasgar a Constituição e as leis agrárias para proteger os crimes do latifúndio!

3 ? O judiciário não pode promover a impunidade. Apenas nas regiões sul e sudeste do Pará, nos últimos 30 anos, são mais de 600 assassinatos de trabalhadores rurais e suas lideranças. Mais de 70% desses crimes sequer tiveram investigação para apurar a responsabilidade das mortes. Os cerca de 30% que resultaram em um processo, marcham para a vala da impunidade. Não há um único mandante preso, cumprindo pena por ter mandado matar trabalhadores rurais na região. A impunidade é uma espécie de licença para matar.

4 - Frente a essa situação exigimos: a suspensão imediata das liminares de despejo nas áreas urbanas e rurais e o assentamento imediato das famílias acampadas; O cancelamento administrativo das matrículas de imóveis frutos de grilagem;  Punição para todos os responsáveis por crimes contra os trabalhadores; O fim da criminalização dos Movimentos Sociais e de suas lideranças; Revogação dos mandados de prisão das lideranças do MST perseguidas pela bancada ruralista, pela imprensa e o governo!

Marabá, 04 de dezembro de 2009.

  CPT, MST, MAB, CIMI, SDDH, PASTORAIS SOCIAIS DA DIOCESE DE MARABÁ,

CEPASP, FETAGRI REGIONAL, STR DE MARABÁ. Apoio: FÓRUM REGIONAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO e COORDENAÇÃO DO CAMPUS DA UFPA EM MARABÁ.

 

 

Testemunha ligada ao caso Dorothy Stang sofre atentado

Uma das principais testemunhas de acusação contra um dos investigados pelo assassinato da Irmã Dorothy Stang sofreu um atentado no último dia 26, no município de Anapu, no Pará. Roniery Bezerra Lopes levou diversos tiros e está internado em um hospital da região em estado grave


Agência Brasil
Link original: http://opovo. uol.com.br/ brasil/932799. html
28 Nov 2009


Uma das principais testemunhas de acusação contra um dos investigados pelo assassinato da Irmã Dorothy Stang sofreu um atentado no último dia 26, no município de Anapu, no Pará. Apesar de ter levado diversos tiros nas pernas, na cabeça e na boca Roniery Bezerra Lopes não morreu, e está em estado grave, internado em um hospital da região. A informação foi passada hoje (28) à Agência Brasil pela Irmã Jane Dwyer, da mesma congregação da Irmã Dorothy.

O atentado foi cometido menos de três horas após Roniery ter recebido intimação da Justiça para ser testemunha de acusação contra Regivaldo Pereira Galvão, no caso que investiga fraudes, uso de laranjas e falsificação de documentos para esconder a grilagem do Lote 55, local onde a Irmã Dorothy foi assassinada e centro dos conflitos agrários na região.

Durante o julgamento pela morte da Irmã Dorothy, Regivaldo havia alegado não ter nenhum tipo de vínculo com o Lote 55. No entanto, em 2008 ele passou a dizer ser o dono do lote, apresentando à Polícia Federal diferentes versões sobre como teria adquirido as terras.

Um inquérito foi aberto e a PF acabou comprovando a falsificação documental, o que levou à abertura de novo processo em fevereiro de 2009 contra Regivaldo, para quem Roniery trabalhava.

Apesar de ainda não ter sido notificado sobre atentado, a assessoria do Ministério Público Federal (MPF) no Pará informou que Roniery participava das negociações envolvendo a área.

Muitos detalhes sobre o atentado ainda precisam ser esclarecidos. Apenas a Irmã Jane se dispôs a dar detalhes, a partir de conversas que teve com outras pessoas.

"Ele [Roniery ] recebeu a intimação entre as 18 e 19 horas, e o atentado ocorreu por volta das 21 horas", explica a Irmã Jane. "A informação que tive foi de que foram muitos disparos afetando inclusive a espinha. Quanto ao tiro na boca, é uma prática comum daqui para passar uma mensagem clara a quem faz denúncias", acrescenta a religiosa que, assim como Dorothy, tem origem norte-americana.

Irmã Jane disse que, no momento do atentado, Roniery estava acompanhado de uma mulher uma criança. "Parece que era a esposa dele, que também levou um tiro mas, ao que fui informada, ela não corre risco de vida. A criança fugiu e se escondeu no matagal". A religiosa disse, ainda, ter sido polícia quem o levou ao hospital.

Para evitar novos atentados o nome do hospital não foi informado.


'

No agronegócio não existe essa questão de produção ecologicamente correta', diz coordenador da CPT 
     
       
      O agronegócio visa somente o lucro e dificilmente irá ter uma real preocupação com as questões ambientais e relações de trabalho.  A opinião é do Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Dirceu Fumagalli, que participou da divulgação dos dados preliminares do relatório de conflitos do campo.  A região Norte foi a que apresentou os maiores índices de assassinatos e trabalho escravo do País.

      Em entrevista ao site Amazonia.org.br, 30-11-2009, Fumagalli comenta a elaboração dos estudos de violência do campo e afirma que os dados podem ser ainda maiores.  Segundo ele, a única solução para o enfrentamento do problema seria a reforma agrária, tendo em vista a necessidade de se reconhecer as terras tradicionalmente ocupadas e a desapropriação de latifúndios.

      Eis a entrevista.


      Como é realizado o levantamento de dados para a elaboração dos relatórios de violência no campo da CPT?

      A CPT está organizada em todas as unidades federativas, com exceção do Distrito Federal, onde temos os nossos agentes.  Às vezes temos várias equipes em um núcleo regional e são eles que são nossos "catalisadores" de informações, além de termos um grupo de documentarista em Goiânia que coordenada todo esse departamento de documentação.  Elas fazem toda a triagem diária de pelo menos 200 jornais ou boletins que circulam no território nacional. É esse banco de dados que nós compilamos e sistematizamos anualmente, desde 1985.  Temos esse banco de dados aqui em Goiânia na sede da CPT Nacional e todo final de ano publicamos um documento, que chamamos de Caderno de Conflitos do Brasil.

      Existem muitos casos de violência contra os trabalhadores rurais que não são documentados pelos meios de comunicação.  Você acredita que os números de violência podem ser maiores do que os que vocês apresentam?

      Com certeza.  Não temos presença em todas as questões do território nacional.  Seguramente a violência e o conflito no campo são maiores do que aquilo que nós sistematizamos.

      Além de divulgarem para organizações, impressa e movimentos sociais, vocês costumam usar os dados para estimular a proposição de políticas públicas ou enviam para algum órgão do governo?

      O entendimento que nós temos é que quem tem que se apropriar dessa luta, dos mecanismos de organização, de pautar suas reivindicações são os próprios trabalhadores.  Eles que têm que ser protagonistas das suas ações, diretamente ou por meio de suas organizações.  A Comissão Pastoral da Terra não é uma organização representativa, é uma entidade de serviço. O entendimento que temos é que, ao atualizar o banco de dados, fazermos algumas interpretações e análises e devolvemos isso para os protagonistas da ação do campo.  Eles se encontram dentro do conflito e consequentemente buscarão, através de seus pares, formulação de políticas públicas ou enfrentamento daqueles que de fato devem enfrentar como o próprio agronegócio, no caso, e as reivindicações para o governo ou a pressão em cima daqueles de fato têm provocando conflitos.

      Os números de pessoas assassinadas por conflitos no campo costuma ser maior na região Norte.  Eu gostaria de saber sua opinião em relação a esse dado.  Por que nessa região?

      Vários fatores.  A CPT na verdade surgiu na região Norte, no Pará e depois se espalhou pelo território nacional rapidamente porque foi compreendido que o conflito do campo não é um "privilégio" da região.  Infelizmente é uma realidade nacional. Agora o que nós temos observado é que a pressão do modelo do agronegócio no centro-sul do país, onde o agronegócio tem mais voracidade e se apropriou da terra, pressiona outras culturas para que migrem.  Principalmente a questão da pecuária nas áreas de fronteiras.  Por isso que alguns estados, em especial os que estão mais na fronteira com o centro-oeste e fazem essa transição centro-oeste-norte é que são mais pressionados.  Então por isso que o Pará, Rondônia e Tocantins, por assim dizer, são os três estados que fazem essa "entrada na região" onde nós sempre vamos encontrar uma incidência de violência maior.
      É a pressão do modelo que faz com que a própria pecuária se expanda para a região, e para que haja espaço para a pecuária e todos os madeireiros, as comunidades tradicionais são pressionadas.  Em conseqüência disso há reação e resistência: esse conflito entre o interesse do capital e a luta pela vida dos trabalhadores e trabalhadoras.

      Neste relatório é possível perceber também um aumento significativo de todos os dados de conflitos no campo na região Sudeste, regiões que são mais conhecidas por suas cidades...

      E é estranho... quer dizer, deveria causar não só uma estranheza, mas uma indignação de nossa parte.  O sudeste, tido como a região mais desenvolvida do país, é onde encontramos a maior concentração de conflitos e principalmente trabalho escravo.  Não digo que isso é uma aberração, mas é no mínimo um alerta para a sociedade brasileira de que nós não podemos conviver pacificamente com essa situação, com a alta exploração e inclusive com a condição de trabalho escravo nos estados desenvolvidos como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

      Acha que isso é um indicador de que nossa produção não está caminhando para uma produção mais ecológica e socialmente justa?

      No agronegócio não existe essa questão de uma produção ecologicamente correta e nem justa nas relações trabalho.  Ele visa o lucro.  Por isso que, nessas regiões onde o agronegócio se consolidou e teve respaldo, inclusive de políticas de governo, consequentemente vamos encontrar o capital mais livre e, por causa da impunidade, nós não encontramos fazendeiros presos porque escravizaram, mesmo isso sendo um crime.  Muito menos que perdem seus bens ou que sejam castigos por alguma questão.  Essa impunidade no campo é que um dos grandes fatores que continua fomentando e gerando crimes e permitindo a pressão da violência no campo.

      Acredita que existe algum caminho para diminuir reverter esse quadro e diminuir os índices de violência no campo?

      O caminho é a reforma agrária em primeiro lugar.  Reforma agrária, no sentido da desapropriação dos latifúndios, reconhecimento dos territórios tradicionalmente apropriados pelas comunidades, tanto áreas indígenas, como os quilombolas, os territórios dos ribeirinhos.  Temos que ter uma regularização fundiária e a desapropriação dos latifúndios.  Se isso não ocorrer, os proprietários desse mecanismo vão continuar fazendo com que as terras cumpram um único objetivo: gerar lucro.  E não gerar alimento ou um lugar para se viver, mas um lugar para se produzir, produzir lucro.

 

POLICIAIS OU JAGUNÇOS?


Xinguara-PA, 25 de novembro de 2009.  
Frei Henri Burin des Roziers
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA DO SUL E SUDESTE DO PARÁ.

Polícia do Pará pisa os direitos humanos.

 
Segundo os relatos de trabalhadores rurais cerca de 200 policiais civis e militares, vários deles embriagados, realizaram operações nessas ultimas semanas nos acampamentos da Fazenda Rio Vermelho, Castanhais e Espírito Santo, todas na região de Xinguara.

Espancaram, torturaram até mulher grávida, humilharam, ameaçaram de prisão e de morte, apontaram armas para os trabalhadores, apreenderam pertences das famílias e destruíram suas roças.

Apenas para os 2 primeiros acampamentos existia ordem judicial de busca e apreensão de armas e munições e ainda assim a policia agiu com violência e arbitrariedade, extrapolando totalmente os limites da legalidade e ferindo a dignidade e os direitos humanos dos trabalhadores e trabalhadoras acampadas.   

No dia 12.11.09, no Acampamento Alto Bonito, na Fazenda Castanhais, chegaram cerca de 50 policiais, dentre os quais, membros da Delegacia de Conflitos Agrários (DECA), Policiais Militares e integrantes da Tropa de Choque. Os acampados relatam que homens e mulheres foram constantemente humilhados e até ameaçados de morte pela policia durante a operação. Sofreram muita violência psicológica, a fim de que identificassem pelo nome todos os lavradores, bem como os coordenadores.   

Destaca-se em particular a arbitrariedade e violência da policia com relação à lavradora Neidiane Rodrigues Resplandes, que mesmo estando grávida de poucos meses, foi obrigada a caminhar cerca de meio quilômetro, debaixo de ofensas e xingamentos. Após uma sequencia de tortura psicológica para que dissesse os nomes dos coordenadores e onde estavam as armas, a mulher passou mal e teve sangramento ali mesmo na frente dos policiais, que ao perceberem o estado da lavradora, colocaram-na no carro e a deixaram no Acampamento.   

Segundo os acampados, nenhuma arma de fogo foi apreendida, mas a policia levou muitas ferramentas de trabalho, tais como: facões, facas de cozinha, machados, bomba costal, uma antena de celular, alguns quilos de arroz, feijão, documentos pessoais, 06 motocicletas e até os galões de pegar água no córrego. Nenhuma família sabe para onde foram levados os seus pertences.

Dois dias depois, em 14.11.09, foi a vez do Acampamento João Canuto, na Fazenda Rio Vermelho, aonde chegaram cerca de 200 policiais, incluindo aproximadamente 15 militares da cavalaria. Esses cavaleiros adentraram as roças dos lavradores e destruíram parcialmente as plantações de milho, mandioca e feijão. Durante a revista, os policiais levaram também vários objetos pessoais das famílias, inclusive 02 bandeiras do MST e 04 facões. 

Contudo a maior demonstração de vandalismo e brutalidade da policia ocorreu no Acampamento Vladimir Maiakovisk, na Fazenda Espírito Santo. Na noite de 22.11.09, por volta das 19:00, chegaram cerca de 30 policiais militares do GOE (Grupo de Operações Especiais) e passaram a agredir os acampados. Eles desceram do ônibus trajando shorts e camisas tipo regata, todos armados com pistolas, rifles e espingardas calibre 12, gritavam xingamentos e palavras de baixo calão.     

Um dos policiais fez a lavradora Rita de Cássia deitar no chão e apontou uma espingarda calibre 12 para a sua cabeça. Outro militar ameaçou de morte o acampado Weston Gomes e lhe deu um soco, na altura da costela. Outro policial apontou a arma para a agricultora Elione, abriu e chutou a sua bolsa.

Conforme as declarações dos acampados, a maioria dos policiais demonstrava visíveis sinais de embriaguez alcoólica e em nenhum momento apresentaram qualquer ordem judicial para adentrar e revistar o acampamento.   

Lembramos que no IV Seminário Nacional da Proteção de Defensores de Direitos Humanos, estava presente a Comissária da ONU para assuntos de Direitos Humanos, Navy Pillay, que advertiu sobre excessos cometidos por policiais: "Agentes policiais tem que saber que não podem abusar de seu exercício profissional".

Parece que essa advertência não significa nada para esses policiais e seus superiores, pois o que se observa é a repetição das praticas violentas e de banditismo que caracterizaram a "Operação Paz no Campo" ocorrida no Sul do Pará em novembro de 2007 e que ficou conhecida pelos movimentos sociais como o "Terror no Campo". Até quando isso vai continuar?



 

 

TRUCULÊNCIA E DESPREPARO DE CORONEL DA PM E DE DELEGADO GERAL DA POLICIA CIVIL DO PARÁ QUASE CAUSA NOVO MASSACRE EM ELDORADO DOS CARAJÁS

Marabá – PA, 09 de novembro de 2009.
Comissão Pastoral da Terra - CPT do sul e sudeste do Pará


                        Por pouco não termina em tragédia uma ação das Polícias Militar e Civil do Estado do Pará, na curva do “S”, mesmo local onde ocorreu o massacre de Eldorado em 17 de abril de 1996. O fato lamentável ocorreu na tarde da última sexta-feira, no momento em que mais de mil trabalhadores ligados ao MST faziam uma manifestação pacífica no local.
            No início da manhã os trabalhadores interditaram a Rodovia PA 150 como forma de pressão para exigir a abertura de negociação por parte do governo do Estado. Por volta das 11 horas da manhã, sem que a polícia estivesse no local, os trabalhadores decidiram por si mesmos desinterditar a estrada. A situação permaneceu totalmente tranqüila, com o tráfego de veículos restabelecido até por volta das 14 horas, quando chegaram ao local o Delegado Geral de Polícia Civil, Raimundo Benassuly, e o coronel Leitão da Polícia Militar acompanhados de aproximadamente 70 policiais do batalhão de choque.
            Demonstrando total despreparo e usando de truculência desmedida, sem dar chance para qualquer tipo de diálogo, o coronel e o delegado partiram para cima dos trabalhadores que se aglomeraram nas imediações da pista, gritando de forma descontrolada que estavam ali para prender quem estivesse à frente. O Delegado Geral, Raimundo Benassuly, sacou uma pistola e ameaçou atirar nos trabalhadores que se aproximavam. Vendo a ação do delegado, outros policiais fizeram o mesmo, e, em seguida prenderam três trabalhadores sem qualquer motivo. O delegado Benassuly é o mesmo que no início do governo de Ana Júlia, quando uma adolescente foi colocada na cela com mais de 15 presos por mais de 20 dias, tentou justificar a ação criminosa afirmando que a adolescente deveria ter algum problema mental. Foi afastado em razão desta declaração, mas, foi reconduzido ao cargo por ordem da Governadora.
            O advogado da CPT de Marabá, José Batista Gonçalves Afonso e os Defensores Públicos Rossivagner e Arclébio, que se encontravam no local desde o período da manhã, ainda tentaram acalmar a fúria do Delegado e do Coronel, no entanto, foram empurrados e ameaçados de prisão. As centenas de trabalhadores que, em sua maioria, portavam pedaços de paus e facões, só recuaram mediante aos insistentes pedidos do Advogado da CPT. Enquanto os trabalhadores eram acalmados pelo advogado da CPT e pelos Defensores Públicos, o Coronel e o Delegado continuavam provocando o conflito afirmando que não temiam o confronto e nem se importavam com o fato político que pudesse gerar ali. Que vieram para desobstruir a estrada de qualquer jeito, sendo que, a estrada já estava liberada muito antes de eles chegarem. Ameaçaram ainda quebrar as barracas armadas pelas famílias para se abrigarem do sol. Só não o fizeram porque os trabalhadores decidiram desmontá-los antes. Apavoradas, mulheres e crianças correram para dentro do mato, várias pessoas passaram mal, inclusive, algumas que foram feridas no massacre em 1996.
            O advogado da CPT foi categórico em afirmar que, caso ele e os defensores públicos não estivessem no local, uma tragédia poderia ter acontecido, pois os dois policiais chegaram com intenção de provocar o confronto com os sem terra e estavam totalmente descontrolados, sem quaisquer condições de dialogar sequer com o advogado e os defensores. Todos os policiais do batalhão de choque estavam com as tarjas de identificações cobertas. A CPT vai acionar judicialmente o Delegado e o Coronel pelo crime de abuso de autoridade.
            A ação desmedida do Coronel, do Delegado e também da Governadora contra o MST se deu devido à destruição, no meio da semana, de casas da fazenda Maria Bonita de propriedade do banqueiro Daniel Dantas. O governo do Estado e os fazendeiros acusam o MST por este fato e há, inclusive, um pedido de prisão preventiva contra Charles Trocate, líder do MST, que nem se encontrava no Estado do Pará quando o fato aconteceu.
                        O grupo de Dantas já comprou mais de 50 fazendas na região, a maioria das propriedades adquiridas na região de Marabá, incide sobre área dos castanhais, cuja legislação estadual (Lei nº 913/54; Decreto Lei nº 57/69; Decreto Lei nº 7.454/71) impõe aos detentores desses imóveis, dentre outras obrigações, a de manter preservadas as áreas de castanhais, priorizando seu extrativismo, bem como ter autorização do Estado para vender o imóvel a terceiros. O Estado do Pará não foi consultado sobre as vendas para o grupo de Daniel Dantas e, em todos os imóveis, os castanhais foram destruídos e substituídos por capim. Além dessas infrações, em quase todas as fazendas há incorporação ilegal de terra pública aos imóveis. Este fato já foi comprovado na Fazenda Cedro, localizada em Marabá.
A partir de denúncia feita pela CPT de Marabá à Ouvidoria Agrária Nacional, foi requerida uma fiscalização do IBAMA nos imóveis do grupo ocupados pelos trabalhadores sem terra. Em 15.04.09, na fazenda Espírito Santo, fiscais do órgão ambiental registraram que não há cobertura vegetal nos 10.599 hectares que compõe a fazenda. O grupo de Daniel Dantas foi multado em 50 milhões de reais e foi dado um prazo de 120 dias para a retirada do gado. Na Fazenda Maria Bonita, os fiscais identificaram que não existia Licença Ambiental Rural para exercer atividade de agropecuária. O grupo Dantas foi multado em 7 milhões de reais e embargada qualquer atividade na propriedade. Por ter sido detectado a ausência total de cobertura vegetal em 6.316 hectares, o grupo foi multado em R$ 31 milhões de reais. Foi dado também um prazo de 120 dias para a retirada do gado da propriedade.  Mesmo com esse rol de crimes em suas propriedades, a governadora e o poder judiciário insistem em manter as terras nas mãos do banqueiro, preso pela Polícia Federal, por duas vezes, por desviar recursos públicos.
De janeiro a outubro do ano corrente, segurança e pistoleiros das fazendas do banqueiro já assassinaram um trabalhador sem terra e balearam gravemente outros 17 sem terra no interior das propriedades. Todos os crimes continuam impunes.  Nos dois anos e 10 meses de governo de Ana Júlia, apenas no sul e sudeste do Estado, foram 66 fazendas ocupadas por 10.599 famílias; 101 trabalhadores e lideranças foram ameaçados de morte; 23 trabalhadores foram feridos a bala por pistoleiros e seguranças de fazendas; 17 trabalhadores foram assassinados na luta pela terra e 128 foram presos. Os conflitos agrários no Estado do Pará são problemas sociais da maior gravidade que a governadora, a exemplo de seus antecessores, insiste em resolver com casos de polícia. Enquanto isso, pistoleiros e mandantes dos crimes gozam de total impunidade.                     

 

Fórum Social Mundial fará balanço da última década

03/11/2009

O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro. Logo após o encontro de Porto Alegre, Salvador sediará o Fórum Social da Bahia, que reunirá representantes da América Latina e da África.

Redação - Carta Maior

A capital gaúcha e sete cidades da Região Metropolitana receberão, entre 25 e 29 de janeiro de 2010, o Fórum Social 10 Anos Grande Porto Alegre. Além de celebrar os 10 anos de atividades do FSM, o encontro fará um balanço deste período de lutas em defesa de um modelo de globalização alternativo ao construído nas últimas décadas.

O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro.

O evento está sendo organizado por entidades gaúchas com o apoio dos governos dos sete municípios onde ocorrerão as atividades (Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom e Sapiranga).

Além do seminário de avaliação do FSM, que ocorrerá em Porto Alegre, também estão confirmados o Acampamento Intercontinental da Juventude, entre 18 e 28 de janeiro, em Novo Hamburgo, o I Fórum Mundial de Economia Solidária e a I Feira Mundial de Economia Solidária, de 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria. Ainda em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro de 2010, será realizada uma grande oficina sobre o mundo do trabalho. Esse encontro debaterá o impacto da crise econômica internacional sobre o trabalho e a qualidade dos empregos e dos ambientes de trabalho hoje em dia.

Da Bahia a Dakar
Logo após o encontro no RS, ocorrerá em Salvador, entre 29 e 31 de janeiro, o Fórum Social da Bahia. O tema central do evento, construído em conjunto com o FSM 10 Anos, será “Da Bahia a Dakar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e soberania”. “Esta passagem do FSM por Salvador será uma contribuição muito preciosa para o Fórum de Dakar, no Senegal, em 2011, pois esta foi a principal porta de entrada de africanos, vítimas da escravidão. A idéia é estabelecer um diálogo entre cidades com culturas semelhantes”, explica José Luiz Del Roio, representante do Fórum Mundial de Alternativas à Crise.

Representantes de governos e movimentos sociais da América Latina e da África participarão, em Salvador, do Fórum de Diálogos e Controvérsias, que discutirá novas políticas econômicas, sociais e ambientais.

 

Agrotóxicos no seu estômago

Na safra passada, as empresas transnacionais (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa.

João Pedro Stédile
01/11/2009

(*) Artigo publicado originalmente no jornal O Globo

Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais são muito bem pagos para todos os dias defender, falar e escrever de que no Brasil não há mais problema agrário. Afinal, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo muito lucro. Portanto, o latifúndio não é mais problema para a sociedade brasileira. Será? Nem vou abordar a injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50 mil fazendeiros, sejam donos de metade de toda nossa natureza, enquanto temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.

Vou falar das consequências para você que mora na cidade, da adoção do modelo agrícola do agronegócio. O agronegócio é a produção de larga escala, em monocultivo, empregando muito agrotóxicos e máquinas. Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade, alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores do interior.

Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas.

Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na zatureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos.

As lavouras que mais usam venenos são: cana, soja, arroz, milho, fumo, tomate, batata, uva, moranguinho e hortaliças. Tudo isso deixará resíduos para seu estômago. E no seu organismo afetam as células e algum dia podem se transformar em câncer.

Perguntem aos cientistas aí do Instituto Nacional do Câncer, referência de pesquisa nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco? A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde humana. Mas ninguém avisa no rótulo, nem retira da prateleira.

Antigamente, era permitido ter na soja e no óleo de soja apenas 0,2 mg/kg de resíduo do veneno glifosato, para não afetar a saúde. De repente, a Anvisa autorizou os produtos derivados de soja terem até 10,0 mg/kg de glifosato, 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo de glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.

Esse mesmo movimento estão fazendo agora com os derivados do milho.

Depois que foi aprovado o milho transgênico, que aumenta o uso de veneno, querem aumentar a possibilidade de resíduos de 0,1 mg/kg permitido para 1,0 mg/kg.

Há muitos outros exemplos de suas consequências. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT, revelou em suas pesquisas que nos municípios que têm grande produção de soja e uso intensivo de venenos os índices de abortos e má formação de fetos são quatro vezes maiores do que a média do estado.

Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar, camponesa, que é a única que pode produzir sem venenos e de maneira
diversificada. O agronegócio, para ter escala e grandes lucros, só consegue produzir com venenos e expulsando os trabalhadores para a cidade.

E você paga a conta, com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o aumento da incidência de venenos em seu alimento.

Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma forma de produzir alimentos sadios, é uma questão nacional, de toda
sociedade.

Não é mais um problema apenas dos sem-terra. E é por isso que cada vez que o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio, as empresas transnacionais, seus veículos de comunicação e seus parlamentares, nos atacam tanto.

Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que interesses deve atender a produção agrícola: apenas o lucro ou a saúde e o bem-estar da população? Os ricos sabem disso e tratam de consumir apenas produtos orgânicos.

E você precisa se decidir. De que lado você está?

João Pedro Stédile é economista e integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

 

 

MST - Nota de esclarecimento sobre os recentes acontecimentos

14/10/2009

Diante dos últimos episódios que envolvem o MST e vêm repercutindo na mídia, a direção nacional do MST vem a público se pronunciar.

1. A nossa luta é pela democratização da propriedade da terra, cada vez mais concentrada em nosso país. O resultado do Censo de 2006, divulgado na semana passada, revelou que o Brasil é o país com a maior concentração da propriedade da terra do mundo. Menos de 15 mil latifundiários detêm fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Cerca de 1% de todos os proprietários controla 46% das terras.

2. Há uma lei de Reforma Agrária para corrigir essa distorção histórica. No entanto, as leis a favor do povo somente funcionam com pressão popular. Fazemos pressão por meio da ocupação de latifúndios improdutivos e grandes propriedades, que não cumprem a função social, como determina a Constituição de 1988.

A Constituição Federal estabelece que devem ser desapropriadas propriedades que estão abaixo da produtividade, não respeitam o ambiente, não respeitam os direitos trabalhistas e são usadas para contrabando ou cultivo de drogas.

3. Também ocupamos as fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.

4. Os inimigos da Reforma Agrária querem transformar os episódios que aconteceram na fazenda grilada pela Cutrale para criminalizar o MST, os movimentos sociais, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio e dos que controlam a terra.

5. Somos contra a violência. Sabemos que a violência é a arma utilizada sempre pelos opressores para manter seus privilégios. E, principalmente, temos o maior respeito às famílias dos trabalhadores das grandes fazendas quando fazemos as ocupações. Os trabalhadores rurais são vítimas da violência. Nos últimos anos, já foram assassinados mais de 1,6 mil companheiros e companheiras, e apenas 80 assassinos e mandantes chegaram aos tribunais. São raros aqueles que tiveram alguma punição, reinando a impunidade, como no caso do Massacre de Eldorado de Carajás.

6. As famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura - que controla 30% de todo suco de laranja no mundo - se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.

7. Nós lamentamos muito quando acontecem desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento. Em geral, eles têm acontecido por causa da infiltração dos inimigos da Reforma Agrária, seja dos latifundiários ou da policia.

8. Os companheiros e companheiras do MST de São Paulo reafirmam que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia. Representantes das famílias que fizeram a ocupação foram impedidos de acompanhar a entrada dos funcionários da fazenda e da PM, após a saída da área. O que aconteceu desde a saída das famílias e a entrada da imprensa na fazenda deve ser investigado.

9. Há uma clara articulação entre os latifundiários, setores conservadores do Poder Judiciário, serviços de inteligência, parlamentares ruralistas e setores reacionários da imprensa brasileira para atacar o MST e a Reforma Agrária. Não admitem o direito dos pobres se organizarem e lutarem.

Em períodos eleitorais, essas articulações ganham mais força política, como parte das táticas da direita para impedir as ações do governo a favor da Reforma Agrária e "enquadrar" as candidaturas dentro dos seus interesses de classe.

10. O MST luta há mais de 25 anos pela implantação de uma Reforma Agrária popular e verdadeira. Obtivemos muitas vitórias: mais de 500 mil famílias de trabalhadores pobres do campo foram assentados. Estamos acostumados a enfrentar as manipulações dos latifundiários e de seus representantes na imprensa.

À sociedade, pedimos que não nos julgue pela versão apresentada pela mídia. No Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos.

Apesar de todas as dificuldades, de nossos erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.

São Paulo, 9 de outubro de 2009
DIREÇÃO NACIONAL DO MST
Secretaria Geral Escritório Nacional do MST/RJ Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ Fone: (21) 2240.8496

 

 


Fiscalização apreende 1 milhão de litros de agrotóxicos na Syngenta

Brasília, 5 de outubro de 2009 - 9h50

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou cerca de 1 milhão de litros de agrotóxicos com irregularidades e adulterações, na fábrica da empresa Syngenta, de origem suíça, em Paulínia (SP). Os problemas foram encontrados após fiscalização da Agência, realizada na última semana.

Após três dias nas instalações da maior empresa em vendas de agrotóxicos no Brasil e no mundo no ano de 2008, a equipe da Anvisa encontrou várias irregularidades na importação, produção e comércio de produtos agrotóxicos. A ação contou com apoio da Polícia Federal.

Do total de produtos interditados, 600 mil kg correspondiam a agrotóxicos e componentes com datas de fabricação e de validade adulteradas. Esses produtos não poderão ser utilizados ou comercializados até que se restituam as datas verdadeiras de produção e de validade.

A empresa também foi autuada por destruição total das etiquetas de identificação de lote, data de fabricação e de validade do agrotóxico Flumetralin Técnico Syngenta, igualmente interditado. Vários lotes do mesmo produto também foram interditados por apresentarem certificado de controle de impurezas sem assinatura, data da sua realização ou com data de realização anterior à produção do lote analisado.

O controle de impurezas toxicologicamente relevante no Flumetralin Técnico é obrigatório uma vez que tais impurezas são reconhecidamente carcinogênicas e capazes de provocar desregulação hormonal. Também foram interditados todos os lotes do produto PrimePlus, formulados com os lotes interditados do Flumetralin Técnico.

Outro produto técnico interditado com o certificado de análise insatisfatório (sem assinatura e sem a quantidade real de ingrediente ativo) foi o Score Técnico. Já o agrotóxico Verdadeiro 600 teve as embalagens interditadas por confundir o agricultor quanto ao perigo do produto. Apesar de ser da classe toxicológica mais restritiva, as cores dos rótulos do referido agrotóxico induziam o agricultor a concluir que o produto poderia ser pouco tóxico.

A Syngenta também foi autuada por venda irregular do agrotóxico Acarmate (Cihexatina). A fiscalização da Anvisa identificou que o produto, com venda restrita ao estado de São Paulo, era comercializado para outros estados.

A empresa foi notificada, ainda, a efetuar alterações no sistema informatizado que possui de modo que seja possível controlar efetivamente, lote a lote, a quantidade dos componentes utilizados nos Produtos Formulados. Dentro de 30 dias, a empresa está sujeita a nova fiscalização para verificação do cumprimento das condições estabelecidas na notificação.

As infrações encontradas podem ser penalizadas com a aplicação de multas de até R$1,5 milhão e com o cancelamento dos informes de avaliação toxicológica dos agrotóxicos em que foram identificadas tais irregularidades. Em caso de possibilidade de outras infrações além das administrativas, a Anvisa encaminha representação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para possível investigação criminal.

Adulteração

Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.

Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 5,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.

Leia mais: Fiscalização apreende agrotóxicos adulterados na Bayer
Informações: Ascom/Assessoria de Imprensa da Anvisa

 

O JULGAMENTO DE CESARE BATTISTI

CARTA AOS BRASILEIROS
03/09/2009


Nesta 4ª feira, em plena Semana da Pátria, o Supremo Tribunal Federal apreciará a decisão do governo brasileiro que concedeu refúgio humanitário ao escritor e perseguido político italiano Cesare Battisti.


A coincidência talvez não seja fortuita. Homens de fé podem ver nela a expressão de um desígnio superior a nos apontar o caminho, quando o que está em jogo não é apenas o destino de um homem, mas sim a imagem que temos de nós mesmos como povo e como nação.

Construímos uma identidade nacional ao libertarmo-nos do jugo colonial e também ao optarmos por receber com braços abertos os imigrantes que buscassem abrigo entre nós, para contribuir na construção de um país livre, soberano e justo.

Foi assim que nos vimos e foi assim que nos apresentamos às demais nações:

* como um povo cordial e solidário, que a todos oferece uma oportunidade para aqui trabalharem, prosperarem e serem felizes; e
* como um país generoso e acolhedor, que se recusou a reproduzir a intolerância, o fanatismo e a mesquinhez do Velho Mundo, tanto quanto recusou os laços de subjugação política.

Esta nobre tradição tem expressão fiel em nossa Lei do Refúgio, de 1997, que orgulhosamente afirma: seus preceitos devem ser interpretados "em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, com a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, com o Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967 e com todo dispositivo pertinente de instrumento internacional de proteção de direitos humanos com o qual o Governo brasileiro estiver comprometido".

Foi obedecendo à letra e ao espírito da Lei do Refúgio que o ministro da Justiça Tarso Genro, como última instância, outorgou a Cesare Battisti o direito de viver em liberdade e dar sequência à sua carreira literária no Brasil.

É o que explica, de forma cristalina, o maior de nossos juristas, Dalmo de Abreu Dallari:

"De acordo com essa lei, cabe ao ministro da Justiça a decisão final sobre a concessão do refúgio, estando expresso no artigo 33 que 'o reconhecimento da condição de refugiado obstará o seguimento de qualquer pedido de extradição baseado nos fatos que fundamentaram a concessão do refúgio', decisão da qual, segundo a lei, não cabe recurso.

"Assim, pois, no desempenho de suas atribuições legais o ministro da Justiça proferiu uma decisão, criando uma situação jurídica nova, o que não ocorreria com um simples parecer. Lamentavelmente, a imprensa fez confusão e tratou a decisão definitiva do caso como se fosse apenas um parecer do ministro, contribuindo para criar a ilusão de que o caso ainda não foi decidido e que o Supremo Tribunal Federal poderá julgá-lo concedendo a extradição".

Ou seja, há uma lei e ela foi obedecida; há uma jurisprudência firmada em episódios anteriores, quando o STF arquivou os pedidos de extradição a partir da decisão do ministro da Justiça; e o Supremo chegou até mesmo a discutir em 2007 se era ou não constitucional o citado artigo 33 da Lei do Refúgio, concluindo pela afirmativa.

No entanto, inconformada com a decisão legítima e soberana do governo brasileiro, a Itália de Berlusconi move céus e terras para impingir sua pretensão.

Além das inaceitáveis manifestações de achincalhamento das autoridades, instituições e até das mulheres brasileiras, de que tomamos conhecimento pela imprensa, governantes italianos chegaram ao cúmulo de exortar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a rever a decisão do seu ministro da Justiça, desprestigiando-o de uma forma só concebível em repúblicas das bananas.

Dignamente rechaçados, passaram a apostar todas as suas fichas no STF, tentando tangê-lo a anular uma Lei, desconsiderar a jurisprudência, criar um conflito de Poderes e sepultar as tradições humanitárias do povo e da Nação brasileira.

Este é o fulcro da questão: honraremos o sacrifício de Tiradentes, o sofrimento de todos que lutaram pela liberdade e o grito altaneiro de D. Pedro ou vamos deixar que o Velho Mundo novamente nos subjugue às suas imposições e aos seus rancores?

Pois o Brasil não sentencia ninguém à prisão perpétua, muito menos com a inacreditável privação da luz solar, uma recaída nas práticas mais desumanas do passado europeu, como as da Santa Inquisição.

Pois o Brasil anistiou seus perseguidos políticos em 1946 e 1979, no máximo década e meia depois dos episódios que deram pretexto às condenações, enquanto a Itália insiste em manter vivas as feridas dos anos de chumbo e quer jogar um homem inofensivo numa masmorra pelo resto da vida em razão de episódios ocorridos há mais de 30 anos.

Pois o Brasil admitiu sua responsabilidade pelos excessos cometidos por governos autoritários contra seus cidadãos e civilizadamente lhes pediu desculpas e ofereceu reparações, enquanto a Itália continua negando até hoje as torturas praticadas contra prisioneiros da ultra-esquerda durante os anos de chumbo e defendendo os absurdos jurídicos nos quais incidiu, como a aceitação incondicional dos testemunhos de delatores premiados, a retroatividade da Lei e até a possibilidade de manter acusados em prisão preventiva por mais de 10 anos.

E é simplesmente ultrajante que a Itália nos considere tão ingênuos a ponto de acreditarmos que movimentos de contestação envolvendo cerca de diferentes 400 grupos de ultra-esquerda, ao longo da década de 1970, tenha se constituído em atividade criminal e não fenômeno político!

Pois é isto que a Itália passou a afirmar quando percebeu que, pela Lei do Refúgio, Battisti jamais poderá ser extraditado em razão de crimes porventura cometidos no curso de sua militância política (na verdade, falsas acusações contra as quais não pode exercer seu direito de defesa).

Então, depois de emitir contra ele sentenças especificando claramente que se tratava de crimes políticos, capitulados em lei introduzida para o combate à subversão contra o Estado, recorre agora a tergiversações e malabarismos para tentar convencer-nos de que não foi bem assim, muito pelo contrário...

Por tudo isso, nós, brasileiros, esperamos que os ministros do STF sejam coerentes com a Lei, com a jurisprudência, com nossas tradições humanitárias e com nossa dignidade de nação soberana, reconhecendo o refúgio concedido a Cesare Battisti e determinando sua imediata libertação.

CELSO LUNGARETTI
Jornalista, escritor e ex-preso político

 

Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Haiti tem cerca de 300 mil crianças escravizadas

Autor: Pablo Kummetz
Revisão: Roselaine Wandscheer
FONTE: Deutsche Welle
Agosto 2009

Créditos: DWEstimativas apontam que haja entre 12 milhões e 27 milhões de escravos, conta o jornalista Benjamin Skinner. Brasil, um dos últimos países a abolir formalmente a escravidão, é um dos mais proativos no combate ao tráfico.

Na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, a ilha de Santo Domingo (hoje Haiti e República Dominicana) assistiu ao começo de uma insurreição que teria um papel decisivo na abolição do tráfico transatlântico de escravos. Hoje, o 23 de agosto é comemorado pela Unesco como o Dia Internacional deLembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição.

Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Capa do livro do jornalista norte-americano Benjamin Skinner


Créditos: AmazonSobre este assunto, a Deutsche Welle entrevistou o jornalista norte-americano Benjamin Skinner, autor do livro A Crime So
Monstrous: Face-To-Face with Modern-Day Slavery (Um crime tão monstruoso: face a face com a escravidão hoje). O professor do Carr Center for Human Rights Policy da Harvard Kennedy School adverte que escravos hoje são muito mais baratos do que em qualquer outro momento da história da humanidade.

Deutsche Welle: A escravidão é um fato do passado?

Benjamin Skinner:
Com certeza, não. Embora existam mais de 300 tratados internacionais e mais de uma dúzia de convenções universais exigindo o fim da escravidão e do comércio de escravos, este ainda é um problema que desafia o mundo moderno. Pessoas e nações presumem que a lei seja suficiente para erradicar o comércio, mas não é. A abolição legal é um primeiro passo necessário, mas a abolição real requer a aplicação rigorosa dessa lei para perseguir os traficantes e proteger e reabilitar as vítimas.

Quantos escravos existem hoje no mundo?

Como a escravidão é ilegal em qualquer parte do mundo, os traficantes escondem suas vítimas, temendo as autoridades. Em qualquer país, escravos são uma população oculta. Mas as estimativas mais amplamente aceitas apontam que haja entre 12,3 milhões e 27 milhões de escravos.

E em números relativos, em comparação com o passado?

Há mais escravos hoje do que em qualquer outro momento da história da humanidade. Mas, por mais deprimentes que sejam os números absolutos, podemos encontrar certo consolo no fato de a porcentagem de escravos na população mundial ser hoje menor. Os três grandes movimentos abolicionistas do passado de fato trouxeram progressos. Mas ainda há muito a ser feito neste quarto e último.

O que caracteriza a condição de escravo?

Escravos são pessoas forçadas a prestar um serviço, mantidas ilegalmente e ameaçadas com violência, sem pagamento e em esquema de subsistência. São pessoas que não podem fugir de seu trabalho.

Que tipo de trabalho eles fazem hoje em dia?

São usados em todos os ramos da indústria, da agricultura e do setor de serviços. A maioria é forçada a trabalhar para quitar uma dívida, em muitos casos herdada de um ancestral. Todo ano, centenas de milhares são forçados a cruzar fronteiras internacionais para executar trabalhos domésticos ou manuais, também como pedintes, ou se tornam vítimas de prostituição forçada.
Crianças são obrigadas a lutar em guerras civis brutais; homens e mulheres, espoliados e obrigados a produzir componentes de produtos de consumo que você talvez tenha em casa. A escravidão está em todo e em nenhum lugar.

Que motivos levam hoje à escravidão?

As circunstâncias de cada escravo são diferentes, claro, mas há temas recorrentes. Em primeiro lugar, escravos tendem a vir de comunidades profundamente empobrecidas e socialmente isoladas. Tendem a ser jovens, do sexo feminino, com acesso restrito a educação e saúde, e sem qualquer acesso ao crédito formal. Também costumam viver em áreas onde o domínio da lei é fraco e criminosos podem tirar vantagem de sua vulnerabilidade e isolamento para lucrar.

Que países e regiões possuem o maior número de escravos?

O sul da Ásia em geral - e a Índia, em particular - possui mais escravos do que todo o resto do mundo junto. A abolição do trabalho escravo na Índia, assim como a do sistema de castas, continua sendo uma promessa não cumprida.
Nos níveis estaduais e distritais, bem como nos *panchayats* [sistema político indiano que agrupa quatro vilas em volta de uma vila central], a boa intenção das leis nada significa para os milhões de pessoas forçadas a trabalhar para pagar uma dívida que, em muitos casos, foi feita gerações antes.

E na América Latina?

Há centenas de milhares, talvez milhões de escravos na América Latina. O Haiti tem umas 300 mil crianças escravas. Ofereceram-me uma por 50 dólares numa rua de Porto Príncipe, a cinco horas de distância da minha casa em Nova York. Dezenas de milhares são traficadas da América Central e do México para localidades mais ao norte. Nos Estados Unidos, a maior parte dos escravos é mexicana ou foi traficada através do México.

Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Benjamin Skinner


Créditos: DWIronicamente, o Brasil, um dos últimos países a abolir formalmente a escravidão, é hoje um dos mais proativos no combate ao tráfico.
Equipes móveis de inspeção do Ministério brasileiro do Trabalho resgatam cerca de 5 mil escravos por ano. *Mas infelizmente eles não recebem aconselhamento ou proteção adequados, e dá para contar nos dedos de uma mão quantos criminosos foram condenados. Ou seja, quase a metade dos escravos resgatados volta ao regime escravo. Ainda há muito a ser feito na região.

Qual o papel do Estado em países onde existe escravidão?

A escravidão existe onde os Estados são fracos ou corruptos, mas ela também pode ser usada por regimes autoritários como forma de controlar a população. Por exemplo, no Sudão, onde o governo do norte armou e encorajou as milícias a escravizar durante uma guerra civil de 22 anos. Ou em Mianmar, onde o governo impõe o regime de corvéia à população rural.

É sabido que, em certos países, é possível libertar um escravo pagando por ele. Algumas organizações fazem isso. Você considera este um caminho válido?

Certamente não. Por mais que comprar a liberdade de um escravo faça o comprador se sentir bem, essa prática, na melhor das hipóteses, dá margem à corrupção. Na pior delas, incentiva o comércio com a miséria humana.

Quanto custa um escravo hoje?

Escravos hoje são mais baratos do que nunca. Presenciei negociações de venda em quatro continentes e recebi ofertas de 45 dólares na África do Sul até cerca de 2 mil dólares (na verdade, tratava-se da troca por um carro usado) na Romênia. Com mais de 1,1 bilhão de pessoas subsistindo com menos de um dólar por dia, a oferta de potenciais escravos é praticamente ilimitada.

Quais são as consequências tardias da escravidão nas sociedades em que ela existiu, como nos EUA e na América Latina?

Países que falham em lembrar que a escravidão é um compromisso vivo estão condenados a viver em insegurança e desigualdade, e em meio a atividades criminosas. Mas aqueles que se encarregarem da difícil tarefa de eliminar a escravidão serão recompensados com sociedades mais prósperas e pacíficas. O que me lembra as palavras de Maya Angelou: "A história, por mais dolorosa não pode ser 'desvivida'. Mas, se enfrentada com coragem, não precisa ser revivida".

 

CONDENAÇÃO DO ELDORADO DOS CARAJAS

DECISÃO Eldorado dos Carajás: STJ mantém condenação de coronel e major

26/08/2009

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recursos dos policiais militares condenados pela morte de 19 trabalhadores sem-terra em 1996, ocorridas em Eldorado dos Carajás (PA). A defesa pedia a anulação do julgamento, ocorrido em 2002, mas os ministros da Quinta Turma, por unanimidade, consideraram regular a formulação dos quesitos (perguntas sobre o crime) apresentados ao Júri. Com isso, fica mantida a condenação imposta ao coronel Mário Colares Pantoja, 228 anos, e ao major José Maria Pereira de Oliveira, 158 anos e quatro meses.

O juiz que presidiu o Tribunal do Júri formulou os quesitos a serem submetidos aos jurados em uma única série. A defesa queria o reconhecimento da necessidade de formulação de uma série de quesitos para cada uma das 19 vítimas. Para isso, invocou o artigo do Código de Processo Penal segundo o qual, havendo diversos pontos de acusação, serão formuladas séries distintas de quesitos.

A relatora do recurso, ministra Laurita Vaz, não detectou nulidades nos quesitos formulados pelo juiz. Antes de apresentá-los aos jurados, o juiz o faz para a defesa e para a acusação. No caso, a ministra destacou que não houve, por parte da defesa, impugnação dos quesitos naquele momento de apresentação pelo juiz. A defesa também não fez constar na ata do julgamento a arguição de nulidade.

Além disso, a ministra Laurita Vaz ressaltou que a tese da acusação é única, homogênea, já que a conduta imposta aos comandantes foi única (perder o comando da tropa e, com isso, concorrer para os crimes). A relatora destacou que a tese da defesa, assim, também foi única, sendo que a quesitação única não representou prejuízo à sua atuação.

Os trabalhadores sem-terra acabaram mortos durante uma operação de desocupação da rodovia PA-150, acesso à cidade de Marabá (PA), bloqueada pelos manifestantes durante três dias. Eles protestavam contra a demora na desapropriação de terras para reforma agrária. O coronel Pantoja era o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar de Marabá; o major Oliveira era o comandante da Companhia de Policiamento Militar de Parauapebas (PA).

Os condenados estão respondendo ao processo em liberdade por força de um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Da decisão do STJ, ainda cabe recurso ao próprio STJ e ao STF.

 


                                                       
 Uma Silva sucessora de um Silva?
                
 
Leonardo Boff - Teólogo
Agosto 2009

Não estou ligado a nenhum partido, pois para mim partido é parte. Eu como intelectual me interesso pelo todo embora, concretamente, saiba que o todo passa pela parte. Tal posição me confere a iberdade de emitir opiniões pessoais e descompromissadas com os partidos.
 
De forma antecipada se lançou a disputa: Quem será o sucessor do carismático presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
 
De antemão afirmo que a eleição de Lula é uma conquista do povo brasileiro, principalmente daqueles que foram sempre colocados à margem do poder. Ele introduziu uma ruptura histórica como novo sujeito político e isso parece ser sem retorno. Não conseguiu escapar da lógica macro-econômica que privilegia o capital e mantém as bases que permitem a acumulação das classes opulentas. Mas introduziu uma transição  de um estado privatista e neoliberal para um governo republicano e social que confere centralidade à coisa pública (res publica), o que tem beneficiado vários milhões de pessoas. Tarefa primeira de um governante é cuidar da vida de seu povo e isso Lula o fez sem nunca trair suas origens de sobrevivente da grande tribulação brasileira.

Depois de oito anos de governo se lança a questão que seguramente interessa à cidadania e não só ao PT: quem será seu sucessor? Para responder a esta questão precisamos ganhar altura e dar-nos conta das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Em oito anos muita coisa mudou. O PT foi submetido a duras provas e importa reconhecer que nem sempre esteve à altura do momento e às bases que o sustentam. Estamos ainda esperando uma vigorosa autocrítica interna a propósito de presumido “mensalação”. Nós cidadãos não perdoamos esta falta de transparência e de coragem cívica e ética.
 
Em grande parte, o PT virou um partido eleitoreiro, interessado em ganhar eleições em todos os níveis. Para isso se obrigou a fazer coligações muito questionáveis, em alguns casos, com a parte mais podre dos partidos, em nome da governabilidade que, não raro, se colocou acima da ética e dos propósitos fundadores do PT.

Há uma ilusão que o PT deve romper: imaginar-se a realização do sonho e da utopia do povo brasileiro. Seria rebaixar o povo, pois este não se contenta com pequenos sonhos e utopias de horizonte tacanho. Eu que circulo, em função de meu trabalho, pelas bases da sociedade vejo que se esvaziou a discussão sobre “que Brasil queremos”, discussão que animou por decênios o imaginário popular. Houve uma inegável despolitização em razão de o PT ter ocupado o poder. Fez o que pôde quando podia ter feito mais, especialmente com referência à reforma agrária e à inclusão estratégica (e não meramente pontual) da ecologia.

Quer dizer, o sucessor não pode se contentar de fazer mais do mesmo. Importa introduzir mudanças. E a grande mudança na realidade e na consciência da humanidade é o fato de que a Terra já mudou. A roda do aquecimento global não pode mais ser parada, apenas retardada em sua  velocidade. A partir de 23 de setembro de 2008 sabemos que a Terra como conjunto de ecosissitemas com seus recursos e serviços já se tornou insustentável porque o consumo humano, especialmente dos ricos que esbanjam, já psssou em 40% de sua capacidade de reposição.

Esta conjuntura que, se não for tomada a sério, pode levar nos próximos decênios a uma tragédia ecológicohumanitária de proporções inimagináveis e, até pelo final do século, ao desaparecimento da espécie humana. Cabe reconhecer que o PT não incorporou a dimensão ecológica no cerne de seu projeto político. E o Brasil será decisivo para o equilíbrio do planeta e para o futuro da vida.
 
Qual é a pessoa com carisma, com base popular, ligada aos fundamentos do PT e que se fez ícone da causa ecológica? É uma mulher, seringueira, da Igreja da libertação e amazônica. Ela também é uma Silva, como Lula. Seu nome é Marina Osmarina Silva.
 
Leonardo Boff é autor do livro Que Brasil queremos? Vozes 2000.

 
Petropolis, 15 de agosto de 2009.



Acordo costurado pelo Planalto abriga usinas da "lista suja"


Flagradas na exploração de mão-de-obra escrava, as usinas Agrisul, Dcoil e Itarumã se juntaram à lista de 323 empresas que prometem seguir "boas práticas" no campo. CPT e pesquisadora criticam Compromisso Nacional

Por Maurício Hashizume
13/08/2009



Apresentado dentro e fora do país pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "novo paradigma" no sentido de melhorias para os cortadores em atividade no país, o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar abriga três usinas da "lista suja" do trabalho escravo.

Flagradas na exploração de mão-de-obra escrava, as usinas Agrisul Agrícola Ltda. (conhecida como Debrasa, uma das unidades do reincidente Grupo José Pessoa), em Brasilândia (MS), a Destilaria Centro Oeste Iguatemi Ltda. (Dcoil), pertencente ao médico do trabalho Nelson Donadel, em Iguatemi (MS), e a Energética do Cerrado Açúcar e Álcool Ltda. (constituída para viabilizar a Usina Itarumã), em Itarumã (GO), se juntaram à lista. Ao todo, 323 indústrias processadoras prometeram aplicar itens de "boas práticas" empresariais, como a contratação direta de trabalhadores rurais para plantio e corte da cana-de-açúcar, com o intuito de eliminar a intermediação dos "gatos" (aliciadores).

Fiscalização na Agrisul, em Brasilândia (MS), se deparou com 1011 trabalhadores (a maioria absoluta de indígenas) submetidos a condições análogas à escravidão, em novembro de 2007. Em junho de 2008, 55 cortadores de cana de outra usina do mesmo grupo, em Icém (SP), próximo à divisa com Minas Gerais, estavam sendo vítimas de servidão por dívida. Autorizada pela Justiça, diligência fiscal composta por representantes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e Polícia Federal (PF) encontrou documentos pessoais (RG, CPF, Título de Eleitor etc.) de empregados da Agrisul retidos numa mercearia da região. No início de junho, 280 pessoas - entre elas quatro adolescentes (três com 16 anos e um com apenas 13) e 22 mulheres - foram libertadas de área que produzia para a Usina Santa Cruz, em Campos dos Goytacazes (RJ), que também faz parte do Grupo José Pessoa.

A Dcoil também é reincidente no crime de escravidão. Da primeira vez (em 2007), fiscais autuaram a usina, que mantinha 409 escravos (sendo 150 indígenas). Em agosto de 2008, foi flagrada explorando 126 cortadores de cana. A maior parte deles era de migrantes nordestinos. Reinserida na "lista suja" na atualização semestral do último 21 de julho, a Energética do Cerrado, por sua vez, foi pega com 77 vítimas de escravidão vindas do Maranhão.

     
      Cortadores da Usina Santa Cruz não tinham carteira assinada nem equipamentos (Foto: PRT-1)

Para a Secretaria-Geral da Presidência da República, principal articuladora da negociação tripartite (governo, usineiros e trabalhadores) que resultou no Compromisso Nacional, não há contradição. "São ações complementares. O Ministério do Trabalho e Emprego é o órgão do Poder Executivo Federal encarregado de fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista vigente, em todos os setores produtivos, urbanos e rurais, e de punir os infratores. Continuará a fazê-lo com o mesmo rigor, inclusive publicando a chamada ´lista suja´. Já o Compromisso Nacional prevê a adoção de medidas não exigidas pela legislação atual, que extrapolam as obrigações legais".

Na prática, contudo, o acordo instaura um sistema de premiação pública de usinas, com o aval do Palácio do Planalto, completamente alheio ao passivo de irregularidades já cometidas recentemente pelas mesmas empresas. De 2003 até maio de 2009, fiscais do MTE encontraram quadros de escravidão em pelo menos outras 16 usinas que assinaram o Compromisso Nacional. Os empreendimentos flagrados estão espalhados por nove Estados distintos da Federação (Alagoas, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo).

Muitas das usinas fiscalizadas nos últimos anos podem ser incluídas nas próximas atualizações da "lista suja", após a conclusão dos devidos processos administrativos no âmbito do MTE. As três usinas que já estão no cadastro, por exemplo, só poderão deixar oficialmente a lista em julho de 2010 (Dcoil) ou em dezembro de 2010 (Itarumã e Energética do Cerrado). Quem entra só é excluído após dois anos, sem que haja reincidência e após o pagamento de todos os débitos relativos às autuações. Como a validade do Compromisso Nacional também é de dois anos, essas três usinas signatárias passarão, caso não sejam beneficiados por liminares da Justiça, a maior parte do tempo de duração do Compromisso Nacional, que pode ser renovado, na "lista suja".

As perguntas enviadas pela reportagem sobre a possibilidade de exigência de critérios mínimos ou de medidas emergenciais de minimização de passivos trabalhistas básicos (leia abaixo a parte sobre Realidade) para autorizar adesões ao Compromisso Nacional não foram respondidas pela assessoria de imprensa da Secretaria-Geral. O órgão apenas se limitou a alegar que "um compromisso dessa natureza só poderia ser de adesão voluntária".

Também não foi explicada a opção pelo engajamento numa nova iniciativa - que exigirá auditoria, monitoramento e gestão custosos e à parte - em vez de intensificar a fiscalização pelo cumprimento da legislação em vigor, mais especificamente da Norma Regulamentadora (NR) 31, que trata do trabalho rural. No ano passado, o MTE encaminhou notificação em que adverte as usinas sobre as condições de trabalho exigidas por lei. Uma nova notificação reiterando as regras legais foi reenviada este ano às empresas sucroalcooleiras.

Sem respostas
Para além dos casos de descumprimento direto da legislação trabalhista, várias usinas flagradas com escravidão mantêm dívidas milionárias do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) e figuram no grupo de empresas em que acidentes de trabalho causaram até três ou mais óbitos.

A "acumulação" de irregularidades também não mereceu atenção da Secretaria-Geral, que evitou se manifestar inclusive sobre o conteúdo do Compromisso Nacional. A Repórter Brasil não obteve a posição do governo a respeito da ausência do fornecimento de comida aos cortadores no acordo - sob alegação dos usineiros de que "o sistema de alimentação é caro e a logística, complicadíssima", alegação essa não confirmada em dados concretos.

Apenas o fornecimento do recipiente térmico, a marmita, acabou como um dos itens obrigatórios do acordo. Não houve ainda posicionamento oficial a propósito do descaso com relação à proposta de mudança do regime de remuneração dos cortadores (definição de piso salarial e fim do pagamento por produção).

A Secretaria-Geral tampouco esclareceu como se dará a "auditoria independente para exercício das atividades de monitoramento do cumprimento das práticas empresariais" prevista no acordo tripartite. Apenas se limitou a declarar que "o cumprimento será fiscalizado por uma comissão tripartite, e as empresas que eventualmente descumprirem as medidas nele previstas serão excluídas".

No caderno editado pela Secretaria-Geral (em três idiomas: Português, Inglês e Espanhol), o ministro Luiz Dulci prevê que o compromisso "vai possibilitar vigoroso salto de qualidade nas condições e relações de trabalho do setor sucroalcooleiro". "O Compromisso Nacional nos dá a certeza de que as melhores práticas trabalhistas já existentes serão de fato universalizadas e novos direitos serão criados, modernizando em definitivo o setor e humanizando plenamente o trabalho canavieiro", acrescenta o ministro, que ocupa o cargo desde 2003.

No lançamento do Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar em junho, o presidente Lula definiu o acordo como "um novo paradigma". Em comentário posterior feito no final de julho durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, o mandatário reforçou a relevância do "acordo histórico", forjado numa série de encontros convocados pela Secretaria-Geral entre julho de 2008 a junho de 2009.

     
      Para Lula, acordo é um "novo paradigma"; CPT e pesquisadora discordam (Foto: Wilson Dias/ABr)


"É um tratado de adesão em que nós começamos com mais de 300 empresários aderindo à humanização do trabalho no corte de cana, que é ônibus de qualidade, que é água de qualidade (...), que é condições sanitárias para um cidadão ir a um banheiro, que é comida quente, que é administrar e fiscalizar (...) a quantidade de cana que o companheiro corta todo dia e que, muitas vezes, ele não vê nem a pesagem", definiu Lula no ato de oficialização das medidas governamentais de fomento a pequenos produtores.

Representantes dos usineiros - União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e Fórum Nacional Sucroenergético - e dos trabalhadores - Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com suporte da Central Única dos Trabalhadores (CUT) - que participam do diálogo puxado pelo ministro Luiz Dulci continuam repetindo o discurso que lustra o acordo como um "passo inédito e consistente" para a melhoria do cotidiano dos cortadores em atividade no país. De acordo com dados da Unica, quase 850 mil trabalhadores rurais atuam no setor, em 20 diferentes Estados. Pelo menos 323 usinas (das 413 existentes no Brasil) já aderiram ao compromisso.

Combustível limpo?
No mesmo dia do lançamento do Compromisso Nacional, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou nota pública com críticas ao acordo de "melhores práticas", que prevê a contratação direta (fim da terceirização), o acesso do diretor sindical aos locais do trabalho, o transporte seguro e gratuito, a adoção de mecanismo de aferição de produção previamente acertada com o trabalhador, além do fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Para a CPT, "o acordo não acrescenta nada às conquistas já existentes na legislação trabalhista e nos dissídios coletivos, os quais são descumpridos, de forma crônica e contínua, pelas empresas que empregam os canavieiros brasileiros".

A nota da CPT coloca que os beneficiados do acordo mais uma vez serão "os usineiros, os mais recentes ´heróis nacionais´". "De fato, o que se percebe com muita clareza é que o principal objetivo deste acordo precário é preparar o terreno para a certificação social da atividade canavieira pelas empresas, sem mudar suas práticas, mas atestando a ´qualidade´ das condições de trabalho no setor sucroalcooleiro no país, o que não existe", ataca a entidade com atuação na área rural. O Compromisso Nacional, completa a CPT, "visa unicamente sanar a rejeição internacional ao etanol brasileiro, provocada pelas centenas de denúncias que comprovam a relação intrínseca entre a produção de agrocombustível com o trabalho escravo e a devastação do meio ambiente".

O etanol somente é um combustível "limpo", na visão da CPT, "do cano de escape do carro para fora, pois, até chegar lá, o chamado ´biocombustível´ incorpora um altíssimo custo social e ambiental". Portanto, completa a organização religiosa, "não tem como ter certificação social se é inerente ao modelo de produção do etanol a superexploração do trabalho, a degradação ambiental, além da concentração da terra e da renda".

"É hora de recolocar em pauta a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional PEC 438/2001, sempre protelada pela bancada ruralista do Congresso Nacional, que prevê a expropriação, para fins de Reforma Agrária, das terras em que forem encontrados trabalhadores em situação análoga à de escravos. É hora de acabar de vez com essa vergonha em nosso país ao invés de tentar ´maquiar´ a realidade de centenas de trabalhadores e trabalhadoras rurais nos mais distantes rincões do campo brasileiro, esquecidos por um governo que os encobre com falsos selos politicamente corretos na busca desenfreada por uma imagem socialmente limpa no mercado agroexportador", conclui a CPT.

Realidade
Enquanto governo, usineiros e representações sindicais apresentavam o "acordo inédito" à sociedade, os trabalhadores da Destilaria Araguaia (antiga Destilaria Gameleira), uma das signatárias do Compromisso Nacional, esperavam o pagamento de salários atrasados. A Araguaia, do Grupo EQM (Eduardo Queiroz Monteiro) foi flagrada duas vezes com trabalho escravo, em 2003 e 2005, com 272 e 1003 libertações, respectivamente. Desde fevereiro deste ano, os salários da usina de cana-de-açúcar de Confresa (MT) estavam sendo parcelados.

Enquanto o presidente Lula recitava loas ao acordo inédito, cortadores ainda não tinham recebido os vencimentos de maio e junho. Mais de 200 pessoas da indústria e do campo - entre eles migrantes do Maranhão, Pernambuco e Alagoas - sofriam com a situação. Muitos já tinham deixado o local em busca de outras fontes de renda. Nessa hora, sempre aparecem atravessadores que "compram as dívidas" que os trabalhadores têm a receber.

Segundo Aparecida Barbosa da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Confresa (MT), a pressão das representações do Ministério Público do Trabalho (MPT) não bastava para que os pagamentos fossem feitos. Há dois anos, o próprio MPT assinara um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) prevendo condições adequadas de trabalho e remuneração. "Já fizemos greve e algumas das conquistas são frutos da mobilização dos trabalhadores, como é o caso do acordo coletivo", emenda a sindicalista.

"De três em três meses, a água é analisada. Na última análise, a água não estava potável. Falta um poço artesiano", testemunha Aparecida. Os patrões pagam 25% do valor da alimentação, que é fornecida no local. Não há, segundo ela, casos de servidão por dívida. "Eles [empregadores] têm gado na parte pecuária, emendada com a área da usina. Eles põem no nome de terceiros. O gado que tem ali já daria para quitar a dívida", denuncia. Ela lembra que a última fiscalização do grupo móvel na propriedade se deu em 2005. "Este ano eles estão relaxando de novo. Nos últimos meses, muitas usinas da região fecharam. Eles [proprietários] não fecharam, mas também não pagaram".

Estudiosa das condições de trabalho nos canaviais, Maria Aparecida de Moraes Silva, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), salienta que os dois pontos centrais que determinam a superexploração (baixos salários e pagamento por produção continuam intactos. Em média, os cortadores recebem R$ 3 por tonelada de cana e derrubam de 10 a 12 toneladas por dia. "Não vejo nenhuma razão para que haja melhoria real com esse Compromisso Nacional assinado em Brasília".

Chancela
Até a contratação direta, apontada como grande conquista do acordo intersetorial, é vista com ressalvas pela pesquisadora. Ela relata que algumas usinas do Centro-Sul levam médicos - para fazer exames admissionais e selecionar os mais aptos para fazer esforço físico - e contratam cortadores de cana diretamente nos seus locais de origem, principalmente na Região Nordeste. Eles são registrados, transportados e alojados pelas próprias empresas.

A seleção, pondera Maria Aparecida, privilegia trabalhadores que possam viajar sozinhos para o "Sul Maravilha". Ela diz ter encontrado trabalhadores nos municípios de Mendonça (SP) e Novo Horizonte (SP) que vieram ano passado com esposas e filhos e que não voltaram ao Nordeste. Esses cortadores, que optaram pelo convívio em família e não têm como voltar com todos, não foram contratados este ano. "As usinas preferem trabalhadores que migram sozinhos. Essa foi a forma que encontraram para inibir a vinda das famílias", discorre. Como o período nos canaviais chega até a 10 ou 11 meses no ano, essa separação familiar provoca, de acordo com ela, vários efeitos negativos.

A professora da Unesp frisa que, por conta da imensidão dos canaviais, fica muito complicado fiscalizar as condições de trabalho. Por maior que seja o esforço, ela não vê como inibir os incontáveis casos de desrespeito às normas trabalhistas no setor. "É a primeira vez na vida que eu vejo alguém propor o fornecimento de marmita vazia. Isso só faz sentido se tiver a comida. Todo cortador já tem sua marmita. É um item básico", acrescenta. O soro para reposição de potássio, fornecido por algumas usinas, pode ser entendida, na opinião de Maria Aparecida, como uma "grande hipocrisia". "Se os trabalhadores precisam dessa reposição é porque se desgastam além dos limites. Quem trabalha o tempo todo assim, com suplementos alimentares? A cãibra deles é vista como normal e foi inclusive naturalizada".

O avanço da mecanização não resulta apenas no corte de vagas, mas na intensificação do desgaste físico por parte dos cortadores. A cana crua (não queimada) e deitada acaba "sobrando" para os trabalhadores manuais. Antes de fazer o corte, é preciso levantar primeiro os pés do chão, o que demanda um esforço adicional considerável. Muitos trabalhadores trabalham domingos e feriados (não têm descanso semanal remunerado) e, no sistema de trabalho em vigor, a usina impõe o ritmo, completa a pesquisadora.

Procurada, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que atuou como representante dos cortadores em termos de país na negociação com os usineiros e com o governo, não atendeu aos pedidos de entrevista da Repórter Brasil. A professora Maria Aparecida lamenta a "chancela das representações sindicais" ao Compromisso Nacional. "Infelizmente, eles assinaram embaixo e até levaram trabalhadores para tirar foto ao lado do presidente e dos usineiros. Naquela mesma época do lançamento da iniciativa, dois cortadores foram mortos queimados em canaviais de São Paulo e houve ainda acidentes de ônibus que transportavam trabalhadores rurais".

*Colaborou Maurício Reimberg
Verena Glass
Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis
Reporter Brasil www.reporterbrasil.org.br               (11) 2506-6562 

       

Brasil é condenado na OEA por grampos ilegais contra o MST


A Corte Interamericana de Direitos Humanos considerou o país culpado por interceptações telefônicas ilegais feitas no Paraná, em um caso que teve motivação política, participação ativa de agentes públicos e que evidencia a parcialidade da Justiça brasileira e a criminalização dos movimentos sociais.


Da Justiça Global
06/08/2009

Nesta quinta-feira, dia 06 de agosto de 2009, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA divulgou a sentença do caso “Escher e outros Vs Brasil”, na qual condena o Brasil pelo uso de interceptações telefônicas ilegais em 1999 contra associações de trabalhadores rurais ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná. O Estado brasileiro foi considerado culpado pela instalação dos grampos, pela divulgação ilegal das gravações e pela impunidade dos responsáveis.

Menos de um ano depois das denúncias de grampo ilegal nas investigações da Polícia Federal ao banqueiro Daniel Dantas, e em meio à polêmica divulgação das gravações sigilosas do filho de José Sarney, o caso evidencia o fato de que, no Brasil, setores da Justiça e da classe política se comportam de maneira distinta em função dos atores envolvidos.

A denúncia à OEA foi feita em dezembro de 2000 pelo MST, pela Justiça Global, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), pela Terra de Direitos e pela Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP). Amanhã, os peticionários irão solicitar uma reunião com o Conselho Nacional de Justiça, Ministério da Justiça e das Relações Exteriores, Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Câmara dos Deputados, Governo do Paraná, Tribunal de Justiça do Paraná para discutir a implementação da sentença.
(veja a petição enviada à Corte AQUI)

DESCRIÇÃO DO CASO

Em maio de 1999, o então major Waldir Copetti Neves, oficial da Polícia Militar do Paraná, solicitou à juíza Elisabeth Khater, da comarca de Loanda, no noroeste do estado, autorização para grampear linhas telefônicas de cooperativas de trabalhadores ligadas ao MST. A juíza autorizou a escuta imediatamente, sem qualquer fundamentação, sem notificar o Ministério Público e ignorando o fato de não competir à PM investigação criminal. Durante 49 dias os telefonemas foram gravados. A falta de embasamento legal para determinar a escuta demonstra clara intenção de criminalizar os trabalhadores rurais grampeados.

A Secretaria de Segurança Pública do Paraná convocou uma coletiva de imprensa e distribuiu trechos das gravações editados de maneira tendenciosa. O conteúdo insinuava que integrantes do MST planejavam um atentado à juíza Elisabeth Khater e ao fórum de Loanda. O material foi veiculado em diversos meios de imprensa, o que contribuiu para o processo de criminalização que o MST já vinha sofrendo.

O CONTEXTO

O caso aconteceu durante o governo de Jaime Lerner no Paraná, em meio a um processo violento de perseguição aos trabalhadores rurais e aos movimentos sociais paranaenses. Autoridades e ruralistas se uniram em uma campanha que resultou em um aumento dos índices de violência no campo no estado e que, através do uso da máquina do Estado, possibilitou atos de espionagem e criminalização contra trabalhadores organizados. Durante a “Era Lerner”, foram assassinados 16 trabalhadores rurais.

O caso das interceptações telefônicas no Paraná é exemplo emblemático de um processo de criminalização dos movimentos sociais que vem se intensificando a cada dia no Brasil. É notável a articulação feita entre setores conservadores da sociedade civil e do poder público para, através do uso do aparelho do Estado, neutralizar as estratégias de reivindicação e resistência das organizações de trabalhadores. Em setembro de 2000, o Ministério Público do Paraná, através da promotora, Nayani Kelly Garcia, da comarca de Loanda, emitiu parecer que afirma categoricamente que as ilegalidades no processo do caso das interceptações telefônicas “evidenciam que a diligência não possuía o objetivo de investigar e elucidar a prática de crimes, mas sim monitorar os atos do MST, ou seja, possuía cunho estritamente político, em total desrespeito ao direito constitucional a intimidade, a vida privada e a livre associação”.

A SENTENÇA

O Brasil foi condenado a realizar uma investigação completa e imparcial e a reparar integralmente as vítimas pelos danos morais e materiais sofridos em decorrência da divulgação na imprensa das conversas gravadas sem autorização.
A Corte Interamericana da OEA considerou que:
1)       O Estado violou o direito à vida privada e o direito à honra e à reputação reconhecidos no artigo 11 da Convenção Americana de Direitos Humanos, em prejuízo das vítimas dos grampos;
2)       O Estado violou o direito à liberdade de associação reconhecido no artigo 16 da Convenção Americana, em prejuízo das vítimas, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra;
3)       O Estado violou os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial reconhecidos nos artigos 8.1 e 25 da Convenção Americana em prejuízo das vítimas a respeito da ação penal seguida contra o ex-secretário de segurança do Paraná, da falta de investigação dos responsáveis pela primeira divulgação das conversas telefônicas e da falta de motivação da decisão em sede administrativa relativa à conduta funcional da juíza que autorizou a interceptação telefônica.
Na sentença, a Corte Interamericana determina que o Estado deve:
1)       indenizar as vítimas dentro do prazo de um ano;
2)       como medida de reparação realizar um ato público de reconhecimento de responsabilidade internacional com o objetivo de reparar violações aos direitos à vida, à integridade e à liberdade pessoais;
3)       investigar os fatos que geraram as violações;
4)       publicar a sentença no Diário Oficial, em outro jornal de ampla circulação nacional e em outro jornal de ampla cirulação no Estado do Paraná, além de em um sítio web da União Federal e do Estado do Paraná. Determinou um prazo de seis meses para os jornais e dois meses para a internet;
5)       O Estado deve restituir as custas dos processos;
6)       O Estado deverá apresentar um relatório do cumprimento da sentença no prazo de um ano. A Corte supervisará o cumprimento íntegro da sentença e só dará por concluído o caso quando o Estado cumprir integralmente a sentença.

MATERIAL DETALHADO DISPONÍVEL EM WWW.GLOBAL.ORG.BR

VEJA OS ANEXOS:
 - As Ilegalidades do Caso
 - A Cronologia do Caso

 

A crise da mídia e a democracia

Agência Carta Maior
Postado por Emir Sader
02/08/2009

A inquestionável crise da mídia brasileira se choca com um processo de maior democratização da sociedade brasileira o que, por si só, deveria levar a pensar o caráter tanto da imprensa no Brasil, quanto da própria democracia entre nós.

O que está em crise é a forma de produzir notícias, a forma de construção da opinião pública. Seria grave se a dimensão da crise que afeta a mídia refletisse, nas mesmas dimensões, a democracia no Brasil. Ao ler alguns órgãos da imprensa, pode-se ter a impressão que a democracia retrocede e não avança entre nós, que estamos à beira de uma ditadura, ao invés de um processo – lento, mas claro – de democratização da sociedade brasileira.

Cada classe social toma sua decadência como a decadência de toda a sociedade, quando não de toda a humanidade. Neste caso, é uma casta que controlou a formação da opinião pública, de forma monopólica e que, com isso, se considerou depositária dos interesses do país. Derrubou a Getúlio, contribuiu decisivamente para o golpe militar de 1964 e para o apoio a este, uma parte dela tentou desconhecer a campanha pelas eleições diretas, tentou impedir a vitória de Brizola nas primeiras eleições diretas para governador do Rio de Janeiro, apoiou a Collor, esteve a favor de FHC, a ponto de desconhecer a evidente corrupção presente nos escândalos processos de privatização, na compra de votos para a reeleição, entre tantos outros casos. Agora, se coloca, em bloco, contra o governo Lula, o de maior popularidade na história do Brasil, chocando-se assim flagrantemente com a opinião do povo brasileiro.

A mídia tradicional está em crise, a democracia brasileira, não. Porque se amplia significativamente o circulo de produção de opinião, de difusão de noticias, se democratiza a informação e os que são afetados pelo enfraquecimento do seu monopólio oligárquico – em que umas poucas famílias controlavam a mídia – esbravejam. Tentam impedir a realização da Conferência Nacional de Comunicação, convocada para novembro, porque detestam que se debata o tema da democracia e a mídia.

A crise do poder legislativo é parte do velho poder oligárquico, que sobreviveu na passagem da ditadura à democracia, que se vale do fisiologismo para vender seu apoio aos governos de turno. Não por acaso os mesmos personagens envolvidos nas acusações atuais no Congresso apoiariam ao governo FHC e, com o beneplácito da mídia, foram poupados das acusações agora dirigidas contra eles, na tentativa de enfraquecer a base de apoio parlamentar do governo. Enquanto o Brasil se torna mais democrático, com a promoção social de dezenas de milhões de famílias, a estrutura parlamentar reflete o velho mundo oligárquico, similar ao da propriedade da mídia privada.

No momento em que o Brasil precisa de uma nova mídia, uma nova forma de difundir notícias, de promover o debate econômico, político, cultural, a velha mídia resiste em morrer, em dar lugar à democratização que o Brasil precisa. Sabem que a continuidade do governo atual e o aprofundamento dos processos de saída do modelo herdado do governo FHC sepultarão toda uma geração de políticos opositores – derrotados pelas urnas e/ou pela senilidade. Daí seu desespero na luta contra o governo – que conta com 6% de rejeição a Lula, contra 80% de apoio.

A crise da mídia é outro reflexo do velho mundo que desmorona, para dar lugar à construção de um Brasil para todos e não para as elites minoritárias que historicamente o dirigiram.

 

População mantém poder de compra com reajuste do Bolsa Família

Editado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
Nº 858 - Brasília, 31 de Julho de 2009

O poder de compra da população atendida pelo Bolsa Família será mantido pelo reajuste de 9,67% no benefício – que incorpora a inflação (INPC) do período entre julho de 2008 e junho de 2009, mais 4% de ganho real. Com a correção, a ser paga a partir de setembro, o valor médio passa de R$ 86 para R$ 95. “O reajuste aquece o mercado interno, o que ajuda diretamente as pequenas economias, barrando o ciclo da crise”, diz o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias.

Além do reajuste, o decreto presidencial 6.917 (publicado no Diário Oficial de sexta-feira 31/07) arredonda o limite para o ingresso no programa. A renda per capita que caracteriza família em situação de pobreza passará de R$ 137 para R$ 140 e em extrema pobreza de R$ 69 para R$ 70. Esses valores foram atualizados em abril de 2009, mas sua aplicação trouxe dificuldades operacionais e de comunicação com as famílias.

Benefícios – As famílias com renda de até R$ 70 por pessoa terão, a partir de setembro, o direito ao benefício básico, de R$ 68, mais o benefício variável de R$ 22 (de acordo com o número de crianças de até 15 anos) no limite de três benefícios, além do benefício de R$ 33 para adolescentes de 16 e 17 anos ( no limite de dois benefícios). Com isso, essas famílias passam a receber valores entre R$ 68 e R$ 200.

No caso das famílias com renda por pessoa de R$ 70 a R$ 140, são pagos apenas os benefícios variáveis: R$ 22,00 (de acordo com o número de crianças de até 15 anos)  no limite de três benefícios, além do benefício de R$ 33,00 para adolescentes de 16 e 17 anos (no limite de dois benefícios). Com isso, essas famílias passam a receber de R$ 22 a R$ 132.

Mudanças anteriores –
A correção terá um impacto de R$ 406 milhões no orçamento do programa de 2009, que passará de R$ 11,4 bilhões para R$ 11,961 bilhões. Esta é a terceira recomposição dos valores e dos critérios de atendimento em quase seis anos de execução do programa, que serão completados em 20 de outubro. A primeira recomposição nos valores do Bolsa Família de 18,25 % ocorreu em agosto de 2007. Em julho do ano passado, o reajuste foi de 8%. E neste ano chegou a 10%. O critério de renda para ingresso no programa passou de R$ 100 para R$ 120, em 2006. Em abril de 2009, houve outra revisão de R$ 120 para R$ 137. Outra mudança, em março de 2008, foi a inclusão do benefício vinculado ao adolescente de 16 e 17 anos, para que os jovens continuem na escola. Com isso, são atendidos quase dois milhões de adolescentes nessa faixa etária.


TRABALHO ESCRAVO : NOVA LISTA SUJA INCLUI GRANDES PRODUTORES DE FRONTEIRA AGRÍCOLA

REPÓRTER BRASIL
22/07/2009


Criadores de gado bovino e fazendeiros de soja e algodão que atuam em áreas de expansão (como o Oeste da Bahia) foram incluídos no cadastro. Conhecida desmatadora e grandes usinas de álcool também entraram
Por Maurício Hashizume*
Grandes produtores de áreas de expansão da fronteira agrícola foram incluídos, na manhã desta terça-feira (21), na "lista suja" do trabalho escravo - cadastro mantido pelo governo federal que aponta empregadores flagrados na exploração de pessoas em condições análogas à escravidão.

Promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a atualização semestral do cadastro confirmou 17 inclusões e 35 exclusões de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas em operações de fiscalização de trabalho escravo. Os nomes são incluídos na "lista suja" após conclusão de processo administrativo gerado a partir da situação encontrada pelos auditores fiscais do trabalho.

Rosana Sorge Xavier, da família que controla o Frigorífico Quatro Marcos, agora faz parte da "lista suja". Entre os 100 maiores desmatadores do país de acordo com ranking do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) do final de 2008, Rosana aparece como segundo maior agente privado devastador do país, com mais de 12,6 mil hectares de floresta - o que lhe rendeu uma multa em torno de R$ 48 milhões. O primeiro lugar absoluto pertence a Léo Andrade Gomes, com 15,2 mil hectares desmatados e mais de R$ 32 mi em multa.

Entre os incluídos, há mais grandes fazendeiros de gado bovino. E assim como Rosana Sorge Xavier, pelo menos dois deles mantém criações de porte nas franjas da Amazônia: Olavo Demari Webber, do Norte do Mato Grosso; e Aurélio Anastácio de Oliveira, escravagista reincidente e dono da Fazenda Iraque, em Eldorado dos Carajás (PA). Regis Francisco Ceolin, pecuarista do Condomínio Agropecuário Ceolin, atua no Oeste baiano.

Além do Condomínio Agropecuário Ceolin, dois outros produtores que entraram para o cadastro de infratores são do Oeste da Bahia, uma das áreas de maior expansão do agronegócio no país. Os dois outros flagrantes que geraram as inclusões se deram, curiosamente, na área da chamada Fazenda Estrondo, em Formosa do Rio Preto (BA).

Na área da Companhia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB), que atua tradicionalmente com mineração na região, foram libertados 39 trabalhadores que catavam raízes para viabilizar a produção de soja, em outubro de 2005. Na mesma área da Fazenda Estrondo, mas em outra parte conhecida como Fazenda Indiana (sob a responsabilidade de Paulo Kenji Shimohira), houve 52 libertações de pessoas que faziam a capina de algodão.

Há mais fazendeiros que também entraram para a "lista suja" em decorrência de flagrantes na fronteira agropecuária: Lírio Antônio Parisotto, produtor de soja em Uruçui (PI); Adailto Dantas Cerqueira e Salomão Pires Carvalho, donos de áreas no Maranhão; Elizabete Guimarães de Araújo e Ivan Domingos Paghi, que tiveram suas propriedades no Tocantins flagradas pelo MTE. Adailto, Elizabete e Ivan, na realidade, foram reincluídos na relação por causa da perda do efeito de liminar que excluía os nomes temporariamente.

Usinas e outros casos
Grandes usinas de cana-de-açúcar que também já constaram da "lista suja" também foram reinseridas no cadastro. A Agrisul Agrícola Ltda - conhecida como Usina Debrasa, da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), que faz parte do Grupo José Pessoa -, de Brasilândia (MS), e a Agropecuária e Industrial Serra Grande (Agroserra), de São Raimundo das Mangabeiras (MA), voltaram a aparecer na "lista suja", divulgada desde o final de 2003.

Uma empresa e um fazendeiro do Ceará, juntamente com o dono de um ferro-velho em Várzea Grande (MT), completam o rol dos infratores incluídos. A Mundial Construções e Limpeza Ltda. foi pega quando explorava trabalhadores no serviço de limpeza diária e roça de linha de transmissão de energia elétrica da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) em Sobral (CE).
O fazendeiro José Nilo, por sua vez, entrou na "lista suja" em função de fiscalização ocorrida nas Fazendas Pirangi e Três Marias, em Beberibe (CE). Já José Nilson dos Santos explorava duas pessoas com deficiência mental no Auto Guincho Jussara, na cidade que fica ao lado da capital Cuiabá (MT).

Com a atualização da "lista suja", 35 nomes (veja lista abaixo) também foram retirados. Apenas Gilson Muller Berneck foi excluído por motivo de liminar da Justiça. Todos os outros saíram após o cumprimento de dois anos no cadastro, combinado com o pagamento de todas as pendências relativas às autuações e a não reincidência na exploração do trabalho escravo contemporâneo.
Inclusões e Exclusões da "Lista Suja" do Trabalho Escravo
Entraram em 21/07/2009
Adailto Dantas de Cerqueira - CPF - 091.906.195-87
Agrisul Agrícola Ltda (Usina Debrasa/CBAA) - CNPJ - 04.773.159/0002-80
Agropec. Ind. Serra Grande Ltda (Agroserra) - CNPJ - 11.035.672/0001-59
Aurélio Anastácio de Oliveira - CPF - 047.691.122-20
Cia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB) - CNPJ - 97.435.234/0001-01
Elizabete Guimarães de Araújo - CPF - 576.510.431-20
Ivan Domingos Paghi - CPF - 016.837.008-56
José Nilo Dourado - CNPJ - 02.930.365/0001-40
José Nilson dos Santos - CPF - 111.645.301-00
Lírio Antônio Parisotto - CPF - 213.676.129-34
Mundial Construção e Limpeza - CNPJ - 04.740.962/0001-38
Olavo Demari Webber - CPF - 213.734.340-15
Paulo Kenji Shimohira - CPF - 507.292.766-00
Regis Francisco Ceolin - CPF - 438.282.480-04
Salomão Pires de Carvalho - CPF - 024.354.897-49
Selson Alves Neto - CPF - 159.949.706-97
Rosana Sorge Xavier - CPF - 993.277.088-49
Saíram em 21/07/2009
Alonso Claristino Resende
Altamir Soares da Costa
Antônio Paulo de Andrade
Benedito Gonçalves de Miranda
Célio José de Resende
E.C.I. Empresa de Invest. Partic. e Empreendimentos Ltda
Eduardo Ferreira
Fernandes Lavagnoli
Flávio Teixeira Martins
Francisco de Almeida Leal
Fued Tuma
Gilson Mueller Berneck
Haroldo Luiz de Barros
Indústria Agroflorestal Heyse
Itapicuru Agroindustrial S/A
Espólio de João Neto Moura Macedo
Joaquim Carlos Sabino dos Santos
José Carlos da Silva Porfírio
José Irineu de Souza
Juliano Heringer Branco
Leoni Lavagnoli
Luis Carlos Berti
Luis Otato Neto
Marco Antônio Mattana Sebben
Marco Aurélio Andrade Barbosa
Marco Túlio Andrade Barbosa
Marta Alves Resende
Osvaldo Borges
Paulo Roberto Cunha (Ideal Severino da Cruz)
Raimundo Everardo Mendes Vasconcelos
Rosenval Alves dos Santos
Sérgio Noel de Mello Martins
Vitalmiro Bastos de Moura
Wagner Furiati Nabarrete
Odilon Ferreira Garcia

Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil

Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.

 

 

NOTA DE PROTESTO: Assentados protestam contra o fim do curso de Direito

Escritório Nacional do MST/RJ
20/07/2009


É com profundo sentimento de indignação e revolta, que vimos nos pronunciar. Por motivo da preconceituosa e frustrante decisão da Justiça Federal de Goiás, proferida no dia 15 de junho deste ano, que por meio de ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal de Goiás, movida em face do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e da Universidade Federal de Goiás - UFG, determinou a extinção da Turma de Direito para Assentados da Reforma Agrária e Agricultores Familiares Tradicionais.

Sob a alegação de desvio de finalidade no emprego dos recursos do PRONERA, e afirmando que tal fato lesa o patrimônio social, e ainda que, não existe previsão legal de tratamento diferenciado aos beneficiários da Reforma Agrária, a aludida decisão pondera de forma extremamente agressiva que, a existência de nossa turma desrespeita os princípios constitucionais da igualdade, isonomia e razoabilidade.

A parceria entre UFG e INCRA, firmada oficialmente no ano de 2007, a qual deu origem a nossa turma, surgiu a partir da luta dos movimentos sociais e diversos parceiros que buscam, historicamente, a efetivação dos direitos fundamentais da classe trabalhadora - do campo e da cidade - em todo o Brasil. Baseados na necessidade, mais que urgente, de se levar educação superior em diversas áreas do conhecimento, aos trabalhadores rurais, por meio de políticas públicas que visam a superação das, históricas e tão presentes, desigualdades sociais de nosso país.

No dia 17 de agosto de 2007, o Exmo. Ministro do STF, Dr. Eros Roberto Grau, proferiu a aula inaugural do nosso curso, composto por 60 alunos advindos do meio rural e, originários de 19 estados da federação brasileira. Ocorrendo nesta solenidade de abertura, em meio a Cidade de Goiás-GO, o estabelecimento de um marco na história do ensino jurídico no Brasil.

Desde o momento em que iniciamos o curso, somos alvo de ataques promovidos por sujeitos contrários à presença de trabalhadores e trabalhadoras rurais na universidade pública. Fazendo tudo isso de forma não menos violenta do que a utilizada para defender a grilagem e a concentração da terra. Tais sujeitos externam sua reação agressiva sempre fazendo uso da grande mídia e de agentes de instituições estatais, como o Ministério Público Federal e o próprio Judiciário.

Atualmente, apesar da sentença extintiva, encerramos o 4º semestre letivo do curso de direito na compreensão de que nada do que está sendo feito contra nossa turma terá sustentação duradoura, vez que, fere ao mesmo tempo, a razão de Estado Democrático Social de Direito.

Mesmo na situação de política pública de educação, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA, apesar de tantos resultados importantes desde sua criação, vem sofrendo desde 1998, absurdas reduções orçamentárias. Passando a representar um grave retrocesso, naquilo que deveria ser um meio de potencializar tanto o acesso, quanto a qualidade de ensino ao público da Reforma Agrária.

O sucateamento do PRONERA, assim como a supressão da nossa turma, representa sério prejuízo a tudo o que a sociedade, sobretudo a classe trabalhadora do campo, conquistou até hoje. Devendo ser urgentemente observado com mais responsabilidade pelo poder público.

O acesso de trabalhadoras e trabalhadores assentados à educação formal em cursos superiores de graduação em direito coaduna claramente com os objetivos gerais e específicos do PRONERA, visto que, este se propõe a garantir aos assentados (as) escolaridade/formação profissional, técnico profissional de nível médio e curso superior em diversas áreas do conhecimento.

Na presente perspectiva torna-se mais relevante, do que discutir se o ofício de um bacharel em direito é ou não desenvolvido no campo, observar com mais sensibilidade o quanto todo seguimento segregado pela estrutura social vigente, respectivamente, o trabalhador e a trabalhadora rural, necessita de forma concreta do profissional da área jurídica. Seja na demanda fundiária, previdenciária, administrativa, cooperativista ou outras. Pois o assentado e a assentada não se fixam na terra por mera distribuição desta, mas no intuito de que seus direitos e interesses fundamentais sejam alcançados da mesma forma que qualquer outro cidadão objetiva. Nesse contexto a existência da turma não se desvincula da finalidade do PRONERA, menos ainda, da Reforma Agrária que busca alcançar, dentre inúmeras metas, o pleno desenvolvimento do homem do campo, atendendo diretamente ao que sugere o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.

Ademais, nossa turma de direito se resume em muito mais que uma política de Ação Afirmativa de simples reserva de vagas na universidade. Seguramente representa um simbólico impulso rumo à universalização do acesso ao ensino público superior.

A igualdade, no que diz respeito, ao acesso e permanência na escola (art. 206, I, CF e art. 3º, I da lei n.º 9.394/96), significa uma igualdade moral, de sorte que, partindo da idéia de que a educação é direito de todos e dever do Estado, constitui incumbência moral do Estado reconhecer que as classes marginalizadas social e economicamente, são, de forma jurídica, portadoras dos mesmos direitos que provêem do Poder Público e que definem sua dignidade como pessoa humana. Não devendo, nesse caso, em hipótese alguma, haver razão para confundir a iniciativa da turma de direito como um privilégio ou meio de exclusão, mas basicamente o contrário.

Prova disso, o fato de ter configurado-se há muito mais tempo do que se imagina, a carência de maior atenção do Estado para com os trabalhadores e trabalhadoras rurais. Sendo mais verdadeira ainda tal afirmação, quando verificamos todos os anos, os índices gerais e regionais de escolaridade do povo brasileiro, já que se constata através daí, que sem as políticas públicas de criação de oportunidades de acesso a educação em todos os níveis e áreas do conhecimento, houve
nada mais que um agravamento expressivo da situação. E que por isso, também, devemos tratar como medida de imposição e violência institucionalizada todos os atos que, dessa maneira, como está sendo a sentença em debate, visam extinguir as poucas medidas existentes com o papel de realizar a inclusão e a abrangência cada vez maior de outros excluídos que se encontram em situação idêntica ou inferior.

A igualdade de todos perante a lei, reconhece, dentre outras coisas, que as desigualdades existem. Pressupondo claramente, que deverão ser tratados de forma desigual aqueles que encontram-se em situação de desigualdade, como meio de superação dos desníveis sociais. Simplesmente por tudo que revela esse último ponto, já mostra-se absurdamente insustentável, tanto moral quanto juridicamente, toda e qualquer atitude de reação que venha contra o direito de estudar direito dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Convém citar o interessante questionamento do presidente do INCRA Rolf Hackbart:

"A quem interessa inviabilizar o acesso à educação? A quem interessa fechar salas de aula? Por que em vez de decidir pela extinção desses cursos não se sugere resolver eventuais problemas legais que existam? Há um preconceito raivoso contra movimentos sociais e contra setores da sociedade. As oligarquias do País se perpetuam e uma das formas é não permitir o acesso à educação".

Diante disso, nós como membros da turma em questão, e principais afetados por esse meio de violência - tal qual foi a decisão - nos sentimos com o total dever de repudiar não somente o ato jurisdicional, como também o sucateamento do PRONERA e da própria universidade pública.

--   Secretaria Geral  Escritório Nacional do MST/RJ  Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ  Fone: (21) 2240.8496   

Fiscalização do Ministério do Trabalho continua, desta vez em Travessão

FOLHA DA MANHÃ ON-LINE
Campos dos Goytacazes, 17 de julho de 2009.

A Operação realizada pela força-tarefa do Ministério do Trabalho para verificar se existem irregularidades nos canaviais da região, que na quinta-feira notificou a Usina Sapucaia por manter trabalhadores sem as mínimas condições de exercer suas funções, como falta de água e contrato empregatício, nesta sexta-feira tem continuidade, só que desta vez a fiscalização está acontecendo em Travessão e sem o apoio da equipe de Brasília, apenas com o contingente local.

Na ação de ontem, foi constatado trabalho escravo em uma fazenda chamada Itaquaraçu, na localidade de Outeiro, que está arrendada à Usina Sapucaia. A força-tarefa contou com apoio de viaturas da Polícia Federal. A empresa responsável foi notificada para prestar esclarecimentos ao MP.

Fiscalização do Ministério do Trabalho encontra trabalho escravo em canavial

Campos dos Goytacazes, 16 de julho de 2009.

Foi constatado trabalho escravo em uma fazenda chamada Itaquaraçu, na localidade de Outeiro, que está arrendada à Usina Sapucaia. Foi possível a autuação através de fiscalização nos canaviais de vários pontos do município, que está sendo feita neste momento, por homens do Ministério Público do Trabalho vindos de Brasília. A ação conta com apoio de viaturas da Polícia Federal. A empresa responsável foi notificada para prestar esclarecimentos ao MP.

Os trabalhadores estariam sem contrato ou carteira de trabalho, equipamentos de segurança. Cerca de 500 pessoas estariam com a situação trabalhista inadequada, mas no local 250 foram identificadas. Alguns menores conseguiram fugir da 'blitz'.

Segundo um procurador do Ministério Público do Trabalho, Jocineai Nascimento, as condições nas quais os trabalhadores foram encontrados “são as piores em todo o país”.

 


Alcoa investe US$ 1,5 bilhão no meio da selva
Uma das maiores minas de bauxita do mundo, com porto e ferrovia, será inaugurada em setembro, na Amazônia


Estado de sao paulo
12 de julho 2009
Renée Pereira


Até meados de 2005, a pequena Juruti, no oeste do Pará, era apenas mais uma pacata cidade encravada na Floresta Amazônica, com as carências típicas da região e uma economia de subsistência baseada na pesca, cultivo da mandioca e extração de castanha. De lá pra cá, muita coisa mudou. O município deixou o anonimato de lado e ficou conhecido internacionalmente como a cidade que vai abrigar uma das maiores minas de bauxita do mundo, da multinacional americana Alcoa.

Em três anos e meio, Juruti - cujo PIB per capita anual é de R$ 2331 - viveu o ritmo frenético de uma obra de US$ 1,5 bilhão (ou R$ 3 bilhões), que agora entra na reta final. Se tudo der certo, em setembro, a cidade receberá o presidente Lula para a inauguração oficial do megaempreendimento. Trata-se de um complexo que inclui, além da mina, uma ferrovia e um porto - todos desenvolvidos com alta tecnologia.

Os pesados investimentos no local estão fundamentados no potencial de 700 milhões de toneladas de bauxita em solo jurutiense. Desse total, 180 milhões já foram confirmados pela Alcoa, o que representa 70 anos de exploração na mina. O produto vai abastecer a refinaria Alumar, em São Luís (MA), onde será transformado em alumina (usada na fabricação de vários produtos, inclusive de pasta de dente) ou alumínio.

Os primeiros estudos em Juruti foram feitos na década de 70 pela americana Reynolds Metals. Com a aquisição da companhia pela Alcoa, em 2000, a prospecção dos minerais na região foi retomada. A primeira equipe da mineradora chegou à cidade em 2005 para os estudos de impacto ambiental. Com as licenças em mãos, a empresa iniciou as atividades de construção em junho de 2006.

Desde o início, o projeto se revelou um grande desafio, seja do ponto de vista ambiental, social ou de engenharia, avaliou o presidente da Alcoa na América Latina e Caribe, Franklin Feder, um americano que vive no Brasil desde os quatro anos. "Abrir uma mina é uma tarefa difícil em qualquer lugar, mas na Amazônia a missão é ainda maior e requer mais cuidado."

Além das questões ambientais, já que se trata de uma mina no meio da Floresta Amazônica, a localização exigiu pesado esquema logístico para montar o empreendimento. Afinal, chegar a Juruti não é das tarefas mais fáceis. De Santarém (PA) até a cidade, a opção é pegar um barco que pode demorar até 12 horas no percurso.

Para evitar esse desgaste, a Alcoa contratou uma empresa de aviação para fazer a rota Santarém-Juruti. Duas vezes ao dia, o aviãozinho pousa numa pista improvisada de chão batido trazendo funcionários e visitantes da mina. A viagem dura apenas meia hora. Todo o transporte de equipamentos, máquinas e materiais de construção, porém, só pode ser feito por meio de balsas. "Num certo momento durante as obras, houve até congestionamento no porto da cidade", lembra Tiniti Matsumoto Jr., responsável pelo desenvolvimento da mina.

Na avaliação dele, outro obstáculo foi a distância entre a mina, as instalações de beneficiamento da bauxita e o porto. Da extração até o embarque, são 55 quilômetros de distância. Por isso, tudo é automatizado. A bauxita extraída é levada até a planta de beneficiamento por meio de caminhões.

Depois de triturado, o minério é transportado em esteiras até grandes reservatórios onde passa por um processo de lavagem para a retirada do excesso de terra. Em seguida, segue de trem até o porto. Lá, uma série de esteiras conduzirá a bauxita até o navio, que seguirá cerca de 1,6 mil km até a Alumar.

Para construir a infraestrutura do complexo, a Alcoa teve de desmatar uma área de 800 hectares. Além disso, usou 7 milhões de toneladas de trilhos, 110 mil dormentes, 28 milhões de m³ de terra e 400 mil m³ de brita. No auge da construção, em setembro, o canteiro de obras abrigou 9,5 mil pessoas contratadas por 60 empreiteiras. Hoje o número já caiu para 4,4 mil pessoas e vai diminuir ainda mais. A operação do complexo vai exigir 1,3 mil trabalhadores. Desses, 350 serão funcionários contratados pela Alcoa e o restante, terceirizado.

Depois de três anos e meio no meio da floresta, os funcionários começam a retornar para suas cidades. Tiniti foi um dos primeiros a chegar a Juruti e deverá ser o último a sair. Nas últimas semanas, um de seus compromissos tem sido ir até o "aeroporto" improvisado da cidade para se despedir dos companheiros. O ritual é tirar uma foto de todos para guardar em seu "álbum de expedição". "A única dúvida é saber quem vai tirar a minha foto."

 


Luta em defesa do São Francisco

CPT Bahia
10 de julho de 2009

A entrega do Prêmio de Cidadão do Mundo, concedido pela Fundação Kant ao bispo da diocese da Barra (BA), D. Luiz Cappio, no mês de maio, na cidade alemã de Freiburg, marcou a retomada das discussões sobre a transposição na Europa e principiou a divulgação da Campanha Opará - Povos Indígenas em defesa do Rio São Francisco. Protagonizada pelos indígenas que vivem na bacia do rio, a mobilização tem a participação de várias organizações, como as da Articulação Popular pela Revitalização do São Francisco da CPT, apoiada pelo Projeto São Francisco da CPT, em parceria com o CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores). ?Fico muito feliz que vários grupos se unam para lutar contra um projeto que não faz sentido. Isso é fundamental para dar visibilidade a nossa luta?, comemora D. Luiz.
 
 
A campanha, através de petições populares, relatório-denú ncia e manifestações públicas, quer pressionar o Supremo Tribunal Federal a julgar ações pendentes contra o projeto de transposição, em especial as que tratam das terras indígenas afetadas. Exige-se também a realização de Audiências Públicas democráticas, inclusive no STF, para que as questões obscuras e ilegalidades do projeto sejam abertamente debatidas.
 
Uma das pendências a serem julgadas é a Ação Direta de Inconstitucionalida de 4113, que aponta desrespeito ao artigo 49 da Constituição Brasileira, que obriga a consulta ao Congresso Nacional em caso de empreendimento que envolve terras indígenas. Na bacia do São Francisco vivem 33 tribos e diretamente afetados pela transposição estão quatro povos - Truká, Tumbalalá, Pipipã, Kambiwá, cujos territórios ainda não foram completamente definidos. O Congresso jamais foi ouvido.
 
 ?A campanha traz a afirmação da relação espiritual e cultural que os povos indígenas têm com o rio?, explica o coordenador geral da APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo) e cacique dos Tuxás, Manoel Uilton Tuxá. Ele ainda afirma que a campanha é mais ampla: ?Os povos indígenas são contra todos esses grandes empreendimentos empresariais que estão sendo construídos ao longo da bacia e que há anos têm nos prejudicado?.
 
A reivindicação de Uilton é reiterada pelo Relatório-Denú ncia ?Povos Indígenas do Nordeste Impactados com a Transposição do Rio São Francisco?. O documento elaborado pela APOINME, em conjunto com outras organizações, com base em ?cartografias sociais? feitas pelas próprias comunidades, aponta várias agressões sofridas por estes povos ao longo dos últimos 50 anos, como as barragens. As obras do Eixo Norte começaram em terra comprovadamente Truká, ainda em processo de reconhecimento oficial. No Ceará, 90 famílias do Povo Anacé já foram expulsas de sua terra tradicional e alojadas em assentamentos para a construção do Centro Industrial Porto de Pecém, um dos empreendimentos a ser beneficiado pela transposição.  
 
As violações têm chamado a atenção de organismos internacionais. Em fevereiro, a Comissão de Especialistas na Aplicação de Convênios e Recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou relatório sobre a aplicação no Brasil da Convenção 169 da OIT, que trata dos direitos dos povos, etnias e comunidades tradicionais. A Comissão solicitou ao governo brasileiro esclarecimentos sobre a ausência de consulta aos povos indígenas e quilombolas em relação às leis e obras que os impactam, entre elas a da transposição. O Governo não deu resposta.
 
Por isso, sensibilizar a opinião pública internacional tem sido uma das estratégias. A viagem de D. Cappio, após a premiação, foi um primeiro passo. Estão sendo planejadas outras ações que culminarão em setembro, quando uma delegação com vários representantes denunciarão as violações e divulgarão o relatório-denú ncia na Europa. No Brasil, mobilizações e eventos estão sendo programados. O documento será lançado no seminário da APOINME, em Salvador, de 27 a 31 de julho e que reunirá 350 lideranças de 70 nações indígenas do Nordeste, de Minas Gerais e do Espírito Santo.   
 
 
Campanha tem apoio na Europa
 
As ações iniciais já começam a dar resultado. O respaldo que D. Luiz adquiriu na Alemanha e na Áustria facilitou. Ele se reuniu com parlamentares alemães, como a presidente da bancada do Partido Verde no parlamento alemão e Ex-Ministra de Agricultura, Renate Künast. Esteve em debate com o Ministro de Estado, chefe da Casa Civil, Thomas de Maizière e se encontrou com o relator especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Richard Falk.
 
D. Luiz divulgou a campanha e questionou os exageros da sociedade de consumo, por exemplo, o gasto excessivo de energia da sociedade alemã. ?A sociedade da abundância facilmente vira do desperdício?, dizia ele. Na ocasião também foi criticada a intenção do governo alemão de aumentar a porcentagem de etanol nos combustíveis para cumprir a meta estabelecida pela União Européia de diminuir em 10% o consumo de combustíveis fósseis. ?Falamos dos problemas sociais e ambientais que a expansão dos agrocombustíveis tem causado no Brasil e enfatizamos que o enfrentamento das mudanças climáticas tem que ser global, que eles também têm que rever o modelo e os padrões de consumo de energia?, explica o agente da CPT Bahia e coordenador do Projeto São Francisco, Ruben Siqueira, que acompanhou D. Luiz, ao lado da cooperante alemã da agência austríaca Horizont 3000, assessora do mesmo projeto, Andrea Zellhuber.  
 
 
A campanha foi divulgada na TV e em jornais locais. Cerca de 100 grupos, entidades, agências e ONGs alemãs e austríacas estão apoiando. Mais de 10.000 pessoas nesses países já se manifestaram enviando cartas para o Supremo Tribunal Federal e para o Governo Federal. ?Os grupos solidários conhecem bem a realidade brasileira e apoiaram de pronto a campanha?, comemora D. Luiz. 


 

BNDES é sócio de usina acusada de usar trabalho "escravo"

Jun 30 2009
Folha de S.Paulo
Eduardo Scolese da sucursal de Brasília

Participação do banco estatal chega a 20% da Brenco; instituição injetou R$ 1 bilhão na empresa


O governo federal recorreu à Justiça para incluir na "lista suja" do trabalho escravo a Brenco, empresa com 20% de seu capital nas mãos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Entre o fim de 2008 e o início deste ano, o banco injetou R$ 1 bilhão na empresa para a implantação de unidades de processamento de cana e plantação de lavoura em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Com isso, ganhou um assento no conselho de administração.
O aporte financeiro ocorreu meses após fiscais terem encontrado trabalhadores em situação degradante em Goiás e Mato Grosso. Nessa ação, no início de 2008 e direcionada à Brenco, foram registrados 107 autos de infração por violações à legislação, segundo o governo, como alojamento precário, falta de equipamentos de proteção e transporte irregular.
Comandada pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul, a Brenco é uma empresa brasileira, com investidores norte-americanos. A empresa diz que, até 2015, investirá R$ 5,5 bilhões na implantação de dez unidades, o que lhe permitirá uma capacidade de moagem de 44 milhões de toneladas por safra.
A empresa, que nega as acusações (leia texto ao lado), entrou na Justiça e conseguiu, no mês passado, uma liminar da 12ª Vara do Trabalho de Brasília que impede o ministério de incluí-la no cadastro.
Recurso
Por meio da AGU (Advocacia Geral da União), o governo recorreu. Neste mês, entrou com um recurso ordinário contra a sentença, que agora será analisada pela segunda instância da Justiça trabalhista. Criada em 2004 pelo Ministério do Trabalho, a "lista suja" dá publicidade a empresas e pessoas flagradas com trabalhadores em situação análoga à escravidão. O cadastro é renovado a cada seis meses, e o ministério quer incluir a Brenco na atualização do mês que vem.

Entre 1995 e junho deste ano, o grupo móvel de fiscalização, que reúne auditores do trabalho, procuradores e policiais federais, resgatou 33.903 trabalhadores em situação análoga à de escravo, num total de 829 operações e 2.307 fazendas. O Ministério Público do Trabalho e a empresa ainda negociam a assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Uma reunião está prevista para meados de julho.

O BNDES, órgão do governo federal que faz propaganda de sua cláusula social, diz que, antes de fechar qualquer contrato, checa a lista do ministério. Caso a inclusão no cadastro ocorra em meio à vigência do financiamento, o banco afirma que pode suspender o desembolso. Sobre a Brenco, diz que não havia nenhuma sentença definitiva contra a empresa no momento da assinatura do contrato, em agosto do ano passado, quando aprovou o financiamento de R$ 1,2 bilhão.
Nos últimos dias, o BNDES passou pelo constrangimento de ter seu nome incluído em denúncias de desmatamento na Amazônia.

Outro lado: Para empresa, inclusão em lista "suja" é indevida da sucursal de Brasília

A Brenco nega a prática de trabalho escravo e diz que, por avaliar indevida a acusação do Ministério do Trabalho, foi à Justiça para impedir a inclusão de seu nome na "lista suja".

"A sentença confirmou a liminar, determinando que essa inclusão somente ocorra se, esgotadas todas as possibilidades de discussão dos autos de infração aplicados, inclusive na esfera judicial, estes sejam julgados subsistentes", afirma a assessoria de comunicação da empresa.

Ao negar práticas ilegais, a empresa diz que "se pauta pelas mais rigorosas práticas de governança corporativa e pela valorização das pessoas e sempre ofereceu excelentes condições de trabalho."

O BNDES, também por meio de sua assessoria, afirma que, para obterem financiamento do banco, todas as empresas têm de "observar a legislação relativa à utilização de recursos públicos, sobretudo no que diz respeito às questões trabalhistas, ambientais e fiscais".

O banco do governo federal diz ainda que, em agosto do ano passado, quando foi assinado o contrato de financiamento com a empresa, e, no início deste ano, quando foi liberada a maior parte dos recursos, "a legislação foi observada pela beneficiária".

De acordo com o BNDES, o contrato pode ser rescindido caso ocorra uma condenação definitiva na Justiça.


HOJE TERMINA O PRAZO PARA O VETO DE LULA - CONTRA A MP458

26/06/2009


O Presidente Lula tem só até esta quinta-feira para vetar partes da MP que irá privatizar a Amazônia. A pressão popular é fundamental nestes momentos decisivos até a MP ser assinada. Clique abaixo para enviar uma mensagem para o Lula, vamos mostrar pra ele que os brasileiros se importam com a Amazônia!


Mande uma mensagem pro Lula agora! <http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final/?cl=259940437&v=3533>


Nós só temos dois dias para salvar milhões de hectares da Amazônia do desmatamento e destruição: está quinta-feira é o prazo final para o Presidente Lula decidir se vai vetar alguns pontos da Medida Provisória que irá privatizar partes da Amazônia pertencentes à União.

Duas semanas atrás a Avaaz enviou um alerta sobre a Medida Provisória (MP) 458 e mais de 14.000 pessoas congestionaram as linhas telefônicas do Gabinete Presidencial pedindo o veto das partes mais perigosas da MP. Dentro de 48 horas o Presidente declarou publicamente que iria vetar os pontos criticados pela campanha. Porém, desde então o Presidente tem sofrido uma forte pressão da bancada ruralista do governo, fazendo declarações preocupantes sobre o desenvolvimento da região Amazônica.

Nós temos menos de dois dias para persuadir o Presidente a manter a sua palavra. Neste momento crítico em que o Lula está decidindo o que vetar, a pressão popular poderá ter um papel decisivo para a proteção da Amazônia. Clique abaixo para enviar uma mensagem para o Lula AGORA, leva só dois minutos
para registrar a sua participação:

http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final <http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final/?cl=259940437&v=3533> 

A Medida Provisória 458 não é toda ruim, ela foi concebida para proteger pequenos agricultores que precisam do título legal das terras que ocupam. Porém, a MP foi manipulada pelos interesses do agronegócio, muitos dos quais são responsáveis pela ocupação violenta e ilegal de terras amazônicas. Se a MP for assinada na sua forma atual, os que mais tem serão os maiores beneficiários do programa do governo.

Nossas apelo para o Lula é:

1.        Vetar a ocupação e exploração ?indireta?, para que apenas as pessoas que moram nas terras tenham suas propriedades regulamentadas
2.        Vetar regularização para empresas privadas, somente pessoas físicas devem ter direito à regularização
3.        Proibir a comercialização das terras regularizadas por 10 anos, ao invés dos propostos 3 anos, evitando assim a especulação comercial das terras

Se milhares de pessoas enviarem uma mensagem, poderemos garantir a preservação de uma vasta área da floresta. Clique aqui para enviar uma mensagem para o Presidente Lula, usando a ferramenta do nosso site:

http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final <http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final/?cl=259940437&v=3533> 

O destino da Amazônia será definido dramaticamente até o final desta semana. Certamente está não será a nossa batalha final para defender a Amazônia, mas é uma batalha importante. Vamos manter a pressão e mostrar para o Lula que os brasileiros se importam com a Amazônia!

Com esperança e convicção,

Alice, Graziela, Ben, Ricken, Luis, Paula, Pascal, Iain, Paul, Brett, Ben, Raj e toda a equipe Avaaz

Leia mais sobre o assunto:

Lula ainda não decidiu sobre veto à MP da Amazônia:
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/18/lula-ainda-nao-decidiu-sobre-veto-mp-da-amazonia-756409274.asp

Lula adia prazo de decisão sobre polêmica lei de terras:
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1199964-5602,00-LULA+ADIA+PRAZO+DE+DECISAO+SOBRE+POLEMICA+LEI+DE+TERRAS.html

A MP 458 e o futuro da Amazônia:
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/06/10/a-mp-458-o-futuro-da-amazonia-194228.asp

Lula lança em MT programa para regularizar terras na Amazônia:
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,lula-lanca-em-mt-programa-para-regularizar-terras-na-amazonia,389988,0.htm

Lula defende medida que regulariza terras:
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2552106.xml&template=3898.dwt&edition=12561§ion=1007




MAIS UM LÍDER CAMPONÊS É ASSASSINADO

Na manhã do ultimo dia 15.06.09, foi encontrado o corpo do líder camponês Luiz Lopes de Barros, nas proximidades da área Jatobá, região da Batente, Município de Conceição do Araguaia. Havia marcas visíveis de 01 tiro na cabeça e outro no corpo. Tudo indica tratar-se de crime executado por encomenda, pois nenhum objeto foi subtraído, tendo sido deixada a moto e seus documentos pessoais, ao lado do corpo.

Luiz Lopes era membro da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização de trabalhadores rurais presente no Sul do Pará e em algumas outras regiões do País. Nesta região, a LCP estava à frente de algumas ocupações, dentre as quais, a Fazenda Batente, Forkilha e Jacutinga, dentre outras.

Luiz Lopes era um dos lideres do Acampamento União Batente, Município de Conceição do Araguaia, organizado desde maio de 2005 por aproximadamente 100 famílias, na Fazenda Batente, onde morava como posseiro. O INCRA já desapropriou a área e o Projeto de Assentamento está em fase de criação.

No entanto, durante o processo de luta pela conquista desta terra ocorreram muitos conflitos violentos, inclusive com tiroteios, ameaças de morte e até o assassinato do lavrador Marcos José Pereira, havendo fortes indícios de que foi conseqüência desse clima conflituoso.

Outro episodio violento ocorreu em novembro de 2007 na Fazenda Forkilha, Município de Santa Maria das Barreiras, então ocupada pela LCP, onde ocorreu a “Operação Paz no Campo”, executada pelas Policias Civil e Militar, tendo havido a desocupação forçada, prisão, detenções arbitrárias e tortura de muitos trabalhadores.

A LCP tem divulgado a ocorrência de mais de 10 assassinatos de trabalhadores envolvidos nessa ocupação da Fazenda Forkilha.

A CPT registrou 15 assassinatos de trabalhadores rurais, ligados à luta pela terra, no Sul do Pará, nos últimos 4 anos. Em quase todos os casos foram instaurados inquéritos policiais, mas até agora ninguém foi penalmente responsabilizado, prevalecendo a impunidade, que tem marcado os assassinatos de trabalhadores rurais na região.  

Na sua atuação na luta pela terra no Sul do Pará, Luiz Lopes também já havia sofrido ameaças de morte. Por isso, a hipótese bastante provável é de que o crime tenha sido motivado pela questão agrária. 

Diante desse crime violento exigimos apuração rigorosa para que sejam identificados, processados e responsabilizados os seus executores diretos e indiretos, pois a continuidade da violência está diretamente relacionada à impunidade e ao não avanço da reforma agrária no País. 

Xinguara-PA, 19 de junho de 2009

Comissão Pastoral da Terra do Sul e Sudeste do Pará.

 


"Aí chamei o Jaime do Pacu": leia íntegra de Lula sobre Amazônia

Local: São Paulo - SP
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br
23/06/2009


Em longo discurso no Paraná, o presidente Lula expôs ontem sua visão a respeito da Amazônia e de temas relacionados com desenvolvimento e meio ambiente.  Entre outras observações, o presidente contou os bastidores da maneira em que se envolveu pessoalmente no licenciamento das usinas do rio Madeira, revelando ter chamado um amigo dele, criador de pacu em Campo Grande, para ajudar a superar os problemas ambientais.  O site Amazonia.org.br julga oportuno publicar o pronunciamento na íntegra, abaixo, sem edição.

"Na última sexta-feira, eu fui ao Mato Grosso e foi lá que eu disse a frase “que não era possível chamar de bandido aqueles que na década de 70 desmataram, porque a ordem e a palavra de ordem e o financiamento era para desmatar”.  Quem não lembra, quando o Geisel levou milhares de gaúchos, não sei se paranaenses, para a Amazônia, para desmatar.  Agora, preste atenção, nós também temos que olhar em função da realidade de cada região deste país.  Você não pode pegar um estado que tem a agricultura pronta, que desmatou na década de 30, na década de 40, 50, 60, e dizer: Agora vamos botar tudo, acaba com tudo, vamos replantar tudo o que tinha antes para a gente começar de novo.  Assim não vale.

O que nós temos que fazer?  Primeiro, eu tenho discutido com o ministro Reinhold Stephanes e nós precisamos ter políticas de florestamento neste país.  Nós temos milhões de hectares de terras degradadas, que nós precisamos ter uma política.  Da mesma forma, sabe, que nós queremos preservar, nós temos que pagar para preservar, nós temos que pagar para a pessoa preservar a sua terra.  E nós temos que pagar para as pessoas plantarem.  Se um (incompreensível) a gente pagou... Eu estava vendo porque em Nova Iorque... é engraçado, quando as coisas acontecem no exterior é tudo bonito.  Esses dias, eu estava vendo o Globo Rural e estava passando a água de Nova Iorque.  E a Prefeitura de Nova Iorque, ela paga para que o produtor não tenha uma pocilga no riacho.  Ela paga para ele fazer um tanque bem distante, ela paga para que a vaca não atravesse no riachinho para a água chegar limpa, lá em Nova Iorque.  A Prefeitura paga.

Nós, aqui no Brasil, apenas proibimos.  E vocês já viram aquelas plaquinhas nas gramas: é proibido pisar?  É uma provocação para a gente pisar.  É uma provocação.  Então eu penso que ao invés de a gente ficar apenas tentando proibir, é preciso que a gente tenha imaginação fértil, coloque a nossa criatividade para funcionar para a gente saber o seguinte: é inexorável, este país finalmente vai ser o celeiro do mundo, é inexorável.  Porque tem mais chinês comendo, tem mais africano comendo, mais brasileiro comendo, mais indiano comendo, o mundo está comendo mais.  E quando você olha o mapa do mundo, você percebe que não tem um país que tem a quantidade de terra pronta para agricultura como tem o Brasil, que tem sol o ano inteiro, que tem chuva, que tem uma série de coisas, tecnologia de ponta.

Lógico que nós não estamos sozinhos.  Nós temos inimigos, nós temos adversários, nós temos gente que vai lá fora dizer que a nossa carne não presta.  Nós temos gente que vai dizer que a nossa soja é isso, que nosso milho é aquilo, que nosso etanol é o responsável pelo encarecimento do alimento.  Não pense que isso é de graça.  Esse é um discurso ideológico dos nossos adversários.  Por que a Shell tem interesse em que a gente produza mais álcool?  Por que a Esso tem interesse em que a gente produza biodiesel?

A Dilma sabe, nem a Petrobras gostava da ideia.  Para a gente colocar o programa do biodiesel foi quase uma imposição do governo, já que somos nós que indicamos os companheiros da Petrobras para a diretoria.  Ora, imaginem uma coisa: vocês todos aqui sabem porque o Brasil criou o Pró-Álcool, todo mundo sabe.  Não foi nenhum ato de genialidade.  Sobretudo o Reinhold Stephanes sabe perfeitamente bem.  Nós tínhamos o açúcar com o preço extraordinário no mercado internacional, na década de 70.  Todo mundo “danou” a plantar cana neste país, e sobretudo no estado de São Paulo, aí o preço do açúcar despenca.  O que vai fazer com o álcool ou com a cana-de-açúcar?  Graças a Deus se pensou em fazer o Pró-Álcool.  Até 1990, a gente teve quase toda a frota de carro brasileiro a álcool e as pessoas não gostavam.  Aqui em Londrina deveria ser assim, porque dizem que quando estava muito frio o “desgramado” demorava para pegar, então as pessoas não gostavam.  Mas nós tivemos quase 90% da frota a álcool.  De 90 a 2000 desmontou tudo.

Outro dia falaram que eu estava elogiando usineiros, porque eu disse que eles estão sendo tratados com cidadania hoje, porque até outro dia eram tratados como os bandidos da indústria brasileira.  Falar de usineiro, ninguém queria saber, porque era aquele negócio de só tomar dinheiro emprestado do governo, não pagar, não prestar conta, era uma loucura aquilo.  O que está acontecendo hoje neste país?  Depois que o álcool deixou de ser combustível para carro e a indústria automobilística não produzia mais nenhum carro, nós fizemos um pacto.  E o que resultou deste pacto?  Noventa e oito por cento dos carros vendidos no mercado interno hoje são carros flex fuel.  Eles utilizam álcool, ou gasolina, ou meio a meio, a gente faz a mistura que a gente quiser.  E temos que produzir mais, porque nós precisamos disputar o etanol é no mercado externo, porque eles assinam o Protocolo de Quioto, porque eles assinam “mais não sei o que lá”.  Protocolo, agora, vai ter um outro de Copenhague.  E querem que a gente preserve as nossas florestas.  Nós vamos preservar.  Agora, não metam o dedo sujo de combustível fóssil no nosso combustível limpo, não metam.  Deixem que a gente vai saber cuidar disso com muito carinho.  E, para isso, nós estamos fazendo o zoneamento agroecológico.

Obviamente, eu tenho dito também que hoje a gente preservar, manter o nosso ecossistema e manter a biodiversidade é uma vantagem comparativa para nós na disputa no mercado internacional.  Quem viaja o mundo para comercializar sabe que preservar hoje é uma vantagem comparativa para nós.  É mais qualidade, é mais respeito.  Porque não pensem que nós estamos sozinhos.  A campanha no mundo é uma campanha muito dura.  Eu, inocente, eu fui a Genebra da outra vez, o ano passado, quando eu cheguei lá me chamaram para um debate, a primeira coisa que eu ouço é que o etanol brasileiro era o responsável pelo preço da soja em maio e em junho do ano passado, quando subiu de forma excepcional; pelo preço do feijão, que não é nem exportado.

Aí, nós temos que pegar o mapa do Brasil, mostrar que apenas 1% do território brasileiro é utilizado cana-de-açúcar, que nós temos 360 mil de terras na Amazônia que estão preservadas, que nós temos 60 milhões de hectares para recuperar.  E é preciso contar toda uma história.  Porque quando vem uma Primeira-Ministra alemã no Brasil, conversar comigo, a primeira coisa que ela quer saber é: “como é que anda a Amazônia?  A soja está tomando conta da Amazônia?  O gado está tomando conta da Amazônia?  O milho está tomando conta da Amazônia?  A cana...” Ou seja... E eu, educadamente, não pergunto para ela: se você está tão preocupada em preservar, por que “depelou” o seu país?  Por que não manteve as florestas em pé lá?

Agora, tem uma coisa que é importante para nós.  Hoje, nós temos que aproveitar que nós temos essa extraordinária floresta tropical em pé para fazer dela uma forma de ganhar dinheiro.  Eu, inclusive, Requião, estou criando, acho que você... não sei se a Copel já criou, estou criando uma Secretaria Especial de Crédito de Carbono, porque cada projeto de uma usina que a gente fizer, cada projeto de uma empresa de biodiesel que a gente fizer, cada hidrelétrica que a gente fizer, a gente pode entrar com um pedido para que eles paguem o sequestro de carbono que nós vamos fazer e a diminuição da emissão de gás de efeito estufa.  O que nós precisamos é nos preparar para esse enfrentamento.  Porque, daqui a pouco, vai ter neguinho dizendo: “A Amazônia é internacional”.  A Amazônia é de brasileiros e brasileiras, de negros e brancos.

Então, eu acho que nós precisamos ficar atentos.  Nós precisamos ficar atentos nesse debate, que ele é muito delicado.  Ele é muito delicado.  Inclusive para empréstimo de dinheiro a empresas brasileiras, temos (incompreensível) de financiamentos multilaterais.  Eles vão criando o gado e nós temos que fazer as coisas certas para que a gente tenha vantagem.

Obviamente, veja, eu acho um absurdo as pessoas derrubarem a mata ciliar.  Eu acho um absurdo, porque qualquer criança de escola, no ensino fundamental, já tem consciência que se a gente “depelar” até a beira do rio vai ter erosão, consequentemente aquele rio, logo, logo, vai deixar de ser perene, com prejuízo para todo mundo.  E nós não temos o direito...

Eu, agora, fui jogar peixe na represa Billings e, depois de um teste feito pelo Ministério da Pesca, eu não posso criar peixe lá, sabe por quê?  É o único lugar que eu tenho para pescar quando eu não for mais Presidente, é a Represa Billings, lá em São Bernardo do Campo.  Ela tem 123 quilômetros quadrados.  Agora, só uma pergunta: qual foi o engraçadinho que achou que era dono do País, pegou chumbo – uma empresa de mercúrio, melhor – e poluiu a empresa [represa] toda de mercúrio.  A gente não pode comer um peixe melhor, porque o peixe come mercúrio que está no fundo da lama.  Olha, com que direito o cidadão, por ser empresário, tem o direito de poluir um bem coletivo de toda uma cidade ou de toda uma região?  Não é possível nós aceitarmos isso como se fosse desenvolvimento.  Isso é um retrocesso.

Então eu penso que hoje nós não precisamos mais ideologizar esses temas e sentar em torno de uma mesa e discutir como é que a gente faz e melhor.  Eu estou vendo aqui os nossos premiados.  E eu lembro como se fosse hoje, a Dilma participou quando nós fomos aprovar o projeto da hidrelétrica do Rio Madeira, Santo Antônio e Juruá... Jirau.  A briga, vocês não queiram imaginar, não queiram imaginar o que nós perdemos de meses discutindo os grãos de areia que estavam no fundo do rio.  Não queiram imaginar.  Precisamos contratar o melhor professor do mundo nessa matéria, que era um indiano que veio dos Estados Unidos, me entregou um pote de areia de fundo do mar para mostrar como é que a areia corria, que não ia fazer isso, que não ia fazer aquilo.

Quando nós resolvemos o problema da areia, me chega outro e diz dos peixes, que tinha muito bagre e que os bagrinhos não iam conseguir nadar, para represar lá nos Andes, aquele negócio todo.  Eu me comprometi, quando deixar a Presidência, comprar uma canoa, pegar os bagrinhos, colocar na canoa, levar do outro lado e trazê-los de volta.  Não, não.

Quando a pessoa, Requião, estava falando que a gente não podia fazer hidrelétrica por causa dos bagres, eu perguntei: que bagres?  Talvez ela não tivesse lembrado, mas ela não conhecia um nome de um bagre.  E eu falei: é o mandi-chorão que você está falando?  É o bagre africano?  É o pintado?  É a pirarara?  É o cachara?  Ou seja, porque, na verdade, era uma coisa muito teórica.  E eu peguei um companheiro nosso, Requião, lá de Campo Grande, o Jaime, do projeto Pacu, que é o maior criador de peixe hoje, em cativeiro, no Brasil, e ele cria todos esses bagres lá no rio Madeira, onde a gente está fazendo a hidrelétrica, em cativeiro.  E eu tenho lá no lago do Alvorada, não no lago grande, o lago pequeno lá dentro, eu tenho peixe de 20 quilos.

Então, conseguimos.  Conseguimos finalmente.  Quando estava tudo pronto apareceu alguém para dizer o seguinte: olha, mas não pode porque tem uma poça d’água lá que tem mercúrio e não pode fazer hidrelétrica.  Tivemos que pegar o Ministério da Saúde e colocar uma equipe para ir lá.  Ficava mais barato assentar as famílias em um prédio de cobertura em Copacabana do que não fazer hidrelétrica.  Tivemos que mostrar que não tinha.  Finalmente nós começamos as duas hidrelétricas.

Eu estou dizendo isso para vocês porque quando a gente reforça a carga ideológica no debate... hoje a gente não deve ficar debatendo se é preciso desmatar ou não desmatar.  É correto que a gente desmate o que for necessário, e que a gente cumpra determinadas regras.  Porque também, vamos ser francos, a gente aqui não sente muito, mas às vezes um cidadão do Sul do País ir lá para o Acre, comprar uma quantidade de terras que ele não conhece, chega lá, contrata 50 jagunços, manda tocar fogo, toca fogo em tudo, pensando que vai dar capim, e nem capim vai dar.

É preciso que tenha o estudo do solo correto, é preciso saber se aquilo vai produzir alguma coisa.  Porque nós somos um país civilizado, e hoje o Brasil não é um país marginal.  Hoje ninguém fala mais que o Brasil é um país pobre, é um país de terceiro mundo.  Hoje, este país é convidado para participar do G-8, do G-20, do G-14, do G-13, do G-5, ou seja, este país tem importância política.  E isso aumenta a nossa responsabilidade.  Aumenta a responsabilidade de um trabalhador humilde, de um trabalhador sem-terra e do maior fazendeiro deste país.  Aumenta.  Todos nós vamos ter que ter mais responsabilidade, para que a gente utilize a tecnologia para ela substituir a quantidade de terra que nós precisamos para fazer as coisas.

Hoje, a gente deve se lembrar sempre, de vez em quando alguém fala: “O preço da carne está barato”.  Mas é importante lembrar que teve um tempo que a gente demorava 48 meses para abater um boi.  Hoje, com 18 meses a gente está abatendo, se for criado corretamente.  Antigamente a gente colhia uma quantidade de produto por hectare que hoje a gente está colhendo dez vezes mais.  Tudo isso é lucro, tudo isso é vantagem do Brasil na competitividade.

Vocês sabem que outro dia eu perguntei para o Furlan quanto tempo demorava um frango.  Pouco tempo atrás era 90 dias para matar um frango, hoje já está com menos de 40 dias, daqui a pouco ele nem nasce, a gente já pega ele do ovo e já come, tal é a rapidez do avanço tecnológico.

Então, companheiros, nós precisamos, neste momento, é mais sabedoria do governo.  Eu estava cansado.  Eu estava cansado de ver a briga, porque governo é que nem mãe.  Vocês já viram uma mãe, quando tem dois filhos que querem a mesma coisa, ou seja, que querem coisas diferentes?  Um fala: “Eu quero ir para Nova Iorque”.  O outro fala: “Eu quero ir para Londrina”.  A mãe está em São Paulo, ou está em Pernambuco, ou seja, quem que a mãe atende?  Ela não vai poder privilegiar um, ela vai ter que convencer e tentar mediar, para que a gente... pode não ir a Londrina, ou a Nova Iorque, mas a gente vai em algum lugar."

 

22 de junho de 2009
Comissão Especial da PEC 047/2003 é composta na Câmara dos Deputados


A Comissão Especial que vai apreciar a Proposta de Emenda à Constituição nº 047, de 2003, do Senado Federal, está formada na Câmara dos Deputados, todos os partidos indicaram seus representantes.
A PEC "altera o art. 6º da Constituição Federal, para introduzir a alimentação como direito social". A Comissão ainda precisa ser instalada pelo Presidente da Câmara, Michel Temer.
Conheça os deputados da Comissão Especial

Assessoria de Comunicação
(61) 3411.3349 / 2747
www.presidencia.gov.br/consea
[email protected]
.gov.br

COMANDANTE DE MASSACRE SERÁ JULGADO PELO STJ, NO DIA 23

Justiça Global
22/06/2009

No próximo dia 23 de junho, depois de mais de três anos de espera, será julgado pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, o recurso apresentado pelo Coronel Mario Colares Pantoja, um dos comandantes do Massacre de Eldorado de Carajás, que tem por objetivo a anulação do julgamento no qual ele foi condenado 228 anos de prisão.

O único e absurdo argumento por ele apresentado é o de que teria havido nulidade do julgamento por deficiência na formulação dos quesitos apresentados ao corpo de jurados, o que não passa de uma ficção jurídica, criada para tornar a impunidade definitiva.

No dia 17 de abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, nas proximidades do município de Eldorado do Carajás, num trecho da rodovia PA 150, no local denominado de curva do "S", 155 policiais militares, dividos em duas tropas, cercaram e atacaram com armas de fogo uma manifestação de trabalhadores rurais sem terra que bloqueavam a estrada para reivindicar a realização da reforma agrária.

Estes fatos ficaram gravados na memória do povo brasileiro e de todo o mundo como o massacre de Eldorado do Carajás.

Seis trabalhadores rurais foram assassinados com disparos de armas de fogo durante a operação militar de desobstrução da pista da rodovia. Após a desobstrução e encerrada a missão dos policiais, foram executados sumariamente ainda outros treze trabalhadores, que estavam feridos e inconscientes na pista e outros que, conscientes, não tinham mais condições de locomoverem-se, em função de ferimentos de bala nos pés e pernas. Restaram 19 trabalhadores rurais mortos, 69 feridos e, dentre estes, três faleceram alguns meses depois em razão das seqüelas produzidas pela brutal violência.

Passados treze anos de uma das mais veementes exemplos da impunidade que cerca os crimes cometidos no país contra os trabalhadores rurais, nenhum dos responsáveis pelo massacre foi efetivamente punido.

Tudo foi feito para que os responsáveis restassem impunes.

No dia do massacre, os corpos foram retirados do local antes da chegada da perícia. Não foram realizados exames de resíduos de pólvora nas mãos dos policiais militares para verificar quem havia efetuado os tiros. Tampouco foram recolhidas as armas dos políciais para averiguação de qual arma, sob o poder de qual policial foi responsável pela morte de cada um dos 19 trabalhadores vitimados. Antes de tudo, como tudo já havia sido planejado, os Policiais Militares sairam de seus batalhões sem as indentificações que deveriam ostentar em suas fardas.

Em sede judicial, evidenciou-se também de maneira farta o conluio para a impunidade.

O juiz Ronaldo Valle, presidente dos primeiros julgamentos realizados pelo Tribunal do Júri de Belém/Pará, em agosto de 1999, deixou que ocorressem inúmeras violações ao procedimento legal, tendo como mais grave a permissão para que um dos jurados manifestasse em público, durante a sessão, sua opinião sobre a ausência de culpa dos polícias pelo massacre.

Ao final da primeira sessão que levou a julgamento os comandantes do massacre, com evidente interesse em prejudicar a compreensão dos jurados, o juiz formulou de forma confusa as perguntas a eles dirigidas, culminando na absolvição do coronel Mário Colares Pantoja,  do major Maria José Oliveira e do capitão Raimundo Almandra Lameira.

No ano 2000, em razão dessas nulidades, o Tribunal de Justiça do Pará anulou o julgamento, o juiz Ronaldo Valle pediu afastamento do caso e dentre os 18 juízes da Comarca de Belém, 17 declararam-se impedidos de presidir o julgamento, alegando serem favoráveis aos Políciais e contrários ao MST.

Porém, aceitando presidir o julgamento sob a alegação pública de não ter medo do MST, a juíza Eva do Amaral Coelho marcou nova sessão de julgamento dos comandantes para o mês de julho de 2001, determinando que fosse retirada do processo a principal prova da acusação, um laudo do perito Ricardo Molina, da Universidade de Campinas, demonstrando que os primeiros disparos foram feitos pela PM, e não pelos sem-terra.

O Ministério Público e os assistentes da acusação se insurgiram contra essa determinação, o júri foi adiado para o mês de maio de 2002 e houve determinação do afastamento da Juíza.

Indicado o juiz, Roberto Moura para presidir o caso, este decidiu por julgar, em apenas cinco sessões, 144 policiais militares, e houve inúmeras denúncias de testemunhas que sofreram ameaças.

Ao final dos julgamentos, apenas o Coronel Pantoja e o major Oliveira foram condenados. Receberam a pena de 228 anos de prisão, mas obtiveram o benefício de recorrer em liberdade. Ambos apresentaram recurso de apelação ao Tribunal de Justiça do Pará, que lhes negou os pedidos. Ambos também recorreram ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal e aguardam em liberdade o julgamento desses recursos.

Por todas essas razões, conclamamos a todos/as que se manifestem, enviando ao Ministros integrantes da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça e à Ministra Relatora, pedido para que seja mantida a condenação do Coronel Mario Pantoja, com o que se dará mais um passo rumo à realização da justiça.



MPF indicia fazendas de Dantas por desmatamento ilegal

02/06/2009

Nesta segunda-feira (1/6), o Ministério Público Federal indiciou 21 fazendas localizadas no Pará, por prática de desmatamento ilegal. A maioria das fazendas não possui licenciamento ambiental e são destinadas à criação de gado. Uma das propriedades ocupa terras indígenas.

Dez das fazendas indiciadas pertencem à Agropecuária Santa Bárbara, empresa do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Dentre elas está a fazenda Espírito Santo, onde no mês de abril deste ano seguranças contratados pela agropecuária atiraram contra um grupo de Sem Terra, ferindo gravemente um trabalhador.

Outra fazenda pertencente ao grupo do banqueiro e indiciada é a Rio Tigre, conhecida por também figurar na lista suja do trabalho escravo. Em meados de julho de 2004, a propriedade, localizada em Santana do Araguaia (PA), recebeu a visita do grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que libertou 78 trabalhadores.

Ainda fazem parte da lista dos desmatadores fazendas da família paulista Quagliato e do grupo agropecuário Bertin. Confira a relação de indiciados:
--   Secretaria Geral  Escritório Nacional do MST/RJ  Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ  Fone: (21) 2240.8496 

BRENCO RECORREU A "GATO" NA ÉPOCA DE PLANTIO DE CANA PARA ETANOL

Repórter Brasil
Por Maurício Hashizume

25\05\2009

Cópia de contrato revela acordo formal entre companhia sucroalcooleira e "João Paracatu", conhecido aliciador de mão-de-obra em Goiás.

Pagamento de "gato" consistia em 10% do valor total de produtividade dos "recrutados"

À frente de investimentos nacionais e internacionais bilionários para a produção de etanol e de agroenergia no Brasil, a empresa Brenco - Companhia Brasileira de Energia Renovável contratou o "gato" João Pereira da Silva, vulgo "João Paracatu", em janeiro do ano passado, com a finalidade de "assessoria no recrutamento de 240 trabalhadores rurais" e de "assessoria na contratação e transporte dos empregados da Brenco" até fazendas na região de Mineiros (GO) para o plantio de cana-de-açúcar no início de 2008.

Em fevereiro de 2008, 17 dos trabalhadores "recrutados" por "João Paracatu" para a Brenco, presidida por Henri Philippe Reichstul (ex-Petrobras), foram encontrados em condições análogas à escravidão em Campo Alegre de Goiás

(GO ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1303 ), conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Cópia obtida pela Repórter Brasil do "Contrato de prestação de serviços de recrutamento de mão-de-obra" revela a recompensa do "gato": 10% do valor total de produtividade dos trabalhadores por "aliciados" a cada mês, acrescido do descanso semanal remunerado (DSR). O documento estampa a validade prevista do acordo: cinco meses - de janeiro até o
final de maio de 2008.

Assinado entre as partes, avalizada pelo "Jurídico" da Brenco com carimbos e vistos em todas as dez páginas e autenticado junto ao 2º Tabelionato de Notas e Anexos de Mineiros (GO) em 10 de janeiro de 2008, o contrato serve como prova da ligação entre a poderosa e capitalizada empresa do agronegócio - que captara US$ 200 milhões junto a fundos e investidores em 2007, foi contemplada com financiamento de R$ 1,2 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em agosto de 2008 e que pretende construir um alcooduto de 1,1 mil km até o Porto de Santos (SP) - e o conhecido "gato" com intensa atuação em Goiás, envolvido em casos pregressos de trabalho escravo ocorridos na mesma e em outras regiões do estado.

Objeto do contrato aparece já na primeira folha: recrutamento de 240 pessoas para plantio de cana

"Esse contrato é aberrante: trata o trabalhador como uma mercadoria", classifica Antonio Carlos Cavalcante Rodrigues, do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Goiás, que fez parte da equipe comandada pela auditora Jacqueline Carrijo que resgatou os 17 trabalhadores "recrutados" por "João Paracatu" para a Brenco.
Na avaliação do procurador, os termos do contrato violam artigos da Constituição Federal (inclusive o art. 1º, que trata da dignidade da pessoa humana;), da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) (como o art. 9º, que versa sobre atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na CLT) e incorrem em crimes previstos no Código Penal (art. 203, frustração de direito assegurado por lei trabalhista, e art. 207, aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional), sem contar o descumprimento de convenções internacionais assinadas pelo Brasil.

Em resposta à Repórter Brasil, a Brenco se limita a alegar que contratou "João Paracatu", notório "gato" da região, "para que este auxiliasse na divulgação das oportunidade de emprego disponíveis". A empresa foi advertida pela reportagem de que a afirmação de que o contratado seria apenas um "divulgador de vagas" contrariava os próprios termos do contrato, mas preferiu não dar explicações adicionais.

Confirmou ainda que "não tinha qualquer conhecimento dos atos do Sr. João Pereira da Silva ["João Paracatu"] , nem tampouco poderia saber da existência de inquéritos policiais e civis contra o mesm o".

  A segunda página traz o serviço complementar previsto no acordo entre Breno "João Paracatu"

Em agosto de 2004, outra equipe do grupo móvel do MTE libertou 84 de propriedade da Agromen Sementes, também em Campo Alegre de Goiás (GO). O gato envolvido no caso era "João Paracatu", que aliciara dezenas de trabalhadores para um condomínio informal de patrões. Outros problemas de exploração criminosa de trabalhadores envolvendo o mesmo "gato" foram registrados em municípios como Catalão (GO) e Luziânia (GO).

"João Paracatu" é tão atuante em Goiás que o procurador Antonio Carlos protocolou a Ação Civil Pública 346/2009 que pede a Justiça do Trabalhoara o procurador, "não há que se olvidar acerca da responsabilização do ´gato´ João Paracatu, o qual, contrariando garantias mínimas de higiene, conforto, alimentação e respeito à pessoa do trabalhador, maneja, inescrupulosamente, mão-de-obra por todo o Estado do Goiás com o fito único de garantir-lhe lucro ao final de cada suposta empreitada".

A despeito do histórico do contratado e das evidências em contrário, a Brenco insiste em sustentar que "não contratou e nem contrata ´gatos´". "O termo ´gato´ é utilizado para definir a pessoa que seduz trabalhadores com falsas promessas a fim de levá-los a trabalhar em outra localidade. Além de falsas promessas, em alguns casos, há a cobrança de valores", observa a empresa sucroalcooleira. A empresa não vê a caracterização das "falsas promessas" e argumenta que "contratou os trabalhadores ainda nos seus locais de origem, registrando-os conforme determina a legislação e pagando-lhes salário
antes mesmo de ter início as atividades laborais".

"À época, por ser empresa desconhecida pelos trabalhadores rurais, a Brenco necessitou de auxílio na divulgação das oportunidades de emprego que seriam abertas para suas frentes de plantio no estado de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Cabe ressaltar que a Brenco só contrata trabalhadores diretamente, sem a utilização de intermediários para executar tal função, em locais previamente estabelecidos e comunicados à população com antecedência", adiciona a companhia sucroalcooleira.


"Recompensa" do "gato" pelos serviços prestados cresce de acordo com produção dos recrutados

Além do próprio contrato, os relatos das 17 pessoas encontradas pela fiscalização não confirmam tal ausência de intermediários. Migrantes do Maranhão, os trabalhadores rurais foram abordados ainda em 2007 por "João Paracatu" em Resfriado (GO), próximo à Cristalina (GO). Ele teria prometido salário de até R$ 900, além de plano de saúde, alojamentos adequados, roupas de trabalho e despesas de alimentação pagas pela empresa contratante, logo após a assinatura de contrato de trabalho.

Atraídos pelas promessas do "gato", eles chegaram a Campo Alegre de Goiás (GO) em 6 de janeiro de 2008. No dia seguinte, foram submetidos a exame médico para admissão e tiveram as carteiras de trabalho assinadas pela Brenco. Crentes no compromisso de representantes da empresa de que seriam levados para alojamentos na região de Mineiros (GO), permaneceram alojados pelo próprio "João Paracatu" em instalações precárias e improvisadas, sem acesso sequer à água potável para beber. Quase dois meses se passaram entre o anúncio dos funcionários da Brenco (7 de janeiro) e 27 de fevereiro de 2008, data em que os fiscais encontraram o grupo.

De acordo com o MTE, o alojamento tinha apenas um banheiro, sem nenhum tipo de higiene, que exalava odor extremamente fétido. Fiscais encontraram lixo espalhado dentro e fora dos quartos. Os alojados declararam que era comum a presença de ratos e insetos. Disseram ainda que o local já estava sujo quando chegaram e que nunca receberam produtos para fazer a limpeza. Não havia colchonetes p ara todos e nenhum armário: objetos de uso pessoal, víveres e restos de comida ficavam no chão. As refeições eram preparadas com um fogareiro a álcool, também no chão. A água para aplacar a sede vinha das torneiras dos tanques onde a roupa era lavada. Nos depoimentos, eles declararam ter passado frio, fome e sede. Pelo menos três dos resgatados confirmaram que um ajudante de "João Paracatu", conhecido como "Buiú", recolhera cartões bancários, extratos e senhas dos alojados, sob ameaça de não recebimento de salários. Temido por sua "fama" de "bravo", "João Paracatu" também teria dito que ninguém poderia fazer "bicos" por causa do risco de acidentes, que prejudicariam a empresa contratante (Brenco). Nos depoimentos à equipe fiscal, os "recrutados" foram assertivos em declarar que não foram embora de Campo Alegre de Goiás (GO) porque não tinham dinheiro para comprar as passagens.

A Brenco salienta que "não pode ser considerado trabalho escravo a existência de empregados que estavam em suas próprias casas, recebendo salário, ainda sem trabalhar, e aguardando o início das atividades de plantio". Indagada sobre o valor e a data exata dos pagamentos realizados aos 17 trabalhadores, a empresa responde apenas que os valores dos salários são "confidenciais". Um dos autos de infração aplicados pela fiscalização do Trabalho - Deixar de efetuar, até o 5º dia útil do mês subseqüente ao vencido, o pagamento integral do salário mensal devido ao empregado - entra em choque com a versão da empresa. O procurador Antonio Carlos recorda ainda que, no momento da fiscalização, não foram apresentados recibos dos salários.

Na visão da empresa, não há como caracterizar o caso como de trabalho escravo pelos seguintes motivos: houve o pagamento de salários; inexistiu regime de servidão por dívidas; não há qualquer registro de existência de segurança armada que impedisse ou restringisse o direito de ir e vir dos trabalhadores e/ou notícias de violências por parte da empresa ou seus prepostos; não se constatou a hipótese de isolamento de propriedade rural em relação a vilas; e não há notícia de
inacessibilidade aos pontos de acesso a transporte público, tanto que há relatos de alguns trabalhadores no sentido de que tiveram livre acesso a diversos pontos da cidade.

A ocorrência de exploração de trabalho degradante - uma das formas que caracterizam o trabalho escravo segundo o art. 149 do Código Penal - no caso Brenco é "cristalina" para o procurador Antonio Carlos. "As pessoas estavam num alojamento sem qualquer habitabilidade. E além da situação degradante, também houve aliciamento, comumente associado ao crime".


"João Paracatu" já havia sido flagrado em ação por outras fiscalizações do grupo móvel (Foto: MTE)
A companhia sucroalcooleira preferiu não se pronunciar especificamente sobre os sinais de participação ativa e de intimidação do "gato" mesmo depois da contratação dos trabalhadores. Evitou também comentar as graves denúncias de retenção de documentos bancários pelo preposto de "João Paracatu". Tampouco respondeu às perguntas sobre quantas pessoas foram contratadas por intermédio de "João Paracatu", quanto foi pago ao "gato" como porcentagem de produtividade do contingente por ele contratado e quantos outros intermediários como "João Paracatu" foram contratados para suprir a demanda de 3 mil trabalhadores rurais que participaram na época do plantio da cana para a Brenco.

Além da situação dos 17 em Campo Alegre de Goiás (GO), a fiscalização lavrou outros autos na mesma operação apontando problemas nos alojamentos Netinho 1 e Netinho 2, em Alto Taquari (MT), e nas pensões despreparadas e frentes de trabalho de plantação de cana-de-açúcar, em Mineiros (GO) ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1310 ). Na sequência, novos problemas foram detectados na acomodação dos pedreiros contratados por empresas terceirizadas que construíam os alojamentos da Brenco  ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1312 ).

Na Justiça
No último dia 11 de maio, a Brenco foi beneficiada por mandado de segurança preventivo proferido pela 12ª Vara do Trabalho de Brasília (DF). Na sentença, a juíza substituta Flávia Fragale Martins Pepino determina que a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE "se abstenha de incluir o nome da empresa (...) no ´Cadastro de Empregadores que tenham mantido trabalhadores em condições análogas à de escravo´ até que se tenham esgotadas todas as possibilidades de discussão dos autos de infração, inclusive na esfera judicial".
Com isso, mesmo antes de concluído o processo administrativo sobre os 17 trabalhadores de Campo Alegre de Goiás (GO), a Brenco obteve a prerrogativa de ficar fora da "lista suja". A Advocacia-Geral da União (AGU) já está entrando com recurso contra a decisão da juíza substituta.
Portaria do Ministério da Integração Nacional (MIN) de novembro de 2003 impede que agentes econômicos incluídos na "lista suja" do trabalho escravo recebam financiamento ou incentivo fiscal em estabelecimentos públicos federais de crédito e fomento ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=201 ). Além disso, as pessoas físicas e jurídicas que fazem parte do cadastro estão sujeitas a restrições econômicas por parte de mais de 180 companhias privadas e associações setoriais que aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo(http://www.pactonacional.com.br/ ).

A Brenco apresentou paralelamente na Justiça pelo menos outras 39 ações, em diversas Varas de Trabalho de Goiânia, que pedem a anulação dos autos de infração da referida operação . Vale ressaltar que, além da situação dos 17, um conjunto de irregularidades trabalhistas foi verificado nas frentes de trabalho do empreendimento de cana-de-açúcar propriamente dito.
Posicionamento da empresa busca esclarecer que as ações anulatórias dizem respeito aos autos de infração lavrados "sobre situações ocorridas em suas instalações, as quais, de forma alguma relatam fatos que atentam à dignidade dos trabalhadores, mas sim, situações pontuais, que foram imediatamente sanadas, em linha com as orientações do próprio Ministério do Trabalho, antes mesmo de finda a fiscalização".
No entanto, a companhia promove uma intensa ofensiva na Justiça para anular especialmente os autos do flagrante específico dos 17 trabalhadores, que são as peças-chave para punições administrativas e judiciais relacionadas à exploração de trabalho escravo. Para tanto, a Brenco se ancora no direito à "dupla visita", previsto para novos empreendimentos pela legislação trabalhista. Segundo a empresa, a fiscalização do trabalho, por conta desse dispositivo, deveria atuar de forma a orientar a empresa que está iniciando suas atividades na "primeira visita" e não agir de forma punitiva.
Em decorrência da intervenção da Advocacia-Geral da União (AGU), esses processos movidos pela Brenco estão sendo concentrados na Vara de Trabalho de Mineiros (GO). Mas em pelo menos dois casos, magistrados da capital goiana deram sentenças quase concomitantes negando o pedido da empresa de anulação dos autos de infração.

Comida era feita em fogareiro a álcool que ficava no chão do alojamento precário (Foto: MTE)

Em sentença datada de 10 de abril de 2009, o juiz Eduardo Tadeu Thon, da 10a Vara do Trabalho de Goiânia, conclui que a petição inicial da empresa não traz alegações nem contém prova "capaz de elidir os fatos registrados nas autuações, os quais se tem por verdadeiros em razão da presunção de legitimidade juris tantum dos autos de infração".

O juiz, portanto, não acolheu a justificativa da "dupla visita".
Eduardo sublinhou que a norma citada se refere a "estabelecimentos ou locais de trabalho recentemente inaugurados ou empreendidos" e que, em fevereiro de 2008 (quando a Brenco foi autuada), a empresa "tinha pelo menos cinco filiais instaladas e  em funcionamento".

A finalidade da "dupla visita", completa o magistrado do Trabalho, é permitir que empresas nascentes tenham tempo para se estruturar, "a fim de que possam criar procedimentos administrativos aptos ao cumprimento da legislação trabalhista, assim como levantar os recursos necessários à sua efetivação". "No caso, a requerente [Brenco] tinha vasta estrutura e experiência administrativa decorrente da operação das diversas filiais.

Tinha também recursos suficientes para estruturar tempestivamente as condições de trabalho", acrescenta. "As grandes empresas têm que primar pelo planejamento e pela organização, pois dispõem de recursos humanos e materiais para tanto. A requerente tinha amplos recursos e pessoal capaz de organizar alojamentos adequados. Dessa forma, a autora, ao contratar empregados sem se assegurar de que teriam condições adequadas, incorreu em culpa, pois agiu de forma negligente".

A "dupla visita" também não foi aceita pela juíza substituta Valéria Cristina de Sousa Silva, da 12a Vara do Trabalho de Goiânia. Na decisão de 14 de abril, ela destaca que o critério "não se aplica, mesmo em se tratando de estabelecimento ou local de trabalho recentemente inaugurado, quando constatadas situações de grave e iminente risco à saúde ou à integridade física do trabalhador (...), como as que foram demonstradas no caso em apreço". Para Valéria, "a motivação consignada nos autos de infração se baseou em fatos materialmente existentes e juridicamente adequadas ao resultado obtido pelo agente administrativo". Ela argumenta que "todas as infrações à legislação trabalhistas constantes dos autos de infração" no caso estão "suficientemente demonstradas" e que foi possibilitada à empresa "o exercício do direito de ampla defesa e contraditório perante o órgão administrativo, não havendo nos autos elemento hábil para invalidar o procedimento fiscalizatório impugnado".

Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.

 

*Árabes querem terras no Brasil*

A notícia é do jornal *O Estado de S. Paulo*
22-05-2009
.

As fortunas árabes obtidas com o petróleo serão usadas na comprar terras no Brasil para garantir o abastecimento de alimentos nesses países, informou o presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, *Salim Schahin*. Na próxima semana, a cúpula da Autoridade Geral de Investimentos da Arábia Saudita vem ao Brasil para avaliar áreas para compra.


A Líbia já destinou parte de suas reservas para a compra de terras e está em negociações também no Brasil. "Estamos ainda em uma fase de exploração", disse *Schahin*. Nesta semana, o presidente *Luiz Inácio Lula da Silva* fez a primeira viagem de um chefe de Estado brasileiro à Arábia Saudita.

A busca por terras é um dos principais objetivos dos árabes, que, nosúltimos anos, acumularam reservas bilionárias, mas continuam com problemas de abastecimento de alimentos. Os sauditas, no início do ano, decidiram criar um fundo especial apenas para essas operações de compras de terras.

Os sauditas ainda avaliam a possibilidade de comprar terras no *Sudão*, * Ucrânia*, *Paquistão* e *Tailândia*. Até o *Grupo Bin Laden*, com sede na Arábia Saudita, também lidera operações de busca de terras aráveis. Um dos projetos em discussão é a aquisição de 500 mil hectares de arrozais na Indonésia. No *Paquistão*, os sauditas podem levar 1 milhão de hectares.

Na *Etiópia*, onde a fome atinge mais de 5 milhões de pessoas, os sauditas investiram mais de US$ 100 milhões na rodução de trigo e arroz. O valor é o mesmo que as Nações Unidas gastam todo ano para alimentar a população do país considerado berço da raça humana.

Os líbios insistem que o Brasil é parte da estratégia da busca por terras. Trípoli tem US$ 500 milhões para investir na América Latina. Mas as autoridades deixaram claro aos empresários brasileiros que grande parte desse dinheiro será usado no setor agropecuário.

Estudo do *Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas de Alimentação*( *Ifpri*, em inglês), apresentado há uma semana em Genebra, aponta que os acordos de venda de terras por governos a estrangeiros pode somar US$ 30 bilhões, envolvendo a aquisição de 20 milhões de hectares, a grande maioria em países pobres.

 

AUMENTA A EXPLORAÇÃO DO AGRONEGOCIO COM TRABALHO PRECÁRIO E TERCEIRIZAÇÃO NO CAMPO.

Ministério Público vê ampliação do trabalho precário

Responsável pelo ajuizamento de praticamente todas as ações civis públicas que questionam a terceirização nas concessionárias de serviços públicos, o Ministério Público do Trabalho (MPT) combate com veemência esse tipo de contratação. O órgão defende que a terceirização só poderia ocorrer nas chamadas atividades-meio - por exemplo, a manutenção da rede de computadores, a vigilância, a limpeza, o departamento de marketing. No julgamento a ser realizado quinta-feira (14) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), o MPT tem como principal argumento a precarização das relações do trabalho em decorrência da terceirização.

A reportagem é de Luiza de Carvalho e Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 12-05-2009.

A definição da palavra "inerente" é, na opinião do procurador do Trabalho da 1ª Região, Rodrigo Carelli, um grande foco de discussão com as empresas. Isso porque as leis que regulamentam os setores de energia e de telecomunicações - a Lei das Concessões e a Lei Geral das Telecomunicações - permitem a terceirização em atividades acessórias, complementares ou inerentes à atividade. "Ao interpretar o que seria inerente, as empresas entendem que podem terceirizar tudo, inclusive a própria atividade concedida pelo governo", afirma o procurador.

Segundo ele, as empresas que terceirizam em massa são as que mais sofrem ações na Justiça do Trabalho e responsáveis pelo maior número de acidentes de trabalho. Não há estatísticas que comprovem a acusação do MPT, mas a percepção dos sindicatos é a mesma. "Em todos os Estados, sem exceção, temos feito essas denúncias", diz João de Moura Neto, presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações (Fittel).

O sindicalista aponta a jornada de trabalho excessiva e a falta de pagamento de horas extras como os problemas mais comuns entre os terceirizados. Ele reclama que a maioria dos funcionários recebe salário mínimo e tem seus rendimentos adicionais atrelados ao volume de atendimentos, como número de instalações telefônicas ou de reparos. "A quantidade de mão de obra nas empresas terceirizadas é totalmente subdimensionada."

O MPT argumenta que a demora no trâmite das ações trabalhistas contra as empresas terceirizadas tem prejudicado os trabalhadores, que esperam cerca de 12 anos para receber seus direitos. Isso ocorre porque é corriqueiro que as empresas terceirizadas não tenham como arcar com o passivo ou simplesmente desapareçam no curso do processo. Apesar de a Justiça considerar as tomadoras de serviço como corresponsáveis - a chamada responsabilidade subsidiária - nas demandas trabalhistas, é preciso esgotar todas as fontes de busca às empresas terceirizadas.

De acordo com o procurador, há ainda o problema da "quarteirização", que seria a terceirização feita pelas empresas que já são terceirizadas. "É uma diluição dos direitos trabalhistas", diz.

Outro problema levantado pelo MPT é o enfraquecimento dos sindicatos. Um exemplo são os trabalhadores da construção civil contratados para os serviços gerais de uma empresa telefônica, aos quais não é permitida a migração à categoria da telefonia. "Os sindicatos de telefonia estão cada vez mais fracos", diz Carelli.

 


Em pleno Dia
do Trabalho, oito são libertados de trabalho escravo

“A gente não recebia nada e trabalhava de domingo a domingo, sem descanso. Eu trabalhei doente, com febre e dor de cabeça. Mas não tinha jeito”, conta um dos libertados pelo grupo móvel de fiscalização em área de Parauapebas (PA)
Enquanto multidões comemoravam o 1º de maio nos grandes centros urbanos, mais um grupo de oito trabalhadores era libertado de trabalho escravo no Sudeste de Pará. Desde fevereiro, eles foram encontrados nas Fazendas Santa Andréia e Serra Grande, a cerca de 5 km do centro de Paraupebas (PA). A propriedade pertence ao empresário Gabriel Augusto Camargos, dono de outros empreendimentos comerciais na região.

A reportagem é de Bianca Pyl e publicada pela Agência de Notícias Repórter Brasil.

“A gente não recebia nada e trabalhava de domingo a domingo, sem descanso. Eu mesmo trabalhei doente, com febre e dor de cabeça. Mas não tinha jeito”, lamenta Gedéias do Livramento, 23 anos, um dos libertados pelo grupo móvel de fiscalização e combate ao trabalho escravo do governo federal. Em função das intensas chuvas na região, os fiscais tiveram que percorrer um percurso de 320 km para chegar até o local, normalmente acessível por um trecho de 160 km. Os veículos do grupo móvel atolaram quatro vezes.

Segundo os testemunhos dos trabalhadores, havia cerceamento da liberdade. “A gente era ameaçado o tempo todo. O capanga andava com a arma na cintura. Uma vez, um companheiro nosso foi pedir dinheiro para comprar remédio porque tinha levado uma picada de cobra e foi ameaçado de morte”, conta Gedéias. Quando ele próprio ficou doente, recorreu ao irmão Joel, que também trabalhava no mesmo local, para comprar remédios.

O “gato” (responsável pela contratação da mão-de-obra), que tinha a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS)
assinada por Gabriel como “vigia”, chegou inclusive a ser preso pela Polícia Federal (PF) por parte ilegal de arma no momento da fiscalização. Após pagamento de fiança, ele acabou sendo liberado. De acordo com o delegado responsável, será aberto um inquérito contra o “gato” pelo crime de aliciamento e também por porte ilegal de arma.

Ao chegar no local, os fiscais flagraram ainda um vaqueiro dando ordens para que os empregados deixassem o local, na tentativa de dificultar a ação dos fiscais. Os barracos que serviam de alojamentos chegaram a ser parcialmente danificados pelo fogo ateado de propósito. “Nós desconfiamos que havia mais empregados trabalhando, principalmente por causa do tamanho da fazenda”, declara Guilherme Moreira, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que coordenou a ação. De acordo com um dos vaqueiros, as duas fazendas abrigam cerca de 3 mil cabeças de gado.
Uma das vítimas de trabalho escravo não foi encontrada pelo grupo móvel. “Ouvimos relatos que este empregado mora próximo ao local e não procurou a fiscalização por medo de se prejudicar futuramente na hora de buscar emprego”, explica o auditor fiscal Guilherme Moreira.

Os alojamentos eram barracos de lona. A água consumida vinha de um igarapé. No local não havia instalações sanitárias. Os empregados também não tinham Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Nosso barraco não tinha nada. A comida era só caldo de feijão com arroz ou farinha. A gente bebia a água do igarapé, mas ela deixava a gente muito doente”, lembra Gedéias.

Além dos libertados, a fazenda tinha 26 trabalhadores com registro na Carteira de Trabalho e da Previdência Social (CTPS). Contudo, dois fatos chamaram a atenção da equipe de fiscais: apenas quatro estavam no local na hora da fiscalização e os registros eram com funções que não condiziam com o trabalho exercido pelos empregados. Um deles, por exemplo, estava registrado como zelador de prédio. Além disso, vaqueiros registrados apenas com o salário mínimo admitiram ter recebido pagamentos ilegais “por fora”.

Nos dias seguintes, os agentes públicos continuaram a fiscalizar o local e encontraram agrotóxicos armazenados de forma incorreta. O produto estava vazando e havia risco de contaminação. O galpão ficava ao lado de duas casas onde viviam uma família e outros dois empregados.

Aliciamento e pagamentos


Os trabalhadores maranhenses foram aliciados no final de fevereiro nos municípios de Santa Inês (MA) e Santa Luzia (MA). “O gato disse que a gente ia receber direitinho, que o trabalho não era muito pesado. Nós fomos, né? Todo mundo estava desempregado”, conta o libertado Gedéias.

Ele relata que tinha esperança de receber algum dinheiro no final da empreitada. Contudo, não havia uma data certa para o trabalho acabar. “Não tinha saída: era esperar para receber. O capanga dizia que quem saísse antes não ia receber nem um tostão”, discorre. Gedéias e o irmão Joel voltaram para Santa Luzia e estão na casa do irmão Lorival, o mais velho dos três.
“Eu ajudei minha mãe a criá-los. Quando soube pelo que eles passaram, fiquei muito triste”, relata Lorival. Gedéias explica que ele e Joel não telefonavam para a família no Maranhão porque o empregador não permitia.

Segundo o grupo móvel de fiscalização, Gabriel Augusto Camargos possui mais uma fazenda, em São Félix do Xingu (PA), além de um hipermercado, dois postos de gasolina e uma firma de terraplanagem. O empresário também disputa área em Parauapebas (PA), conforme a Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH), com militantes sem-teto.

O empregador assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se compromete a não manter mais trabalhadores de condições análogas à escravidão. “Não foi preciso mover uma ação civil pública porque o fazendeiro aceitou o acordo. Agora, se ele descumprir o TAC, pagará multa de R$ 10 mil por obrigação descumprida, além de R$ 10 mil por cada trabalhador que estiver em situação irregular”, explica Florença Dumont Oliveira, procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT) que acompanhou a operação, que permaneceu no local até a última quinta-feira (7).
Os trabalhadores receberam as verbas referente a rescisão do contrato de trabalho (R$ 28 mil). O MPT determinou também o pagamento de R$ 8 mil por dano moral individual e R$ 80 mil por dano moral coletivo. Ao todo, foram lavrados 53 autos de infração.

A Repórter Brasil entrou em contato com o advogado representante do proprietário no caso, que ficou de enviar a posição de seu cliente por e-mail. Mas nada foi enviado até o fechamento desta matéria.

 


Instituto Terra de Preservação Ambiental
www.institutoterra.org.br

22/04/2009 - 11h04
O partido do desmatamento

Por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa

Os três jornais brasileiros considerados de maior influência abordam nesta quarta-feira o tema da preservação ambiental, mas nenhum deles trata a questão entre as prioridades.

O grande destaque ainda é para os abusos de deputados e senadores no uso de suas verbas para gastos pessoais, e especialmente na generosidade com que distribuem passagens aéreas entre parentes e amigos.

Por trás da agenda assumida pela imprensa, estende-se a disputa partidária, que tem como objeto final a eleição presidencial de 2010.

Por esse motivo, é importante registrar a informação publicada hoje no alto da coluna Panorama Político, do Globo, sob o título “Terra arrasada”.

Ali está registrado o que os outros jornais tentam dissimular: os inimigos da preservação ambiental estão espalhados por todos os partidos, mas um deles, o Democratas, parece ter assumido como objetivo a destruição da legislação ambiental criada no Brasil nos últimos anos e que, com todos os defeitos, ainda é considerada um avanço.

O Globo observa que, enquanto o site do partido apregoa que tem como bandeira o meio ambiente, a senadora Kátia Abreu, do Democratas do Tocantins e presidente da Confederação Nacional da Agricultura, tenta derrubar a legislação de proteção ao patrimônio natural.

Segundo o jornal, "os adversários da legislação ambiental encontraram uma forma para torná-la letra morta". A Confederação Nacional da Agricultura, defendendo a tese de que tanto a União como os Estados podem legislar sobre o assunto, está usando seu poder para incentivar governos estaduais e assembléias legislativas a produzir regras menos rigorosas de controle do desmatamento e uso das margens dos rios.

O modelo da CNA, encampado pelo Partido Democratas, é a legislação de Santa Catarina, Estado campeão de destruição da Mata Atlântica, onde um novo código florestal, conflitante com as normas federais, está sendo contestado pelo Ministério Público.

Os outros jornais também noticiam a controvérsia, mas apenas o Globo esclarece que por trás da tentativa de anular as regras para preservação ambiental está a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e, por trás dela, o Partido Democratas.

A agremiação deveria mudar de nome e manter a mesma sigla: Partido do Desmatamento.

 

 

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA - CPT 24/04/2009

   Rua Pau Brasil, 40 Caixa Postal 57 CEP 68 555-340 - Xinguara–PA

   Tel. (094) 3426 1790 Telefax (094) 3426 1395 – E-mail : [email protected]

 

FAZENDA SANTA BARBARA USA DE MÁ FÉ PARA CONSEGUIR LIMINAR NO TRIBUNAL.

A Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A enganou o Tribunal de Justiça do Estado do Pará para conseguir uma liminar de reintegração de posse da Fazenda Espírito Santo, localizada nos Municípios de Xinguara e Sapucaia.

 A empresa agiu de má-fé ao ingressar com a Ação Judicial na Vara Agrária de Marabá, sendo que o imóvel localiza-se na área de jurisdição da Vara Agrária de Redenção, onde já tramitam duas ações judiciais referentes à Fazenda Espírito Santo: um interdito proibitório, com audiência marcada para o dia 22.06.09 e uma Ação Civil Pública proposta pelo ITERPA, na qual o juiz ordenou o bloqueio das matriculas do imóvel, por suspeita de grilagem.

A manobra da Agropecuária Santa Bárbara é ainda mais gritante se considerarmos que a Ação foi proposta durante a ausência da Juíza titular da Vara Agrária de Marabá, tendo sido imediatamente concedida a liminar pela Magistrada de plantão. Na segunda feira subseqüente, na volta da Juíza Titular, a mesma revogou a liminar e marcou audiência para ouvir a parte autora. A Empresa recorreu para Belém e maliciosamente induziu o Tribunal a erro, declarando que o imóvel dista apenas 105 KM de Marabá, quando na verdade fica a mais de 170 KM. Assim, o Tribunal de justiça concedeu a liminar, acreditando localizar-se o imóvel no Município de Marabá.

Certamente a Agropecuária Santa Bárbara não impetrou a Ação na Vara Agrária de Redenção como prevê a lei, temendo uma decisão negativa, considerando que o Juiz daquela Vara já havia determinado o bloqueio da matrícula da Fazenda Espírito Santo por entender que se trata de terra pública, patrimônio do Estado do Pará.

Não é a primeira vez que fazendeiros da região usam desse estratagema criminoso para obter proveito da justiça. O grupo Quagliato, proprietário da Fazenda Rio Vermelho, próxima à Fazenda Espírito Santo, também usou desse artifício em 2006, ao requerer na Vara Agrária a concessão de liminar alegando que o imóvel encontrava-se ocupada pela MST. A liminar foi deferida e as famílias foram despejadas de outra área, distante mais de 20KM da Fazenda Rio Vermelho.  Mais tarde os advogados dos trabalhadores conseguiram provar que o local do acampamento era terra pública, ilegalmente apropriada pelo grupo Quagliato. A liminar foi suspensa e os agricultores voltaram e continuam acampados no local aguardando serem assentados pelo INCRA.

         No caso da Fazenda Espírito Santo, os advogados dos trabalhadores vão ingressar com as medidas legais na Vara Agrária e no Tribunal de Justiça contra a Agropecuária Santa Bárbara. É importante deixar claro que NÃO EXISTE LIMINAR A SER CUMPRIDA NA FAZENDA ESPÍRITO SANTO, e as famílias de lá não vão sair sem ordem judicial. O que existe é uma liminar, conseguida de forma fraudulenta, para ser cumprida em uma fazenda localizada a 105 km de Marabá, sob jurisdição da Vara Agrária de Marabá, que não se trata da Fazenda Espírito Santo que é situada no Município de Xinguara, sob jurisdição da Vara Agrária de Redenção.
Xinguara-PA, 24 de abril de 2009.

Comissão Pastoral da Terra do Sul e Sudeste do Pará
Tel: 94 3321 2229 (CPT Marabá) e 94 3426 1790 (CPT Xinguara)

 

 

 

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES À NOTA DE ESCLARECIMENTO DO MST.

22/04/2009

A Fazenda que foi palco da tragédia no ultimo dia 18.04.09, é a Fazenda Espírito Santo, Municipio de Xiinguara, que pertence ao Grupo Santa Bárbara do banqueiro Daniel Dantas.

  1. Esta Fazenda teve determinado o bloqueio das matriculas de seus títulos, na data de 30.01.09, pelo Juiz da Vara Agrária de Redenção, nos Autos da Ação Civil Pública n. 2008.1.002166-4, na qual o Estado do Pará reivindica para si a legitima propriedade da área.
  2. Até a presente data não existe nenhuma liminar de reintegração de posse da Fazenda Espírito Santo.Segue a nota do MST.
                                                                    Comissão Pastoral da Terra de Xinguara
 
Segue a nota do MST.
 
Esclarecimentos sobre acontecimentos no Pará
.

Em relação ao episódio na região de Xinguara e Eldorado de Carajás, no sul do Pará, o MST esclarece que os trabalhadores rurais acampados foram vítimas da violência da segurança da Agropecuária Santa Bárbara. Os sem-terra não pretendiam fazer a ocupação da sede da fazenda nem fizeram reféns. Nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, que apenas fecharam a PA-150 em protestos pela liberação de três trabalhadores rurais detidos pelos seguranças. Os jornalistas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria, como sustenta a Polícia Militar. Esclarecemos também que:

1- No sábado pela manhã, 20 trabalhadores sem-terra entraram na mata para pegar lenha e palha para reforçar os barracos do acampamento em parte da Fazenda Espírito Santo, que estão danificados por conta das chuvas que assolam a região. A fazenda, que pertence à Agropecuária Santa Bárbara, do Banco Opportunity, está ocupada desde fevereiro, em protesto que denuncia que a área é devoluta. Depois de recolherem os materiais, passou um funcionário da fazenda com um caminhão. Os sem-terra o pararam na entrada da fazenda e falaram que precisavam buscar as palhas. O motorista disse que poderia dar uma carona e mandou a turma subir, se disponibilizando a levar a palha e a lenha até o acampamento.

2- O motorista avisou os seguranças da fazenda, que chegaram quando os trabalhadores rurais estavam carregando o caminhão. Os seguranças chegaram armados e passaram a ameaçar os sem-terra. O trabalhador rural Djalme Ferreira Silva foi obrigado a deitar no chão, enquanto os outros conseguiram fugir. O sem-terra foi preso, humilhado e espancado pelos seguranças da fazenda de Daniel Dantas.

3- Os trabalhadores sem-terra que conseguiram fugir voltaram para o acampamento, que tem 120 famílias, sem o companheiro Djalme. Avisaram os companheiros do acampamento, que resolveram ir até o local da guarita dos seguranças para resgatar o trabalhador rural detido. Logo depois, receberam a informação de que o companheiro tinha sido liberado. No período em que ficou detido, os seguranças mostraram uma lista de militantes do MST e mandaram-no indicar onde estavam. Depois, os seguranças mandaram uma ameaça por Djalme: vão matar todas as lideranças do acampamento.

4- Sem a palha e a lenha, os trabalhadores sem-terra precisavam voltar à outra parte da fazenda para pegar os materiais que já estavam separados. Por isso, organizaram uma marcha e voltaram para retirar a palha e lenha, para demonstrar que não iam aceitar as ameaças. Os jornalistas, que estavam na sede da Agropecuária Santa Bárbara, acompanharam o final da caminhada dos marchantes, que pediram para eles ficarem à frente para não atrapalhar a marcha. Não havia a intenção de fazer os jornalistas de “escudo humano”, até porque os trabalhadores não sabiam como seriam recebidos pelos seguranças. Aliás, os jornalistas que estavam no local foram levados de avião pela Agropecuária Santa Bárbara, o que demonstra que tinham tramado uma emboscada.

5- Os trabalhadores do MST não estavam armados e levavam apenas instrumentos de trabalho e bandeiras do movimento. Apenas um posseiro, que vive em outro acampamento na região, estava com uma espingarda. Quando a marcha chegou à guarita dos seguranças, os trabalhadores sem-terra foram recebidos a bala e saíram correndo – como mostram as imagens veiculadas pela TV Globo. Não houve um tiroteio, mas uma tentativa de massacre dos sem-terra pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara.

6- Nove trabalhadores rurais ficaram feridos pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara. O sem-terra Valdecir Nunes Castro, conhecido como Índio, está em estado grave. Ele levou quatro tiros, no estômago, pulmão, intestino e tem uma bala alojada no coração. Depois de atirar contra os sem-terra, os seguranças fizeram três reféns. Foram presos José Leal da Luz, Jerônimo Ribeiro e Índio.

7- Sem ter informações dos três companheiros que estavam sob o poder dos seguranças, os trabalhadores acampados informaram a Polícia Militar. Em torno das 19h30, os acampados fecharam a rodovia PA 150, na frente do acampamento, em protesto pela liberação dos três companheiros que foram feitos reféns. Repetimos: nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, mas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria. Os sem-terra apenas fecharam a rodovia em protesto pela liberação dos três trabalhadores rurais feridos, como sustenta a Polícia Militar.

MOVIMENTOS DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA - PARÁ

 

 

  OCUPAR TERRA DE DANTAS É "DEVER DO POVO BRASILEIRO", AFIRMA PROTÓGENES EM ATO.

LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de São Paulo
16/03/2009


O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz defendeu ontem em São Paulo que "ocupar fazenda de banqueiro bandido é dever do povo brasileiro". Manifestou assim seu apoio à invasão da fazenda Espírito Santo, de propriedade do banqueiro Daniel Dantas, por 280 militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST), no último dia 28.

Protógenes foi o coordenador da Operação Satiagraha, que apurou possíveis ilegalidades cometidas por Daniel Dantas à frente do Grupo Opportunity. No dia 1º de abril, o delegado deve comparecer à CPI dos Grampos da Câmara para explicar supostos abusos que teriam ocorrido durante as investigações. Protógenes foi afastado do caso.

Segundo o delegado, que ontem discursou diante de 70 militantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade, ligado ao PSOL, "no dia 1º, o povo brasileiro vai ver em que condições essas terras [as da fazenda Espírito Santo] foram adquiridas", além de saber "quais os interesses escusos por trás disso aí".

O encontro contou com a participação da presidente nacional do PSOL e hoje vereadora de Maceió, Heloísa Helena, que tratou o delegado todo o tempo por "herói". Alguns ativistas vestiam camiseta amarela com inscrição em verde "Protógenes contra a corrupção".

Foi nesse cenário que o delegado convocou os presentes a organizarem caravanas para, no dia 1º, em Brasília, "exigir a punição daqueles que saquearam os cofres do nosso país. E para impedir a punição daquele servidor público federal que cumpriu o seu dever." Falava de si mesmo.

Interrompido por aplausos, prometeu explicar como se deu a participação no que chamou de "quadrilha" de cada personagem
"que tem relação espúria, corrupta, criminosa com o banqueiro bandido Daniel Dantas".
Em pelo menos sete vezes, o delegado referiu-se a Daniel Dantas como o "banqueiro bandido". E disse que, no Brasil, "falta punição". Mencionou Bernard Madoff, preso na semana passada depois de se declarar culpado em um dos maiores escândalos financeiros dos EUA.

"E o nosso banqueiro aqui? É homenageado e cortejado", disse Protógenes.
A defesa de Daniel Dantas alega que houve irregularidades e atos persecutórios na investigação conduzida pelo delegado da PF. Fazendas do banqueiro no Pará são o alvo declarado do MST na região.


 

NOVA OFENSIVA CONTRA O MST

Folha de S.Paulo
Plínio Arruda Sampaio
16/03/2009

Neste momento, o MST se debate contra um tipo de ataque intermitente: uma ofensiva patrocinada por inimigos visíveis e invisíveis

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é sujeito a dois tipos de ataque: os permanentes e os intermitentes.

O primeiro tipo é desferido cotidianamente pela UDR (União Democrática Ruralista) e pela "bancada ruralista". Já a segunda forma de ataque acontece de vez em quando. Neste momento, o movimento se debate contra esse segundo tipo: uma grande ofensiva patrocinada por inimigos visíveis e invisíveis. Um dos inimigos visíveis é o atual presidente do Supremo Tribunal Federal. Extrapolando claramente suas funções, esse magistrado está exigindo providências judiciais para averiguar supostas irregularidades no repasse de verbas federais a entidades ligadas ao MST. No afã de agredir os sem- terra, sobrou para o Ministério Público, acusado de tolerância com o crime -o que provocou irada reação do procurador-geral, o honrado dr. Antonio Fernando de Souza.

Toda ofensiva -como explicam os tratados militares- deve ter um objetivo central bem claro. A ofensiva atualmente em curso contra o MST visa "limpar" a área fundiária de uma organização autêntica, que pode ser o sério obstáculo à implantação do novo modelo agrícola adotado pelo governo -o modelo do grande agronegócio. A ordem, portanto, é enterrar de uma vez a reforma agrária.

As desapropriações de imóveis estão paralisadas e os assentamentos não recebem o apoio necessário para que possam sair adiante. Explico: diante da resistência dos proprietários rurais, do poderio da bancada ruralista e da esperada demanda externa por produtos agrícolas, o governo resolveu desistir da reforma agrária e abraçar a fantasia mirabolante de montar, na Amazônia, uma enorme agricultura de exportação de carne, soja e álcool de cana-de-açúcar. A crise mundial demonstrará a inconsequência dessa política.

O MST é um estorvo para o projeto de transformar a Amazônia em polo exportador de grandes dimensões, pois a instalação de imensas fazendas nas terras públicas da região depende de investidores que não costumam colocar seus milhões em terras litigiosas. Exigem, primeiro, que sejam legalizadas. Aí então eles as compram dos grileiros. Trata-se de um processo semelhante ao da lavagem de dinheiro. No caso, trocam-se títulos contestáveis por títulos garantidos pelo governo. Pois, apesar da norma constitucional que determina a destinação de terras públicas à reforma agrária ou a projetos de colonização, o governo está decidido a entregar essas terras a grandes produtores.

Se o MST desaparecer ou ficar desmoralizado, sua influência sobre a opinião pública se reduzirá substancialmente e a pressão pela reforma agrária cairá a zero, deixando o governo com as mãos livres para regalar 67 milhões de hectares de terras públicas a grileiros que as venderão ao "honrado" agronegócio. Para ter uma ideia do tamanho desse "Panamá", basta lembrar que essa superfície é maior do que toda a terra arável da Alemanha somada à da Itália.

Não por acaso, além de investir contra as ocupações, a atual ofensiva lança suspeitas sobre a legalidade dos repasses de dinheiro a entidades que prestam serviços aos assentados.

Acusações de corrupção constituem, como se sabe, elementos devastadores da reputação de pessoas e de entidades. No entanto, o que corre solto, em Brasília, são os mais venenosos boatos a respeito das maracutaias que estão por trás não do repasse de verbas ao MST, mas da regularização do grilo amazônico.

Não é para menos: ao arrepio da Constituição, as medidas provisórias permitirão aos grileiros regularizar posses ilegais de até 1.500 hectares e ter preferência para adquirir outros 1.500 hectares que serão licitados.

O açodamento do governo para aprovar essas normas por meio de medidas provisórias, sem um debate maior com a sociedade, e a disputa entre o Ministério do Planejamento Estratégico, o do Meio Ambiente e o do Desenvolvimento Agrário não ajudam a desfazer a situação nem a deixar de ver, na mudança do modelo agrícola, a causa real da nova tentativa de arrebentar o movimento dos sem-terra.

A cidadania precisa repudiar esse ataque, pois uma coisa é certa: a esperança que o MST sustenta entre a população rural é a única coisa que está impedindo a reprodução no Brasil da tragédia que ensanguenta a Colômbia há mais de 50 anos.

PLÍNIO ARRUDA SAMPAIO, 78, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária) e diretor do "Correio da Cidadania". Foi deputado federal pelo PT-SP (1985-1991) e consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. [email protected]

 

FORÇA-TAREFA DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO FAZ INSPEÇÃO EM 15 USINAS E CONSTATA IRREGULARIDADES EM PERNAMNBUCO

fonte jconline.com.br blog do jamildo 9.3.09

Trabalhadores ouvidos pelas autoridades
Andréa Pessoa/MPT/Blog Imagem

Sem alarde, em absoluto sigilo, uma força-tarefa de combate ao trabalho escravo, formada por Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal, realizou semana passada (de 2 a 5/03) inspeções em dez usinas em Pernambuco e cinco no Rio Grande do Norte. Essas foram as primeiras investigações do Plano Nacional de Combate às Irregularidades Trabalhistas do Setor Sucroalcooleiro nestes estados.

Para o procurador do Trabalho e coordenador nacional do plano, Alessandro Santos de Miranda, o objetivo é regularizar o setor.
 “O Brasil está produzindo biocombustível e exportando, mas isso não pode acontecer sob condições desumanas para o trabalhador da cana de açúcar”, explicou acrescentando que o trabalho tem caráter pedagógico, preventivo e punitivo.
”Os empreendedores serão obrigados a corrigir os erros com assinaturas de termos de ajustamento de conduta (Tac) ou entraremos com ações civis públicas, com pedido de dano moral coletivo para cada usina infratora”.

Ele disse também que o programa não tem como objetivo o resgate de trabalhadores em situação análoga à de escravo.
“Nossa proposta é desenvolver ações voltadas para regularização das questões trabalhistas encontradas”.
O balanço da operação foi considerado por ele muito positivo.
”Estamos beneficiando 15 mil trabalhadores em Pernambuco e 3 mil no Rio Grande do Norte”.

A operação nos dois estados envolveu cerca de 50 pessoas, entre procuradores, policiais federais,técnicos, peritos e médicos do trabalho. Também foram realizadas inúmeras audiências com as usinas.
Veja abaixo os principais problemas constatados pelo Ministério Público do Trabalho em PE e RN :

Desobediência à Legislação - Não cumprimento da legislação trabalhista, desde o registro do contrato na carteira de trabalho, passando pela falta de cumprimento das normas de proteção à saúde e segurança dos trabalhadores, até a ausência de pagamento da remuneração a eles devida.

Água e alimentos - Submissão de trabalhadores à condições precárias de trabalho, pela falta ou inadequado fornecimento de alimentação sadia e farta e de água potável;

Alojamentos - Fornecimento aos trabalhadores de alojamentos sem condição de habitabilidade e sem instalações sanitárias adequadas;

Equipamentos - Falta de fornecimento gratuito aos trabalhadores de instrumentos para prestação de serviços, de equipamentos de proteção individual (EPI) e de materiais de primeiros socorros;

Transporte - Não utilização de transporte seguro e adequado aos trabalhadores;

Saúde e segurança - Não emissão da Comunicação de Acidentes do Trabalho (CAT) e
não elaboração d o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e não realização de avaliações dos riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores.

Abrigos - Não disponibilização, nas frentes de trabalho, de abrigos, fixos ou móveis, que protejam os trabalhadores contra as intempéries, durante as refeições, com mesas e assentos em número suficiente para atender a todos os trabalhadores.

Refeições - Não disponibiliza local ou recipiente para a guarda e conservação de refeições ( marmitas térmicas ), em condições higiênicas, independentemente do número de trabalhadores.

Exames - Não realizam exames médicos admissionais em todos os seus empregados;


 

 

Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional
Assessoria de Comunicação
09/0
3/2009

NOTA PÚBLICA

“Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos” (MT 23,24)

Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes

A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.

No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.
Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005.
Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.
            Causa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?

Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.

Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.

O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.

O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).

            Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!

Goiânia, 6 de março de 2009

Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges
Presidente da Comissão Pastoral da Terra

Maiores informações:
Assessoria de Comunicação - Secretaria Nacional da CPT
Fone: 62 4008-6406/ 6412 / 6400
www.cptnacional.org.br

 

 

Nota de esclarecimento sobre os acontecimentos em PE

Escritório Nacional do MST/Rio de Janeiro
27/02/2009


1– Nesses 25 anos de luta pela Reforma Agrária, o MST repudia a violência como solução para os conflitos no campo. Nós, como muitos outros movimentos sociais do país, fomos historicamente vítimas da violência da reação do latifúndio e do agronegócio. Segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), de 1985 a 2007, foram cerca de 1500 assassinatos de trabalhadores rurais, muitos deles mortos enquanto defendiam seu direito à terra.

2 – O caso recente de Pernambuco é um exemplo de ação em legítima defesa, a que os trabalhadores tiveram de recorrer para evitar mais um massacre. Pistoleiros e milícias armadas rondavam dois acampamentos – nas fazendas Jabuticaba e Consulta - desde sábado (21/02), conforme comprovam fotos e denúncias feitas à Polícia Militar. Os pistoleiros entraram armados no acampamento Consulta, depois de reocupado pelas famílias, e passaram a agredir um trabalhador, até levá-lo ao chão. Um dos pistoleiros chegou a sacar uma arma para atirar, e foi nesse momento que os acampados reagiram, em legítima defesa. No desfecho da situação, quatro pistoleiros morreram e um trabalhador foi baleado. A Polícia Militar foi chamada para registrar a tentativa de massacre, e prendeu dois Sem Terra sem averiguar a denúncia feita pelas famílias. Hoje, esses trabalhadores e trabalhadoras estão sendo permanentemente ameaçados por parte das milícias armadas da região.

3 – Solicitamos a defesa da vida das famílias acampadas e a desapropriação imediata das duas fazendas, que, conforme já comprovou o Incra, são improdutivas e não cumprem sua função social.

4 – O MST reafirma seu compromisso de luta por uma Reforma Agrária ampla e massiva, que possa de fato resolver os conflitos no campo, através da desconcentração da propriedade da terra, garantindo a milhares de famílias Sem Terra seu sustento e a produção de alimentos para a sociedade brasileira.

Mais um acampamento é ameaçado por pistoleiros em PE

27/02/2009

Cerca de 20 pistoleiros contratados por Clodoaldo Bezerra Jonas,"proprietário" da Fazenda Nova, no município de Águas Belas, ameaçam as 100 famílias que estão acampadas em frente à área, aguardando sua desapropriação. Clodoaldo, conhecido como "Codinho", é ex-prefeito de Águas Belas e contratou os pistoleiros para executarem uma expulsão extra-judicial das famílias Sem Terra.

O MST vem denunciando a violência e pistolagem na área desde 2006, quando Codinho, juntamente com capangas armados, ameaçou e espancou trabalhadores rurais que estavam acampados na fazenda. Na ocasião a polícia foi acionada e chegou a dar flagrante das agressões e ameaças, inclusive apreendendo armamento pesado em posse dos capangas. Mas as armas foram devolvidas ao proprietário logo após a apreensão. O MST denunciou o caso no Ministério Público Estadual.

Em outra fazenda de Codinho, a Fazenda Mata Escura, vários Sem Terra foram agredidos e uma criança de 9 anos teve que ser hospitalizada com ferimentos na cabeça, resultantes da ação violenta da polícia em ação de despejo das famílias, em 2007. Todos os barracos foram queimados,
juntamente com os pertences das famílias, e as lavouras foram destruídas por tratores. À época o MST já havia denunciado a agressão policial ao Ministério Público Estadual, à Ouvidoria Agrária e à
Corregedoria da Policia Militar.

Na Mata Norte famílias acampadas há 13 anos são ameaçadas de despejo por inoperância do estado

Em outra região do Estado, na Zona da Mata Norte, cerca de 100 familias que vivem na área do Engenho Bonito, em Condado, correm o risco de perderem toda a vida que construíram durante os últimos 13 anos, desde que acamparam na área em 1996.

A área, supostamente pertencente ao Grupo João Santos, foi vistoriada e dada como improdutiva pelo Incra, desde setembro de 1996, mas a empresa entrou com ação no Tribunal Regional Federal (TRF) alegando que lá havia um projeto de reflorestamento com bambu. Em 2004, foi feita uma nova vistoria, dessa vez por um perito da Justiça, que comprovou o laudo de improdutividade do Incra. Mas, na sentença, o laudo do perito não foi levado em conta e o processo continua em
andamento – sem definição até hoje.

Em abril de 2006, em reunião com dirigentes do MST e agricultores acampados, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, se comprometeu a garantir a vinda do procurador geral do Instituto para fazer o acompanhamento político do caso no Tribunal Regional Federal, pressionando para a resolução da disputa judicial. Quase 3 anos depois da promessa, as famílias continuam aguardando.

Após audiência publica sobre o caso, realizada em novembro do ano passado, o Juiz da Comarca de Condado deu um prazo até o dia 17 de fevereiro para que o Governo do Estado de Pernambuco encontrasse uma saída de negociação com o Grupo João Santo. O prazo terminou sem nenhuma posição dos órgãos responsáveis e a ameaça de despejo continua pairando sobre as vidas das famílias.


Nota de esclarecimento sobre as ocupações em São Paulo

Diante da repercussão das ocupações de terras ocorridas em São Paulo nos últimos dias, a Direção Estadual do MST esclarece:

1 - As ocupações são importantes ferramentas na luta pela terra, por isso, o MST, durante os seus 25 anos de história, sempre utilizou dessa ferramenta para lutar pela Reforma Agrária. Desse modo, o MST continuará realizando ocupações de terra independentemente de calendários. Na madrugada de sábado (21/2) realizamos três ocupações na região do Pontal do Paranapanema: Fazenda Dumontina, em Mirante do Paranapanema, com 50 famílias; Fazenda São Luiz, em Presidente Bernardes, com 80 famílias e Fazenda Santo André, em Martinópolis, com 70 famílias.

2 - Como já é de conhecimento público, José Rainha Júnior não compõe nenhuma instância organizativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e, portanto, não está autorizado a falar e agir em nome dessa Organização.

3 - A reunião com o secretário de Justiça de São Paulo divulgada pela imprensa, não era com a direção estadual do MST, portanto, não temos nada a declarar sobre esse assunto.

Escritório Nacional do MST/Rio de Janeiro  
Fone: (21) 2240.8496
www.mst.org.br email: [email protected]
 

 

REPÓRTER BRASIL LANÇA ESTUDO DOS IMPÁCTOS DA CANA EM 2008

Relatório produzido pelo CMA-Repórter Brasil registra os impactos sociais, ambientais e econômicos da expansão do setor, que, em 2008, liderou o ranking do trabalho escravo em número de agricultores libertados

Por Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da Repórter Brasil
21 de Janeiro de 2009


Pesquisadores percorreram oito Estados brasileiros para registrar os impactos do monocultivo canavieiro. Relatório "O Brasil dos Agrocombustíveis - Cana 2008" denuncia conflitos trabalhistas, ambientais, sociais e fundiários. Na safra em que o otimismo generalizado no setor sucroalcooleiro foi substituído pelo receio quanto ao futuro, quem "pagou o pato" foram os
empregados rurais, cujas condições de trabalho e de remuneração, já distantes do ideal, precarizaram-se ainda mais. Essa é uma das avaliações apresentadas pelo relatório "O Brasil dos Agrocombustíveis - Cana 2008 - Impactos das lavouras sobre a terra, o meio e a sociedade", do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) da ONG Repórter Brasil.

Para fazer o estudo, pesquisadores do CMA percorreram oito Estados: Acre, Alagoas, Pernambuco, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo. Em todas as regiões, identificaram in loco os impactos causados pela expansão canavieira, além de entrevistar trabalhadores, empresários, administradores públicos, pesquisadores e moradores. A área de cana no país aumentou 14,2% em 2008, para 7,01 milhões de hectares.

Do ponto de vista do trabalho, os empregados em atividades canavieiras, em especial os cortadores, viveram um ano difícil. Ao passo que a cesta básica no Estado de São Paulo subiu 16,1% em 2008, usinas reajustaram salários em torno de 7%, de acordo com a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp). A perda do poder de
compra levou muitos trabalhadores a promoverem greves, que se generalizaram na porta das usinas da região de Ribeirão Preto (SP), um dos maiores pólos canavieiros do país, ao longo do segundo semestre de 2008.

A piora das condições de renda agravou ainda mais o quadro de superexploração do trabalho existente no setor sucroalcooleiro, cuja face mais visível é o aumento de produtividade registrada pelo trabalhador do corte da cana. Desde 2000, a produtividade do cortador cresceu 11,9% no Estado de São Paulo, enquanto o preço da tonelada paga a ele aumentou menos, 9,8%, no mesmo período.

Em 2008, o setor sucroalcooleiro também continuou liderando o ranking do número de libertados do trabalho escravo no Brasil: foram 2.553 (49%) libertados entre o total de 5.244 trabalhadores, ante 1.026 (20%) libertados na pecuária e 720 (14%) em outras lavouras, conforme dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). A última atualização da "lista suja" de empregadores flagrados com trabalho escravo, divulgada em dezembro pelo Ministério do Trabalho e Emprego, traz o nome de pelo menos sete fazendas de cana ou companhias sucroalcooleiras, localizadas nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Ceará.

Do ponto de vista ambiental, o relatório aponta impactos diretos e indiretos causados pela expansão canavieira. Entre 2007 e 2008, a área de cana destinada ao setor sucroalcooleiro avançou, trazendo ameaças para áreas de Cerrado, de Mata Atlântica, da Amazônia e até da Caatinga. Estudos do Ministério do Meio Ambiente e de diversos centros de pesquisa
denunciam os riscos trazidos pela cana à biodiversidade, aos recursos hídricos e à qualidade do ar em diversos Estados brasileiros, o que minimiza as vantagens trazidas pela queima do etanol em relação à gasolina em veículos automotores.

Em 2008, o setor sucroalcooleiro foi o campeão de multas mais elevadas - acima de R$ 15 mil - em São Paulo, motivadas por emissão de poluentes em desacordo com a legislação. No Mato Grosso do Sul, o Pantanal se vê ameaçado nos últimos anos pela expansão dos canaviais, que também afeta diretamente os povos indígenas encurralados da região.

A pesquisa também registra casos de exploração de trabalhadores no Nordeste. Em Alagoas, uma força-tarefa do Ministério Público do Trabalho (MPT) esteve em 15 grandes usinas do Estado e constatou irregularidades que atingiram mais de 20 mil trabalhadores em 14 delas. Local de históricos conflitos entre usineiros e movimentos sociais, Pernambuco também foi cenário de crimes ambientais cometidos por usinas de açúcar eálcool.

Em grande parte responsável pela dizimação da Mata Atlântica nordestina, a cana ganhou fôlego com incentivos estaduais e novos empreendimentos. As usinas, porém, raramente cumprem a legislação ambiental de áreas de proteção permanente e reservas legais. Ao longo do ano, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou todas as 24 usinas em Pernambuco com base nesses crimes.

Áreas da Amazônia também foram visitadas para a confecção do relatório. O zoneamento ecológico e econômico da cana, prometido pelo governo federal como forma de evitar o avanço da monocultura em substituição às florestas, não foi concluído em 2008. A despeito de ainda não representar uma cultura muito difundida na região, o caso da Fazenda e Usina Pagrisa deixou um legado simbólico. Em junho de 2007, mais de mil pessoas foram encontradas em condições análogas à escravidão na propriedade em Ulianópolis (PA), na maior libertação de trabalhadores já realizada pelo grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O relatório do CMA sobre os impactos da cana-de-açúcar no Brasil é mais um da série "O Brasil dos Agrocombustíveis", que já possui análises sobre soja, mamona, dendê, algodão, milho e pinhão-manso. Ao longo de 2009, novos relatórios de impacto serão produzidos sobre essas culturas, com o objetivo de avaliar a evolução das práticas trabalhistas e ambientais nas lavouras de culturas utilizadas para a produção de agrocombustíveis no Brasil.

Para acessar a íntegra do relatório, clique em
http://www.reporterbrasil.org.br/documentos/o_brasil_dos_agrocombustiveis_v3.pdf

 

 

O BRASIL PULOU DO 113º PARA O 107º LUGAR NO RANKING DE MORTALIDADE INFANTIL (até cinco anos de idade),

segundo o relatório anual do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Situação Mundial da Infância 2009, lançado nesta quarta-feira em Johanesburgo, na África do Sul.


BBC Brasil
15 de Janeiro de 2009

Os primeiros lugares do ranking de 194 países são ocupados pelas nações com mortalidade mais elevada, como Serra Leoa (1º lugar) e Afeganistão (2º).

Seis países registraram as taxas mais baixas e ocupam a última posição no ranking: Suécia, Islândia, Cingapura, Luxemburgo, Andorra e Liechtenstein.

O relatório atribui a piora na posição do Brasil ao fato de o país ter registrado um índice de mortalidade de 20 por cada mil nascidos vivos em 2006. Em 2007, a taxa foi de 22 por cada mil nascidos vivos.

Mesmo com esse leve aumento, o Brasil ainda registra uma das mais altas reduções no índice de mortalidade infantil desde 1990. Com uma queda de 62% no período, o país teve a 18ª maior diminuição no índice entre os 194 países da lista - de 58 para 22 entre cada mil nascidos vivos.

Complicações

O relatório do Unicef afirma que mulheres nos países menos desenvolvidos do mundo ainda têm 300 vezes mais chances de morrer durante o parto ou por complicações na gravidez do que mulheres em países desenvolvidos.

O órgão da ONU diz ainda que uma criança nascida em um país em desenvolvimento tem quase 14 vezes mais chances de morrer durante o primeiro mês de vida do que uma criança nascida em um país desenvolvido.

"A cada ano, mais de meio milhão de mulheres morrem devido a complicações no parto, incluindo cerca de 70 mil meninas e mulheres jovens, entre 15 e 19 anos", afirmou Ann Veneman, diretora-executiva do Unicef.

"Desde 1990, as complicações relacionadas à gravidez e ao parto já mataram cerca de 10 milhões de mulheres", acrescentou.

Melhoras

O Unicef afirma que muitos países em desenvolvimento progrediram muito para melhorar as taxas de sobrevivência de suas crianças nos últimos anos.

O relatório aponta Níger e Malauí como exemplos por terem cortado quase pela metade as taxas de mortalidade entre crianças com menos de cinco anos entre 1990 e 2007, em 42% e 47% respectivamente.

Mas o mesmo progresso não foi observado na prevenção de risco para a saúde das mães e, embora as taxas de sobrevivência de crianças com menos de cinco anos esteja melhorando no mundo todo, os riscos para crianças nos primeiros 28 dias de vida ainda são altos em muitos países.

O Unicef afirma ainda que aproximadamente 99% das mortes do mundo causadas por complicações na gravidez ocorrem nos países em desenvolvimento, nos quais ter um filho ainda é um dos mais graves riscos à saúde para mulheres.

A grande maioria ocorre na África e na Ásia, onde as altas taxas de natalidade, falta de funcionários treinados e sistema de saúde deficiente colocam em risco a saúde das mães.

Os dez países com o maior risco de morte maternal durante a vida toda são Níger, Afeganistão, Serra Leoa, Chade, Angola, Libéria, Somália, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau e Mali.

"Para salvar as vidas de mulheres e de seus recém-nascidos, é necessário mais do que apenas intervenção médica", afirmou Ann Veneman. "Educar as meninas é muito importante para melhorar a saúde de mães e recém-nascidos e também trará benefícios para as famílias e a sociedade."

Leia mais sobre Unicef

 

 

Trabalho escravo resiste e Brasil liberta 4.418 pessoas em um ano

Estado de São Paulo
22/12/2008

 
 

Cinco anos após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançar o primeiro Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - em que previa acabar com o problema até 2006 -, a exploração da mão-de-obra escrava no campo ainda é uma realidade. Em 2008, foram libertadas no Brasil 4.418 pessoas que eram mantidas em condições de trabalho análogas à escravidão, segundo números fechados na última semana pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A reportagem é de Ricardo Brandt e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-12-2008.

Passados 120 anos da abolição da escravatura, os fazendeiros modernos não usam mais correntes, mas continuam escravagistas por cassarem a liberdade dos trabalhadores. O artigo 149 do Código Penal é claro ao definir como condições de trabalho análogas à escravidão aquelas em que a vítima for submetida a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, seja sujeitando-a a condições degradantes de trabalho, seja restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador.

Os números do MTE mostram libertações de pessoas escravizadas em 18 Estados. A maior concentração ocorreu onde houve forte expansão da cultura da cana, como em Goiás e Alagoas, e no Pará, historicamente o maior foco do problema. Em números absolutos, Goiás liderou a lista: foram 867 encontrados, em 7 fazendas. Alagoas, que até então não figurava na relação, ficou em terceiro, com 656 libertados. Nesses Estados, a cultura de cana teve forte expansão, movida pela política de incentivo ao etanol do governo Lula. No Pará, onde a maioria dos casos está relacionada à pecuária e à expansão da fronteira agrícola, foram 703 casos, em 73 propriedades.

Um quadro comparativo produzido pela Divisão de Fiscalização e Erradicação do Trabalho Escravo evidencia como cresceu o percentual de casos nos canaviais, em relação a outras culturas. Em 2003, de 5.223 pessoas resgatadas no País, 11,4% estavam em plantações de cana. Em 2005, a participação foi a 32,7%, mas voltou a cair em 2006, para 8,4%. Em 2007 e 2008, quando ficaram visíveis os primeiros resultados da política de incentivo ao etanol, os casos ultrapassaram 50%, em relação ao quadro geral. Os números são de libertações, desconsiderando a proporção em relação ao total de trabalhadores em cada setor.

A secretária nacional de Inspeção do Trabalho, do MTE, Ruth Villela, responsável pelos Grupos Móveis de Fiscalização, admite que há relação com o avanço da cana. “Como o setor está em fase de expansão, precisamos ver se o Estado não está financiando indiretamente esse tipo de trabalho análogo à escravidão.” Ela, porém, diz que o principal motivo do aumento é outro. Houve “intensificação”, segundo ela, de blitz em canaviais e usinas.

O procurador do Trabalho Jonas Ratier Moreno, coordenador das ações de combate ao trabalho escravo, lembra que o “comportamento ético nas relações de trabalho é uma exigência internacional” e acaba sendo usado em discursos que visam bloquear a entrada de produtos brasileiros no exterior. Em julho, a União Européia tentou condicionar a abertura do mercado ao etanol brasileiro ao compromisso de que a produção é ambientalmente sustentável e não usa trabalho escravo.

COMPARATIVO

Desde 1995, quando foi criado o Grupo Móvel de Fiscalização, 32.185 trabalhadores em condições de escravidão foram resgatados. Em 22.710 autuações, num total de 2.121 fazendas visitadas, foi obtido o pagamento de R$ 46,4 milhões em indenizações. Os grupos móveis são compostos por auditores fiscais do MTE, procuradores, além de agentes e delegados da Polícia Federal. Existem, hoje, nove grupos.

Em 2008, apesar de o número de operações ter aumento (foram 125), o total de pessoas flagradas em condições de escravidão caiu em relação a 2007, quando a marca atingiu o recorde histórico: 5.999. A retração não significa queda dos casos. Nem o aumento das libertações, notado mais claramente a partir de 2003, indica maior incidência de casos. “Não podemos usar o número de libertações como parâmetro. Eles estão relacionados ao número de operações e descobertas de casos”, diz Ruth Villela.

“Eu, particularmente, ainda acredito que seja possível acabar definitivamente com o trabalho escravo no Brasil”, diz a secretária. Tanto ela, como especialistas e procuradores ressaltam, porém, que sem punições mais severas e investimentos em educação e combate à miséria, o problema não vai acabar. “Daqui a 15 anos ainda teremos esses números, se não atacarmos a origem do problema”, diz Moreno.

 
Sem punição a infratores, situação não irá melhorar, apontam especialistas
 
 

Especialistas e autoridades que atuam no combate ao trabalho escravo apontam que, sem punição aos exploradores desse tipo de mão-de-obra, não haverá redução dos casos. Atualmente, as penas aplicadas aos infratores são baseadas no artigo 149 do Código Penal, que prevê de um a três anos de prisão, e na “lista suja”, do Ministério do Trabalho e Emprego, que pune exploradores reincidentes com restrições de crédito.

A reportagem é de Ricardo Brandt e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-12-2008.

A peça fundamental para punir os exploradores está prevista Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, conhecida como PEC do Trabalho Escravo, que está parada desde 2004 na Câmara. Apresentada em 1999 pelo então senador Ademir Andrade (PSB-PA), ela altera o artigo 243 da Constituição, prevendo o confisco de propriedades, sem direito à indenização, em casos de exploração de mão-de-obra escrava.

A proposta, que gerou a criação de uma Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo, no Congresso, prevê que as propriedades confiscadas serão destinadas à reforma agrária. Em agosto de 2004, 326 deputados aprovaram a PEC em primeiro turno. A aprovação aconteceu em meio a cobranças pelo assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho, em Unaí (MG), em janeiro daquele ano.

“A intenção da PEC é atacar esse pilar do sistema capitalista, que é o direito à propriedade. Você pode ser o dono da terra, mas tem que ser responsável pelo que acontece nela”, disse a secretária nacional de Inspeção do Trabalho, Ruth Villela. Mas boa parte dos deputados que votaram a favor da PEC e que integram a “bancada ruralista” tem trabalhado para que a medida não vá novamente a plenário.

O presidente da Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo, senador José Nery (PSOL-PA), disse estar ciente das dificuldades. O episódio ocorrido em 2007 na cidade de Ulianópolis (PA) é um exemplo. O Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho libertou 1.064 pessoas submetidas a condições análogas a escravidão em uma fazenda. A operação provocou críticas de senadores que formaram uma comissão para investigar abusos na fiscalização. Em protesto, o grupo suspendeu então suas operações.

 

 
 


Abaixo-assinado pede aprovação da PEC do Trabalho Escravo

Adital
08.12.08

Até o dia 1° de dezembro deste ano, mais de 140 mil assinaturas já tinham sido coletadas no abaixo-assinado que pede a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional do Trabalho Escravo, a PEC 438. O documento, sob responsabilidade da Frente Nacional contra o Trabalho Escravo e pela Aprovação da PEC 438, é uma forma de pressionar a aprovação das novas medidas pelo Congresso Nacional.

Apresentada em 1999 pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), a PEC propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais. Com a PEC, a expropriação sem indenização atingiria também as propriedades que explorem mão-de-obra análoga à escravidão. Após o confisco, as terras seriam destinadas a assentamentos de famílias como porte do programa de reforma agrária.

Em 2003, a proposta foi aprovada em dois turnos pelo Senado e, em 2004, pela Câmara dos Deputados em primeiro turno. Sua votação em segundo turno está parada desde agosto de 2004. Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que há urgência na solução do problema. Nos últimos 12 anos, 27.645 pessoas foram libertadas, em 1.184 fiscalizações realizadas em 621 operações.

Em 2007, 5.877 trabalhadores libertados de situação análoga à escravidão pelo grupo móvel de fiscalização do governo federal. Foi o maior número desde o ano de 1995, quando as operações foram iniciadas. Os pagamentos de direitos devidos aos trabalhadores (R$ 9,8 milhões) e o total de autos de infração lavrados (3.075) em 2007 também superaram as marcas dos anos anteriores.

Movimentos e organizações sociais realizaram, em março deste ano, em Brasília, uma grande manifestação em favor da aprovação da PEC. Estiveram presentes caravanas de diversos estados do Brasil. Os movimentos pediram mais empenho do governo federal na aprovação da proposta.

Em junho deste ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou dados em que estimava um número entre 25 mil e 40 mil pessoas vivendo sob trabalho forçado, análogo à escravidão, no Brasil. Segundo a OIT, em relação ao número de trabalhadores escravos, só perde para o continente asiático, que possui quase 10 milhões de trabalhadores nessa situação. A estimativa é que a região latino-americana tenha 1,3 milhão de pessoas submetidas a esse tipo de regime.

Para assinar, acesse: www.reporterbrasil.org.br/abaixo-assinado.php

 

 

Ministro cobra de Lula abertura de arquivos da ditadura militar

02/12/2008

 

O ato público pelo Direito à Memória e à Verdade, realizado ontem na Assembléia Legislativa paulista, teve um tom de cobrança ao governo federal pela abertura dos arquivos da ditadura. O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, defendeu que o assunto seja resolvido pelo presidente Luiz Inácio da Silva até o fim da gestão.

A reportagem é de Moacir Assunção e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 02-12-2008.

“Tenho falado ao presidente que ele não pode terminar seus oito anos de governo deixando esse assunto sem uma definição”, afirmou o ministro.

O evento foi promovido pelos deputados federal Paulo Teixeira (PT-SP) e estadual Simão Pedro (PT) e contou com a presença do presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão, de outros parlamentares petistas, como José Eduardo Cardoso, Adriano Diogo e Rui Falcão, além de representantes das principais ONGs ligadas à defesa dos direitos dos presos e perseguidos políticos.

Embora reconhecessem a importância da Lei de Acesso à Informação, a ser enviada ao Congresso pelo governo, os parlamentares e militantes criticaram as poucas mudanças em relação à lei enviada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Abrão, única autoridade federal a permanecer no ato, já que o ministro saiu logo após a abertura, preferiu destacar a importância da participação de São Paulo em uma manifestação pública com esse objetivo. “Vários Estados já fizeram esse ato e faltava São Paulo. Tivemos neste ano uma série de avanços, como as caravanas da anistia, que percorreram o País anistiando ex-presos políticos, e a anistia de personagens como João Goulart, Elza Monnerat, Carlos Marighella Filho, Leonel Brizola e Clara Charf.”

Questionado sobre qual deverá ser a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre se a tortura é ou não passível de anistia, Abrão afirmou que qualquer que seja a decisão ela representará um marco.

Hoje um grupo de nove deputados terá uma reunião com o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para pedir que o Ministério Público Federal entre com uma ação contra um suposto torturador, Marcelo Paixão de Oliveira, que confessou, em entrevista à revista Veja, ter torturado presos políticos durante a ditadura militar.

 
 

 

Procuradoria do Trabalho flagra trabalhadores em regime de escravidão em construção no Recreio

O Globo
26/11/2008

RIO - Cerca de 70 pessoas foram encontradas em situação análoga à de escravo na Fazenda Parque Recreio na terça-feira, no Recreio dos Bandeirantes, durante inspeção realizada por representantes do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, Superintendência Regional do Trabalho e Polícia Federal. Diversas irregularidades trabalhistas foram encontradas no local, entre elas servidão por dívida, salários não pagos, alojamentos impróprios e carteiras de trabalho retidas.

A propriedade pertence ao empresário Pasquale Mauro, dono do Hospital Rio Mar. A fazenda tem sido preparada para se tornar uma área rural urbana temática e turística. Os trabalhadores encontrados foram arregimentados para exercerem funções de serventes, pedreiros e serviços gerais a fim de construir os locais que serão destinados ao público visitante.

Oriundos da Paraíba e de Pernambuco, os trabalhadores receberam proposta para trabalharem no Rio de Janeiro por um salário médio de R$ 800. O intermediário ou "gato" da suposta contratação é chamado por eles de "Nego de Totô".

Dados colhidos revelam que a maioria dos trabalhadores é analfabeta e deixou a família com a falsa promessa de ganhar dinheiro para a construção de um prédio no Rio de Janeiro. Este não é o primeiro grupo a vir de regiões do Nordeste. Alguns já foram demitidos e retornaram para suas respectivas cidades, mas a maioria está instalada na cidade ou nos próprios alojamentos concedidos pelo empregador.

Segundo a procuradoria do Trabalho, o proprietário deverá assegurar a alimentação dos trabalhadores e a integridade física até a data da rescisão contratual, além de garantir o retorno às cidades de origem.

 

 

PISTOLEIROS CUMPREM AMEAÇAS E MATAM SEM TERRA, NO MUNICIPIO DE REDENÇÃO, SUL DO PARÁ.

 Xinguara-PA, 14 de novembro de 2008.

 Na noite de 12.11.08, cerca de 8 pistoleiros atacaram com muitos tiros, mais uma vez, o Acampamento Sardinha onde se encontravam 30 famílias e mataram o trabalhador rural José Ribamar Rodrigues dos Santos, na presença de sua esposa e de seus 03 filhos: uma menina de 03 anos e dois meninos 7 e 5 anos de idade.

As famílias estavam acampadas na margem da BR 158, próximo à Fazenda Vaca Branca (também conhecida por Fazenda Santa Maria), Município de Redenção, Sul do Pará, de propriedade de Maria de Fátima Gomes Ferreira Marques. Por volta das 21:30 chegaram os pistoleiros fortemente armados, encapuzados, vestidos com roupas camufladas, alguns usavam coletes e diziam serem policiais.

Os pistoleiros fugiram quando as famílias correram para pedir socorro a 2 caminhões que passavam na pista. Porém o lavrador José Ribamar Rodrigues dos Santos tinha sido gravemente ferido. Foi socorrido no Hospital de Redenção, mas não resistiu aos ferimentos e logo faleceu.

Lembramos que esses trabalhadores já vinham sofrendo ameaças desde o inicio de setembro de 2008, que comunicaram à Delegacia Especial de Conflitos Agrários (DECA), mas nada foi feito.

Destaca-se que no dia 16.10.08, este acampamento foi atacado por 8 homens armados, que naquela ocasião, também dispararam vários tiros, incendiaram os barracos e destruíram todos os pertences das famílias e ameaçaram de morte os trabalhadores. Naquele dia, mataram o cachorro de José Ribamar e o obrigaram a deitar-se no chão, na presença de sua família, dizendo: “deita pra tu morrer ao lado do teu cachorro”. Mas não mataram o lavrador por causa da presença de outros acampados que gritavam para não matá-lo.

Este ataque também foi comunicado à DECA, que não tomou nenhuma providencia para identificar os responsáveis, os quais voltaram agora ao local do crime e cumpriram as ameaças de morte e mataram Ribamar, na absoluta certeza da impunidade.

Denunciamos a conivência da DECA de Redenção com as milícias de fazendeiros. Até quando pistoleiros, policiais criminosos e mandantes vão continuar agindo na total impunidade na região Sul do Pará, especialmente em Redenção?

José Gonçalves de Moura Neto
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTIURA - FETAGRI

 Frei Henri Burin des Roziers
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA - CPT

 

 

CRIMES DA DITADURA

Seminário debaterá reparação às vítimas da ditadura

As vítimas da ditadura têm direito à reparação? Aqueles que cometeram crime de tortura devem ser punidos? Os documentos do período devem ser tornados públicos? Essas e outras questões serão debatidas no Rio de Janeiro em um seminário organizado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o Clacso e a Uerj.

Boletim Carta Maior
Maurício Thuswohl
11/11/2008

RIO DE JANEIRO – A discussão sobre o direito à reparação financeira para as vítimas da ditadura militar e a pertinência da punição para seus torturadores ganha corpo em todo o Brasil. Reflexo desse momento, será realizado entre os dias 17 e 19 de novembro o Seminário Latino-Americano de Justiça de Transição, que reunirá no Rio de Janeiro diversos especialistas e militantes em direitos humanos, além de representantes do poder público e de organizações não-governamentais.

O seminário acontecerá na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e na sede do Arquivo Nacional, e está sendo organizado em parceria pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pelo Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Uerj. O objetivo do evento, segundo os organizadores, é “potencializar o diálogo com organizações e militantes de direitos humanos, anistiados e anistiandos políticos, acadêmicos e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento e demais interessados, favorecendo a construção de estratégias comuns de respeito e garantia dos direitos humanos e da democracia”.

Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior saúda a realização do seminário: “Ele terá a importância de elevar qualitativamente o debate sobre a nossa transição democrática. Nós tivemos no Brasil uma política de transição, mas não uma justiça de transição. Justiça de transição, enquanto uma diretiva do Conselho de Segurança da ONU, pressupõe a observância da promoção de quatro elementos pós-redemocratização: da verdade, da memória, da justiça e da reparação”, afirma.

Esse processo, segundo Paulo Abrão, está inconcluso no país: “O Brasil somente tem levado adiante a reparação às vítimas. Não possui política pública de memória social, não abriu os arquivos para trazer à tona a história, não responsabilizou judicialmente os algozes da democracia e dos direitos humanos. Por isso, tivemos em nosso país apenas uma política de transição e não uma justiça de transição. E, assim mesmo, uma política de transição capenga, pois, lembremos, o Congresso não aprovou a anistia ampla, geral e irrestrita proposta pela sociedade civil e o MDB no dia 29 de agosto de 1979, e sim uma anistia restrita”.

Paulo Abrão afirma que “o conceito de justiça de transição é pouco disseminado nas práticas jurídicas e acadêmicas brasileiras, mas está assentado em outros países”. Esse deve ser o foco do seminário que, além das conferências, mesas de debate e vídeos, promoverá em seu último dia a inédita reunião de todas as comissões de verdade e reparação da América Latina: “Dali poderão ser verificados pontos históricos convergentes nas formas de repressão e de resistência nestes países, além da maneira como cada país lidou com a transição. É importante saber também se as informações que estão disponíveis em cada país podem ser complementares na elucidação de fatos”, diz o presidente da Comissão de Anistia.

Para Emir Sader, secretário-executivo do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso), os regimes de terror que se impuseram no nosso sub-continente foram a cara mais abertamente repressiva da nossa história. "Sua memória deixa suas marcas nas democracias que as substituiram. Sem a verdade, nunca poderemos virar a página desse momento terrivel da nossa história. Este seminario pretende contribuir para que o conhecimento nos possa fazer um pouco menos prisioneiros de um passado que teima em não passar".

Eixos temáticos

O Seminário Latino-Americano de Justiça de Transição terá seis eixos temáticos: 1) Iniciativas Latino-Americanas para o “Nunca Mais”; 2) Gestão Administrativa, Política e Histórica dos Arquivos da Ditadura Militar; 3) Estado Democrático de Direito, Organizações Internacionais e Sistemas de Reparação; 4) Silêncio, Tempo e Memória – experiências de participação política e resistência na América Latina; 5) Identidade, Alteridade e Reconhecimento – o processo de legitimação jurídico-social da anistia política na América Latina; 6) Poder Judiciário e Sistemas de Reparação na América Latina.

Participarão do seminário os ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, além do ex-ministro Nilmário Miranda, que antecedeu Vannuchi. Também estarão no evento, que terá seis mesas de debate, o representante do Tribunal Penal Internacional de Haia, Xavier Aguirre, o presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Brasil, Marco Antonio Rodrigues Barbosa, e o ex-presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Hélio Bicudo, entre outros.

Os primeiros dois dias do seminário acontecerão no Teatro Noel Rosa (Uerj) e o último, quando se realizarão as reuniões das comissões de verdade e reparação dos países da América Latina, acontecerá na sede do Arquivo Nacional. O evento será aberto ao público, mediante inscrição gratuita que pode ser feita através do site www.lpp-uerj.net/anistia na internet.

Para Paulo Abrão Pires Júnior, “o debate sobre o alcance da lei de anistia hoje no Brasil é uma questão de princípio”. O presidente da Comissão de Anistia justifica a pertinência do seminário com uma série de indagações: “A tortura pode ser considerada crime político? Podemos anistiar crimes de tortura? Que conseqüências isso traz para nossa democracia? Como ficam os tratados e convenções internacionais na área de direitos humanos aos quais o país é signatário? Como fica o Brasil diante da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual estamos vinculados e que declara que tortura é crime contra a humanidade, imprescritível e não passível de anistia?”.


 
 
Recomendo que a secretaria nacional da CPT mande para esse ilustre viajante a tabela com casos de trabalho escravo no Brasil, e se ele nao acreditar, mandem o endereço da Policia Federal, que tem se esforçado para prender os fazendeiros..

Para embaixador, apontar trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar é distorcer a realidade

O subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Itamaraty, André Amado, em entrevista sobre a Confêrencia Internacional sobre Biocombustíveis

Matéria de Ana Luiza Zenker, da Agência Brasil
05/11/2008

Não se pode dizer que há trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar somente por ser possível encontrar na atividade situações de trabalho em condição degradante. Foi o que afirmou ontem (3) o subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Itamaraty, embaixador André Amado. Para ele, isso seria uma distorção da realidade.

“Eu acho que é uma distorção da parte de pessoas que querem [simplesmente] distorcer [a realidade], não é uma alegação que se baseie em fatos”, disse Amado durante entrevista coletiva sobre a Conferência Internacional sobre Biocombustíveis.

Questionado sobre o que o governo brasileiro diria frente a críticas de que o setor de produção de açúcar e álcool emprega pessoas em condições análogas à escravidão o embaixador afirmou que existe uma confusão sobre o que seria trabalho escravo e o que é, na definição da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalho em condição degradante.

“O que nos deixa um pouco indignados é essa preocupação de qualificar o trabalhador rural, porque faz um trabalho muito difícil, à luz do sol, horas a fio, como um escravo. Por quê? Ele tem condições muito difíceis de vida, mas são condições muito difíceis de vários trabalhadores rurais e urbanos brasileiros e nem por isso eles podem ser considerados como escravos. Isso faz parte de uma campanha de denegrimento da atividade de produção de biocombustíveis no Brasil”, argumentou.

De acordo com o embaixador, mesmo os movimentos sociais concordam que, pelo menos em São Paulo, estado responsável por cerca de 60% da produção de cana-de-açúcar do Brasil, os casos encontrados seriam de trabalho em condições degradantes e não trabalho escravo.

Sobre o emprego de crianças na lavoura de cana, Amado concordou que sua existência é provável, mas argumentou que não há como dizer a um produtor no Nordeste, por exemplo, que não empregue o seu filho. “O governo está dizendo isso há muito tempo, o Ministério do Trabalho está dizendo isso há muito tempo, o Ministério Público está fiscalizando isso, mas um que outro caso continua acontecendo e isso é suficiente pra botar o rótulo em toda a atividade como empregadora de crianças?”, questionou.

Ainda de acordo com Amado, os ganhos sociais da produção de etanol no Brasil são muito grandes. Segundo ele, a atividade emprega cerca de 1 milhão de trabalhadores e o setor é o que mais tem carteiras assinadas. “É impressionante o que esse setor incorporou de mão-de-obra talvez flutuante ou desempregada nas áreas de plantação de cana-de-açúcar”, destacou.

A Conferência Internacional sobre Biocombustíveis será realizada em São Paulo, de 17 a 21 de novembro. Ela foi anunciada pelo presidente Lula na Assembléia Geral das Nações Unidas do ano passado e deve contar com a presença de representantes de vários países, incluindo técnicos e ministros.

 

 

Ministro diz que sai do governo se União mantiver defesa a Ustra

O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, ameaçou ontem se demitir caso a AGU (Advocacia Geral da União) mantenha a defesa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, em processo no qual é acusado de ter sido torturador durante o período da ditadura militar (1964-1985).

Folha de S. Paulo
28-10-2008.

Vannuchi discursou ontem, na cerimônia de entrega do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em São Paulo.

O ministro disse que foi chamado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2005 e aceitou o cargo, apesar de problemas pessoais, para avançar a defesa dos direitos humanos.

O ministro afirmou que vai pedir ao presidente Lula, caso a AGU não recue, para deixar o ministério. De acordo com Vannuchi, a peça de defesa de Ustra produzida pela União será utilizada por muitos torturadores em suas defesas.

A Justiça de São Paulo, em primeira instância, reconheceu a condição de Ustra como torturador, depois que uma ação civil pública fez o pedido. Ustra comandou o DOI-Codi, em São Paulo, na década de 1970.


 

 

Série do Congresso em Foco ganha Prêmio Herzog
Reportagens sobre o drama de trabalhadores escravos esquecidos pela
Justiça recebem menção honrosa no principal prêmio de direitos humanos



Edson Sardinha

16/10/2008

A série de reportagens sobre o drama de 79 trabalhadores rurais do
Piauí, submetidos a condições análogas de escravo e vítimas de um
grave acidente rodoviário no interior da Bahia, do repórter Lúcio
Lambranho, ganhou menção honrosa no mais importante prêmio da área de
direitos humanos do jornalismo brasileiro.

Publicada em julho pelo Congresso em Foco, a série foi considerada uma
das três melhores do país, na categoria internet, pelo júri da 30ª
edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. 

Durante quase uma semana, em junho, o repórter visitou familiares dos
trabalhadores levados dos municípios de Corrente e Avelino Lopes,
localizados no sul do Piauí, em 1995, para uma fazenda em Bom Jesus da
Lapa, no oeste baiano, para trabalhar na colheita de feijão. Lá, de
acordo com denúncia do Ministério Público do Trabalho, foram submetidos
a condições degradantes.

Quando voltavam para casa, 40 dias depois, foram vítimas de um grave
acidente que matou 14 pessoas. Outras 15 ficaram com lesões graves,
grande parte delas não consegue mais trabalhar ou não dispõe das mesmas
condições de trabalho de antes. Dos 79 trabalhadores, 23 tinham menos de
18 anos na época.

Sobrecarregado, o caminhão tombou após apresentar problemas mecânicos.
Na carroceria, transportava trabalhadores misturados a centenas de sacas
de feijão.

O caso se arrasta na Justiça há 13 anos. As empresas responsáveis pela
fazenda entraram com recurso no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª
Região contestando as indenizações trabalhistas reivindicadas pelas
famílias. A denúncia pela responsabilidade criminal, porém, sequer
foi aceita pela Justiça da Bahia. 

Com textos e fotos de Lúcio Lambranho, a reportagem mostra como a
tragédia, reforçada pela impunidade, roubou a esperança dos
trabalhadores e dos familiares dos catadores de feijão do Sul do Piauí.


Confira a série no site www.congressoemfoco.com.br

 



MUNDO TERÁ 1,4 BILHÃO EM FAVELAS ATÉ 2020, DIZ ONU

No Dia Mundial da Habitação, Raquel Rolnik afirma que não pode haver cidades harmônicas sem políticas sociais eficientes de moradia.

Mônica Villela Grayley
07/10/2008
Fonte: Rádio ONU

A relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para Moradia Adequada, Raquel Rolnik, afirmou que o mundo precisa de políticas mais inclusivas para melhorar as condições habitacionais da população.

Numa mensagem para marcar o Dia Mundial da Habitação, neste seis de outubro, a relatora da ONU afirmou que um em cada três moradores de cidades, vive em favelas.

Políticas Corretas

Segundo ela, se nada for feito, o mundo terá 1,4 bilhão de pessoas morando nestas condições até 2020. Ao contrário de 998 milhões, atualmente.

Nesta entrevista à Rádio ONU, Raquel Rolnik afirmou que em muitos casos, por questão de segurança, é preciso remover os moradores de suas comunidades. Mas para ela, isso pode ser evitado com políticas de urbanização corretas.

"Existe sim, como eu insisto, muitas vezes a necessidade de remoção. Mas o que dizemos é que independentemente se a solução melhor ou desejo é sair ou ficar, o direito de ter reconhecida sua posse neste local, este direito é inequívoco do ponto de vista de uma política urbano-habitacional includente", afirmou.

Brechas

Segundo o especialista Carlos Alberto Paranhos, do UN-Habitat no Brasil, o abismo social ainda é um problema para a maioria dos centros urbanos na América Latina. De acordo com Paranhos, os níveis de desigualdade social estão entre os maiores do mundo.

"Apesar de haver muita pobreza, o que mais chama a atenção não é tanto a pobreza, mas a desigualdade. A tremenda brecha que existe entre as famílias de pessoas mais ricas e as mais pobres. Entre as famílias que têm todo os direitos à cidade, à habitação, a emprego e a serviços e as famílias que mal conseguem sobreviver de um dia ao outro", afirmou.

Neste ano, a capital de Angola, Luanda, está liderando as comemorações do Dia Mundial da Habitação sob o tema "Cidades Harmoniosas".

O objetivo da data, marcada na primeira segunda-feira de outubro, é refletir sobre as condições de moradias em bairros e cidades e o direito fundamental de todos os seres humanos ao abrigo.



 

MST responsabiliza política do governo por presença de supostos assentamentos em lista sobre desmate


Folha Online
30/09/2008 - 16h37

Em nota divulgada nesta terça-feira, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) responsabiliza a política do governo federal pela presença de supostos assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia.

"Nenhum dos oito assentamentos da lista dos maiores devastadores da Amazônia, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, localizados no Mato Grosso, é coordenado pelo MST. A presença de supostos assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia é conseqüência da política do governo federal, tanto na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso quanto do presidente Lula, de regularizar a posse de áreas sem critérios adequados para inflar os
números da reforma agrária", diz a nota. O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) lidera os seis primeiros lugares dos 100 maiores desmatadores da floresta amazônica. Além do instituto, há várias empresas de agropecuária, cooperativas e pessoas físicas entre os principais destruidores do ambiente na Amazônia Legal.

A lista com os 100 maiores desmatadores, elaborada pelo Ministério do Meio Ambiente, foi divulgada ontem, no mesmo dia em que o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) informou sobre o aumento de 134% da região desmatada em agosto em comparação a julho deste ano.

Leia a íntegra da nota do MST:

"1- Nenhum dos oito assentamentos da lista dos maiores devastadores da Amazônia, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, localizados no Mato Grosso, é coordenado pelo MST. A presença de supostos assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia é conseqüência da política do governo federal, tanto na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso quanto do presidente Lula, de regularizar a posse de áreas sem critérios adequados para inflar os números da reforma agrária.

2- A pilhagem de madeira foi travestida de assentamento, como denunciamos ao lado do Greenpeace, em 2007. Foram criados assentamentos ilegais em benefício de madeireiras na Amazônia Legal. Investigações do MPF (Ministério Público Federal) e do Greenpeace identificaram a falta de laudos e licenciamento ambiental, além de cadastros adulterados, para criação formal dos chamados 'assentamentos fantasmas', destinados ao desmatamento de áreas florestais para extração de madeira.

3- A reforma agrária está parada em todo o país. Os assentamentos realizados não atacaram o latifúndio e a concentração de terras aumentou no país durante os últimos governos. Cerca de 70% dos assentamentos dos governos FHC e Lula foram criados em terras públicas, por meio da regularização fundiária na região da Amazônia Legal.

4- Participamos da campanha 'Desmatamento Zero', em defesa da Amazônia, ao lado de diversas entidades da sociedade civil. Exigimos a rejeição do Projeto de Lei 6.424/05, do senador Flexa Ribeiro (PSDB), que diminui a área de reserva legal florestal da Amazônia, e a medida provisória 422/08, conhecida 'PAG (Plano de Aceleração da Grilagem)', que possibilita a legalização da grilagem na Amazônia.

5- O Ministério do Meio Ambiente deve rejeitar esses projetos devastadores e tomar medidas rígidas para impedir a expansão do agronegócio na Amazônia, que é o principal responsável pelo processo de devastação. Nos últimos cinco meses de 2007, a pilhagem da madeira, a expansão da pecuária e da soja para exportação causaram a devastação de até 7.000 km2, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente."

 

 

Maggessi critica ação de José Rainha na Rocinha; MST chama deputada de irresponsável

ANDRÉ ZAHAR
colaboração para a Folha Online, no Rio
23/09/2008 - 13h26

A deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ) disse hoje estar preocupada com uma suposta tentativa do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de politizar os traficantes da Rocinha. A declaração foi feita durante depoimento dela à CPI das Milícias da Alerj (Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro).

Marina se referia a ida do líder sem terra José Rainha Júnior à favela e ter declarado apoio ao candidato Claudinho da Academia (PSDC), suspeito de ter respaldo do crime organizado. Segundo Marina, há outros 20 membros do MST atuando na Rocinha.

"Me preocupa a presença do MST na Rocinha. A Rocinha tem mais de 2.000 fuzis. O MST armado de foice e martelo já faz bastante estrago. Imagina com fuzil", disse.

Procurado pela reportagem, o MST informou que considera as declarações de Maggessi levianas e irresponsáveis. Informou ainda que ela é mal informada, pois Rainha não faz mais parte dos quadros do MST.

Em julho, durante uma operação na Rocinha, a polícia encontrou a ata de uma suposta reunião na casa do traficante Nem que tratou das eleições e teve a participação de Rainha.

"O que me preocupa é o convencimento dos membros do MST de que os traficantes podem virar salvadores da pátria. Já tivemos esse tipo de discurso, com Marcinho VP, André Fernandes, William Professor... Os traficantes não têm condição de escrever a ata que foi apreendida na operação das delegacias", disse.

Marina é aliada politicamente da vereadora André Gouvêa Vieira (PSDB) que disputa votos na Rocinha com Claudinho da Academia. No depoimento, a ex-delegada da DRE (Delegacia de Repressão aos Entorpecentes) fez uma espécie de "mea culpa" por ter considerado a milícia um mal menor do que o tráfico de drogas.

Ela disse, porém, que não tinha atribuição de combater os grupos paramilitares. "A delegacia que cuidou desse tipo de organização sempre foi a Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado). Minha área de atuação sempre foi o combate a entorpecentes", alegou.

Marina foi convidada pela CPI depois que o vereador carioca Josinaldo Francisco da Cruz (DEM), o Nadinho de Rio das Pedras, disse à comissão que ela fez campanha na comunidade de Rio das Pedras, dominada por milícia, em 2006.

A deputada disse hoje que foi à favela apenas ao aniversário do inspetor Félix Tostes, assassinado posteriormente. Nadinho é acusado pela morte do inspetor, que teria planos de se lançar candidato a vereador.

Segundo Marina, ligação com o inspetor Félix era "profissional" e outros políticos estiveram na mesma festa. mas ela evitou citar nomes. "Eu não vou arrastar pessoas que estão acima de qualquer suspeita para a vala comum das milícias", disse.

 

 

Seminário discute injustiças contra trabalhadores do campo e da cidade

Agencia Brasil de fato
15 de agosto de 2008
Marcelo Salles, do Rio de Janeiro

A Justiça brasileira é lenta, seu acesso é desigual e suas decisões favorecem, via de regra, quem tem mais poder. Eis a conclusão do seminário “A Justiça que nós queremos”, organizado pela Associação Juízes para a Democracia, na sexta-feira 15 de agosto, na Escola de Magistratura do Rio de Janeiro.

Em depoimento emocionado sobre o assassinato de seu filho, Márcia Jacintho criticou o novo adiamento do julgamento dos policiais acusados. “Meu filho foi morto por aqueles que deveriam preservar sua vida. O julgamento dos PMs [marcado para 12 de agosto] foi adiado por uma manobra dos advogados”. Os assassinos de Henry estão impunes há seis anos.

O delegado de Polícia Orlando Zaccone, titular da 52a. DP, reconheceu a responsabilidade da polícia, que muitas vezes mascara as mortes com os chamados autos de resistência (morte em confronto). Mas lembrou que existe todo um sistema que garante o funcionamento dessa política de extermínio: “A polícia mata, mas quem enterra é o Judiciário”, disse, numa referência ao papel do juiz, único com poder para encerrar um inquérito (e os autos de resistência são inquéritos).

Zaccone lembrou ainda que os meios de comunicação participam ativamente desse processo. “Como assinala o jurista argentino Raúl Zaffaroni, a mídia é uma das agências executivas do sistema penal”, disse durante sua intervenção. Em entrevista ao Brasil de Fato, exemplificou: “Quando você pega uma matéria que diz assim: ‘polícia sobe o morro e mata não sei quantos bandidos’. Como sabe que é bandido? A mídia começa todo um trabalho pra que aquela letalidade seja legitimada”.

Em sua intervenção, João Pedro Stédile radicalizou a crítica aos meios de comunicação: “A imprensa no Brasil é mera zeladora dos interesses do capital . A Globo só faz defender os interesses do capital. Não é democrática. Não é imparcial. ”, disse. O integrante da direção nacional do MST afirmou que, além da imprensa, o latifúndio e o capital internacional através de suas empresas trasnancionais, são os responsáveis pelo atraso secular da Reforma Agrária no Brasil. E nesse quadro, a Justiça tem favorecido os grandes proprietários de terras e prejudicado os trabalhadores rurais.

“Por que está emperrada a Reforma Agrária no Brasil se temos necessidade, temos terra, temos lei, temos programa?”, perguntou Stédile, para em seguida dar uma pista: “O presidente do Incra disse que a ordem da Casa Civil é só desapropriar terra se o fazendeiro quiser”. Como o que eles querem é ampliar suas propriedades e seu poder, além de não ceder as terras, os fazendeiros fizeram uma aliança com as empresas transnacionais. Isso é o agronegocio.

É a “aliança do capital financeiro internacional com os grandes proprietários de terras. Não mais que 40 empresas multinacionais passaram a controlar toda produçao de grãos, o comércio agrícola e a as agroindustrias no Brasil. Apenas tres multinacionais, por exemplo, controlam todas as fábricas de fertilizantes quimicos agrícolas”, denunciou João Pedro Stédile, que também criticou o enquadramento de oito companheiros na Lei de Segurança Nacional por um juíz federal no Rio Grande do Sul.

O coordenador do MST concluiu sua palestra com duras críticas ao banqueiro Daniel Dantas, recentemente preso pela Polícia Federal. E afirmou que os sem-terra não se calarão diante das injustiças no campo: “Dantas é o maior testa de ferro do capital internacional. O Banco Opportunity comprou 600 mil hectares no estado do Pará. Por isso nós ocupamos. Não importa que seja legal, o que importa é que é injusto!”.

 

   
 

"PRODUTOR DO ASFALTO" USA SOJA COMO MOEDA DE TROCA

Caiado ganha dinheiro arrendando 3 mil hectares de terra (que herdou da familia)

Jornal Estado de Sao Paulo
10 de agosto de 2008

A cotação recorde da soja, alcançada nos últimos meses, garantiu bons negócios para o empresário Eduardo Caiado, de 25 anos. “Sou produtor do asfalto”, diz o dono de seis fazendas produtoras de soja espalhadas pelos Estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso. “Não tenho nenhum trator”, conta. Ele ganha dinheiro com o arrendamento de 3 mil hectares de terras em troca de soja.

Foi assim que fez um negócio de ocasião em fevereiro. Fechou a compra de mil hectares de terras, cotados em 100 sacas por hectare, com pagamento parcelado em três anos. Ao todo vai pagar o equivalente 100 mil sacas de soja. A primeira parcela, de 33 mil sacas, foi quitada quando o produto estava cotado em R$ 45. As demais serão pagas entre fevereiro de 2009 e fevereiro de 2010.

Agora, a cotação da soja já caiu para R$ 39 a saca. “Fiz um bom negócio”, comemora. A torcida do empresário é para que o preços estejam em baixa nas datas em que terá de quitar as demais parcelas.

Além de comprar uma fazenda vinculada à soja, Caiado adquiriu um automóvel BMW 325 quando a commodity estava no pico de preço. Pagou o equivalente a 4,4 mil sacas de soja, cerca de R$ 200 mil. Atualmente, com a soja nos R$ 39 por saca, ele teria de desembolsar mais de 5 mil sacas. “Comprei o carro quando a soja está no valor mais alto”, gaba-se o empresário.

Em Ribeirão Preto (SP), onde Caiado mora, boa parte dos clientes compram veículos de luxo tendo como unidade monetária produtos agropecuários, conta José Carlos Chagas, supervisor da revenda de carros de luxo da Eurobike.

RESERVA
Caiado conta que recebe os aluguéis das terras e deixa a soja depositada nas cooperativa, aguardando o momento mais oportuno para vender o grão. Na prática, a soja funciona como uma reserva de valor para o empresário. Quanto ao atual ciclo de baixa das commodities, ele acredita que será passageiro. “A cotação da saca de soja deve voltar a R$ 45”, palpita.

Nota:
Assim como o fazendeiro paulista, sr. Caiado, existem no Brasil, segundo dados do cadastro do Incra e o censo do IBGE ao redor de 35 mil fazendeiros proprietarios de mais de 2 mil hectares.de terra.  cerca de 90% deles não moram na fazenda mas nas capitais.  A grande maioria mora em São paulo, Campo grande e Goiania.   São donos de 46% de todas as terras do Brasil, ou seja mais de 140 milhões de ha.
Ninguem deles acumulou terras trabalhando..




 

Frei Cappio recebe prêmio por luta em defesa do Velho Chico

Brasil de Fato
por jpereira
08/08/2008

Bispo brasileiro é reconhecido por sua luta em defesa do rio São Francisco, e comunidades que dependem dele, através do Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional 2008


da redação

Frei Luiz Flavio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), receberá o Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional 2008 (2008 Pax Christi International Peace Award). O bispo brasileiro foi escolhido para receber o prêmio por suas ações a favor do rio São Francisco, bem como das pessoas que dependem dele para viver.

A Pax Christi é um movimento católico internacional para a Paz, fundado na França em 1945, com mais de 100 organizações-membro ativas em todo o mundo. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) integra a organização e será responsável pela entrega do prêmio ao frei Luiz Cappio. A cerimônia ainda não tem data marcada, mas poderá ser feita aqui no Brasil, como forma de aproximação às ações de Dom Cappio.

O bispo ficou conhecido mundialmente após realizar um jejum de 24 dias em protesto contra a transposição do rio São Francisco. Sua manifestação chamou a atenção de movimentos sociais, personalidades públicas e do governo brasileiro aos prejuízos que o projeto trará às comunidades riberinhas e à biodiversidade da região cortada pelo rio.

 

 

ARTISTAS ENTRAM NA LUTA PELA DEMARCAÇÃO DE ALDEIA EM NITERÓI.
    
Por Fátima Lacerda, da Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br)
01/08/2008



Sete dias depois de viverem a desolação de encontrar sua aldeia queimada, os índios guaranis de Camboinhas, em Niterói, viveram momentos de muita emoção, durante a visita de artistas que decidiram abraçar a causa da demarcação das suas terras. Osmar Prado, Antonio Pitanga, Licurgo Spínola, Priscila Camargo prometeram não descansar até que a aldeia seja reconstruída e suas terras demarcadas.

O incêndio, provavelmente criminoso – a Polícia Federal investiga o caso – aconteceu no dia 18 de julho. Os principais alvos foram a escola, livros e objetos sagrados. O local onde os guaranis estão instalados, desde abril, é uma região de sambaquis (cemitério indígena), que está sendo alvo da especulação imobiliária, embora o terreno esteja em área do Parque Estadual da Serra da Tiririca.

Pesquisadora de histórias, lendas e contos tradicionais, a atriz Priscila Camargo já tem um vínculo com a aldeia e liderou a caravana dos artistas a Camboinhas. Tão cedo ela não conseguirá apagar da memória a imagem do dia do incêndio,  quando esteve na aldeia, a convite do cacique Darci de Oliveira:

"Quando cheguei, eram 16 horas. Ainda havia fogo. Chorei muito. Foi uma dizimação, como nos filmes americanos. Nunca pensei que fosse presenciar uma coisa dessas. Como cidadã, senti que precisava fazer alguma coisa. É uma honra termos os índios guaranis tão perto, pra gente aprender com eles. Eles formam uma sociedade onde existe respeito e liberdade. Deixar os índios nesta terra é uma garantia de que elas serão preservadas. Estão querendo acabar com os índios. É como se estivessem querendo acabar comigo também, botando fogo na minha própria casa. Não vamos permitir que isso continue. Demarcação já!" – clamou Priscila.

Osmar Prado estava tomado da mesma emoção. Ele é um dos muitos artistas que integram o Movimento Humanos Direitos (MHuD), voltado para a erradicação do trabalho escravo, da exploração sexual infantil, da demarcação das terras indígenas e quilombolas. A causa dos guaranis de Camboinhas agora está entre as suas prioridades:

"Onde houver esse tipo de violência e me pedirem para que compareça, lá estarei. Corre no meu sangue o sangue negro, índio e europeu. Estou defendendo os meus irmãos. Imaginem se fosse o contrário, se invadissem e queimassem as casas onde moramos, as nossa igrejas, os nossos cemitérios? Por que com os índios é diferente? Falta iniciativa dos órgãos encarregados de defender a comunidade indígena. Por isso estamos aqui. Concentrar-se no outro, preocupar-se com o outro, sofrer pelo outro e com o outro, essa é a lição básica da existência, o resto não vale nada" – declarou, visivelmente comovido.

O ator Antonio Pitanga acha que os inimigos dos índios "deram um tiro no pé, ao incendiar a aldeia". Ele está certo que essa violência vai acender a indignação e o espírito guerreiro daqueles que reconhecem a dívida histórica da nossa sociedade com negros e índios.

Durante a visita, Darci de Oliveira homenageou a comitiva – além dos artistas havia jornalistas, políticos, representantes de sindicatos e de movimentos sociais - com belas canções indígenas, que provocaram lágrimas. Homens, mulheres e crianças indígenas formaram uma roda, executaram instrumentos musicais típicos e cantaram em guarani. A platéia escutava em silêncio, tomada de uma sensação de paz e reverência. Depois, o cacique fez um apelo para que a Funai acelere o processo de demarcação das terras. O jurista João Luiz Pinaud disse que escreveu uma carta ao ministro Tarso Genro, em favor da demarcação, encaminhando, também, dados arqueológicos que atestam a presença de sambaquis na região.

Saiba mais em ACONTECEU/JULHO 2008, neste site.

 

 

PROJETO DA REPÓRTER BRASIL CONCORRE A PREMIAÇÃO INTERNACIONAL

Com um voto simples pela internet, qualquer um pode escolher os três projetos que receberão prêmio de US$ 5 mil, que será concedido a cada uma das iniciativas selecionadas. Repórter Brasil concorre com outros 14 projetos

Por Repórter Brasil
31/07/2008


O projeto da Repórter Brasil que visa tornar o trabalho escravo um mau negócio é finalista do Desafio Changemakers de combate à escravidão contemporânea, iniciativa da Ashoka, em parceria com a Humans United.
Nesta fase final, a proposta da Repórter Brasil - com base na pesquisa das cadeias produtivas ligadas à mão-de-obra escrava e se desdobra na articulação do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne empresas comprometidas em cerccear relações comerciais com escravagistas - concorre diretamente com outros 14 projetos de todo mundo, escolhidos por um grupo de especialistas. Foram inscritas 237 propostas de 48 países.

Com um voto simples pela internet no site da Ashoka, qualquer pessoa pode ajudar a escolher os três projetos que receberão prêmio de US$ 5 mil, que será distribuído a cada uma das iniciativas selecionadas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social são parceiros da Repórter Brasil nessas iniciativas.

Para contribuir com o trabalho desenvolvido pela Repórter Brasil, basta preencher um formulário simples e, na seqüência, escolher a opção "Making slave labor a bad business option/REPORTER BRASIL" - como um dos três projetos indicados. A votação se encerrará no próximo dia 6 de agosto.

Outro projeto do Brasil também concorre à premiação. A organização Resposta pretende convocar o setor privado a adotar boas práticas para a proteção de crianças e adolescentes contra a exploração e tráfico para fins sexuais. A iniciativa busca envolver companhias que atuam no mercado de postos de combustíveis na malha rodoviária brasileira.

Mais sobre o projeto
Em 2003, a Repórter Brasil começou a realizar uma extensa pesquisa para mostrar como mercadorias produzidas com trabalho escravo estavam inseridas na economia brasileira e global. Foram identificados problemas nas cadeias produtivas da pecuária bovina, do carvão vegetal, da soja, do algodão, da madeira, do milho, do feijão, da cana-de-açúcar, entre outras.

Apuradas as informações, empresas brasileiras e multinacionais que apareceram nesse rastreamento foram convidadas a criar mecanismos para evitar fornecedores que utilizaram mão-de-obra escrava. As articulações em torno do tema deram origem ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne hoje mais de 180 empresas e associações setoriais e consiste no único do gênero em todo o mundo.

Os estudos de cadeia produtiva e o Pacto Nacional tornaram possível o combate à escravidão por meio do seu viés comercial. Com eles, a sociedade como um todo pode atacar quem lucra restringindo a liberdade de outros.


 

TRABALHO ESCRAVO:PRIMEIRA BAIXA NO PACTO NACIONAL

Redação CartaCapital
21/07/2008



O barato está saindo caro para o Grupo José Pessoa, um dos maiores do setor de açúcar e álcool no País. Na sexta-feira 11, o conglomerado liderado pela Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA) protagonizou a primeira exclusão de um signatário do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, após duas reincidências verificadas por auditores federais em sete meses.

O que estava ruim ficou pior quando, na terça-feira 15, uma das empresas do grupo, a Agrisul Agrícola Ltda., entrou na lista de empregadores que utilizam trabalho escravo, atualizada semestralmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Quem aparece na lista passa a ter restrições de incentivo fiscal e de operações de crédito em instituições públicas federais, além de sofrer sanções dos signatários do Pacto. De defensor da dignidade a vilão dos direitos humanos em cinco dias.

O Brasil é o melancólico pioneiro no reconhecimento e no monitoramento do trabalho escravo no mundo. A exclusão de um signatário, inédita, não é vista como uma derrota que recai sobre o Pacto. A coordenadora do programa na Organização Internacional do Trabalho (OIT), Andréa Bolzon, diz que foi uma surpresa a primeira infração * na ocasião, uma auditoria encontrou 1.011 trabalhadores, a maior parte indígenas, em situação degradante numa empresa da CBAA em Brasilândia (MS). "Passado o susto, a segunda infração foi inconcebível, injustificável", diz, referindo-se aos 55 trabalhadores encontrados em regime de servidão por dívida, após serem transportados irregularmente do Vale do Jequitinhonha (MG) para Icem (SP) e terem documentos apreendidos.

Além da OIT, o Instituto Ethos e a ONG Repórter Brasil compõem o comitê gerenciador do Pacto. O presidente do Ethos, Ricardo Young, diz que, além da exclusão, o Grupo José Pessoa terá de enfrentar uma avaliação de imagem pelo mercado. "Eles tiveram todos os elementos para não reincidir, e mostraram que não aprenderam. Esse é um risco que todo o setor do açúcar e do álcool corre por não estar dando a devida atenção à questão do trabalhador", acredita Young, para quem uma crise de reputação como esta não tem volta. "As parcas economias feitas são nada diante do prejuízo não apenas da imagem, mas dos negócios." Procurado por CartaCapital, o empresário José Pessoa de Queiroz Bisneto disse que atenderá ao pedido de entrevista na semana que vem.

 

 

244 CORTADORES DE CANA SÃO RESGATADOS DE TRABALHO DEGRADANTE EM GOIÁS

Condições precárias: Usina Fortaleza Açúcar e Álcool, situada no município de Porteirão (GO), mantinha 244 homens na lavoura de cana em situação de trabalho degradante. Descaso com saúde e segurança foram os principais motivos do resgate

REPÓRTER BRASIL - 15/07/2008
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Por Christiane Peres


Uma operação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE-GO) encontrou 244 trabalhadores em condições degradantes na Usina Fortaleza Açúcar e Álcool Ltda, em Porteirão (GO), no sul do estado. Além dos alojamentos precários, a fiscalização flagrou cortadores de cana-de-açúcar trabalhando sem condições de segurança e com alimentação de péssima qualidade, gerenciada por terceiros. Um dos principais problemas encontrados pelos fiscais foi a inadequação dos equipamentos de proteção individuais (EPIs) utilizados pelos trabalhadores na lavoura.

Além das rescisões, que somaram mais R$ 350 mil, a usina poderá ser obrigada a desembolsar mais de R$ 2 milhões em uma ação que será ajuizada por danos morais coletivos e outros R$ 3 ou 5 milhões pelos 102 autos de infração lavrados pela fiscalização. "Será uma medida exemplar", destaca o procurador do Trabalho Januário Justino Ferreira. Por conta da situação encontrada, ele nem propôs a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), partindo logo para uma ação civil pública contra a usina.

O procurador garantiu que também vai entrar com uma representação-crime contra os "gatos" - contratadores de mão-de-obra - e contra a diretoria da empresa. Segundo Januário, apesar de gerir cerca de 900 empregados, a Usina Fortaleza deixava na mão dos intermediários a administração dos trabalhadores que foram resgatados. A empresa assinava a carteira de trabalho, mas quem "cuidava" de fato da admissão, hospedagem, alimentação, transporte e até demissão dos cortadores de cana eram os "gatos", também responsáveis pelo aliciamento das pessoas na Região Nordeste. A maioria dos 244 resgatados na usina viera do Maranhão.

"Essa empresa desrespeitou todos os direitos desses trabalhadores. Fazia vista grossa e permitia que gatos gerenciassem com mão de ferro os trabalhadores. A falta de segurança e o pouco caso com a saúde foram os problemas mais graves. Havia muitos acidentes de trabalho e esses homens estavam completamente desassistidos. Vou investigar até os médicos da região, pois acredito que agiam junto com as empresas, que se omitiam. Muitas vezes o trabalhador da usina chegava no médico com um corte profundo no braço, na mão, na perna e ele dava um atestado de cinco dias e não registrava a CAT [Comunicação de Acidente de Trabalho]", conta o procurador.

Só no último mês, dois jovens de 22 anos morreram na usina. Um deles teve a vida subtraída ainda durante a fiscalização do grupo móvel. O acidente aconteceu numa madrugada com uma colheitadeira. Uma das roldanas enroscou na camisa do trabalhor e o atirou para dentro da máquina. O jovem, que não teve o nome divulgado, não resistiu e morreu no hospital da cidade. O outro acidente aconteceu durante a manutenção de uma caldeira. Sem EPIs, o funcionário caiu de uma altura de oito metros e também não resistiu. Segundo o auditor fiscal do Trabalho que coordenou a ação da SRTE-GO, Welton Oliveira, a empresa será responsabilizada pelas mortes.

Regras impostas pela Previdência Social são comumente burladas por empresas para "desviar" a atenção dos fiscais sobre suas atividades. Muitas vezes, as Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs), que são obrigatórias em todo e qualquer caso de acidente ou doença de trabalho, não são emitidas. Esse registro é essencial para que o trabalhador possa receber os benefícios a que tem direito. Outra garantia que está vinculada à CAT é a estabilidade do funcionário por um ano após o retorno ao trabalho, norma que geralmente não interessa ao empregador.

"Eles não pensam na saúde do trabalhador. Tudo é válido para enganar e retardar a fiscalização. Além disso, uma empresa com esse tanto de funcionários deveria ter no mínimo um médico do trabalho, uma enfermeira, um engenheiro do trabalho, dois técnicos agrícolas e um auxiliar de enfermagem. Seis profissionais para cuidar minimamente da saúde de seus trabalhadores. Ela substituiu por um. A empresa tinha um técnico agrícola para fazer o trabalho todo. Isso caracteriza um extremo descaso com a segurança e saúde", critica o auditor fiscal Welton Oliveira.

Na tentativa de impedir a continuidade de violações, o procurador Januário enumerou algumas obrigações que devem constar da ação civil pública: o uso de aliciadores na contratação de mão-de-obra e a administração dos funcionários por terceiros serão vetados; e empresa será obrigada a assumir a hospedagem, a alimentação e o transporte. A usina terá ainda que se adequar às normas de segurança e medicina do trabalho e passar a expedir as CATs, além de prestar toda assistência necessária aos trabalhadores em momentos de acidentes e fornecer EPIs adequados.

Para o gerente administrativo da Fortaleza Açúcar e Álcool, Luiz Antônio Vanim, a ação terminou "de forma satisfatória para todos", mesmo com tantas exigências. O gerente discorda, porém, quanto ao resgate por trabalho degradante. Para ele, os alojamentos em situações precárias, a falta de EPIs e os acidentes de trabalho não passam de uma questão de ponto de vista. "Essa parte está superada, a ação terminou de forma conciliatória para ambos os lados. Já não temos mais aqui esses trabalhadores que eles [a fiscalização] consideravam estar em condições degradantes. Resolvemos atender as exigências e tudo acabou bem. Mas o ato de cortar cana é igual em todo lugar. No entendimento dos fiscais não era adequado, mas para mim é tudo uma questão de visualização. Numa situação dessas, o que os resta fazer é atender as determinações, certo?", pondera o representante da empresa.

Luiz Antônio também nega que os trabalhadores ocupassem os alojamentos inadequados por imposição da empresa ou do "gato". Segundo ele, "era conveniente" para os cortadores de cana, "pois muitos queriam ficar perto da cidade". "A gente não podia obrigá-los a ficar em nossos alojamentos. Mas agora não vamos contratar mais ninguém que não queira morar nos alojamentos da empresa. Não podemos arcar mais com isso", responde o gerente da usina, numa tentativa de se eximir da responsabilidade.

De acordo com o auditor fiscal Welton, essa não é a primeira fiscalização da empresa. No ano passado a usina recebeu uma visita do grupo móvel, mas não foram encontrados trabalhadores na ocasião. Os fiscais deixaram apenas páginas e páginas de recomendações que precisavam ser seguidas. "Eles não cumpriram nenhuma. Acho que 90% do que foi recomendado foi autuado esse ano", afirma Welton, que lavrou os 102 autos de infração.

A operação começou no dia 13 de junho e só acabou no dia 10 de julho - quase um mês depois. Apesar de a empresa ter acatado todas as exigências, a demora no pagamento das rescisões aconteceu porque a empresa - que possui escritório central em Campinas (SP) - não possuía a relação dos trabalhadores que haviam sido contratados, em sua maioria, em janeiro deste ano. Na última quarta-feira (9), o grupo derradeiro de 21 trabalhadores recebeu verba indenizatória e foi encaminhado de volta às cidades de origem.




 

REDE DE SOLIDARIEDADE

Xinguara - PA
08 de julho de 2008

Conforme é do conhecimento de vocês, a Mineração Onça Puma, empresa do Grupo Vale, está implantando um projeto de exploração de níquel no Município de Ourilândia do Norte, Sul do Pará, o que tem trazido inúmeras conseqüências gravíssimas para a população dos Projetos de Assentamento atingidos, da zona urbana de Ourilândia e Tucumã, bem como para o meio ambiente.

A CPT já denunciou publicamente este caso, ingressando com uma Representação no Ministério Público Federal em 16.04.08 e divulgando pela imprensa.

O próprio INCRA também impetrou uma Ação Civil Pública na Justiça Federal de Marabá, em 18.06.08, requerendo essencialmente a paralisação das obras. Em função disso, divulgamos nova nota à imprensa para dar apoio à Ação do INCRA.

Porém, pensamos numa campanha mais ampliada.

Para tanto, sugerimos que sua entidade envie Carta ao Juiz Federal, manifestando apoio ao pedido do INCRA e solicitando decisão favorável.

Outrossim, é importante também enviar carta ao Presidente do INCRA, pois ele está com a responsabilidade de decidir sobre o pedido da Vale de desafetar a área.

Assim, enviamos em anexo os dois modelos de cartas que vocês podem alterar, se julgarem necessário, bem como a nova nota, para conhecimento.

Atenciosamente,
Frei Henri des Roziers

JUSTIÇA FEDERAL DE MARABÁ
Praça do Mogno, 6665, bairro Amapá, CEP 68502-610, Marabá-PA;
Tel: 94 3324-2899/2497/2486; fax 94 3324-2496
e-mail: [email protected]

INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA - INCRA
ROLF HACKBART - PRESIDENTE
Setor Bancário Norte
Palácio do Desenvolvimento – 18º Andar
Brasília – DF – CEP: 70057-900
Fax da Presidência: 3411-7609
E-mail: [email protected]

 

 

UNIÃO ACUSA VALE DE INVADIR ASSENTAMENTOS

Segundo relatório do Incra, mineradora negociou diretamente com 53 assentados no Pará terras de reforma agrária

Órgão diz que área na qual empresa já iniciou obras de projeto bilionário de produção de níquel foi adquirida ilegalmente


EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE (PA)

Por meio de um relatório carimbado pela presidência do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o governo federal acusa a Vale, segunda maior mineradora do mundo, de ter invadido uma área de assentamentos da União no sudeste do Pará para desenvolver um projeto bilionário de produção de níquel.
Segundo o documento, ao qual a Folha teve acesso, a mineradora Onça Puma, da Vale, indenizou diretamente, entre 2003 e 2007, 53 assentados para que saíssem de seus lotes.
Apesar de possuir o chamado "direito de lavra" da área do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), a mineradora só poderia trabalhar na área com autorização da chefia do Incra.

Na área de interesse da mineradora, há 7.400 hectares localizados dentro dos dois assentamentos -o equivalente a quatro vezes a área do arquipélago de Fernando de Noronha.
Sem a mediação constante do órgão federal, a mineradora coagiu os lavradores a aceitarem as indenizações, segundo alguns deles afirmaram à Folha. A empresa nega a pressão.
De acordo com o relatório, as "compras" dos lotes ocorreram por cinco anos. Nesse meio tempo, no final de 2005, a Vale comprou a canadense Canico, cujo principal ativo no país era o projeto da Onça Puma, inflado pela mineradora brasileira.

"Quem desencadeou essa situação foi a mineradora, que, mesmo ciente da ilegalidade da situação e sem haver recebido a autorização formal desta autarquia, fez as negociações com os assentados, com proposta altamente sedutora", aponta trecho do relatório do Incra.
"Estamos aguardando somente a passagem disso [pedido de autorização] pelo conselho [diretor do Incra]", afirma o diretor da Vale para o projeto Onça Puma, João Coral.

A capacidade do projeto é de 58 mil toneladas/ano de níquel, o que representaria uma renda bruta anual de US$ 2 bilhões. A Vale estima gastar US$ 2,2 bilhões no projeto, sendo que só no ano passado já foram aplicados US$ 537 milhões.
O resultado do investimento pode ser visto em Ourilândia do Norte (PA), próximo à área onde estão as reservas de níquel. Um esqueleto da enorme planta de beneficiamento do minério já está de pé na cidade.
Em alguns dos lotes ocupados pela empresa, ainda intactos, se vê placas com o seguinte aviso: "Proibida a entrada. Propriedade do projeto de mineração Onça Puma".

Indefinição
O documento do Incra seria apresentado à Vale na semana passada, mas a reunião com o comando da empresa foi adiada para final de julho, a pedido do Incra. No órgão, não há consenso sobre que rumo seguir após a constatação da invasão de parte dos projetos de assentamento Tucumã e Campos Altos.

Uma ala quer o confronto jurídico com a Vale, ou seja, que se coloque a procuradoria do órgão e a AGU (Advocacia Geral da União) para suspender o projeto. Outra ala, mais realista, aceita a negociação com a mineradora, pois sabe que, diante dessa polêmica, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e o presidente Lula tendem a ficar do lado da mineradora.
Segundo normas do Incra, o assentado não é considerado dono da terra, e sim uma espécie de usuário. Ele não pode negociar o lote ou as benfeitorias construídas com dinheiro público. Se quiser abandoná-lo, ele comunica o órgão, que coloca outro sem-terra no local.

No caso da Onça Puma, o trâmite normal seria uma negociação direta entre a mineradora e o órgão, e não diretamente com os assentados. Procurado pela Folha, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, não quis falar sobre o caso.
Ciente do relatório do Incra, a Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária), entidade de intelectuais e líderes de movimentos sociais, enviou ao BNDES uma representação na qual pede ao banco que "adote as medidas cabíveis para suspender os financiamentos" à mineradora. O BNDES, que aprovou R$ 8 bilhões de investimentos para a Vale, está analisando o documento da Abra.
Assentados afirmam terem sido enganados

DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE

Assentados em lotes de interesse da Onça Puma (empresa da Vale) em Ourilândia do Norte (PA) afirmaram à Folha que foram coagidos, enganados e desrespeitados durante negociações para que deixassem as terras do Incra.

A reportagem esteve na cidade na última semana e ouviu ao menos 15 colonos. Todos afirmaram estar insatisfeitos com a maneira como a Vale vem lidando com a situação.

Os assentados se dizem enganados e arrependidos por terem saído das terras.
O principal alvo das reclamações são mentiras e informações incompletas que teriam sido veiculadas pela mineradora no início das pesquisas sobre a reserva de níquel.

"Eles chegavam e diziam que éramos obrigados a sair, que eram donos do subsolo, que tinham até negociado com o Incra", disse Clemair Baratti, que hoje vive na zona urbana de Ourilândia. "Entravam aqui e faziam um monte de buracos sem pedir para entrar. Quando via, estavam lá cavando."

A versão de Baratti é repetida por quase todos os colonos ouvidos pela reportagem: funcionários da Onça Puma pesquisavam terras sem consultar os assentados e diziam que a única opção era aceitar o dinheiro e sair. Uma vez convencidos, os assentados, em sua maioria plantadores de cacau ou pequenos criadores de gado, não eram informados da dimensão do projeto. Com isso, acabavam vendendo as benfeitorias.

Apesar de boa parte dos assentados ter recebido R$ 9.500 por alqueire, o triplo do valor de mercado à época, outros, desconhecendo o interesse real pelas terras, aceitaram até mesmo R$ 4.500. A maioria dos lotes tem cerca de dez alqueires.
A única voz dissonante ouvida pela reportagem foi a de Raimundo Caçula. "Não houve pressão. Discutiram com o todos os trabalhadores. Eles [mineradora] são fantásticos", afirmou.

Caçula liderava uma associação de moradores do Projeto de Assentamento Campos Altos à época. Segundo assentados, recebeu compensação da empresa para esvaziar um plano de negociação coletiva dos agricultores. Ele nega ter traído o grupo.


"Incra participou do processo", afirma Vale

Segundo diretor do projeto, mesmo com eventuais contestações jurídicas do órgão, o Onça Puma não será interrompido

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE

O diretor da Vale para o projeto Onça Puma, João Coral, afirmou à Folha que a mineradora iniciou o processo de indenização dos assentados sem ter em mãos uma autorização definitiva do comando do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

"Não tínhamos o parecer [definitivo] . Não tínhamos ainda a [autorização para a] desafetação [mudança da destinação] da área. Mas o Incra estava acompanhando todo o processo, inclusive participou de todas as negociações das indenizações das benfeitorias realizadas pelos assentados e os beneficiários das áreas."
Questionado se a mineradora se precipitou ao fazer as indenizações antes da decisão final do Incra, ele disse: "Fizemos todo esse processo e toda essa negociação com a anuência dos envolvidos, num processo, vamos chamá-lo assim, público, envolvendo todas as pessoas ali evidentes".

O diretor da Vale diz que tinha em mãos um parecer favorável de um superintendente do órgão e que até hoje aguarda a decisão final da cúpula da autarquia. Indagado se essa autorização está documentada, ele afirmou: "Era uma coisa de acompanhamento, tem relatórios do Incra, tem um parecer favorável desses servidores para que seja feita a desafetação. Estamos aguardando somente a passagem disso [pedido de autorização] pelo conselho [diretor do Incra]."
Segundo o Incra, as investidas da mineradora nos assentamentos ocorreram entre 2003 e 2007. No final de 2005, a Vale assumiu o projeto da Onça Puma, ao comprar a mineradora canadense Canico.

"Esse é um processo muito desconfortável para nós, uma vez que consideramos estar em total legalidade, em todo o processo", afirmou o diretor, que completou: "Fico muito chateado vendo que essas pessoas [os assentados] se colocam em uma posição da famosa Lei de Gérson. Querem tirar vantagem a qualquer preço, de tudo, quando vêem uma empresa como a Vale, que preza [por eles], tem ética".

De acordo com Coral, mesmo com eventuais contestações jurídicas do Incra, o projeto não será interrompido.
"Não temos nenhum desconforto legal e nenhum desconforto jurídico em relação a essa questão. Eu estou muito tranqüilo.

Essa é uma questão de denúncias infundadas e injustas", afirmou.
Para Fernando Thompson, porta-voz da Vale, não existe hipótese de a mineradora atuar de forma ilegal. "Não existe a hipótese de uma empresa como a Companhia Vale do Rio Doce agir à margem da lei. Essa hipótese não existe. No nosso entendimento, nós fizemos a coisa correta com base nos processos e dentro da lei", diz.

"Se o Incra e os órgãos chegarem para nós e disserem "acreditamos que é isso que deve ser feito", nós vamos sentar e conversar. Não é por uma questão de arrogância ou de prepotência que a Vale não vai sentar e conversar com a comunidade. Essa hipótese está absolutamente afastada", completou o porta-voz da empresa.
Sobre a versão dos assentados, Thompson afirma: "O simples fato de existirem algumas pessoas contestando a indenização em si não significa que exista alguma ilegalidade" .

O porta-voz completa: "Em momento algum da história da companhia esse tipo de acusação foi feito. A Vale jamais faz assédio moral ou fez assédio moral. Isso não faz parte da nosso conduta de ética

 

 

 

MONOCULTIVO DA CANA DEVASTA CERRADO NO ALTO SÃO FRANCISCO.

Brasil de Fato
02 de julho de 2008

Maria Luisa Mendonça

 O cerrado é conhecido como "pai das águas", pois abastece as principais bacias hidrográficas do País. Aqui estão as nascentes do rio São Francisco e seus afluentes, como o Samburá, o Santo Antônio e o rio do Peixe, além do Rio Grande, que deságua no rio Paraná. A fauna e a flora são riquíssimas e guardam muitas espécies ameaçadas de extinção. Na Serra da Canastra foram identificadas mais de 300 espécies de aves e 7.000 espécies de plantas.

 No município de Lagoa da Prata já existia uma usina de açúcar desde a década de 70, de propriedade de Antonio Luciano, "coronel" e latifundiário, conhecido como um dos maiores grileiros de Minas Gerais. Mais recentemente, a empresa francesa Louis Dreyfus adquiriu esta usina e expandiu o monocultivo de cana para a produção de etanol. Nos últimos dois anos, outras empresas participam do processo de expansão da monocultura da cana na região.

 Os efeitos são devastadores. Na fazenda de Antonio Luciano chegaram até a desviar o curso do rio São Francisco para facilitar o escoamento da produção, sem licença ambiental ou estudos técnicos. Tanto no período inicial de implantação da cana, como nesta fase recente, a monocultura substitui áreas de lavouras e criação de gado, além de destruir as reservas florestais e a mata ciliar. Na implantação dos plantios, as empresas fazem queimadas clandestinas das matas nativas à noite, derrubam e enterram as árvores, para fugir da fiscalização.

 “Hoje é comum encontrarmos animais mortos nas estradas, fugindo da devastação das matas. Já encontramos lobos, raposas, tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, lontra, quati, tatu, serpentes, garças, corujas, lagartos, além de peixes mortos no rio, como surubins, que chegam a pesar 40 quilos. Plantam cana até na beira dos rios e das lagoas”, afirma Francisco Colares, professor de zoologia na Universidade de Iguatama.

 Segundo Colares, a usina de Lagoa da Prata utiliza a água do São Francisco em todo o processo de produção—para irrigação durante o cultivo, para lavar a cana depois da colheita e para resfriar as caldeiras no processamento. Em um dos pontos de captação, o bombeamento é de 500 litros por segundo—quantidade de água suficiente para abastecer todo o município.

 O processo de expansão é intenso. A Empresa Total está construindo uma usina em Bambuí e está prevista a implantação de mais três usinas na região—duas em Arcos e uma em Iguatama, além da expansão da produção em Lagoa da Prata. O cultivo de cana chega até a Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra da Canastra, considerada pelo Atlas da Biodiversidade em Minas gerais como sendo de importância biológica extrema.

 O parque fica entre as nascentes do rio São Francisco e a bacia do Rio Grande. A preservação da Zona de Amortecimento, ou área circundante ao parque, é essencial para garantir sua conservação. A produção de cana no local causa grande impacto, por seu potencial invasor, pelo intenso uso de agrotóxicos, entre outros. A Usina Itaiquara se instalou no município de Delfinópolis e plantou cana em áreas de preservação permanente, próximas ao grande reservatório de águas de Furnas.

 “A cana chega até a margem do reservatório; plantam cana praticamente dentro d’água. Desmataram a área e praticaram queimadas, o que representa um grande risco para toda a região. O Ministério Público moveu uma ação contra a empresa e esperamos que a área seja recuperada em breve e que os responsáveis sejam punidos pelo dano ambiental. È necessário que os órgãos competentes fiscalizem essa atividade, pois a monocultura traz sérios problemas ambientais. O Brasil deveria priorizar uma agricultura diversificada”, afirma Joaquim Maia Neto, Chefe da unidade do IBAMA responsável pelo Parque Nacional da Serra da Canastra.

 O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município de Luz, Dario Paulineli, descreve outros impactos na região. “A cana se expandiu rapidamente nos últimos anos. A empresa Louis Dreyfus fez muitos contratos de arrendamento com agricultores locais e o impacto ambiental foi enorme. A usina aplica o veneno de avião e atinge os agricultores vizinhos e a população das cidades. Desmatam madeira de lei, árvores protegidas por lei como o pequizeiro e a gameleira, plantam cana perto das nascentes dos rios, não respeitam os estudos de impacto ambiental. Muitos animais estão morrendo com a devastação das matas”.

 Para o agricultor Gaudino Correia, não vale a pena arrendar a terra. “Os contratos são de 12 anos e depois disso a cana já acabou com tudo. A usina usa máquinas pesadas para preparar a terra e causa erosão do solo. Depois queimam a cana e a cinza se espalha por toda a região. Eu não quis arrendar minha terra e estou cercado de cana. Aqui não tem mais terra para lavoura e por isso subiu tanto o preço dos alimentos. Meus vizinhos deixaram de produzir milho, feijão, café, leite e arrendaram a terra para a empresa Total. Eu ainda planto milho, feijão, e produzo leite, mas para o produtor o preço não aumentou, só para o atravessador e para a população. Ainda consigo produzir leite porque faço a ração. Se fosse comprar, não sobrava nenhuma renda. O preço da ração aumentou 50% e fica difícil criar animais”.

 O agricultor Sebastião Ribeiro tem a mesma posição. “A usina insistiu, mas eu não quis arrendar minha terra. Meus vizinhos arrendaram e depois ficaram com depressão, porque é o mesmo que perder a terra. O que vai acontecer se os agricultores deixarem de plantar alimentos?” Ribeiro explica também que a usina faz irrigação da cana com pivô central, usando água do São Francisco.

 Especialistas alertam que não há fiscalização eficiente sobre os impactos sociais e ambientais. “O Estado deveria priorizar a preservação das nascentes dos rios. É como desgastar as veias que levam o sangue para o coração. Essa expansão tem sido muito rápida e a idéia é dobrar a produção de cana na região. A agricultura familiar vai sumir e podem faltar alimentos”, afirma Lessandro da Costa, diretor da Associação Ambientalista do Alto São Francisco.

 Apesar da propaganda das empresas, que dizem gerar emprego e desenvolvimento, organizações locais denunciam que as usinas não respeitam leis ambientais e trabalhistas. “Usam venenos violentos que afetam a saúde dos trabalhadores e da população. Onde antes se produzia milho, feijão, café, leite e outros alimentos, agora é só cana. Não há crédito para os pequenos produtores, mas o Banco do Brasil tem dinheiro de sobra para incentivar as grandes usinas, que destroem o cerrado e a Amazônia. Essa política vai deixar uma herança de destruição”, afirma Carlos Santana, assessor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bambuí.

 Ele explica que “Aqui tem serviço, mas só braçal. Os trabalhadores chegam de todas as partes do país para cortar cana e o aluguel na região aumentou muito. Outra conseqüência foi o congestionamento do sistema de saúde pública. Os cortadores de cana recebem por produção e isso causa a exploração. Muitos ficam doentes e não conseguem mais trabalhar”.

 O Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata, Nelson Rufino, denuncia que, “A usina Louis Dreyfus causa grande destruição do meio-ambiente. O trator da empresa arranca as árvores e depois enterra para esconder o crime ambiental. Somente metade dos canais onde depositam o vinhoto é feita de cimento. Nos outros canais o vinhoto vai direto para o subsolo e para os rios. Nós chamamos o vinhoto de “água que fede”.

 Rufino descreve ainda os impactos sociais nos municípios da região. “As cidades estão totalmente cercadas porque a cana chega até as áreas urbanas. A empresa joga veneno de avião e o índice de câncer na população é enorme. Só na minha família temos cinco casos de câncer e isso é comum na cidade. Há mais de 140 trabalhadores afastados por problemas de saúde como tendinite, problemas de coluna, asma e outras doenças pulmonares. Temos registros de cinco casos de mortes por acidentes de trabalho. Dois trabalhadores caíram nas caldeiras, um morreu durante a queima da cana e outros dois morreram em acidentes com o trator”.

 Grande parte dos cortadores de cana é migrante e está vulnerável à exploração e ao preconceito. O local onde vivem em Lagoa da Prata é chamado de “Carandirú”. Rufino afirma que “Para os trabalhadores a situação piorou porque perdemos renda. Ano passado fizemos uma greve de 45 dias e conseguimos um aumento de $2,50 para $2,80 por tonelada de cana cortada. Mas a empresa quer buscar uma forma de nos incriminar e está processando o sindicato”.

 Outra forma de manipular os trabalhadores é estimulando a competição. Para isso, a empresa os divide em grupos, de acordo com a quantidade de cana cortada. Quem não cumprir a meta não será contratado na próxima safra. Aqueles que atingem a maior meta vão para a turma dos “touros”, que cortam de 17 a 25 toneladas de cana por dia. Muitos trabalhadores desse grupo foram afastados por problemas de saúde e agora são chamados de “bezerros doentes”.

 Mesmo em áreas onde já havia atividade agrícola, o monocultivo da cana gera um grau muito maior de devastação porque substitui agricultura diversificada por cultivos homogêneos e contínuos, o que leva à destruição total das reservas florestais. A demanda das empresas por grande quantidade de terras de boa qualidade, com acesso à água e à infra-estrutura, gera devastação dos recursos naturais e da agricultura local. Portanto, não é verdade que a indústria da cana se expande para áreas degradadas e terras marginais, como afirma o governo.

 Moacir Gomes, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bambuí, conclui que, “O presidente Lula não conhece a realidade. Como pode dizer que a cana não substituiu áreas de produção de alimentos? As usinas estão trazendo miséria e vai faltar comida na mesa da população”.

- Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

 

 

 

PT desmobilizou a CUT e desencorajou a mobilização do MST, constata cientista político

Jornal valor economico
27 junho 2008
Entrevista a Leo panitch

Todos os partidos de esquerda que chegaram ao poder, por meio de eleições ou não, caíram na "armadilha" do Estado e ficaram impedidos de fazer as mudanças que haviam planejado. Inclusive o PT. "As reformas são feitas no âmbito de uma rede legal que reproduz a estrutura das relações sociais e da economia capitalista", explica o cientista político canadense Leo Panitch, renomado teórico marxista, chefe do departamento de pesquisa em economia política comparada na Universidade de York. A história colocou abaixo o argumento anarquista e marxista de poder, de que seria possível promover o "achatamento" ou o "esvaziamento" do Estado. O sonho acabou e Panitch, aos 61 anos, não vê com clareza o que possa ser um caminho para o socialismo. A reportagem e a entrevista são de Claudia Izique e publicada pelo jornal Valor, 27-06-2008.

É com esse mesmo ceticismo que ele observa o governo do PT, que assumiu o Estado com a promessa de continuar sendo um partido "organizador dos desorganizados", mas acabou por se aliar à "burguesia nacional" e adotou um "projeto reformista" de integração do país ao mercado globalizado. Desmobilizou a CUT e desencorajou a mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), quando se deu conta de que, se atendesse às exigências dos movimentos sociais, perderia a liberdade de governar.

A desmobilização dos movimentos sociais não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. "Estamos numa conjuntura muito mais orientada para os movimentos políticos", analisa Panitch, citando o exemplo do bolivarianismo de Hugo Chávez e dos novos partidos de esquerda que se organizam na Europa, tirando votos à social-democracia. "Acredito que um dia o MST se tornará um partido de esquerda alternativo ao PT", vaticina.

Panitch esteve no Brasil na semana passada para participar de um seminário, na escola nacional do MST, que teve como tema o futuro da luta de classes na América Latina. Ele defende a tese de que o mundo vive um novo imperialismo, capitaneado pelos Estados Unidos e marcado pelo que chama de "dominação política estendida": os Estados nacionais cumprem o papel de proteger a propriedade privada, de assegurar o cumprimento dos contratos e de educar os jovens para a reprodução do capitalismo. "A maior dúvida do século XXI, para a qual não temos resposta, é se os movimentos sociais que se propõem criar um Estado socialista descobrirão como fazê-lo".

Eis a entrevista.

O senhor tem afirmado que é preciso mudar as estruturas de classe e do Estado, algo que hoje a esquerda não tem capacidade de fazer, nem os movimentos sociais. Como é possível mudar o Estado?

A mudança de um Estado capitalista para um socialista é uma questão muito difícil. Os anarquistas e os marxistas acreditavam na possibilidade de "achatamento" ou de "esvaziamento do Estado" como propôs Marx. Os partidos reformadores, os partidos social-democratas - como o que se tornou o PT - têm operado dentro da estrutura estatal e as reformas realizadas foram feitas dentro da rede legal e administrativa de um Estado que não permite alterações que interfiram na reprodução da economia capitalista. A maior parte dos partidos de esquerda que chegou ao controle estatal, pela tomada de poder ou através de eleições, ficou presa na estrutura do Estado, como em uma armadilha, e viram-se impedidos de fazer as mudanças nas relações sociais e na democratização da economia que haviam planejado. O PT, por exemplo, assumiu o governo com a promessa de continuar sendo um organizador dos desorganizados. O perigo desse incentivo é que, sendo ajudados na organização, os desorganizados se tornam mais poderosos e passam a fazer maiores exigências ao Estado, impedindo que o governo atue com liberdade. O partido não soube ou teve medo de lidar com o risco da limitação de sua independência dentro do governo, já que também sofria pressão dos latifundiários, dos empresários etc. A maior dúvida do século XXI, para a qual não temos resposta, é se os movimentos sociais que se propõem criar um Estado socialista descobrirão como fazê-lo.

Qual poderia ser, então, a saída para o socialismo?

Atualmente, todos discutem políticas públicas, mas não se fala em mudar o Estado. Falamos de um Estado mais eficiente, mas não de ele precisar ser mais barato. Não há critério para definir eficiência, que traduzimos como corte de gastos. Enquanto isso, o setor privado sabe que algumas vezes deve investir para obter um maior retorno. Temos que mudar a estratégia e organizar as pessoas para que elas pressionem por mudanças na organização do Estado, de forma que ele se torne democrático. É preciso definir como investir, o que produzir, onde comercializar os produtos, quanto se deve investir em meios de comunicação, entre outros temas. É um absurdo imaginar uma economia complexa como a atual nos moldes das existentes há mais de um século.

Como o senhor vê as relações entre os movimentos sociais e o governo do PT?

Quando o PT governou o Rio Grande do Sul, desempenhou um papel positivo no relacionamento com os movimentos sociais internacionais, o que está em contradição com sua posição atual: o PT desmobilizou a CUT e não chegou a desmobilizar o MST, mas desencorajou sua mobilização. Entretanto, no governo gaúcho, patrocinou os Fóruns Sociais Mundiais no exato momento em que os movimentos sociais antiglobalização estavam aparecendo. Visto de fora, parecia um governo dos movimentos sociais. Os convidados estrangeiros diziam: "Que maravilha!" De volta a seus países, afirmavam que havia socialismo no Brasil. Era um pensamento inocente. Acredito que o Lula tem um projeto reformista de maior integração no mercado livre globalizado, com relações comerciais mais justas e sem os subsídios americanos ou da União Européia. Essa, no entanto, é uma perspectiva liberal que vai diretamente de encontro à proposta do MST. Não creio que a monocultura e a exportação sejam pré-condição para que o Brasil tenha uma economia democrática. Reconheço, no entanto, que houve uma desmobilização dos movimentos sociais em todo o mundo. Os movimentos que existiram no início do século XX fazem parte do passado. Entramos em uma conjuntura muito mais orientada para os movimentos políticos, liderada pela América Latina. Hugo Chávez, obviamente, é um de seus representantes. Essa tendência também existe nos países do Hemisfério Norte, com a formação, por exemplo, do novo partido de esquerda na Alemanha, que tem 15% dos votos nas pesquisas de opinião, para o qual os social-democratas perdem membros diariamente. Essa é uma questão a ser enfrentada pelo MST, que tem feito o que é necessário, especialmente no que diz respeito à organização dos trabalhadores rurais em uma classe. Acredito que vai chegar um dia em que o MST se tornará um partido de esquerda alternativo ao PT.

Como o senhor avalia a estratégia do MST de impedir o funcionamento de ferrovias e ocupar áreas agrícolas produtivas?

O MST está abandonado pelo Estado, já que o PT adotou como estratégia a aliança com uma suposta burguesia nacional. Isso foi um erro, pois não há mais burguesias nacionais. As burguesias agora acumulam riqueza em escala internacional. O PT tem uma concepção antiquada da classe trabalhadora. A concepção marxista de classe social estava errada e os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais criados com base nessa concepção nunca foram revolucionários. Ao contrário, a estratégia sempre foi a de fazer aliança com a burguesia industrial, para que pudessem ter mais recursos. No Brasil, a produção agrícola está voltada para o cultivo de soja para exportação, enquanto a população passa fome. Essa política pode fazer sentido para a Monsanto, mas não condiz com uma perspectiva social. É mais do que natural que o único movimento que não foi desmobilizado, o MST, embora enfraquecido, seja a única força social brasileira capaz de mostrar essa irracionalidade por meio de discursos e de textos sem grande divulgação. É preciso chamar a atenção de alguma forma, por meio do conflito, da ocupação de territórios, como faz o MST.

Como se desenvolveram suas relações com o MST?

Esta é a sexta vez que venho ao Brasil. A primeira foi em 1982. Voltei para os dois Fóruns Sociais em Porto Alegre e para outros encontros. Numa dessas viagens conheci João Pedro Stédile e unimos nossas idéias sobre a inexistência das burguesias nacionais. Ele me convidou para visitar a escola nacional do MST e, desta vez, para um debate sobre o futuro da luta de classes na América Latina. Sempre que há um problema com o capitalismo, as pessoas dizem que surgiu uma crise, que o império americano chegou ao fim. São afirmações estúpidas. As pessoas não entendem que a volatilidade financeira é enorme neste sistema financeiro global e os Estados são muito ativos na contenção das crises.

O senhor defende a tese do novo imperialismo. Que papel o Brasil pode desempenhar nesse novo cenário mundial?

O novo imperialismo existe desde 1945. Desde então, as relações de produção e troca ocorrem entre os Estados capitalistas e não mais entre metrópoles e colônias. Muitos desses Estados estão sob o guarda-chuva do império americano. Tendemos a pensar o imperialismo como uma relação de dependência, em que os países ricos extraem riquezas dos países que dominam. Mas não é assim. Os impérios geralmente fazem mais investimentos do que subtraem bens dos países que dominam. Sempre foi assim. Essa noção de que se está "roubando o ouro" da América Latina não é verdadeira. Há um enorme investimento no Brasil que inclui o país no sistema capitalista internacional. No novo imperialismo, o império americano está engajado no que chamo de "dominação política estendida", isto é, na tarefa de cooptar os Estados para que cumpram o papel de proteger a propriedade privada, de assegurar que os contratos sejam cumpridos, de criar um sistema jurídico no qual processos possam tramitar dentro da lei, e que também articulem um sistema educacional que permita a reprodução do capitalismo. Os Estados Unidos governam através de outros Estados e, com o apoio do Banco Mundial e do FMI, buscam construir um Estado que integre todo o capitalismo mundial.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

 

 

SENADOR ASSINA ACORDO APÓS DENÚNCIA DE TRABALHO DEGRADANTE

Grupo declara ter trabalhado em condição degradante na Fazenda Santa Amália, do senador Jayme Campos (DEM-MT). Como não houve flagrante, foi firmado acordo inibitório. Parlamentar refuta acusação e diz que é perseguido

REPÓRTER BRASIL
Por Maurício Hashizume
17/06/2008


Uma denúncia de cerca de 15 trabalhadores que alegam ter sido submetidos a trabalho degradante na Fazenda Santa Amália, em Alta Floresta (MT), pertencente ao senador Jayme Campos (DEM-MT), resultou na assinatura de um acordo entre o parlamentar e o Ministério Público do Trabalho (MPT).

O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado na última terça-feira (11) exige que o senador cumpra uma lista de 30 exigências. Fazem parte delas o registro de empregados rurais na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) em 48 horas - sem se valer da dispensa para trabalhos temporários de até dois meses, prevista na Medida Provisória (MP) 410/2007 - e de não alojar trabalhadores em barracos de lona, de fornecer gratuito de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e transporte adequado.

Integrante da bancada ruralista, o senador Jayme Campos, por meio de seu advogado, também se comprometeu a conceder o repouso semanal remunerado, de garantir o fornecimento de água potável e de efetuar o pagamento integral do salário até o quinto dia útil do mês subseqüente. O TAC, que tem vigência por tempo indeterminado e vale para outras propriedades pertencentes ao congressista, estabelece uma multa de R$ 20 mil, por mês, para cada item descumprido.

"Não se trata de uma situação típica porque não houve fiscalização na fazenda do senador. Os relatos das pessoas desse grupo que fez a denúncia eram parecidos: disseram que trabalhavam em situação degradante e foram mandados embora", relata o procurador Rafael Araújo Gomes. "Se não houvesse acordo, sustentaria ação civil pública, com base apenas nos testemunhos dos trabalhadores".

De acordo com Rafael, há uma hipótese de que os trabalhadores tenham sido dispensados depois da fiscalização na Fazenda Lago Azul, muito próxima à propriedade do senador Jayme Campos, em que comitiva do MPT, do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Militar flagrou oito trabalhadores em condições degradantes e o uso de agrotóxicos proibidos no Brasil, no inicio do mês passado.

"Por ora, cabe apenas a fiscalização do cumprimento do TAC", declara Rafael. O procurador lembra que já houve celebrações de acordos "inibitórios" desse mesmo tipo, como no caso da Fazenda Shalom, também de Alta Floresta, pertecente a Luis Olavo dos Santos. "Constatou-se depois que o TAC estava sendo descumprido. Foram instauradas ações e houve execuções".

Decisão do Tribunal Regional do Trabalho do Mato Grosso (TRT-MT) publicada na ultima terça-feira (10) condenou o dono da Fazenda Shalom a pagar R$ 100 mil de indenização por dano moral coletivo por manter trabalhadores em situação degradante. Ao julgar o recurso que o proprietário apresentara para tentar uma outra decisão em primeira instância que estabelecia o pagamento de R$ 50 mil, o juiz Paulo Brescovici decidiu dobrar o valor da indenização.

"Diaristas"
Em conversa por telefone com a Repórter Brasil, o senador Jayme Campos negou que tenha mantido trabalhadores em tais condições precárias na Fazenda Santa Amália. Ele especula que a denúncia tenha sido orquestrada por três pessoas que foram contratadas como "diaristas" por um período que não chegou a 30 dias de trabalho. Depois de encerrada a empreitada, sustenta o senador, o trio teria pedido uma "gratificação" ao gerente da fazenda. Ainda segundo Jayme Campos, eles teriam ameaçado denunciar a propriedade como forma de chantagem para tentar receber a verba extra, que foi negada.

Ele conta que as condições de trabalho em suas quatro fazendas espalhadas pelo estado são plenamente regulares e submetidas a auditorias. Ele conta que os trabalhadores regulares têm carteira assinada e vivem em casas de alvenaria. "Só não tem ar condicionado", ironiza. "Paga todo segundo dia útil do mês. Eu seria tolo se não fizesse tudo certinho. Não registrar hoje pode sair bem mais caro do que registrar".

O senador atribui a denuncia a perseguição política pelo fato de ser um senador da oposição e ressalta que nenhum processo chegou a ser instaurado. "Assinei o TAC porque não tenho nada a temer e porque prefiro dar transparência", declara. Com o acordo, o fazendeiro não poderá mais passar mais de 20 dias, como admite ter feito com os três "diaristas" que labutaram na Fazenda Santa Amália, sem assinar carteira.

Sobre a multa do Ibama de R$ 6 milhões por desmatamento de áreas de proteção permanente (APPs) e não apresentação de licenciamento ambiental na mesma Fazenda Santa Amália, o senador afirma que já apresentou a sua defesa no âmbito do processo administrativo e que quer que a questão seja julgada logo. "Não há nenhum problema nas minhas propriedades. A última vez que cortei árvores foi há muito tempo".

Jayme Campos preside uma comissão externa do Senado que pretende analisar o "risco ambiental" nos 36 municípios - 19 deles do Mato Grosso - que foram escolhidos pelo governo federal como prioritários para o combate do desmatamento da Amazônia. Na audiência da comissão realizada em Alta Floresta em maio, o senador defendeu o fim da Operação Arco de Fogo, que reprimiu o comércio de madeira ilegal, e acusou o governo federal de utilizar dados falsos para alardear a aceleração do desflorestamento.

De acordo com ele, o episodio da assinatura do TAC não terá reflexos na intensificação dos trabalhos da comissão."Não confundo questão pessoal com questão política. Vou continuar defendendo as suas causas. Política para a Amazônia não pode ser apenas de repressão, de polícia. Precisamos resolver primeiro, por exemplo, o passivo da regularização fundiária".

 

 

EUA ACUSAM BRASIL DE EXPLORAR TRABALHO ESCRAVO.

Relatório do Departamento de Estado diz que o País fez 'modestos esforços' para enquadrar crimes de tráfico humano e exploração sexual


Gabriel Manzano Filho e Odail Figueiredo
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil

06/06/2008

O Brasil foi ontem definido, em um relatório oficial do governo norte-americano, como "uma fonte de tráfico de mulheres e crianças, dentro do país e internacionalmente, com propósitos de exploração sexual, e também fonte de tráfico de homens para o trabalho forçado". A análise dos abusos praticados contra trabalhadores no País espalha-se por três páginas do "Trafficking in Persons Report" (Relatório sobre Tráfico de Pessoas), divulgado pelo Departamento de Estado, em Washington.

Ao anunciar o documento - que tem 84 páginas e analisa a exploração de trabalhadores em 170 países - a secretária de Estado, Condoleezza Rice, advertiu que "embora mais países estejam combatendo a exploração do trabalho sexual, os ousados tiranos que exploram suas vítimas raramente recebem punição séria". E acrescentou: "Vemos isso como uma grave deficiência." Em uma de suas conclusões, o relatório afirma que o rápido crescimento de países como Brasil, Índia e China vem sendo conseguido à custa da exploração desses trabalhadores - que, no caso brasileiro, seriam utilizados em usinas de produção do etanol.

O estudo americano põe no banco dos réus, em termos mais rigorosos,, países como Tailândia, Bangladesh, Índia, China e Malásia. No conjunto, o Brasil ficou em um grau intermediário entre os casos mais leves e os mais graves.

O governo brasileiro "não preenche os padrões mínimos para a eliminação do tráfico", diz o capítulo do relatório relativo ao País. "No entanto, tem feito esforços nessa direção." Eles partem de 931 centros de assistência, que cobrem 1.107 cidades. A investigação de abuso sexual contra crianças "localizou e atendeu a 23.368 casos em 2007". Mas o governo admite que há cerca de 250 mil crianças exploradas na prostituição.

Eu um dos trechos mais contundentes, o estudo revela: "Aproximadamente metade das vítimas libertadas em 2007 foram localizadas em canaviais que contribuem para o explosivo crescimento de produção e exportação de etanol, um biocombustível, marcando um crescente fenômeno de tráfico". E arremata informando que "em uma única operação, no Pará, fiscais encontraram 1.108 trabalhadores escravos em uma dessas fazendas de cana". O estudo cobra o governo brasileiro por não informar, oficialmente, nenhum caso de investigação e prisão de responsáveis por tais tipos de crimes, embora estejam em andamento 751 processos e 890 outros estejam aguardando julgamento.

A assessoria de imprensa do Itamaraty informou que o governo brasileiro tem apurado todas as denúncias sobre trabalho escravo e violação de direitos humanos que chegam a seu conhecimento. Os dados do Ministério do Trabalho, diz a assessoria, mostram que aumentou significativamente o número de trabalhadores resgatados de situações de trabalho análogas à escravidão.




 

CRIANÇAS SÃO ENCONTRADAS LIMPANDO FEZES EM MATADOURO.

Leonardo Sakamoto
04/06/2008

Uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego encontrou mais de 25 crianças e adolescentes em situação extremamente degradante trabalhando em matadouros públicos nos municípios de Nova Cruz, João Câmara e São Paulo do Potengi, no Rio Grande do Norte. As operações foram motivadas por denúncias e ocorreram entre os meses de março e maio. A última dela acabou sábado, 31 de maio de 2008.

Íntegra da matéria: http://blogdosakamoto.blig.ig.com.br/2008_06.html#post_19142201

Ou neste site em NA MÍDIA - DENÚNCIAS


 

Frente pela "PEC do Trabalho Escravo" realiza atos no Congresso nos dias 03 e 04 de junho

30/05/2008

Com a entrada da Proposta de Emenda Constitucional 438, a chamada "PEC do Trabalho Escravo", na pauta de votação da Câmara dos Deputados, as dezenas entidades da sociedade civil, sindicatos e parlamentares que defendem a medida intensificaram o movimento para garantir sua aprovação.

A PEC, que poderá ser votada a qualquer momento, prevê o confisco de terras onde sejam encontrados trabalhadores em situação análoga à de escravo e está sendo chamada de "a Segunda Abolição".  Se aprovada, vai aumentar os riscos para aqueles que insistem em manter trabalhadores nesta situação e será um importante instrumento para inibir a prática que, 120 anos após a  Lei Áurea, ainda persiste no Brasil.

Quase 30 entidades, incluindo sete centrais sindicais, vão realizar no mês de junho uma série de atividades para sensibilizar os deputados federais indecisos sobre a importância de aprovação da PEC.

No dia 4 de junho, acontecerá na Câmara dos Deputados um ato de criação da Frente Nacional Contra o Trabalho Escravo e pela Aprovação da PEC 438. Além de todas as entidades que já faziam parte do movimento de apoio à Proposta, a Frente será formada  pelas centrais sindicais que se juntaram à causa, além de deputados federais e senadores.

Já a partir da terça-feira (3), cerca de 150 representantes das entidades que  compõem a Frente vão iniciar o corpo-a-corpo com os parlamentares. O objetivo é mostrar como a medida trará benefícios tanto para os trabalhadores quanto para os produtores rurais que cumprem as leis e enfrentam a concorrência desleal dos escravagistas contemporâneos. A PEC 438 já foi aprovada em dois turnos no Senado e em primeiro turno na Câmara, onde está parada desde 2004 por pressão da bancada ruralista, o principal foco de resistência à medida.

Embora manter trabalhadores em situação análoga à de escravo seja crime previsto no Código Penal, há poucos empregadores que foram condenados e presos por isso. O balanço do Grupo Móvel de Fiscalização do governo federal mostra que o número de casos tem sido cada vez maior. Desde a criação do Grupo Móvel em 1995, já foram libertados mais de 30 mil trabalhadores.

As entidades que fazem parte da Frente Nacional e o seu abaixo-assinado podem ser acessados em www.reporterbrasil.org.br/pec

Mais informações com:

Informações para a imprensa com Severino Goes (61-2106-4634), Leonardo Sakamoto (11-9713-9700), Rita Soares (61-8409-2055). Marcela Gomes (61) 99613360 , Viviane Dias (61) 33220266


SAIBA MAIS SOBRE A "PEC DO TRABALHO ESCRAVO"

O que é
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) número 438 foi apresentada em 1999 pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), sob o número 57/1999. Ela propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. A nova proposta estende a expropriação - sem direito à indenização - também para casos de exploração de mão-de-obra análoga à escravidão. A PEC 438/2001 define ainda que as propriedades confiscadas serão destinadas ao assentamento de famílias como parte do programa de reforma agrária.

A "PEC do Trabalho Escravo" é considerada pelos órgãos governamentais e entidades da sociedade civil que atuam nas áreas trabalhista e de direitos humanos como um dos projetos mais importantes de combate à escravidão, não apenas pelo forte instrumento de repressão que pode criar, mas também pelo seu simbolismo, pois revigora a importância da função social da terra, já prevista na Constituição.

Trâmite
No Senado Federal, a PEC tramitou durante dois anos e foi aprovada em 2001. Na Câmara, permanece parada desde 2004. No mês de agosto daquele ano, a matéria foi aprovada em primeiro turno no Plenário da Casa - com 326 votos favoráveis (18 a mais que o necessário: emendas constitucionais exigem a anuência de 3/5 do total de 513 deputados federais), dez contrários e oito abstenções. Desde então, permanece à espera da votação em segundo turno.

O avanço da proposta em 2004 foi impulsionado pelas pressões geradas após o assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego, em Unaí (MG), durante uma emboscada em janeiro do mesmo ano.

Devido a mudanças propostas por membros da bancada ruralista (para inserir os imóveis urbanos na expropriação), a PEC 438/2001 terá que retornar ao Senado depois de aprovada na Câmara.

Caso Pagrisa
No final de julho de 2007, o grupo móvel de fiscalização flagrou 1.064 pessoas submetidas à escravidão na fazenda e usina de cana-de-açúcar Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA). A operação mobilizou alguns integrantes do Senado, que passaram a atacar a equipe do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e formaram uma comissão externa para averiguar o caso, sob a justificativa de que os fiscais cometeram abusos. A refrega ganhou maiores dimensões quando o MTE decidiu suspender as ações de fiscalização por falta de segurança institucional.

Com a divulgação pública do relatório da Pagrisa pelo ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, as imagens e relatos da operação foram reproduzidos pela mídia. Organizações da sociedade civil, juristas e parlamentares saíram em defesa da fiscalização e repudiarem o posicionamento do grupo de senadores, que chegaram a ouvir alguns dos envolvidos no caso, mas não deram prosseguimento à tentativa de deslegitimar os fiscais do governo federal. O episódio acabou fortalecendo o trabalho do grupo móvel e reavivou a necessidade de aprovação de leis mais duras contra quem pratica esse tipo de crime.

Em setembro de 2007, parlamentares, representantes de instituições engajadas no combate ao trabalho escravo e o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi discutiram a retomada da mobilização pela aprovação da PEC 438/2001. Em janeiro deste ano, entidades da sociedade civil e parlamentares criaram o Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo.


Linha do tempo da PEC do Trabalho Escravo

11/10/1995
Apresentação da PEC 232/1995 na Câmara dos Deputados pelo deputado Paulo Rocha (PT-PA), com o mesmo conteúdo da futura PEC 438/2001.

11/03/1999
Apresentação da PEC 57/1999 pelo senador Ademir Andrade (PSB-PA) no Senado Federal.

31/10/2001
Aprovação em segundo turno pelo Senado da PEC 57/1999: 55 votos a favor e nenhum contra. Proposta remetida à Câmara dos Deputados sob o número PEC 438/2001.

06/11/2001
Como as propostas de Ademir Andrade e Paulo Rocha se equivalem e a PEC 57/1999 já havia sido aprovada no Senado, a proposta de Paulo Rocha (PEC-232/1995) é apensada à PEC 438/2001.

21/11/2003
Parecer favorável do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

28/01/2004
Crime de Unaí, em que três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego foram assassinados durante uma emboscada de fazendeiros locais, faz reascender o esforço para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo.

03/03/2004
Câmara dos Deputados instala Comissão Especial para Trabalho Escravo, que vai analisar a PEC 438/01. A ação surgiu de um Ato da Presidência da Casa, de março do mesmo ano, que solicitou que fosse emitido um parecer sobre a PEC em até 40 sessões.

27/04/2004
O relator designado pela Comissão Especial para Trabalho Escravo, deputado Tarcísio Zimmermann (PT-RS), entrega o parecer pela aprovação da PEC 438.

12/05/2004
Comissão Especial aprova por unanimidade PEC 438.

26/05/2004
No Plenário da Câmara, se inicia a discussão para a votação em primeiro turno.

11/08/2004
Aprovação em primeiro turno no Plenário da Câmara: Sim: 326; Não: 10; Abstenções: 8; Total: 345.

01/03/2007
A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado cria a Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo.

30/06/2007
Libertação de 1.064 pessoas da fazenda e usina Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA), provocou um movimento de senadores que atacou a fiscalização e defendeu a empresa. No entanto, o caso acabou por fortalecer o grupo móvel de fiscalização, responsável por apurar denúncias de trabalho escravo.  Como uma das repercussões do caso Pagrisa, governo, parlamentares e entidades sociais intensificaram os esforços para aprovar a PEC 438/01.

22/01/2008
Criação do Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo, reunindo entidades da sociedade civil e parlamentares.

Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil

 

 

JUIZ ANUNCIA "PACOTE" DE DECISÕES SOBRE CASOS DE ESCRAVIDÃO

Depois de anos parados, dezenas de processos de crime de trabalho escravo devem ser julgados nos próximos meses. Juiz federal de Marabá (PA) destaca trabalho do grupo móvel e decisão do STF sobre competência de tribunais

REPÓRTER BRASIL
Por Maurício Hashizume
20/05/2008


A condenação do fazendeiro Gilberto Andrade, dono de três propriedades onde houve flagrante de trabalho escravo e também acusado de ter torturado um trabalhador com ferro quente em fevereiro deste ano, a 14 anos de prisão pela Justiça Federal no Maranhão não foi um ato isolado do Judiciário. Enquanto recorria em liberdade, Gilberto Andrade foi preso no início deste mês e encaminhado à Penitenciária de Pedrinhas em cumprimento aos três pedidos acolhidos de prisão preventiva de autoria do Ministério Público Federal (MPF) com base na alegação de que se trata de um reincidente no crime.
Em sentença publicada no Diário Oficial do Estado do Pará no dia 28 de abril, o juiz Carlos Henrique Borlido Haddad, da Vara Federal de Marabá, condenou outro fazendeiro, Francisco Alves do Nascimento, pelo Art. 149 do Código Penal - ou seja, redução à condição análoga à de escravo. O magistrado fixou a pena de Francisco em cinco anos de reclusão no regime semi-aberto. Ele foi flagrado explorando o suor de sete trabalhadores na Fazenda Cajueiro, no município de Itupiranga (PA), e se recusou a pagar os direitos trabalhistas e as verbas rescisórias mesmo depois de ter sido autuado pelo grupo móvel de fiscalização, em novembro do ano passado.

Uma semana depois da fiscalização, Jonas Gomes do Nascimento e Josiel Gomes do Nascimento, filhos de Francisco Alves, ameaçaram, portando arma de fogo, um dos trabalhadores que testemunhou contra o dono da propriedade no inquérito policial de exploração de mão-de-obra escrava. "Jonas Gomes do Nascimento e Josiel Gomes do Nascimento demonstraram culpabilidade acentuada, uma vez que o crime foi praticado para tentar inibir a apuração de outro delito, de gravidade considerável. Os réus são primários, mas há registros de antecedentes desabonadores, pois ambos respondem por duas tentativas de homicídio. Além disso, o acusado Jonas figura como réu em dois outros processos (...)", coloca o juiz Carlos Henrique, que decretou a reclusão (em regime fechado) por três anos dos dois filhos de Francisco.

O magistrado ainda completa: "Há informação depreciativa sobre a conduta social deles [Jonas e Josiel], porquanto se envolvem em brigas e têm fama de violentos. Nenhum dos dois exerce atividade remunerada e dependem economicamente do genitor. Os motivos do delito baseiam-se, em última instância, na tentativa de manter a renda familiar ao menor custo e para isentar o genitor de responsabilidade criminal". A dupla permanece presa.

Em entrevista à Repórter Brasil, o juiz da Vara Federal de Marabá relata que o caso de Francisco, Jonas e Josiel foi julgado com rapidez porque dois dos réus no processo estavam detidos. Ele conta ainda que outras dezenas de processos acerca de crimes de trabalho escravo estão sob sua alçada. Atualmente, o magistrado ouve testemunhas, recolhe provas e confere dados para a produção de derradeiros relatórios. Nos próximos meses, conta Carlos Henrique, dezenas de decisões referentes a esses casos devem ser concluídas. "Muitos processos estão chegando à sua fase final", adianta.

De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Pará, 31 pessoas foram denunciadas em 18 processos criminais pelo crime de trabalho escravo no estado. Em 2007, 103 indivíduos foram denunciados pelo mesmo crime. Pelo menos 34 desses processos tramitam na Vara Federal de Marabá, onde trabalha Carlos Henrique, que concentra os casos ocorridos em 36 municípios do Sul e Sudeste do Pará.

O juiz não titubeia em apontar os dois fatores determinantes para a aceleração dos processos sobre exploração de mão-de-obra escrava. "Tudo decorre da ênfase dada às fiscalizações pelo Ministério do Trabalho e Emprego nos últimos anos. O trabalho do grupo móvel, traduzido nas ações dos procuradores do Ministério Público do Trabalho [que também participam das operações], gerou mais processos na Justiça", coloca o magistrado da Justiça Federal em Marabá. "A fiscalização mais intensa possibilita que haja mais decisões e punições em casos de trabalho escravo".

Outro fator fundamental para destravar os processos, segundo o magistrado, foi a definição de um imbróglio jurídico. "Como o STF [Supremo Tribunal Federal] definiu a competência da Justiça Federal para julgar casos de trabalho escravo, não há mais impedimentos e muitas decisões devem ser tomadas nos próximos meses. Antes disso, os processos estavam paralisados".

O próprio Carlos Henrique havia condenado outro fazendeiro por crime de trabalho escravo em outubro de 2006. Trata-se de Aldimir Lima Nunes, mais conhecido como "Branquinho", acusado de manter seis pessoas em condições análogas à escravidão em 2003, na Fazenda Lagoa das Vacas, situada no município de Altamira (PA). Em 16 de outubro de 2006, foi publicada a sentença que estabelece uma pena de nove anos (5 anos de reclusão, 4 anos de detenção) em regime semi-aberto "Os motivos dos crimes baseiam-se na tentativa de auferir renda ao menor custo", sacramenta o juiz na decisão.

Acusado de diversos crimes - além de trabalho escravo, grilagem de terra, descumprimento da legislação ambiental, ameaças a agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ananás, porte ilegal de arma e até acusação de homicídio (este último corre na Justiça do Tocantins) -, Branquinho chegou a ficar encarcerado por dois períodos. Da primeira vez em que foi preso (em setembro de 2003), fugiu dois meses depois pela porta da frente do Centro de Recuperação Metropolitano da Superintendência do Sistema Penal do Estado do Pará. Permaneceu na condição de foragido até janeiro de 2004, quando foi recapturado no Ceará. Logo em seguida, porém, a prisão preventiva de Branquinho foi revogada pelo juiz federal substituto de Marabá (PA), Francisco de Assis Garces Castro Júnior, autor de outros despachos pró-fazendeiros.

O Ministério Público conseguiu que novos pedidos de prisão preventiva fossem concedidos - que estavam valendo quando houve o julgamento em outubro de 2006 -, mas um habeas corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) vem garantindo até hoje a liberdade de Branquinho.

No julgamento realizado em junho de 2007, o relator do pedido, ministro Félix Fischer, ressaltou que a sentença condenatória [do juiz Carlos Henrique] determinou o "regime semi-aberto como o inicial de cumprimento da pena" e que, portanto, o réu deverá "aguardar o julgamento do recurso de apelação em liberdade, se por outro motivo não estiver preso". Desde então, não há registro de novos pedidos de prisão preventiva por parte do Ministério Público, conforme consulta feita pela Repórter Brasil junto à assessoria da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do MPF.

O processo no qual Branquinho já foi condenado em primeira instância por trabalho escravo está desde maio de 2007 sob responsabilidade do desembargador Hilton Queiroz, no Tribunal Federal Regional (TRF) da 1ª Região. Segundo a assessoria do Tribunal, o processo permanece normalmente à espera de uma decisão, em meio aos outras demandas.

 

 

FAZENDEIRO CONDENADO A 14 ANOS DE PRISÃO POR TRABALHO ESCRAVO

Fazendeiro que marcou trabalhador a ferro é condenado por escravidão.
Gilberto Andrade, proprietário de terras entre no Pará e Maranhão, foi condenado a 14 anos de prisão. Apesar do recurso contra a sentença, ele está na cadeia por causa de três pedidos de prisão preventiva contra ele, por outros casos de trabalho escravo

Por Repórter Brasil*

19/05/2008

O fazendeiro Gilberto Andrade foi condenado pela Justiça Federal no Maranhão a 14 anos de prisão pelos crimes de trabalho escravo, ocultação de cadáver e aliciamento de trabalhadores. De acordo com o Ministério Público Federal, responsável pela ação, a condenação se deve a uma libertação de 19 escravos ocorrida numa de suas propriedades. A decisão saiu no final de abril.

Enquanto recorria da sentença em liberdade, ele foi preso no início de maio e encaminhado à Penitenciária de Pedrinhas por causa de três pedidos de prisão preventiva solicitados pelo MPF. O que motivou os pedidos foram as reincidências no crime. Ou seja, há mais processos tramitando que podem levar a novas condenações. Não foi o primeiro pedido de prisão preventiva contra Gilberto Andrade, mas nenhuma delas veio depois de uma condenação.

A condenação de Gilberto Andrade pela Justiça Federal é resultado da definição da competência federal para julgamento dos crimes de trabalho escravo. Um recurso extraordinário votado em novembro de 2006 pelo Supremo Tribunal Federal - sobre denúncia envolvendo um fazendeiro paraense - abriu importante precedente em uma antiga pendência sobre qual seria a instância competente em relação ao tema: o judiciário Federal ou Estadual. Desde então, os juízes federais têm se sentido mais seguros para julgar esses casos, sem receio de que os processos serão encaminhados à esfera estadual a pedido de advogados interessados em arrastar o caso de seus clientes até a prescrição.

A libertação que originou a condenação de Gilberto Andrade é apenas uma das muitas operações já realizadas pelo grupo móvel de fiscalização, formado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Polícia Federal (PF), em suas fazendas Boa Fé Caru, Bonsucesso e Baixa Verde.

De acordo com levantamento da Repórter Brasil, Gilberto Andrade já foi visitado pelo grupo móvel por denúncias de trabalho escravo em maio de 1998, setembro de 1999, novembro de 2004, maio de 2005 e fevereiro de 2008.

Nessa última vez, o caso envolvendo o fazendeiro ganhou projeção internacional pelo fato de ele ter sido acusado de torturar um trabalhador com ferro quente de marcar gado a fim de puni-lo por reclamações relacionadas à qualidade da comida e à falta de salários. Ainda nessa ação que libertou 23 pessoas, ele tentou driblar a fiscalização induzindo os trabalhadores a assinar contratos fraudulentos, aproveitando os dispositivo da já aprovada MP 410/2007 que permite a contratação de trabalhos rurais de até dois meses de duração sem necessidade de carteira assinada.

Ainda segundo denúncia do Ministério Público Federal do Maranhão, foram localizados cadáveres enterrados nas fazendas do réu, que teria conhecimento do fato. Devido à dificuldade de identificação das ossadas, os crimes ainda estão sendo investigados.

Gilberto Andrade foi condenado a 11 anos de reclusão, sendo oito anos pelo crime de redução à condição análoga à de escravo (artigo 149), e três anos pelo crime de ocultação de cadáver (artigo 211), mais três anos de detenção por aliciamento de trabalhadores (artigo 207). Além da multa de 7,2 mil salários-mínimos, no valor vigente à época dos crimes. De acordo com a sentença, não será possível a suspensão da execução das penas, bem como a substituição das penas privativas de liberdade por outras como doação de cestas básicas e serviços à comunidade.

Isso ocorreu, por exemplo, com o primeiro condenado por trabalho escravo no Brasil, Antônio Barbosa de Melo, proprietário das fazendas Araguari e Alvorada, em Água Azul do Norte, Sul do Pará. Sua condenação, em 1999, foi revertida em doação de cestas básicas. Vale salientar que este fazendeiro, já falecido, também foi reincidente no crime de trabalho escravo.

Lista suja
Gilberto Andrade está na "lista suja", cadastro do governo federal que relaciona os empregadores que comprovadamente utilizaram trabalho escravo. Com isso, ele perde acesso a créditos de instituições públicas e de alguns bancos privados e clientes ligados ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Entre os frigoríficos que já compraram sua produção em anos passados está o Mãe do Rio, hoje nas mãos do Margen. Este grupo tornou-se signatário do Pacto Nacional este ano, comprometendo-se a adotar uma política de restrição comercial a quem se utiliza desse tipo de exploração.

*Com informações do Ministério Público Federal do Maranhão.

 

 

FAZENDEIROS NO PARANÁ TENTAM INTIMIDAR BISPO POR APOIO A TRABALHADORES SEM TERRA.

Comissão Pastoral da Terra – Nota Pública
16/05/2008

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra preocupada com o clima de tensão social que se registra, sobretudo, na região de Cascavel, no Paraná, vem manifestar sua apreensão diante da violência que ocorre na região e seu apoio e solidariedade a Dom Mauro Aparecido dos Santos, arcebispo metropolitano de Cascavel, que tem se manifestado em apoio às organizações do sem terra na região.

Hoje à tarde, 16 de maio, os ruralistas programaram uma carreata que, segundo informações recebidas, vai se encerrar diante da Catedral metropolitana, numa clara expressão de pressão contra o arcebispo. Este ato é uma culminância de uma série de ações violentas que se registraram nos últimos dias contra os sem terra e os que os apóiam. A região de Cascavel já é conhecida pela violência contra camponeses praticada por milícias privadas. Certas da impunidade, as ações têm se tornado mais ousadas e planejadas, inclusive com o uso de instrumentos mais sofisticados.

No dia 14 de março, o Reverendo Luiz Carlos Gabas, da Igreja Anglicana, pároco da Paróquia da Ascensão, Jardim Alvorada, em Cascavel, por ter manifestado seu apoio à luta dos sem terra, teve seu carro abordado por dois carros, numa demonstração de intimidação. O reverendo também tem recebido telefonemas estranhos em que a pessoa que chama permanece muda do outro lado da linha.

Na madrugada de 8 de maio, o acampamento Primeiros Passos, do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), com mais de 150 famílias, localizado na BR 369, entre os municípios de Cascavel e  Corbélia, foi atacado por uma milícia privada.  Homens fortemente armados invadiram o acampamento com tratores, retro-escavadeiras e um caminhão com uma grade de ferro, conhecida como quebra-mato, e com a carroceria blindada  de onde os pistoleiros efetuavam os disparos, uma espécie de “caveirão” -  o  caveirão do agronegócio. Toda a plantação e as estruturas do acampamento, inclusive uma escola e uma igreja, que o reverendo Luiz Carlos construíra, foram destruídas. Dez pistoleiros foram presos em flagrante. Entre os presos estava Luciano Gomes Resende, um dos seguranças da empresa NF, presente na Estação Experimental da Syngenta, em outubro de 2007, quando foi assassinado Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Num ato que soa como afronta, mais de 20 fazendeiros foram à Delegacia pressionar a polícia contra a prisão dos pistoleiros.

Ontem, uma semana depois, os pistoleiros já foram libertados. Lideranças do acampamento receberam informações, de fontes seguras, de que haveria pessoas infiltradas no acampamento com a missão de matar Joaquim Ribeiro da Silva, do MLST e Celso, do MST. Ontem mesmo, ao final da tarde, uma moto parou em frente à casa de Joaquim que estava fechada e o motoqueiro perguntou aos vizinhos sobre ele e seus hábitos, a que horas chegava, quando saia, etc. Hoje pela manhã, um carro suspeito também passou lentamente na frente da casa de Joaquim observando o movimento do acampamento. Segundo alguns acampados, o carro seria o mesmo utilizado para intimidar o reverendo anglicano.

A carreata de hoje tem o objetivo de mostrar a força dos ruralistas.

A Coordenação Nacional faz suas as palavras de Dom Mauro, ao se confrontar com a violência e a destruição que as milícias provocaram: “Não podemos deixar que esse fato de desrespeito à pessoa humana e às leis seja esquecido. Não podemos permitir que o Paraná se torne uma terra onde o que vale é a lei da bala e funcionários de empresa de segurança escondem a cara dos verdadeiros mandantes”.

A Coordenação Nacional da CPT

Maiores informações:
Dirceu Fumagalli – coordenação nacional da CPT – (62) 9977-7279
Ismael Costa – da coordenação nacional do MLST – (34) 9935-0209
Assessoria de Comunicação
Comissão Pastoral da Terra
Secretaria Nacional - Goiânia, Goiás.
Fone: 62 4008-6406/6412/6400
www.cptnacional.org.br

 

 

CASO DOROTHY STANG: A CONSTRUÇÃO DA IMPUNIDADE

08/05/2008

Justiça Global
Terra de Direitos
Centro Luiz Freire
Campanha Reaja
Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas da Bahia
Coletivo de Entidades Negras (CEN)


A decisão do Júri Popular, realizado em Belém do Pará nos últimos dias 5 e 6 de maio, que absolveu Vitalmiro Bastos de Moura  (Bida) -  um dos acusados do assassinato da Irmã Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005 - evidencia mais uma vez a impunidade garantida aos mandantes de crimes contra trabalhadores rurais e defensores de direitos humanos no Pará. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, nos últimos 36 anos 800 trabalhadores rurais foram assassinados no Pará e Bida era, até ontem, oúnico mandante preso.

A demora em processar os responsáveis pelo assassinato de Dorothy foi decisiva no processo de construção da impunidade, abrindo a possibilidade dos mandantes cooptarem os pistoleiros e o intermediário do crime. Essa estratégia dos mandantes fica evidente na constante mudança de depoimentos dos réus. Rayfran das Neves, réu confesso, mudou seu depoimento 14 vezes. Amair Feijóli da Cunha (Tato), condenado como intermediário do crime, também mudou seu depoimento em relação ao
primeiro júri, alegando a própria inocência e a de Bida.  No entanto, Vitalmiro Bastos de Moura responde ainda à Justiça Federal por crimes ambientais e por manutenção de trabalhadores rurais em condições análogas às de escravos.

O resultado do Tribunal do Júri demonstra também a importância de que casos emblemáticos de violações de direitos humanos sejam federalizados, isto é, que tanto a a apuração como o processamento do caso sejam realizados pela Polícia Federal e Justiça Federal, respectivamente, de modo a impedir que autoridades judiciárias e juri  fiquem suscetíveis às
pressões dos grupos poderosos locais. Vale lembrar que o pedido de federalização do caso Dorothy Stang foi negado pelo Superior  Tribunal de Justiça (STJ).

As constantes mudanças de depoimentos e a forma como a defesa dos acusados foi estruturada, reforçam a urgência em se realizar uma investigação rigorosa sobre a existência de consórcio entre fazendeiros,em uma estratégia que vem garantindo ao longo de décadas vantagens financeiras para intermediários, pistoleiros, facilitação de fugas e a absolvição de andantes. Exemplo emblemático dessa situação é o caso do assassinato do Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Rondon do Pará, José Dutra da Costa (Dezinho) em 2000. Até o momento, apesar de muitas evidencias, dois acusados de serem os mandantes foram impronunciados pelo crime e o pistoleiro está foragido depois de ter fugido do presídio no início desse ano.

A Justiça Global, Terra de Direitos, Centro Luiz Freire, Campanha Reaja, a Associação de Familiares de Presos e Presas da Bahia e o Coletivo de Entidades Negras (CEN), organizações que integram o  Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, rechaçam veementemente os ataques feitos pela defesa dos réus à imagem da irmã Dorothy Stang de
forma a desqualificá-la, e aos trabalhadores rurais, associando-os a bando em uma evididente  tentativa de criminalização.

A impunidade garantida ao fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura gera ainda um clima de insegurança para os defensores de direitos humanos que se encontram ameaçados de morte no Pará, a exemplo de D. Erwin Krautler, Frei Henri des Rozieres, Maria Joel Dias da Costa, José Soares de Brito, Ivete Bastos, entre tantos outros. Também é urgente que se investiguem
as ameaças anônimas recebidas, via telefone, pelo Promotor Público, Edson Souza, responsável pela acusação dos réus.

O Ministério Público, dentro de suas atribuições legais, deve recorrer imediatamente da decisão de absolvição de Bida e o Tribunal de Justiça do Pará, julgar com a maior brevidade possível esse recurso, para que um novo júri possa ser realizado, garantindo inclusive lisura no julgamento de Regivaldo Galvão (Taradão), outro acusado de ser mandante do assassinato de Dorothy Stang.

Vale ressaltar que a problemática que envolve os conflitos e a violência no estado do Pará está fortemente associada à concentração da propriedade da terra, inclusive feita através da apropriação ilegal de terras públicas (grilagem). Essas violações vão desde a negação de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, com a destruição dos recursos naturais, até a expulsão violenta e prisões de trabalhadores rurais, ribeirinhos, extrativistas, indígenas, populações tradicionais que
ocupam a terra há muitas décadas. As violações agravam-se com as práticas de trabalho escravo e culminam na sistemática de assassinatos de trabalhadores rurais e lideranças, como aconteceu com Doroty Stang.

Nesse sentido, defendemos que o combate à grilagem de terras deve ser uma medida permanente, com a retomada das terras públicas do estado e do governo federal, de forma que possa garantir um processo de reforma agrária que atenda os interesses dos trabalhadores rurais, tornando-os menos vulneráveis às violações de direitos humanos. Defende também  que sejam protegidos os defensores de diretos humanos ameaçados, com a ampliação e o fortalecimento do Programa de Proteção aos defensores de direitos humanos.

 

 

FERNANDO LUGO,
UMA VITORIA DO POVO PARAGUAIO.

Joao pedro stedile, membro da coord. nacional do MST e da via campesina Brasil.
24/04/2008

Entre 1750-56  houve a guerra guaranítica no sul do Brasil.  Exércitos de Portugal e Espanha, abençoados pelo Vaticano, trocaram Montevideo pelo atual território do Rio grande do sul que era habitado por 600 mil guaranis e Charruas.  Os gaúchos verdadeiros que há milênios habitavam aquele território..
Da guerra, sobraram apenas 30 mil.  Um parte foi morta e a outra, fugindo da barbárie européia, cruzou o rio Uruguai e foi somar-se a outros parentes guaranis, no territorio do Paraguai.

Em 1808-12  implantou-se a Republica no Paraguai e um jovem estadista, Dr França fez reforma agrária, e implementou a primeiras regras republicanas do continente.  Foi derrubado pela oligarquia.   Entre 1865-70 outro jovem republicano Solano Lopez, implantou a primeira siderúrgica da América do sul, e sonhava com um modelo de industrialização do país.   Provocou o império inglês.  Que contratou os exércitos argentinos, uruguaios e brasileiros, e fizeram a guerra do Paraguai, tão bem descrita e recuperada pelo nosso historiador Chiavenato.   Mataram 90% de todos os homens adultos. Um massacre, para preservar os interesses da indústria inglesa.  Como aliás fariam mais tarde também aqui no Brasil com o assassinato de

Delmiro Gouveia.  O primeiro industrial nacionalista brasileiro.
Veio o século XX, e o país foi governado sempre por ditadores.   Strossner,  de origem alemã e afiliação nazista, governou por 40 anos.   E seu partido, o Colorado, governou desde a segunda guerra 1945, até hoje.
Dia 20 de abril, houve eleição no Paraguai.  Ganhou um bispo da teologia da libertação, líder dos pobres, que fala fluentemente guarani: Fernando Lugo.   Nem partido tem. Mas tem o povo e suas forças, que derrotaram os colorados e outro filhote da ditadura militar o general Oviedo.  Finalmente, o povo paraguaio retoma as rédeas de seu destino.   E nós  os brasileiros, estamos histórica, étnica e economicamente vinculados a eles.   Cabe a nós, contribuir de todos os modos possíveis, para que o povo paraguaio recupere a dignidade, a justiça, a soberania   e melhore suas condições de vida.
Os ventos da América latina estão começando soprar a favor dos povos.

Quem é Fernando Lugo?. Um perfil do novo presidente paraguaio 

 O perfil do novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, é descrito pelo blog SopaBrasiguaia.com, 21-04-2005, especializado no acompanhamento da conjuntura do Paraguai.

Eis o perfil.

Nascido em 30 de maio de 1951, no município de San Pedro del Paraná, departamento (estado) de Itapúa, Fernando Armindo Lugo Méndez é filho de Guillermo Lugo e Maximina Mendez Fleitas, colorados perseguidos pelo aparato repressor montado pelo ditador Alfredo Stroessner (1954-89).

Aos 19 anos de idade, o hoje presidente do Paraguai ingressou na corporação dos Missionários do Verbo Divino, abraçando a carreira clerical em 1975. Neste intervalo, formou-se em Teologia pela Universidad Católica Nuestra Señora de la Asunción.

Sua ordenação como sacerdote veio em 1977, sendo enviado ao Equador e tomando contato com a Teologia da Libertação pregada pelo monsenhor Leonidas Proaño e pelo brasileiro Leonardo Boff. Na década de 1980, voltou ao Paraguai e, posteriormente, seguiu para o Vaticano para aprimorar seus estudos.

Ordenado bispo em 1994, Lugo foi membro da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Paraguaia e da equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), desenvolvendo trabalhos voltados às camadas marginalizadas da população e reprimidas pelo Estado paraguaio.

Bispo emérito de San Pedro, um dos departamentos (estados) mais pobres do Paraguai, Lugo emergiu na política durante o governo de Nicanor Duarte Frutos (2003/08), à frente do movimento Resistência Cidadã, cujos protestos multitudinários projetaram sua figura a nível nacional.

Em dezembro de 2006, atendendo à pressão popular e dizendo-se desencantado com a política social da Igreja, Lugo renunciou ao status de bispo e lançou-se à arena política, encabeçando um projeto de aliança que englobava, à época, todos os partidos de oposição.

Eleito presidente do Paraguai em 20 de abril de 2008, à frente da Aliança Patriótica para a Mudança, o ex-bispo católico assumirá o mandato, cuja duração é de cinco anos, no dia 15 de agosto. Seu vice-presidente é o ex-governador do departamento (estado) Central, Federico Franco.

Leia mais.

“O Paraguai subsidia as indústrias de São Paulo”. Entrevista especial com Fernando Lugo

‘Eu não sou de esquerda, nem de direita. Estou no centro’, afirma Fernando Lugo, candidato à presidência do Paraguai

'Os pequenos também podem vencer'. Crônica de uma queda anunciada

O jornalista Pedro Carrano enviado especial do Brasil de Fato para acompanhar as eleições no Paraguai relata o clima das eleições e a alegria popular com a vitória de Fernando Lugo. Segundo o jornalista, Miguel Angel Lopez Perito, o coordenador-chefe da campanha do ex-bispo, destacou que a vitória de Lugo significa que apenas agora o país vivia “a queda da ditadura de Stroessner”. A reportagem, 21-04-2008, revela que a última aparição pública de Lugo às vésperas das eleições, no sábado, foi a participação em uma missa. Após a vitória, o novo presidente eleito convocou a classe política paraguaia à reconciliação para construir um “país grande”.

Eis a reportagem.

Os incidentes e denúncias sobre as práticas de compra de votos do Partido Colorado, em povoados, bairros e distritos do Paraguai, não foram suficientes para alterar o resultado qualitativo das eleições de 2008: a participação popular fez a diferença e escolheu Fernando Lugo, com 40,82% dos votos, pela Alianza Patriotica para el Cambio (APC), contra 30,72% da candidata colorada Blanca Ovelar. O ex-general Lino Oviedo, da União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), chegou ao final do pleito sem entregar o voto útil a Ovelar. Oviedo atingiu 21,98% da votação. Este resultado foi anunciado pela justiça eleitoral paraguaia, às 21:45h, quando 92% das urnas foram apuradas.

Antes, às seis horas da tarde de domingo, quando os primeiros resultados de boca de urna indicavam a vitória de Lugo, na sede da APC, onde a bandeira paraguaia e o nome do ex-bispo eram ovacionados, o coordenador-chefe da campanha, Miguel Angel Lopez Perito, anunciava que o país vivia “a queda da ditadura de Stroessner” (1954-1988, reeleito oito vezes), e finalmente se iniciava a verdadeira transição. Na sua fala, Lugo afirmou “que os pequenos também podem vencer”. Naquele momento, já não havia chance de uma temida fraude e a vitória estava assegurada.

Os rumores que davam conta de intimidação, compra de votos e de membros das mesas de votação não foram suficientes para conter a participação massiva. O povo paraguaio acudiu em massa às urnas, que este ano contaram com 60% de participação. Para comemorar a vitória, o Panteón de los Héroes, em Asunción, abrigava milhares de pessoas. A maioria eram jovens, cuja última grande movimentação aconteceu durante o “marzo paraguayo”, em 1999, com a morte de sete manifestantes e a queda do então presidente Raúl Cubas Grau. Ainda assim, eles nunca haviam visto outro grupo no governo do país. Carros tomaram conta de uma cidade que até a noite de sábado estava em silêncio. Um silêncio que várias pessoas chamavam de “a calmaria antes da tempestade”.

Até bem pouco o clima era incerto. Na noite de sábado (19), em uma das últimas aparições antes da votação, Lugo compareceu à missa no município de Lambare, conurbano de Assunción. Estava acompanhado de seu vice, Frederico Franco, do partido liberal. Com o foco de poucos meios de comunicação, Lugo confirmou aquilo que um segurança da campanha havia dito em conversa com o Brasil de Fato. Lugo é um homem simples, austero. Na saída da missa, um grupo tentou provocar Lugo, arrumando confusão com outros fiéis da igreja.

Ação política decisiva

O descontentamento popular foi o primeiro fator para a eleição da APC. O outro papel decisivo coube, como Lugo ressaltou em seus agradecimentos, aos comissários que fiscalizaram as eleições em cada distrito, pela Aliança Patriótica para el Cambio (APC) e pelos movimentos populares. Inferiores em número, jogando o jogo desigual das eleições, cumpriram um grande trabalho militante.

A presença de observadores internacionais também foi reconhecida como decisiva. Estiveram seguindo as eleições desde a oficialista Organização dos Estados Americanos (OEA), passando pelo Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais (IFES), presidido pelo ex-presidente colombiano Andrés Pastrana. A presença de observadores dos movimentos sociais de vários países também foi uma prioridade dentro dos preparativos da APC para as eleições.

Para os militantes do Tekojoja, importante base de Lugo, o dia 20 de abril começou por volta das 4h da madrugada, com a divisão de carros entre os comissários dos diversos distritos de Asunción, que deveriam dar conta das inúmeras denúncias. A apreensão, naquele momento, era visível. Kátia militante do movimento, comentava a dificuldade no processo de consciência atual, sentida ao longo da campanha. “Quando fomos fazer trabalho de base, as pessoas não queriam conversa, antes perguntavam quanto iam ganhar com aquilo”, comenta.

Sabe-se que a democracia representativa é um jogo desigual em qualquer parte do globo, que responde ao marco burguês. Uma fratura que no Paraguai está ainda mais exposta. O número de votantes por mesa, em 2008, foi alterado de 300 para 200, aumentando assim o número de mesas de votação. Aumentando conseqüentemente a dificuldade de vistoria e a influência colorada.

Membro da Comissão de advogados do Tekojoja, Ramón Sosa, alertava que o Partido Colorado, nas internas que haviam garantido a vitória da atual candidata, Blanca Ovelar, obteve uma diferença de apenas 25 mil votos, deixando suspeitas. “Existe um assistencialismo massivo, que precisa ser superado. Se três votos são eliminados de cada mesa, por exemplo, em 15 mil mesas isto significaria 45 mil votos”, compara.

A reportagem do Brasil de Fato pôde comprovar a inserção dos colorados nos bairros. Praticamente encerradas as votações, houve a denúncia no bairro de Lambaré de venda de cédulas eleitorais e pessoas ameaçadas, em uma sede do Partido Colorado. No caminho até o local, a reportagem deparou com militantes do partido, em um posto de comando, portando armas em plena rua. Na sede do partido, a prática de venda foi negada. Denúncias como esta se repetiram na voz de outros observadores internacionais.

Hoje, dia 21 de abril, vários matizes políticos deram o primeiro passo juntos, dentro da APC. Um tema bastante levantado é o futuro das forças que formam a aliança. Na primeira entrevista coletiva após o resultado das eleições, Lugo acenou para a conciliação entre a classe política paraguaia, em nome de um projeto de país deixado de lado até então. “Faço um convite muito especial, a toda a classe política paraguaia, a todos sem exceção: inclusive, com aqueles que não compartem estes ideais, a apostar que o Paraguai já foi grande e juntos cremos que voltará a ser grande”, expressou.

A orientação, neste momento, é sentar para o diálogo. “Temos que seguir sendo aliança, dialogando com todos os partidos”, afirma um militante do P-MAS. Para Guillermina Kanomikoff, secretária do Tekojoja, foi importante superar o antigo processo onde “votavam os mortos”. Agora é preciso indicar à população o seu protagonismo no governo Lugo, afirma Guillermina. “Não se trata de construir por votos, mas por consensos”, comenta.

Paraguai: O fim de um ciclo. Artigo de Atilio Boron

 A vitória de Lugo é a derrocada de um dos últimos bastiões da América Latina que ainda sobrevivia à sombra de um regime arquitetado por uma longa ditadura militar. Agora, Lugo enfrentará fortes resistências da máquina clientelística e corrupta montada pelos militares que se transformou no Partido Colorado que por seis décadas hegemonizou o poder no país. A análise é do sociólogo Atilio Boron em artigo no jornal Página/12, 21-04-2008. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O triunfo do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições desse domingo põe fim a quase 61 anos de predomínio do Partido Colorado. A maior parte desse período transcorreu sob o signo de uma das mais ferozes e reacionárias ditaduras da América Latina presidida por Alfredo Stroessner que tomou o poder mediante um golpe de Estado em 1954 e permaneceu nele até 1989. Desde então, até o domingo de 20 de abril, o Partido Colorado manteve o poder político no país.

Ao longo desses anos, o Paraguai, um país que, como a Bolívia, possui grandes recursos naturais e uma população relativamente pequena (não chega a sete milhões de habitantes) aprofundou o seu atraso econômico, político e cultural, condenando à pobreza a grande maioria dos seus filhos e ‘prendendo’ aqueles que não emigraram sob um sistema corrupto até a medula, no qual os mais altos funcionários do Estado eram, com poucas exceções, os organizadores do saque praticado contra a nação guarani.

Com o triunfo de Lugo caiu o último bastião do despotismo que assolou a região durante a segunda metade do século passado. O do Paraguai foi mais longe; mudou de pele como uma serpente e engendrou, para perpetuar a ditadura, a continuidade do mesmo bloco dominante sob uma roupagem que apenas formalmente parecia democrático. O transformismo de que falava Gramsci foi uma verdadeira escola entre a classe política paraguaia e as mudanças que aconteceram logo após a saída de Stroessner serviram, com dizia Gatopardo, para que tudo continuasse igual.

Com Lugo como presidente, toda a estrutura da sociedade paraguaia enfrentará fortes abalos. Para começar, o aparato clientelístico montado faz seis décadas e alimentado permanentemente por uma corrupção imperante. A oposição que encontrará o ex-bispo será inclemente e intratável: donos absolutos de vidas e administradores que estão durante décadas no poder, oportunistas e hipócritas aderentes à norma do jogo democrático não deixaram de empregar qualquer recurso para desestabilizar o processo e provocar uma situação similar a que encontra na Bolívia Evo Morales.

De outro lado, como se a oposição interna não fosse pouca coisa, os olhos do império se concentrarão a partir de hoje na mais irmã república paraguaia que passará a engrossar a lista de governos com “débeis credenciais democráticas”. A imperdoável miopia dos governos do Brasil e da Argentina, a mesma que está empunhando cada vez com mais força o Uruguai até os braços dos Estados Unidos, fez com que Assunção terminasse por conceder, para uso das forças estadunidenses, a base área de Mariscal Estigarribia. Situada em um região praticamente despovoada, a uns 200 Km da fronteira da Argentina e uns 300 do Brasil, tem pista área mais extensa do Paraguai, superior a do aeroporto internacional de Assunção e capacidade para abrigar tropas de até 20 mil soldados.

Tropas que gozam de imunidade sob um suposto “Acordo Militar de Treinamento” assinado entre brindes à meia-noite em 2005, enquanto o Itamaraty e a Chancelaria argentina estavam distraídas com questões menos relevantes.

Agora se verá se a Argentina e o Brasil passarão da retórica a solidariedade efetiva com o governo de Lugo. Um governo que precisará de muita ajuda para poder sobreviver aos embates já antevistos que apostam em seu fracasso para que o Paraguai volte a ser o que sempre foi.

 

 

REFORMA AGRÁRIA SEGUE RITMO LENTO NO PARÁ 

Governos não conseguem resolver conflitos em área que concentra maiores jazidas de ferro, cobre e níquel do país

Ronaldo Brasiliense
O Globo
20/04/08

PARAUAPEBAS (PA). O rico sudeste paraense - que detém em seu subsolo as maiores jazidas de ferro, cobre e níquel do país, na maior província mineral do Planeta, a de Carajás - há décadas é o palco dos maiores conflitos agrários por uma razão simples: entra governo, sai governo, e não se faz reforma agrária na região

- Em 2007 o governo Lula não fez uma única desapropriação de terra aqui na região - afirma frei Henry dês Roziers, 78 anos, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Xinguara, há mais de uma década na lista dos ameaçados de morte na Amazônia.

Frei Henry, que anda sob proteção de dois policiais militares desde o assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu, em fevereiro de 2005, acompanhou passo a passo as ações do MST no 17 de abril, no 12º ano do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás. Ele prevê o recrudescimento da luta pela reforma agrária nas regiões sul e sudeste do Pará, onde tem aumentado os acampamentos de trabalhadores sem um lote de terra para trabalhar.

A ausência da reforma agrária acirra os ânimos entre as partes em conflito: o MST incentiva a invasão de propriedades produtivas, os fazendeiros recorrem à Justiça e, na maioria das vezes, conseguem mandados de reintegração de posse, que quase nunca são cumpridos porque, no caso do Pará, a governadora Ana Júlia Carepa (PT), tem se recusado a pôr a Polícia Militar do estado para dar proteção aos oficiais de justiça nas ações de despejo.

Famílias vivem na penúria em assentamentos
Em Parauapebas, já há ameaças de novo bloqueio à ferrovia

PARAUAPEBAS (PA). Não é preciso ir muito além da sede do município de Parauapebas para se encontrar situações de extrema penúria entre os sem-terra. No assentamento Dina Teixeira, a 12 quilômetros do centro da cidade, mais de mil famílias esperam há mais de ano a regularização das terras que ocuparam da fazenda São Marcos, titulada e produtiva, vivendo em barracos de taipa, cobertos de palha.

- Estamos cansados de esperar que o governo faça alguma coisa por nós - diz Raimundo Nonato Souza, maranhense, há mais de um ano no acampamento Dina Teixeira à espera da reforma agrária do governo Lula.

Em Parauapebas, os dias seguintes à paralisação da ferrovia de Carajás, da mineradora Vale, foram de alívio. Centenas de policiais civis e militares enviados de Belém retornaram à capital e no acampamento Palmares II, a 100 metros do local onde a ferrovia foi bloqueada, alguns líderes do Movimento dos Trabalhadores e Garimpeiros da Mineração (MTM), como Antonio Clemente, de 67 anos, ameaçavam com novas paralisações, no futuro.

- A gente nasce para morrer. Se o governo não atender nossas reivindicações, voltar a bloquear a ferrovia da Vale é um instrumento de nossa luta - afirma Clemente.

Presos pela Polícia Federal por desacato à decisão da Justiça do Rio de Janeiro proibindo atos de vandalismo contra a Vale, o garimpeiro Newton Paulino, líder do MTM, e Altamiro Borba Soares, assessor do prefeito de Parauapebas, Darci Lermen (PT), aliado do MST na região, foram libertados após prestarem depoimento e serem autuados por desobediência ao interdito proibitório imposto pela Justiça.

Histórico de conflitos
O assassinato de 19 sem-terra, durante operação da Polícia Militar, em Eldorado dos Carajás, que completou 12 anos quinta-feira passada, é um dos momentos mais traumáticos da história dos conflitos agrários no Pará. Mas está longe de ser um fato isolado.

O Sul é a região mais tensa do estado. Entre 1985 e 1998, por exemplo, o Pará respondeu por 23% (235 casos) dos 1.013 assassinatos ocorridos no campo no Brasil.

Em dezembro de 2007, o IBGE divulgou estatística mostrando que dos dez estados com maior percentual de mortes violentas, seis pertencem à região amazônica, onde há conflitos agrários, incluindo o Pará, com 19,2% das mortes de homens por causas violentas.

 

 

CPT DIZ QUE PLANTIO DE CANA É RESPONSÁVEL PELO AUMENTO DO TRABALHO ESCRAVO

15/04/2008
Ivan Richard
Repórter da Agência Brasil

    

Brasília - A expansão das plantações de cana-de-açúcar foi apontada como principal responsável pelo crescimento do trabalho escravo no país em 2007.

Segundo dados do caderno Conflitos no Campo 2007, divulgado hoje (15) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de trabalhadores explorados subiu de 6.930, em 2006, para 8.635, no ano passado.

O crescimento mais significativo foi registrado na Região Sudeste, onde o número passou de 279 para 705. A região concentra as maiores lavouras de cana no país.

No Centro-Oeste, o número de trabalhadores explorados chegou a 2.653 no ano passado, quase o dobro do registrado em 2006. No Sul, o número mais que duplicou (108 para 229).

Dos 5.974 trabalhadores libertados em 2007, 52% saíram das usinas do setor sucroalcooleiro. Dos casos de desrespeito à legislação trabalhista registrados pela CPT, o setor ocupa a primeira colocação.

"Isso tem a ver claramente com o aumento das exportações de etanol e cana-de-açúcar", avaliou o geólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e analista da CPT, Carlos Walter Gonçalves. "A violência do poder privado, das empresas, está crescendo com o aumento da exportação de commodities [bens primários com cotação internacional]", completou.

Ainda de acordo com a publicação Conflitos no Campo, em 2007 foram registradas 265 ocorrências de trabalho escravo, três a mais do que no ano anterior. O número de trabalhadores libertados passou de 3.633 para 5.974.

O conselheiro da CPT e ex-presidente da comissão, dom Tomás Balduíno, criticou as três esferas do Poder Público pelo crescimento do trabalho escravo. "O Executivo solta verbas para essas empresas. Onde está a PEC [projeto de emenda à Constituição] que confisca terras de quem utiliza mão-de-obra escrava? O Judiciário é campeão em indústria de liminares a favor do grande e contra o pequeno", afirmou.

O documento foi apresentado no acampamento de trabalhadores rurais montado para o lançamento da Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra, no estádio Mané Garrincha.

 

 
MST faz protestos em cinco estados por Reforma Agrária
12/04/2008
.
Os trabalhadores rurais do MST fizeram protestos e ocupações de terras em cinco estados para denunciar a ineficiência do programa de Reforma Agrária e cobrar investimentos públicos em assentamentos do governo federal, desde o começo do mês.
 
O MST exige o assentamento das 150 mil famílias acampadas, a criação de uma linha de crédito efetiva para produção de assentados e o atendimento da demanda de construção de mais de 100 mil unidades de habitações rurais. Os protestos são realizados em memória do Massacre de Eldorado de Carajás em 1996.
 
"A Reforma Agrária está emperrada no país por causa da política econômica, que beneficia as empresas do agronegócio, concentra terras e verbas públicas para a produção de monocultura para exportação. O governo precisa apoiar a pequena e média produção agrícola para fortalecer o mercado interno, garantir a produção de alimentos para a população e a preservação do meio ambiente", afirma José Batista de Oliveira, da coordenação nacional do MST.
 
Os Sem Terra de Pernambuco ocuparam três áreas na manhã deste sábado (12/4). Há mais de 13 mil famílias acampadas no estado, vivendo debaixo de lona preta em 132 acampamentos.
 
No Agreste Meridional, cerca de 100 famílias ocuparam a Fazenda Ipanema, no município de Pesqueira. A área de 1.200 hectares está abandonada e improdutiva. O MST exige que a fazenda seja vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma (Incra) para que seja desapropriada para fins de Reforma Agrária, conforme determina a lei.
 
No município de Moreno, região metropolitana do Recife, 60 famílias ocuparam pela terceira vez o Engenho Xixaim. O Engenho é uma área de conflito e, em abril do ano passado, foi ocupado por 100 famílias que denunciavam o descumprimento de determinação ambiental que prevê uma distância mínima entre a margem do rio Duas Unas e as plantações de cana-de-açúcar, por causa das queimadas. Em 2005, o engenho foi autuado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pelas irregularidades
 
Cerca de 800 famílias Sem Terra ocuparam a Fazenda Baixa Grande, no município de São José do Belmonte, Sertão do Estado. A área tem 9.000 hectares, está improdutiva e abandonada há mais de cinco anos. O latifundiário Romero Aires Montenegro recebeu financiamento do antigo Finor (Fundo de Investimento para o Nordeste) para projeto de produção de caju e depois faliu. O MST exige que a fazenda seja vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma (Incra).
 
No interior de São Paulo, na região de Bauru (a 325 quilômetros da capital), 600 famílias ocupam o latifúndio Águas do Pilintra, no município de Agudos, de 5,4 mil hectares, desde sábado. A área utilizada pela Ambev (Companhia de Bebidas das Américas) para o plantio de eucalipto e cana-de-açúcar está no centro de uma região com 10 mil hectares de terras reconhecidas oficialmente como devolutas. Além disso, 15 mil hectares de terras são improdutivos no município. As famílias reivindicam que as áreas se transformem em assentamentos. Atualmente, 1600 famílias estão acampadas no estado.
 
Em Roraima, 500 trabalhadores rurais do MST ocuparam na manhã de sexta-feira um fazenda do governo federal de 4.000 mil hectares na região do Bom Entento, localizada a 28 quilômetros de Boa Vista. Os trabalhadores já montaram barracas e pretendem ficar até que as reivindicações sejam atendidas pelos governos.
 
A escolha do local foi motivada pela proximidade com a capital e pelas condições de beneficiamento da área. “Já estamos fazendo um estudo de viabilidade de produção e na próxima semana vamos começar a plantação de macaxeira, tomate, entre outras sementes”, afirmou o integrante da coordenação do MST, Ezequias David.
 
Na Bahia, cerca de 550 famílias do MST ocupam a Fazenda Bela Manhã, do grupo Aracruz Celulose, em Teixeira de Freitas, desde 5 de abril. A famílias, que estavam acampadas em terreno da Ceplac, estão na luta pela terra desde o mês de abril do ano passado, quando ocuparam uma área ligada à Suzano Papel e Celulose.
 
Depois da ocupação da Suzano, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o Governo do Estado se comprometeram com a aquisição de terras para o assentamento de 1.000 famílias. "O governo está sendo extremamente vagaroso, sem tomar iniciativas para agilizar a desapropriação de terras e insistindo em tratar a reforma agrária como caso de polícia" denuncia Evanildo Costa, da coordenação estadual do MST.
 
A área reivindicada de 2,4 mil hectares de terra é grilada e improdutiva. Do total, apenas 200 hectares são de propriedade legal da Aracruz, sendo a maior parte terras devolutas do Governo do Estado. "A terra deve ser desapropriada pra assentar famílias da região, que vêm sendo sistematicamente excluídas pelo modelo de monocultura pra exportação implementado pelo agronegócio", afirma Evanildo.
 
No Pará, trabalhadores mutilados e as viúvas dos agricultores assassinados no massacre de Eldorado dos Carajás acampa em frente ao Palácio dos Despachos no Pará, sede do governo do estado, desde segunda-feira. Os manifestantes cobram da governadora Ana Júlia Carepa (PT) o cumprimento de suas promessas de 2007.

Os protestos são realizados em memória dos 19 companheiros assassinados no Massacre de Eldorado de Carajás, em operação da Polícia Militar, no município de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, no dia 17 de Abril. Depois de 12 anos de um massacre de repercussão internacional, o país ainda não resolveu os problemas dos pobres do campo, que continuam sendo alvo da violência dos fazendeiros e da impunidade da justiça.

Em homenagem aos mártires de Carajás, a Via Campesina Internacional decretou em todo o mundo o 17 de abril como Dia Internacional de Luta Camponesa. No Brasil, por iniciativa da então senadora Marina Silva (PT), o Congresso Nacional aprovou e o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou um decreto que determina que a data seja o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Informações à Imprensa
Cássia Bechara - MST-PE - (81) 96474331 / 8795 4986 / 3722 Camila Bonassa - MST-SP - (11) 8276-6393
Paulo A. Magalhães - MST-BA - (71) 8741-1251

 

 

  Grupo de 19 frigoríficos adere;
Quase todas as empresas filiadas ao Sindicato das Indústrias Frigoríficas do Mato Grosso (Sindifrigo) aderiram ao Pacto Nacional contra a escravidão.


Por Maurício Hashizume
Site da Repórter Brasil
03/04/08


Por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) formulado com critérios inéditos firmado junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e ao Ministério Público do Estado do Mato Grosso, 19 frigoríficos filiados ao Sindicato das Indústrias Frigoríficas do Mato Grosso (Sindifrigo) aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

As empresas que fazem parte dessa iniciativa se comprometem a restringir vínculos comerciais com pessoas jurídicas e físicas de suas respectivas cadeias produtivas que possam estar envolvidas na exploração de trabalho degradante ou mão-de-obra escrava.
De uma só vez, Atantes, Marfrig, Margen, Mataboi, Perdigão, Vale do Guaporé, Quatro Marcos, Juína, Boi Branco, Rodopa, Pantanal, Vale Grande, Nova Carne, Frimat, Mercosul e Frical aceitaram assinar o Pacto. Na mesma leva, Bertin, JBS Friboi e Sadia, que já eram signatárias, renovaram o mesmo compromisso (confira a lista completa de companhias e associações que já assinaram). Caso descumpram o TAC firmado na última sexta-feira (28), as empresas terão de pagar multa diária e responderão judicialmente na Justiça do Trabalho.

De todas as associadas da Sindifrigo, apenas a Agra Agroindustrial e Alimentos optou por não firmar o Pacto Nacional. Por conta disso, o MPT anunciou que ensejará a abertura de um procedimento investigatório do frigorífico.

De acordo com uma fonte da Agra, a empresa optou por não aderir imediatamente ao Pacto Nacional porque não teve tempo hábil para que os acionistas pudessem tomar uma decisão mais definitiva sobre o assunto.

Essa mesma fonte garantiu, no entanto, que a companhia reconhece a importância do tema e que a questão está sendo avaliada pela direção. Especializada no abate de suínos, a Agra tem sede em Rondonópolis (MT), a 220 km da capital Cuiabá.

Segundo levantamento da Repórter Brasil do início de 2007, 62% dos casos de trabalho escravo até então haviam sido flagrados na atividade pecuária. O estado do Mato Grosso tem o segundo maior rebanho de carne bovina do país.


 

SEM TERRA É ASSASSINADO DENTRO DE CASA, EM ORTIGUEIRA.

MST - 01/04/2008

Trabalhador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Eli
Dallemole, 42 anos, é assassinado dentro da sua casa, no assentamento
Libertação Camponesa, em Ortigueira (região Norte-Sul), onde morava com
a mulher e três filhos.

Por volta das 19h30 deste domingo (30/03), dois homens encapuzados
invadiram a casa de Eli e executaram o trabalhador, na frente da família.

O trabalhador vinha sendo ameaçado de morte há mais de dois anos, mas as
ameaças aumentaram após o ataque de um grupo de milícias armadas ao
acampamento Terra Livre, na fazenda Copramil, em Ortigueira (proximo ao
pedágio da BR 376), no último dia 08 de março.

As famílias Sem Terra já vinham denunciando a atuação dessa milícia
armada na região há algum tempo. Segundo, os trabalhadores esse grupo de
pistoleiros é comandado por um homem conhecido como "Zézinho",
financiado por fazendeiros da região. Suspeita-se que o assassinato
tenha sido praticado ou mesmo comandado por este "Zézinho". Segundo o
Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), o pistoleiro está com
prisão preventiva decretada.

Essas denúncias também haviam sido encaminhadas para a Secretaria
Especial de Direitos Humanos do Governo Federal e para Polícia.

O MST cobra da justiça a punição dos responsáveis por mais um
assassinato de trabalhador Sem Terra, no Estado e a extinção imediata
dessas milícias armadas, que já estão se tornando corriqueiras no Paraná.

Contexto

No ataque dessa mesma milícia ao acampamento Terra Livre,
aproximadamente 15 pistoleros aterrorrizaram as 35 famílias do MST
acampadas na área e queimaram todos os pertences dos trabalhadores.
Crianças foram ameaçadas e arrastadas e mulheres e homens espancados,
ficando apenas com a roupa do corpo. Muitos não conseguiram salvar nem
seus próprios documentos.

Após o ataque sete pistoleiros foram presos em flagrante pela polícia e
levados á delegacia de Ortigueira. Foi instaurado um inquérito polícial
para investigação de formação de milícia armada pelo Cope, em Curitiba.
Mas, haviam denúncias de que 10 pistoleiros continuavam na área.

A área é de origem duvidosa, tendo a posse questionada por dois
proprietários. As famílias estavam acampadas no local, desde de 2003.

 

 

 

 UMA ROTINA DE VIOLAÇÕES

O Globo, 24.03.2008
MARIA LUISA MENDONÇA e MARLUCE MELO

 A safra brasileira da cana em 2005 foi de 386 milhões de toneladas. Desde então, com o aumento dos incentivos do governo para a produção de etanol, este número teve um aumento impressionante. Previsões do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que em 2008 o Brasil deve produzir cerca de 561 milhões de toneladas de cana. Em 2008, estima-se que a safra terá um aumento de 9,3% em relação a 2007.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se as denúncias de violações de leis trabalhistas e ambientais no setor sucroalcooleiro. Este tema será discutido durante a 30aConferência Regional da FAO (Food and Agriculture Organization) para América Latina e Caribe, que acontecerá em Brasília de 14 a 18 de abril. Organizações sociais de diversos países preparam documentos citando os principais problemas do setor, como trabalho escravo, morte de trabalhadores, destruição ambiental e danos à saúde pública.

No Brasil, na medida em que verificamos a expansão da indústria da cana, aumentam seus impactos negativos. Em relação aos danos ambientais, diversos fatos demonstram que os monocultivos de cana expandem-se para áreas de preservação como a Amazônia e o cerrado. “O crescimento das fazendas coloca em risco regiões ecológicas inteiras, como o cerrado”, afirma um relatório do Programa de Meio Ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas). Outro estudo elaborado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) indica que, a cada ano, são destruídos mais de 20 mil quilômetros quadrados de vegetação no cerrado. Esta destruição pode comprometer a maior parte dos rios brasileiros, que têm suas nascentes na região.

A monocultura da cana cresce também na Amazônia legal, nos estados de Tocantins, Amazonas, Pará, Maranhão, Roraima e Rondônia. Segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), entre 2004 e 2007, a Região Norte registrou o maior índice de crescimento da produção de cana do país. No Acre, o Ministério Público chegou a suspender a licença ambiental da Usina Álcool Verde por destruir sítios arqueológicos contendo geoglifos, que são enormes estruturas geométricas construídas na Antiguidade. Há também projetos de usinas no Amazonas, em regiões de floresta nativa às margens da BR-174.

O próprio Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho, tem constatado irregularidades em usinas de etanol na Amazônia e no cerrado. Em março de 2007, o Grupo de Fiscalização em Mato Grosso do Sul resgatou 409 trabalhadores no canavial da usina de álcool Centro Oeste Iguatemi. Entre eles, havia um grupo de 150 índios. Em julho de 2007, ficais do Ministério do Trabalho libertaram 1.108 trabalhadores que faziam a colheita da cana na fazenda Pagrisa, em Ulianópolis (Pará). Outro caso ocorreu na Usina Debrasa, quando cerca de 800 indígenas foram encontrados em condições degradantes. No dia 13 de novembro de 2007, o Grupo Móvel interditou esta usina, que pertence à Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool/Agrisul, em Brasilândia, em Mato Grosso do Sul.

A violação de direitos trabalhistas é comum no setor e ocorre em todas as regiões do país. Em São Paulo, a Procuradoria Regional do Trabalho ajuizou mais de 40 ações civis públicas contra usinas, somente em 2007. Em 2006, a Procuradoria do Ministério Público fiscalizou 74 usinas no estado e todas foram autuadas.

Em vez de tentar esconder ou minimizar estes fatos, o governo brasileiro deveria implementar políticas agrárias compatíveis com uma nação que respeita suas leis trabalhistas e preserva o meio ambiente. Somente dessa forma será possível conter os riscos do aquecimento global.

 

 

ONU VÊ RISCO DE CONFLITO EM 46 PAÍSES POR CAUSA DA ÁGUA.

Para Organização das Nações Unidas, recurso será causa número 1 de guerras na África até 2030

 Estadão, 20.03.2008
Jamil Chade, GENEBRA

Água. Esse será um dos principais motivos que levarão países e grupos armados a entrarem em conflito nos próximos 25 anos. O alerta é da Organização das Nações Unidas, que, num estudo preparado para o Dia Mundial da Água, aponta que o acesso à água será a causa número 1 das guerras na África até 2030, principalmente em regiões pobres que compartilham rios e bacias. “Identificamos 46 países, onde vivem 2,7 bilhões de pessoas, nos quais há alto risco de crises relacionadas à água provocarem conflitos violentos”, diz o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-Moon, num artigo publicado no sábado.

Na União Européia, os chefes de Estado foram surpreendidos na semana passada por um relatório do comissário de Relações Exteriores, Javier Solana, que alertou que a falta de água nos países vizinhos ao bloco vai acirrar a corrida de imigrantes ilegais para a Europa até 2050. Solana, ex-secretário-geral da Otan (aliança militar que reúne Europa e América do Norte), afirmou que as mudanças climáticas poderão reduzir a disponibilidade de água em até 30% em algumas regiões. E defendeu a tese de que o acesso a recursos naturais seja considerado questão de segurança estratégica.

Num calhamaço de mais de 500 páginas sobre mudanças climáticas, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que 3,9 bilhões de pessoas no mundo podem sofrer com a falta de água até 2030, 1,7 bilhão a mais do que hoje. Isso representa 47% da população mundial estimada para 2030. E, embora as projeções sejam mais dramáticas para nações pobres, 2,2 bilhões dessas pessoas estarão distribuídas pelos emergentes do Bric (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China).

Seja qual for a origem do estudo, todos indicam a mesma coisa: a principal disputa no planeta nos próximos 50 anos não será por petróleo, ouro, carvão ou minérios, mas por água - situação capaz de criar um exército de “refugiados ambientais”. Segundo entidades como o Global Policy Forum, os governos precisam estabelecer regras de como usar de maneira coordenada reservas compartilhadas.

A Índia é vista como um desses casos delicados. A disputa pelas águas com o Paquistão tem sido um dos motivos para o prolongamento da guerra na Cachemira. Já na fronteira com Bangladesh, os indianos ergueram uma barreira para evitar um maior fluxo de migrantes em busca de maior acesso a alimentos e água.

Na Ásia Central, a tensão também é crescente. O Tajiquistão e o Quirguistão controlam 90% das reservas da região. Mas o Usbequistão é o maior usuário e pede acesso facilitado. “Os glaciais no Tajiquistão perderam um terço de sua área apenas em 50 anos, enquanto o Quirguistão perdeu mais de mil glaciais nos últimos 40 anos”, diz Solana no relatório. “Há, portanto, um potencial considerável para um conflito em uma região cujo desenvolvimento político, econômico e estratégico tem impacto direto em interesses europeus.”

A água também é apontada como um dos principais motivos para o conflito em Darfur, na África. A guerrilha é acusada de envenenar reservatórios para forçar a população muçulmana a abandonar a região. Segundo levantamento feito pela ONU em junho, o conflito, que já deixou 200 mil mortos desde 2003, pode ser explicado pela tensão criada entre grupos étnicos no Sudão depois que o acesso a recursos naturais, entre eles a água, foi dificultado pelas condições climáticas. No norte de Darfur, o volume de chuvas caiu 30% nos últimos 80 anos. O deserto avançou em quase 200 quilômetros desde 1930.

Outro problema é a disparidade no uso da água. Na avaliação da ONU, uma pessoa precisa de no mínimo 50 litros de água por dia para atender suas necessidades. Mas, nos Estados Unidos, o consumo per capita é 45 vezes maior.

Alguns países ricos já aumentaram o preço da água. Na Dinamarca, a alta foi de 54% em dez anos. O resultado foi uma queda no consumo médio de 155 litros por pessoa por dia para 125 litros, ainda bem acima do padrão da ONU. A equação nos países pobres é diferente. Hoje, uma em cada cinco pessoas no mundo não tem acesso a água potável ou saneamento.

Os problemas relativos à água não são apenas de consumo. Solana alerta que o derretimento de parte da calota de gelo do Ártico, possível efeito da mudança climática, abrirá novas passagens para navios e oportunidades de exploração de petróleo. Isso recolocaria em debate as diferenças entre países pelo controle do Ártico, até agora literalmente congeladas. Segundo a UE, tais mudanças nas rotas teriam “conseqüências para a estabilidade internacional e para os interesses de segurança” do bloco europeu.

A possível tensão entre americanos, russos, canadenses e europeus no Ártico também será tema da agenda da Otan em sua reunião anual, no mês que vem, em Bucareste. Pela primeira vez, a aliança tratará das ameaças relacionadas à disputa pelos recursos naturais. Mais uma demonstração de que generais e estrategistas estão preocupados com riscos de conflitos envolvendo o abastecimento do planeta.

ÁGUA VIRTUAL DAS COMMODITIES, O TRUNFO ESTRATÉGICO BRASILEIRO

País precisa cobrar pelo que exporta, dizem experts

Giovana Girardi

Em um cenário de guerras e disputas por recursos hídricos, o Brasil, que detém 12% da água potável do mundo, pode assumir um papel estratégico, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. Isso deve ocorrer basicamente pela relação entre água e agricultura.

Num futuro de escassez de água e de alimentos, como o previsto pelos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) no ano passado, aproveitar essa vantagem comparativa passa pela capacidade de o País manter e ampliar a produção e exportação de alimentos. “E de cobrar pela água virtual contida nesses produtos”, diz o economista Gilberto Dupas, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais.

Os números publicados no alto das páginas deste caderno ilustram essa questão. Para produzir 1 quilo de soja são necessários cerca de 1.500 litros de água, 1 kg de cana para a produção de etanol consome 600 l.

“Hoje as commodities são as maiores sugadoras de água doce do mundo”, afirma Dupas. “Elas arrancam a água dos países pobres e levam para os ricos sem que isso seja contado no preço. O Brasil precisa se articular com outros países produtores para decidir como vai cobrar por isso. É de se esperar que no futuro o processo seja semelhante ao que ocorre com as reservas de petróleo e seja incluído nas commodities o preço da escassez futura de água.”

Mas, antes disso, diz Dupas, o País precisa zelar pela conservação dessa água. Contaminação dos mananciais, desperdício (hoje ocorre em média perda de 45% na distribuição de água nas capitais brasileiras) e consumo excessivo são algumas ameaças. Isso sem contar o desmatamento da Amazônia, que pode afetar as chuvas no Sudeste.

“O Brasil, excetuando partes do Nordeste, é abundante em todo o ciclo da água: na atmosfera, nas águas superficiais e nas subterrâneas. Mas precisa saber aproveitar essas vantagens como recurso estratégico”, concorda o hidrólogo José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia. “Para assegurar a produção agrícola, e evidentemente o abastecimento público, é preciso manter água de boa qualidade. E aí caímos na falta de tratamento de esgoto. Isso deteriora a qualidade da água, diminui a reserva e aumenta os custos de tratamento.”

“Para se manter em vantagem, o Brasil tem de cuidar do desperdício, aproveitar a água das chuvas e remanejar a agricultura para locais com dotação hídrica, em uma espécie de política de zoneamento ecológico”, diz Ignacy Sachs, economista polonês (ou “ecossocioeconomista”, como ele é chamado) radicado na França. Ele propõe uma “revolução azul”, com incentivo à aqüicultura. “Em relação aos recursos da água, ainda vivemos como caçadores-coletores, sem muita estratégia e de forma insustentável. Fizemos no passado um salto fundamental com a agricultura, mas engatinhamos na criação dos recursos aquáticos. Áreas como a Amazônia têm vocação para a aqüicultura, e os peixes podem com o tempo substituir a carne, já que a pecuária extensiva tende a causar cada vez mais problemas.”

 

 

 

PISTOLEIRO CONDENADO A 29 ANOS DE PRISÃO PELO ASSASSINATO DO SINDICALISTA DEZINHO EM RONDON DO PARA, TEM FUGA FACILITADA PELA JUSTIÇA PARAENSE.

CPT - Marabá
17/03/2008

O pistoleiro Wellington de Jesus Silva, condenado a 29 (vinte e nove) anos de prisão por ter assassinado o sindicalista José Dutra da Costa, o  Dezinho, está foragido. O crime ocorreu em 21.11.2000, no município de  Rondon do Pará. Mesmo atingido mortalmente pelos disparos, Dezinho ainda  conseguiu dominar o pistoleiro até que os visinhos o prendessem.  Wellington permaneceu preso aguardando o julgamento que só veio a acorrer  em Belém, em 13.11.2006 (1° júri) e em 12.04.2007 (2° júri), onde foi  condenado a 29 (vinte e nove) anos de reclusão em regime fechado.

Em julho de 2007, o advogado de Wellington, Raimundo  Cavalcante, ingressou com o pedido de progressão de regime perante a Vara  de Execuções Penais de Belém. A Lei de Execução Penal em vigor à época do  crime, estabelece que o condenado ao cumprir 1/6 (um sexto)da pena tem  direto de progredir de regime, passando do regime fechado para o regime  semi-aberto. Como Wellington se encontrava preso há mais de seis anos teve seu pedido deferido pela Juíza Tânia Batistello, titular da referida Vara  de Execução Penal. Imediatamente depois de ser concedido o benefício da progressão de regime ao pistoleiro, o mesmo advogado ingressou com novo pedido requerendo desta  vez que a juíza autorizasse o condenado a passar os feriados do natal e  ano novo com sua família. Novamente a juíza deferiu o pedido e Wellinton  foi autorizado a deixar a penitenciária no dia 24 de dezembro de 2007,  passar 09 (nove) dias em companhia de seus familiares, devendo retornar à  prisão no dia 02 de janeiro de 2008. Acontece que o pistoleiro Wellinton não mais retornou à Colônia  Agrícola de Heleno Fragoso.

Foragido desde 02.01.08 .Teve mandado de  recaptura expedido no dia 11.01.08, no entanto, no processo não há  qualquer informação de que a polícia tem feito algo para recapturá-lo. A saída temporária é um dos direitos dos presos que cumprem pena em regime semi-aberto, mas, para a concessão desse benefício o juiz precisa  observar, com bastante cautela, se o condenado cumpre com os requisitos  exigidos pela lei. Para isso, a direção da casa penal precisa emitir uma certidão onde contenha a avaliação do setor social, psicológico, produção  e segurança sobre a conduta do apenado para que o juiz tenha todas as  informações antes de tomar a decisão. O estranho no caso Wellington é que a Certidão Carcerária, emitida pela direção da Colônia Agrícola Heleno Fragoso, avaliou apenas os 15 (quinze) dias que ele passou na Colônia.

Como é possível todos esses setores avaliarem um preso que passou apenas  15 (quinze) dias no estabelecimento? Além disso, no Atestado de Conduta Carcerária emitido pelo Centro de Recuperação do Coqueiro, onde Wellington cumpria pena antes de ser  beneficiado pelo regime semi-aberto, consta que: No que se refere ao  setor de produção, Wellington não exercia função laborativa e que não  constava nenhuma remição em seu favor. Isto significa que durante o  período em que esteve preso em regime fechado, o condenado jamais se  interessou pelo trabalho e, portanto, não teve reduzida sua pena em função  de desenvolver qualquer atividade laborativa; O setor psicológico avaliou  em relação ao apenado, que "percebe-se acomodado, pois não faz planos  futuros. Não possui uma estrutura profissional". No que se refere à  personalidade do condenado, foi evidenciada "baixa auto-estima,  insegurança, falta de objetivo e interesses" e "relativo equilíbrio  emocional". A avaliação psicológica conclui que deveria haver uma continuidade do acompanhamento psicossocial do condenado caso fosse  concedida a progressão de regime; Como se observa, vários pontos constantes do referido atestado  conduzem exatamente no sentido do indeferimento da autorização para a  saída temporária e deveriam ter sido observados pela juíza quando da  análise do pedido, o que não aconteceu, já que não fez qualquer menção a  este em sua decisão. Além do mais ainda permitiu que o condenado passasse 09 (nove) dias ausente sendo que a Lei permite apenas 07 (sete) dias, no máximo.

A magistrada autorizou a saída de Wellington com base fundamentalmente no bom comportamento do preso, atestado por uma certidão que analisa 15(quinze) dias de comportamento prisional de um condenado que já tinha mais de seis anos recluso. Ocorre que muitos juristas afirmam que o bom comportamento deve ser acompanhado de demonstração pelo condenado de senso de responsabilidade e disciplina e que não vai se utilizar do beneficio  para freqüentar ambientes nocivos, encontrando-se com antigos companheiros  de crime.

Embora constitua um direito, a saída temporária depende da análise criteriosa do magistrado, não devendo ser concedida  indiscriminadamente, já que representa uma oportunidade ímpar para o  condenado por crime grave e com pena longa a cumprir, como é o caso de  Wellington, venha a aproveitar-se para fugir como de fato ocorreu. O processo que apura o assassinato do Sindicalista Dezinho é  um exemplo claro da inoperância da segurança pública, do Ministério Público  e do Poder Judiciário (reservadas as exceções), quando se trata de punir  os responsáveis pelos assassinatos no campo, principalmente se os acusados são fazendeiros e detêm alto poder econômico. Basta ver a trajetória do processo: O pistoleiro só foi preso porque a própria vítima o segurou no  momento do crime; a investigação da polícia civil na fase do inquérito  ficou pela metade; a polícia civil do Estado nunca moveu uma palha para  prender dois intermediários do crime que estão há 07 (sete) anos com  prisão preventiva decretada; Otávio Marcelino Maciel, desembargador do  Tribunal de Justiça do Pará à época do crime, pôs o fazendeiro Delsão em  liberdade sem sequer solicitar informações para a Juíza da Comarca de  Rondon que tinha decretado sua prisão, destacando-se que ele recebeu o  pedido dia 13.12.2000, e concedeu a liminar no dia seguinte; a promotora  Lucinery Helena requereu a absolvição de Delsão ignorando todas as provas  existentes no processo contra ele e, estranhamente, saiu da comarca logo  após; o Juiz da Comarca de Rondon, Haroldo Fonseca, praticamente, "rasgou  o processo" ao impronunciar os dois fazendeiros acusados de serem  mandantes do crime e um intermediário (contra essas decisões há recursos no Tribunal aguardando julgamento); o pistoleiro Wellington, que não tinha onde cair morto foi defendido no tribunal do júri pelo escritório do advogado Américo Leal, um dos mais caros do Estado, e nada se apurou sobre quem pagou essa conta; o pistoleiro condenado a 29 (vinte e nove) anos de reclusão, foge da penitenciária.Será que alguma autoridade vai fazer
alguma coisa?

Esse triste retrospécto, que não é um caso isolado, mas uma prática recorrente no Estado do Pará em relação aos crimes no campo, deixa claro a conivência de muitas autoridades responsáveis pela segurança pública e pela administração da justiça, com o crime organizado no campo.

Marabá-PA, 17 de março de 2008.
Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAGRI regional Sudeste
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon.
Comissão Pastoral da Terra - CPT diocese de Marabá


 

 

Projetos sobre trabalho escravo empacam há anos no Congresso
Pelo menos 16 projetos de lei relacionados ao tema tramitam no Senado e na Câmara. A maioria está estacionada há mais de dois anos. Levantamento mostra falta de empenho tanto dos membros do Legislativo como do Executivo


Por Beatriz Camargo e Iberê Thenório
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
06/03/2008



As fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) bateram recorde em número de pessoas libertadas da escravidão em 2007, com 5.877 trabalhadores em 197 fazendas. Trabalho escravo e degradante estão cada vez mais em destaque no noticiário nacional, principalmente pelos recentes flagrantes em fazendas do setor canavieiro - vedete em tempos de coroação dos biocombustíveis. Exemplos disso foram as ações em propriedades do Grupo Carlos Lyra, em fevereirro último no estado de Alagoas; na Usina Debrasa, da poderosa Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), em novembro de 2007, no Mato Grosso do Sul; além do flagrante na fazenda e usina Pagrisa, no Pará, em junho do mesmo ano, que libertou 1.064 trabalhadores.

Enquanto isso, no Congresso Nacional, a maioria das 16 principais matérias ligadas ao combate à escravidão está há mais de dois anos sem dar um passo na tramitação, fora das pautas de plenários e comissões ou aguardando designação de relatores. Nove projetos estão na Câmara e sete no Senado. Apenas cinco deles já passaram da primeira "etapa" e mudaram de uma Casa à outra, dentro do Parlamento que reúne representantes de todo o país.

A PEC 438/2001, conhecida como "PEC do trabalho escravo" é um exemplo do que acontece com projetos de lei (PLs) nas instâncias parlamentares. Aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em agosto de 2004, ela aguarda desde atenção a votação em segundo turno no Plenário. Entre todos os projetos sobre o tema que aguardam o crivo de senadores e deputados, é o que tem o andamento mais avançado.

Órgãos governamentais e entidades da sociedade civil de combate à escravidão consideram a PEC 438 um dos projetos mais importantes no enfrentamento a esse crime. Ela propõe mudança na lei que determina a expropriação de terras onde houver cultivo de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. O trabalho escravo passaria a ser mais um motivo para o confisco, sem indenização.

Além dessa solução, outras propostas parlamentares sugerem aumento das multas e penas mais severas para o crime em questão, além de restrição a créditos financeiros e a contratos com estatais ou empresas mistas.

Projetos estacionados
Em levantamento anterior feito pela Repórter Brasil em junho de 2006, foram identificados 12 Projetos de Lei no Legislativo. De lá para cá, dois PLs foram arquivados, há projetos novos e, dos que já estavam listados, poucos avançaram.

A PEC 438/2001 está na lista de prioridades para este ano encaminhada pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), aos líderes dos partidos. "A aprovação da PEC 438 é uma prioridade dele [Chinaglia]. Mas a matéria é difícil levando-se em conta a mobilização de bancadas contra a PEC. A intenção é chegar a um acordo", informa a assessoria do presidente. Outro obstáculo citado pela assessoria é o excesso de Medidas Provisórias (MPs), que impedem o andamento das pautas da Casa. Segundo o gabinete do presidente da Câmara, são 19 MPs para serem votadas até abril.

A Repórter Brasil entrou em contato com o líder do governo na Câmara Federal, deputado Henrique Fontana (PT-RS), para obter uma avaliação dos planos governistas com relação à PEC 438/2001 e a outras matérias referentes ao tema, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

A mais antiga das propostas em tramitação é de 1997, de autoria de Paulo Rocha (PT-PA). O PL inclui na definição de trabalho escravo - descrito no Art. 149 do Código Penal - a exploração de mão-de-obra infantil. Está parado desde 2003 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Outros três PLs que tratam do assunto também estão na mesma CCJ.

Segundo o gabinete do senador Marco Maciel (DEM-PE), presidente da CCJ do Senado, não há perspectivas de avanço dos quatro projetos que estão na comissão: dois aguardando designação de relator e dois esperando para entrar na pauta de votação. "Não existe pressão para que nenhuma matéria sobre esse assunto entre em votação e a Comissão está com um acúmulo de outros projetos para serem tratados", informa a chefia de gabinete.

Na Câmara, há cinco projetos atualmente na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). Três deles estão empacados desde 2004. O presidente da comissão em 2007 foi o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), sócio da empresa Agrovás, que já esteve na "lista suja" do trabalho escravo. Na semana passada, a CCJC escolheu um novo presidente: Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na opinião do presidente da subcomissão do Trabalho Escravo do Senado e autor de um dos projetos que tramitam sobre o tema, José Nery (PSol-PA), as matérias têm tramitação lenta porque em alguma medida contrariam o interesse dos parlamentares. "É verdade que tem uma parcela [do Congresso] comprometida com a mudança da legislação para beneficiar os trabalhadores. Mas também é verdade que a maioria está muito distante dessa luta para instituir instrumentos legais para a erradicação do trabalho escravo. Essa postura revela os interesses de classe, do latifúndio", critica.

Para o deputado Eduardo Valverde (PT-RO), que também tem um projeto sobre trabalho escravo, esse assunto é um tabu na Câmara, já que a bancada ruralista, que costuma fazer oposição a essas proposições, é muito bem articulada. Poucos são os que têm coragem de se colocar publicamente contra propostas que combatem o crime, avalia o parlamentar. "Há matérias que são polêmicas, que dão desgastes políticos. Muitos fazem corpo mole, que também é uma forma de negação".

Dando exemplo
Enquanto o Congresso Nacional demora para aprovar propostas que contribuem para o combate ao trabalho escravo, alguns estados saíram na frente. Rio de Janeiro, Piauí, Maranhão e Mato Grosso já sancionaram uma lei estadual que proíbe que órgãos públicos façam contratos diretos ou indiretos com empresas ou pessoas que utilizaram trabalho escravo. Na Câmara, o Projeto de Lei que trata do assunto, de 1996, tramita apensado, com outros 101 projetos, a um projeto de lei que modifica as regras para contratações da administração pública. Não há previsões de andamento dessa proposta.

Veja, no quadro abaixo, quais são os 16 projetos de lei relacionados ao trabalho escravo que tramitam no Parlamento:

PL-2636/2007
Deputado Eduardo Valverde (PT-RO)
 
Permite que a Justiça do Trabalho tenha competência nos casos de crimes relacionados ao trabalho, como o trabalho escravo e o aliciamento de trabalhadores. Tramita apensado a esse projeto a proposição 2684/2007, do deputado Valtenir Pereira (PSB-MT), que permite ao Ministério Público Federal levar o processo para a Justiça Federal quando houver grave violação aos direitos humanos
A questão é polêmica mesmo dentro da Justiça do Trabalho. Muitos juízes e procuradores avaliam que a possibilidade de julgar crimes traria mais rapidez para condenar casos de trabalho escravo ou aliciamento. Outra parcela considera, porém, que a questão deve continuar nos Foros comum e Federal, pois esse não seria o foco da Justiça trabalhista. O projeto está na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP) da Câmara

PLS 571/2007
Senador José Nery (PSOL-PA) 

Propõe a criação de um dia e uma semana nacionais de combate ao trabalho escravo
Em novembro de 2007, teve parecer favorável do senado Paulo Paim (PT-RS) e está pronto para entrar em pauta da Comissao de Educação, Cultura e Esporte da Casa. Ele tem caráter terminativo, ou seja, se aprovado na Comissão vai diretamente para a Câmara. Nery vai conversar com Cristóvam para que o PL seja votado nas próximas semanas 

PLS 283/2006
Senadora Serys Slhessarenko (PT-MT)

Muda o Art. 149 do Código Penal, aumentando a pena para quem comete o crime de trabalho escravo, de um mínimo de dois e um máximo de oito anos de prisão para quatro a dez anos, além de multa
Está nas mãos do senador Valter Pereira (PMDB-MS), que é relator da proposta na CCJ do Senado, desde outubro de 2007. O senador ainda não examinou o resumo do projeto para determinar o sentido do parecer, mas já adiantou que tende a ser favorável à matéria
 

PLS 25/2005
Senador Pedro Simon (PMDB-RS) 

Prevê a criação de uma lei para a já existente "lista suja" do trabalho escravo, sem modificar seu funcionamento
A relatoria está sob responsabilidade com o senador Delcídio Amaral (PT-MS) desde 04/10/2007, pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária. Depois dessa comissão, o PL será enviado ao Plenário. Segundo o gabinete de Delcídio, em cerca de uma semana este parecer estará pronto. O senador Pedro Simon tem a expectativa de que, já na próxima semana, o projeto possa ser colocado em pauta na Comissão. Segundo seu gabinete, ele espera que o parecer do senador Delcídio seja favorável 

PEC 52 / 2005
Senador Cristóvam Buarque (PDT-DF)

Assim como a PEC 438, pede nova redação para a lei que expropria imóveis onde for encontrado plantações psicotrópicas, incluindo a expropriação também no caso de trabalho escravo ou infantil.
A matéria está pronta para a pauta na CCJ desde novembro de 2007, quando o relator da matéria, Arthur Virgílio (PSDB-AM), aprovou a proposta com a adição de uma emenda. Para assessores do senador, a PEC tem muita chance de entrar logo na pauta em função da importância do assunto. Eles apostam, ainda, que ela será aprovada sem problemas na Comissão, pois a discussão maior será no Plenário da Casa

PLS 9/2004
Senador Marcelo Crivella (PRB-RJ)

Acrescenta na Lei de Crimes Hediondos (nº 8072/1940) o crime de trabalho escravo
Está parado desde maio de 2005 na CCJ do Senado Federal e aguarda a designação de um relator

PEC 265/2004
Deputado Anselmo (PT-RO)

Assim como a PEC 438/2001, prevê expropriação de terras onde houver trabalho escravo. Além disso, a emenda muda o termo "gleba", utilizado hoje nas leis de terra, para "imóvel rural". Gleba é um terreno para cultura, enquanto imóvel rural compreende barracões, e outras instalações da fazenda. Assim, a desapropriação não fica restrita apenas ao trecho em que foram encontradas as irregularidades, mas a toda propriedade
De acordo com a assessoria do deputado Anselmo, o projeto teve dificuldades para tramitar na Câmara, inclusive por causa do desinteresse do presidente da CCJC durante 2007, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), sócio da empresa Agrovás, que já esteve na lista suja do trabalho escravo

PLP-203/2004
Deputado Chico Alencar (PT-RJ)

Coloca entre os motivos de inelegibilidade para qualquer cargo político a condenação, em primeira instância, pelo crime de trabalho escravo, entre outros delitos
O projeto está na CCJC da Câmara e aguarda relator. O último andamento foi em março de 2005, quando a relatoria foi designada ao deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), que não apresentou parecer. Como a matéria foi arquivada em janeiro de 2007 e desarquivada em fevereiro do mesmo ano, é necessária a nomeação de um novo relator
 

PL-2108/2003
Deputado Walter Pinheiro (PT-BA)

Proíbe que entidades ou empresas brasileiras ou sediadas no Brasil tenham contrato com empresas que exploram formas degradantes de trabalho, como o trabalho escravo ou infantil, em outros países. Em caso de descumprimento, a entidade ou empresa é impedida de firmar contratos com qualquer órgão público, participar de licitações ou se beneficiar de recursos públicos, por um período de cinco anos
Em novembro de 2006, teve parecer favorável do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Desde então, aguarda para entrar na pauta da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara

PL-1985/2003
Deputado Eduardo Valverde (PT-RO)

Altera a lei do trabalho rural (5889/1976), estabelecendo uma multa de R$ 2.500,00 para o empregador que utilizar trabalho escravo. Em caso de reincidência, embaraço ou resistência à fiscalização, emprego de artifício ou simulação com o objetivo de fraudar a lei, a multa será aplicada em dobro. A quantia pode cair pela metade caso o empregador providencie, em no máximo cinco dias, o pagamento dos valores devidos aos empregados, conforme apurar a fiscalização
Está na CCJC da Câmara desde 2004. De acordo com Eduardo Valverde (PT-RO), a proposta tem dificuldades de caminhar porque não há interesse dos deputados, que fazem corpo mole para proposições contra o trabalho escravo

PLS 487/2003
Senador Paulo Paim (PT-RS) 

O projeto proíbe órgãos públicos de contratar, conceder incentivos fiscais ou permitir a participação em licitações de empresas que, direta ou indiretamente, utilizem trabalho escravo na produção de bens e serviços
Desde março de 2007, está pronto para entrar na pauta da CCJ do Senado. José Maranhão (PMDB-PB), o relator na comissão, já apresentou relatório com voto favorável à aprovação da matéria

PLS 208/2003 (Senado) ou PL-5016/2005 (Câmara)
Senador Tasso Jereissati (PSDB-CE)

 Aumenta as penas para trabalho escravo e aliciamento. No trabalho escravo, a pena passa de um mínimo de dois e um máximo de oito anos para um mínimo de cinco e um máximo de dez anos de prisão. Para o aliciamento, a pena mínima passa de um até quatro anos e a pena máxima chega a oito anos de detenção. Além disso, o escravizador perde o direito a benefícios e créditos governamentais. E também não pode participar de licitações. Equipamentos da propriedade, bem como os bens produzidos com mão-de-obra escrava serão levados à leilão e o recurso gerado será utilizado preferencialmente para fiscalização. Prevê também uma multa de dez salários mínimos por trabalhador flagrado. Em uma das emendas, foi apensado ao projeto uma proposta que transforma o crime do trabalho escravo e aliciamento em crimes hediondos (Apensos: PL 2667/2003 que, por sua vez, tem o apenso PL 3283/2004. Ambos colocam trabalho escravo na lista de crimes hediondos; PL 3500/2004, que proíbe que órgãos públicos e de economia mista destinem recursos a empresas ou pessoas condenadas por trabalho escravo)
Já passou pelo Senado, mas na Câmara está parada na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP). O último andamento foi um parecer favorável de Vicentinho (PT-SP), em outubro de 2005

PL-5487/2001
Senador Ademir Andrade (PSB-PA)

Assim como a PEC 438, propõe o confisco de terra onde for constatado trabalho escravo. A diferença é que ela modifica a lei que regulamenta a Constituição. Está apensado a esse projeto o PL-828/2007, do deputado Marcelo Serafim (PSB-AM), que trata do mesmo tema
O projeto está desde maio de 2004 na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) da Câmara, pronto para entrar na pauta, depois de parecer pela rejeição assinado pelo deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS) * membro da bancada ruralista e abertamente contra a aprovação da PEC 438

PEC 438/2001
Senador Ademir Andrade (PSB-PA)

Prevê o confisco de terras, sem direito à indenização, em fazendas que se comprove o uso de mão-de-obra análoga à escravidão. As propriedades serão destinadas ao assentamento de famílias para a reforma agrária. Imóveis urbanos em que se flagrem essas atividades também serão desapropriados
Já foi aprovada no Senado e em primeiro turno na Câmara, em agosto de 2004. Precisa ser colocada em pauta para a votação em segundo turno. Requer três quintos ou mais dos votos dos 513 deputados para ser aprovada

PL-3757/1997 (Câmara) ou PLC 97/2003 (Senado)
Paulo Rocha (PT-PA)

Altera a tipificação do crime do trabalho escravo (Art. 149 do Código Penal), incluindo nela o uso de mão-de-obra de menores de 14 anos para fins econômicos, salvo o auxílio em âmbito familiar, fora do horário escolar e que não prejudique a formação educacional
O Projeto não tem andamento nenhum desde dezembro de 2003. Atualmente, espera designação do relator na CCJ do senado.

PL-1292/1995
Senador Lauro Campos (PT-DF)

Altera a lei 8.666/93, que trata de contratos feitos pela administração pública. Está apensado a esse projeto o PL-2022/1996, que proíbe a administração pública de sela contrato com quem, direta ou indiretamente, utilizar mão-de-obra escrava
O andamento do projeto é lento porque há 102 propostas apensadas a ele, que tramitam em conjunto. Desde novembro de 2004, está estacionada na CCJC da Câmara



 

Carta de Sobradinho: Povos do São Francisco e do Semi-árido se unem pela Vida

Nós, os 93 movimentos populares e organizações sociais e 213 pessoas participantes da Conferência dos Povos do São Francisco e do Semi-árido, realizada em Sobradinho (BA), entre 25 e 27 de fevereiro de 2008, tornamos públicas as discussões e as decisões de continuidade de nossas lutas pela vida do Rio São Francisco e do Semi-árido brasileiro, contra o Projeto de Transposição, ao mesmo tempo em que conclamamos a adesão e a solidariedade de todos e todas.

Escolhemos Sobradinho, como sede da Conferência, pelo seu valor simbólico de resistência, nestes 30 anos da barragem, revivido nos 24 dias de jejum de Dom Luiz Cappio ao final de 2007. A experiência vivida por nós, próximos ou distantes, em torno dele naquela ocasião, sintetizou mística e política, solidariedade e fé, economia e ecologia, reinventou nossas formas de ação e nos colocou em mais alto patamar de luta pela Vida.

Na capela do jejum fizemos a abertura, ao redor de potes e plantas do Semi-árido, juntando terras e águas trazidas pelas delegações, entre as quais água turva do Rio Tietê e terra do Cemitério de Perus, onde eram enterrados ativistas “desaparecidos” durante a ditadura militar e “indigentes” do Povo de Rua de São Paulo.

A Conferência foi organizada e realizada pelos movimentos e organizações sociais, representando os mais diversos segmentos das regiões implicadas e de outras do País e do Exterior, com os objetivos de fazer um balanço destas lutas e suas implicações, consolidar a unidade entre entidades e pessoas nelas envolvidas e definir próximos passos.

Ao analisar a situação atual, mais uma vez rejeitamos este modelo de desenvolvimento predatório e excludente que cada vez mais ameaça o Planeta. No Brasil, é parte essencial das políticas do governo federal que mantém o País na condição de exportador de produtos primários como minérios e produtos agropecuários, entre os quais os agrocombustíveis – uma grande “fazendona” mundial, tal com ocorre desde o período colonial.

Este modelo combina subserviência aos grandes interesses econômicos internacionais com ausência de reais políticas públicas para o Nordeste, em especial o Semi-árido, impondo-lhe mega-obras equivocadas e desnecessárias, tal como a transposição do Rio São Francisco. O “sócio-desenvolvimentismo” do governo Lula não disfarça seu caráter retrógrado, evidente nas obras do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, flexibilização de restrições ao capital, assistencialismo social e cooptação de organizações e movimentos sociais.

Diante deste quadro, definimos os seguintes princípios gerais e as ações que faremos:

1. Acesso a água

Os movimentos sociais e populares do São Francisco e do Semi-árido reafirmam que a água é, em si mesma, um bem e um valor universais e que o acesso a água é direito humano fundamental secularmente negado à população pobre do Semi-árido, a do São Francisco inclusive. O modelo concentrador de água fez construírem muitos e suficientes reservatórios e poucas adutoras e ainda mantém quase metade da população do Semi-árido sem acesso a água.

A democratização do acesso a água deve ser uma política pública prioritária, em todo o Semi-árido, baseada no princípio de que o respeito aos direitos humanos deve ser central em qualquer sociedade e rigorosamente respeitado por qualquer governo. Com ela deve ser fomentada uma nova cultura de água, que evite o desperdício, garanta a reprodução de todas as formas de vida e promova a atitude hidro-ecológica.

2. Revitalização do rio São Francisco

Os povos do São Francisco e do Semi-árido reafirmam a posição de que a revitalização verdadeira do São Francisco é urgente e prioritária, visando recuperar as condições hidro e sócio-ambientais do rio e a sobrevivência de milhões de pessoas e demais espécies que habitam a sua bacia. Para isso é condição essencial cessar o avanço e o descontrole da exploração dos Cerrados e Caatingas.

Reafirmamos que a revitalização não pode ser tratada como um mero projeto fragmentado e paliativo, muito menos propagandístico, mas como um amplo e coordenado programa exaustivamente discutido com a sociedade e a ciência e submetido a rigoroso controle social. É disso que o São Francisco precisa, não de mais um uso abusivo.

3. Transposição do rio São Francisco

Os povos do São Francisco e do Semi-árido rejeitam incondicionalmente a transposição de águas do rio. Esta obra apenas reproduz o modelo centenário de concentração de água, que manterá milhões de pessoas excluídas do acesso democrático a água e a um padrão de vida minimamente digno.

Ao levar mais água para onde já existe é uma obra inútil; ao excluir milhões de pessoas é mais uma obra hídrica injusta desde a sua concepção; e ao destinar as suas águas para fins essencialmente econômicos é uma obra desumana que viola o princípio de que a água é um direito humano fundamental. Esta é a mesma razão pela qual rejeitamos os grandes projetos de irrigação, que apenas favorecem o agronegócio exportador.

4. Convivência Sustentável com o Semi-árido

Os povos do São Francisco e do Semi-árido reafirmam que compreendem a Convivência com o Semi-árido como fundamento de desenvolvimento nos termos contemporâneos mais avançados – um novo paradigma civilizatório. Como tal é dos mais relevantes grandes temas nacionais da atualidade, que interessa e deve ser compreendido por toda a sociedade brasileira.

Rejeitamos o atual modelo de desenvolvimento que há séculos perpetua a concentração de terra, água e renda, excluindo quase metade da população da região. Propomos um modelo de desenvolvimento que seja essencialmente justo, garantindo acesso a terra e a água, baseado na lógica da Convivência com no Semi-árido, com inúmeros programas já testados e comprovadamente eficazes.

NOSSAS AÇÕES

a) Trabalho de base: intensificar em todas as regiões, em especial no Semi-árido Setentrional, mas também em todo o país, em mutirões que congreguem militantes dos vários movimentos e organizações, utilizem novos subsídios acessíveis ao povo, esclareçam a verdade sobre a transposição e as questões mais amplas da água, do hidro-negócio, da revitalização do São Francisco e da questão energética, divulguem as alternativas e fortaleçam a consciência militante e a organização popular.

b) Organização e articulação: realizar Conferências Regionais / Estaduais; criar novos Comitês contra a transposição; ampliar as articulações regionais e da bacia; manter a articulação e a luta conjunta entre o São Francisco e o Semi-árido, tendo como instrumento a Coordenação desta Conferência; trabalhar a partir das demandas e alternativas (Atlas Nordeste da ANA – Agência Nacional de Águas e iniciativas da ASA – Articulação do Semi-Árido), também no São Francisco (programa de revitalização).

c) Comunicação: massificar a discussão sobre os temas São Francisco, Semi-árido e transposição, considerando os três públicos diferentes (urbano, rural e base dos movimentos); empreender uma contra-ofensiva à nova campanha de propaganda do governo federal; envolver as assessorias de comunicação das diversas entidades envolvidas (comissão e rede de assessoria de imprensa e de comunicadores populares); trabalhar mais as rádios e a internet, monitorando e divulgado o que sai na mídia.

d) Enfrentamento: realizar marchas e outros atos criativos, em Brasília e outros locais, aproveitando as datas do Calendário Nacional de Lutas, nas quais inserir os temas São Francisco, Semi-árido e transposição: 8 de março – Dia da Mulher, Abril Vermelho / 17 de abril – Dia Internacional da Luta Camponesa, 1º de maio – Dia do Trabalhador, 10-13 de junho – Jornada das Organizações do Campo e da Cidade; 4 de outubro – Dia do Rio São Francisco.

e) Igrejas: introduzir os temas nas preocupações e atividades pastorais das Igrejas, em especial na Assembléia da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (2-11 de abril), divulgando os subsídíos.

O próximo 1º de Abril nós o transformamos em “Dia da mentira do governo e da verdade do povo”, marco central em nossa agenda de lutas, com atividades de protesto e de proposição em todos os cantos do País.

Na beira do São Francisco, contemplando suas belezas e mazelas, ao fundo a barragem de Sobradinho, demos um “gole d’água” ao rio e nos despedimos selando o compromisso de defender a Vida. Mística, Estudo e Ação, propostos por Dom Luiz Cappio, foram as expressões práticas deste compromisso. Cabaças enfeitadas de fitas coloridas, prenhes de sementes, eram os símbolos que cada delegação levou...

Sobradinho 27 de fevereiro de 2008.

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA); Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); Movimento das Mulheres Camponesas (MMC); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Movimento Saúde Pirituba – SP (Perupi); Marcha Mundial das Mulheres; Apoinme; Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP); Comissão Pastoral da Terra (CPT); Caritas; Conselho Indigenista Missionário (CIMI); Pastoral da Juventude do Meio Popular(PJMP); PJR; Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB); CEBs; Sefras – Serviço Franciscano de Solidariedade; Serviço Justiça, Paz e Ecologia da Província Franciscana de SP; Serviço Justiça, Paz e Ecologia da Província Franciscana de Imaculada Conceição; Igreja do Carmo (MG); Congregação Filhas de Jesus (Sobradinho/BA); 1ª Igreja Batista (Santa Maria da Vitória/BA); Romaria do Grito dos Excluídos; Misereor; Instituto Regional da Pequena Agricultura Apropriada (IRPAA); Centro Nordestino de Medicina Popular; Consea – PE; Diaconia; PACS; Articulação do Semi-Árido (ASA); ASPTA; CAIS – Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativa Social; Rede Ambiental do Piauí; ABAI – Serviço Paz e Justiça; Instituo Palmas; Museu Ambiental Casa do Velho Chico; Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Aracaju; Associação Pequenos Agricultores Cidadania (APAC); AAPMS; CAA – Centro de Assessoria do Assuruá; SASOP; Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais; EFAs; Centro Terra Mar; Comitê da Bacia do rio Salitre; Ecodebate; Sindicatos de Trabalhadores Rurais; Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto no Estado da Bahia (SINDAE); Pólo Sindical Submédio São Francisco; SINTECT-PE (Sindicato dos Trabalhadores da Empresa de Correios e Telégrafos); Sintagro/BA; Sindprev/RJ; APLB – Sindicato de Santa Maria da Vitória; Fórum Permanente da Bahia em Defesa do São Francisco; Frente Cearense por uma Nova Cultura de Água Contra a Transposição; Frente Paraibana em Defesa da Terra, das Águas e dos Povos do Nordeste; Comitê Paulistano Contra a Transposição; CESE; KOINONIA; ABCMAC – P1+2;ACIDES; AMIDES; Água Viva; Paróquias: Campo Alegre de Lurdes/BA, Sobradinho/BA, São Francisco de Assis/BA, Paulo Afonso/BA, Nossa Senhora das Dores; SECON; Rede Social; Jornal: Brasil de Fato; Conlutas; Diretório Central dos Estudantes de Minas Gerais; Consulta Popular; PSOL; PSTU; PUC Minas; DCE UFMG; Universidade de Innsbruck – Instituto de Geografia; UNB; Federação Argentina de Estudantes de Agronomia; Executiva Nacional dos Estudantes de Veterinária; Grupo Nascer (UFMG); Lições da Terra (PUC Minas); FEAB; Geografar – UFBA; UFS – Campus Itabaiana (SE); UNEB; Povos indígenas – Pipipã, Truká e Tupã; Comunidades: Quilombolas, Vazanteiros, Geraiseiras, Catingueiras e pescadores; Colônia de Pescadores: Z-20 (Ibiaí/MG); Juazeiro, Z-07 (Neópolis/SE); Federação dos pescadores de Alagoas; Reserva Extrativista São Francisco – Serra do Ramalho.

SAIBA MAIS SOBRE A TRANSPOSIÇÃO, NESTE SITE: em ACONTECEU e NA MÍDIA .

 

 

Mais de 450 pessoas são resgatadas de fazendas em Alagoas

Na Usina Laginha, 53 pessoas trabalhavam em em situação degradante; empresa pertence ao tradicional Grupo João Lyra, de Alagoas. Na mesma operação, fiscais libertaram mais de 400 trabalhadores em outra fazenda

Repórter Brasil
Por Iberê Thenório
27/02/2008

Aos pés da Serra da Barriga, em Alagoas, nas cercanias do local que abrigou o Quilombo de Palmares, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) libertaram, na última sexta-feira (22), 53 pessoas que trabalhavam em condições degradantes. Elas eram empregadas da usina de cana Laginha, que fica em União dos Palmares (AL) e faz parte do Grupo João Lyra, tradicional conglomerado de empresas da região.

"O alojamento é de alvenaria, mas é muito sujo, fedido. Os trabalhadores não recebem colchões, mas espumas velhas, rasgadas, que quando se aperta com a mão, dá pra encostar um dedo no outro.", relata o auditor fiscal do trabalho Dercides Pires da Silva, que chefiou a operação na fazenda que fica no município a cerca de 85 km da capital Maceió.

De acordo com o auditor, outro problema grave encontrado foi a condição dos equipamentos de proteção individual (EPIs). "Eles estavam muito danificados. Eram botas furadas, luvas, toucas e mangotes rasgados. Encontramos trabalhadores que não tinham um equipamento sequer", conta.

Na mesma operação, os fiscais também encontraram condições de trabalho degradantes na Usina Santa Clotilde, localizada no município de Rio Largo (AL), onde foram resgatadas mais de 400 pessoas. Como a fiscalização ainda está em curso, os auditores do MTE ainda não calcularam o número exato de trabalhadores libertados na usina.

Em ambas as empresas, havia centenas de empregados que moravam na região, e a condição deles não foi considerada degradante porque não utilizavam os alojamentos. Para os trabalhadores resgatados, os auditores propuseram uma rescisão indireta do contrato de trabalho, o que obriga a empresa a demitir os funcionários em condição degradante e a pagar os direitos trabalhistas no ato do desligamento. Também é garantido aos libertados o recebimento de cinco parcelas do seguro-desemprego. As empresas, contudo, não concordaram com essa decisão, e vão recorrer à Justiça.

Liminares
A primeira providência do grupo móvel em ambas as usinas foi a interdição do corte da cana até que as irregularidades trabalhistas fossem resolvidas. Porém, as duas empresas conseguiram liminares para autorizar a continuidade dos trabalhos. A liberação na Santa Clotilde foi obtida junto à Justiça do Trabalho; e a da Laginha, na Justiça Federal.

Para o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Alagoas, Rodrigo Alencar, a liminar concedida pela Justiça Federal é irregular. "A Constituição é claríssima nesse ponto: compete à Justiça do Trabalho julgar as penalidades impostas pelo MTE", argumenta. O procurador também informa que o MPT ajuizará uma ação contra as usinas pedindo indenização por danos morais coletivos. Rodrigo e mais sete procuradores do MPT estiveram presentes na fiscalização. Eles integram uma força-tarefa que a instituição criou para apurar irregularidades no setor sucroalcooleiro no Brasil.

Em novembro de 2007, o MPT já havia firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a usina Laginha, depois que trabalhadores fizeram um protesto bloqueando a rodovia BR-104 por mais de 10 horas. Entre os 20 itens de compromisso assumidos pela empresa estava o fornecimento de equipamentos de proteção novos assim que os velhos se desgastassem. O documento ainda previa multa de R$ 10 mil por cada item descumprido.

Poder econômico
O ex-deputado João Lyra é o dono do grupo que leva seu nome. O conglomerado reúne dez empresas e, além da cana, também atua nos setores automobilístico, de transportes aéreos e hospitalar. Em 2006, quando concorreu ao governo de Alagoas pelo PTB, Lyra era o segundo candidato mais rico do país, com bens declarados no valor de R$ 236 milhões. Ele ficou em segundo lugar nas eleições, com 30,5% dos votos, perdendo no 1o turno para o atual governador, Teotonio Vilela, do PSDB, que obteve 55,8%.

A família Lyra é centenária e uma das mais ricas de Alagoas. O irmão do empresário, Carlos Lyra, é dono de outro grupo empresarial, que se declara o segundo maior produtor de açúcar do país. João Lyra também é pai de Thereza Collor, viúva de Pedro Collor, irmão do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, e pai de Lurdinha Lyra, vice-prefeita de Maceió.

Em seu site oficial, o Grupo João Lyra declara que, na usina Laginha, "o processo produtivo segue rigoroso controle agrícola e industrial com base na política de produção do Grupo, que tem entre seus valores quesitos como qualidade, produtividade, respeito ao meio ambiente e retorno social."

A Repórter Brasil procurou os representantes das duas usinas fiscalizadas, mas foi informada que os responsáveis já não se encontravam mais na empresa no horário da ligação.

 

 

BNDES reforça compromisso de não financiar empresas da "Lista Suja"

Banco inclui cláusula social em seus contratos e exige como condição prévia a inexistência do nome da empresa na "Lista Suja"; mudança é resposta a reivindicações da sociedade civil.

Repórter Brasil
Por Iberê Thenório
20/02/2008

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que irá reforçar os mecanismos de combate à discriminação de raça ou de gênero, ao trabalho infantil e ao trabalho escravo. Em cerimônia realizada na última sexta-feira (14), o presidente da instituição, Luciano Coutinho, declarou que o banco passará a impor cláusulas sociais nos contratos firmados com empresas.

Apesar de não ser signatário do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo - documento em que instituições se comprometem a manter o trabalho escravo longe dos seus negócios -, o BNDES já consultava a "Lista Suja" do trabalho escravo antes de aprovar financiamentos. Essa lista reúne empregadores que cometeram esse crime, e é divulgada desde 2003 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A partir de agora, a consulta ao cadastro passa a figurar entre as cláusulas do contrato de financiamento. Caso o nome do empregador conste na lista, o financiamento é negado. O contrato também pode ser cancelado após a assinatura se o empregador for condenado pela utilização de trabalho escravo, e o processo tenha transitado em julgado. Nesse caso, é cancelado o repasse de recursos do BNDES e a empresa é obrigada a pagar no ato o saldo devedor. De acordo com nota publicada pela instituição, essas cláusulas sociais podem dar mais agilidade ao banco no momento de suspender contratos.

Em 2007, o BNDES liberou 5 bilhões de reais para empreendimentos agropecuários, R$ 4,3 bilhões para a indústria alimentícia e R$ 3,2 bilhões para o setor metalúrgico. Classificam-se dentro dessas atividades econômicas a maior parte das empresas que hoje figuram na "Lista Suja" do trabalho escravo, e os financiamentos correspondem a 19,5% do valor total desembolsado pelo banco no ano passado.

Transparência
Além da mudança nos contratos, o BNDES anunciou também a criação do projeto Janela da Transparência, que disponibiliza na Internet informações sobre as 50 maiores operações de financiamento a empresas.

Tanto as cláusulas sociais como a publicação dos dados na Internet respondem a reivindicações de organizações da sociedade civil. Por meio de um conjunto de propostas chamado de "Plataforma BNDES", lançada em julho de 2007, 27 instituições questionam a política de financiamento do banco, e propõem mudanças para que o BNDES se torne mais transparente e voltado ao desenvolvimento social.

"Preconizamos que o Banco não apenas deve, mas precisa abrir suas portas ao diálogo com a sociedade, sob pena de, caso rume em sentido contrário, ser totalmente capturado pela lógica de mercado, o que esvaziaria o caráter público indispensável ao financiamento de um tipo de desenvolvimento, como já dissemos, democrático e justo com a maioria da população brasileira", diz um trecho do documento.

Amparo ao trabalhador
A inclusão de cláusulas contra o trabalho escravo nos contratos do BNDES demonstra coerência com a origem dos recursos do banco. Atualmente, cerca de 40% do dinheiro gerido pela instituição vêm do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Em 31 de dezembro de 2007, o saldo de recursos do FAT no Sistema BNDES era de R$ 105,66 bilhões.

É para esse fundo que é destinada grande parte das indenizações obtidas em acordos e ações civis públicas movidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em casos de trabalho escravo e degradante.

O descontentamento com a política de financiamento do BNDES fez com que muitos procuradores do MPT começassem a dirigir as verbas de indenizações a projetos locais, que beneficiassem diretamente as comunidades dos trabalhadores encontradas em situação análoga à escravidão.

Notícias Relacionadas:
BNDES pretende reunir e divulgar dados sobre maiores contratos
Indenizações direcionadas pelo MPT beneficiam comunidades

 

 

PAI DE AYRTON SENNA É ACUSADO DE TRABALHO ESCRAVO

De acordo com o Ministério Público do Trabalho, fazenda de empresário mantinha 82 trabalhadores em condição análoga à de escravo

SITE REPÓRTER BRASIL
Por Lúcio Lambranho, do Congresso em Foco
13/02/2008


Servidão por dívidas e restrição à liberdade dos trabalhadores. Aliciamento irregular para trabalho temporário. Alojamentos e refeitórios sem as mínimas condições de higiene. Ausência de equipamentos de proteção individual e pulverização aérea de agrotóxico sobre os trabalhadores.
Essas irregularidades foram encontradas nas 621 ações de combate ao trabalho escravo do governo federal que libertaram mais 27 mil trabalhadores em todo o país desde 2005. Mas um desses casos, desconhecido até então, desperta a atenção por envolver uma família que tem o seu nome associado exatamente à responsabilidade social.

Trata-se da fazenda Campo Aberto, que pertence ao empresário Milton da Silva, pai do tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna, e a outros dois sócios de um mega-empreendimento rural de mais de 6 mil hectares localizado em Barreiras, no oeste baiano.

"Nós, que defendemos práticas socialmente eficazes na Fundação Ayrton Senna, não podemos deixar de dar o exemplo em nossas empresas", disse Leonardo Senna, irmão de Viviane Senna, presidente da ONG criada em 1994, em entrevista à revista Dinheiro Rural em janeiro de 2006.

A reportagem sobre a fazenda é usada na ação civil pública do Ministério Público do Trabalho (MPT), que acusa o pai de um dos maiores ídolos do esporte nacional de manter 82 trabalhadores em condição análoga à de escravo (saiba mais sobre as irregularidades apontadas).

"Essa visão do melhor dos mundos, que alia tecnologia, produtividade e responsabilidade social, tão bem retratada pela mídia especializada, não é bem aquela encontrada pelo grupo especial de fiscalização móvel para erradicação do trabalho escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego", escreve o procurador Paulo Germano Costa, na denúncia, de 18 de junho de 2007.

Em seu site, o Instituto Ayrton Senna afirma ter beneficiado mais de 1,3 milhão de crianças e adolescentes em projeto sociais em 2007. A assessoria de imprensa da ONG disse ao site que Viviane Senna estava de férias no exterior e que não iria se pronunciar sobre o caso. Segundo a assessoria, Viviane é porta-voz do Instituto, e não da família.

Infrações
Considerada a "jóia" dos negócios rurais da família Senna, a propriedade recebeu, durante dez dias de inspeção, em março de 2007, 29 autos de infração do grupo móvel especial de combate ao trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Duas ações (leia a íntegra de uma delas) na Justiça do Trabalho de Barreiras, em fase final de julgamento, cobram dos donos do empreendimento rural R$ 600 mil por dano moral coletivo e mais R$ 110 mil em indenizações trabalhistas por cada um dos trabalhadores libertados durante a fiscalização do MTE.

O dinheiro referente aos salários e às verbas rescisórias dos 82 empregados libertados ainda não foi pago, pois os sócios se recusaram, durante a inspeção, a reconhecer a acusação de trabalho escravo.

"Talvez seja pela questão da 'lista negra, mas o responsável pela empresa se retirou da negociação no ato do resgate dos trabalhadores", explica o procurador do Trabalho em Barreiras, Luciano Leivas, que acompanha o processo.

"Conversa fiada"
A "lista negra" à qual o procurador se refere é mais conhecida como a "lista suja" do Ministério do Trabalho, divulgada a cada seis meses. O nome do infrator só entra no cadastro após a conclusão do processo administrativo gerado pela fiscalização que libertou os trabalhadores.

As sanções podem atingir o bolso dos empregadores. Mais de 100 empresas e associações que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo se negam a comprar, direta ou indiretamente, mercadorias produzidas por fazendas incluídas na "lista suja". Entre elas, estão gigantes dos setores varejista e atacadista do país.

Conforme mostrou o Congresso em Foco em outubro do ano passado, empresas autuadas por manter trabalhadores em condições análogas à de escravo doaram R$ 897 mil para a campanha eleitoral de 25 candidatos em 2006 (leia mais).

Doação para deputado
Um dos sócios do pai de Ayrton Senna na fazenda Campo Aberto, Ricardo Ferrigno Teixeira, que administra o empreendimento rural, doou R$ 20 mil para campanhas políticas em 2006.

Uma dessas doações, no valor de R$ 10 mil, foi para a reeleição do deputado João Leão (PP-BA), vice-líder do governo no Congresso. Segundo Leão, essa contribuição foi apenas parte de um total de R$ 200 mil que ele recebeu da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) durante sua campanha.

"Ainda não tive o prazer de conhecer o senhor Ricardo e sua fazenda", disse o deputado. "Eu não acredito nessa história de trabalho escravo no oeste da Bahia. É conversa fiada. Isso é folclore", afirmou Leão ao site.

A outra doação, também de R$ 10 mil, foi para Eduardo Seixas de Salles (PP), candidato a deputado estadual que não se elegeu. Ele figura como suplente na Assembléia Legislativa da Bahia.

Em entrevista ao Congresso em Foco, Ricardo Ferrigno preferiu não dar detalhes sobre a defesa protocolada por seus advogados no processo. Mas informou que "o quadro pintado pelos fiscais" não é verdadeiro. "Anexamos documentos que provam pagamento de salários e rescisões de funcionários. Como podemos ser acusados de fazer servidão por dívidas?", contesta o administrador da fazenda.

Para comprovar a servidão por dívidas, os fiscais do MTE citam o depoimento de Elessandio Santos de Souza, um dos trabalhadores libertados na fiscalização. "Que queria sair da Fazenda Campo Aberto porque o valor da empreita estava muito barato; que em 2004 comprava mercadorias na cantina da Fazenda; que o valor das mercadorias era diretamente descontado do salário do depoente".

Negociação
Em outubro de 2007, o Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5) acolheu as alegações dos procuradores do MTE e determinou que os proprietários da fazenda cumprissem uma série de obrigações legais enquanto as ações indenizatórias não são julgadas.

Entre as medidas que os donos da Campo Aberto, consórcio rural que exporta soja e milho para a Itália e a Alemanha, tiveram que cumprir está a construção de alojamentos e locais de refeições em condições adequadas de conservação e higiene.

Temendo a repercussão negativa do caso, os sócios iniciaram uma negociação para a venda da fazenda para o grupo paulista Cosan, considerado o maior exportador de açúcar e de álcool do mundo. A informação foi confirmada ao site por um dos advogados da Campo Aberto, Vagner de Oliveira.

"Sei que teve essa negociação, mas não sei se avançou", disse o advogado. A reportagem tentou, desde o dia 29 de janeiro, contato com o outro advogado da família Senna que também atua na ação, Márcio Rogério de Oliveira. Mas ele não retornou os pedidos de entrevista.

Um dos sócios da família Senna no condomínio rural, Ubirajara Guimarães, conhecido como Bira, disse ao Congresso em Foco que não há nenhuma negociação para a venda da fazenda. "Não tem nada a ver. É uma fazenda muito produtiva, uma fazenda-modelo."

Bira disse que o negócio está dividido em 50% para o pai do ex-piloto de Fórmula 1 e 25% para ele os outros 25% para Ricardo Ferrigno Teixeira, filho de Armando Teixeira Botelho, ex-empresário de Ayrton no automobilismo. "Lugar 100% você nunca vai encontrar", disse o empresário.

O grupo Cosan, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que não poderia dar informações sobre transações desse tipo por ter ações no mercado financeiro, o que impede a divulgação de negócios ainda não concretizados.

Caso Pagrisa
No ano passado, o Congresso se envolveu em uma grande polêmica por causa do trabalho escravo. Uma comissão externa foi criada no Senado para apurar supostos abusos cometidos pelo grupo móvel do MTE na libertação de 1.064 trabalhadores mantidos em condições análogas à de escravo na fazenda da Pagrisa (Pará Pastorial e Agrícola S/A).

Convidados pelos donos do empreendimento, os integrantes da comissão visitaram a fazenda e retornaram a Brasília alegando que as condições oferecidas aos trabalhadores eram as melhores possíveis. Em protesto, o grupo móvel suspendeu suas ações por 20 dias, entre setembro e outubro.

Desde outubro, os trabalhos do colegiado não avançaram. O presidente da comissão, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), renunciou ao cargo em novembro. Depois disso, segundo apurou o site, um grupo de senadores pediu ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, uma nova fiscalização na Pagrisa. O pedido, no entanto, não foi aceito pelo ministro, que ressaltou que o grupo móvel, ao contrário dos parlamentares, não faz visitas programadas aos locais passíveis de autuação.

Assim como na Pagrisa, principal produtora de álcool e açúcar do Pará, mais da metade dos lavradores resgatados no ano passado em todo o país trabalhava no cultivo da cana-de-açúcar. Segundo o MTE, dos 5.877 trabalhadores libertados em 197 fazendas brasileiras em 2007, 2.947 estavam distribuídos em quatro usinas de sucroalcooleiro.

 

 


PROGRAMA DE REINSERÇÃO EMPREGA 104 LIBERTADOS DA ESCRAVIDÃO

Mais de cem pessoas resgatadas de fazendas no Maranhão e no Pará foram contratadas por siderúrgicas do Pólo Carajás em programa de reintegração de força de trabalho promovido pelo Instituto Carvão Cidadão

REPÓRTER BRASIL
12/02/2008
Por Iberê Thenório


Com carteira assinada e direitos trabalhistas garantidos, 104 trabalhadores libertados da escravidão ganharam novos empregos em 2007. Eles foram admitidos em siderúrgicas do Pólo Carajás, no Pará e no Maranhão. A reinserção faz parte de um programa de reintegração social promovido pelo Instituto Carvão Cidadão (ICC), criado e mantido por 14 produtoras de ferro gusa do Carajás.
Os novos empregados foram selecionados a partir de uma relação fornecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com pessoas resgatados de diferentes atividades rurais e moradores do Pará e Maranhão. Depois que os libertados voltaram para casa, o ICC realizou entrevistas e direcionou os trabalhadores para vagas de trabalho nas siderúrgicas da região.

A empresa que mais empregou trabalhadores egressos da escravidão foi a Siderúrgica Norte Brasil - Sinobras, localizada em Marabá (PA), que admitiu 22 pessoas em 2007.

Com salários iniciais entre R$ 389,90 e R$ 700,00, os cargos oferecidos requerem baixa qualificação. Das 104 vagas criadas, 78 são para ajudantes gerais. "A maioria [das pessoas contratadas] é analfabeta, muitas vezes não sabe nem assinar o nome, e não tem carteira de identidade, CPF.", relata Ornedson Carneiro, diretor do ICC.

Essa é a segunda leva de libertados da escravidão que foi contratada por meio da reinserção de trabalhadores realizada pelo Instituto. Em 2006, 46 pessoas foram empregadas por meio do programa.

Carvoarias
Até o final de 2007, os produtores de carvão representavam 12% dos empregadores incluídos na "lista suja" do trabalho escravo. Nesse cadastro, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), figuram pessoas e empresas que foram flagradas utilizando esse tipo de mão-de-obra.

As libertações em carvoarias estão concentradas em regiões próximas a siderúrgicas, principalmente no Pólo Carajás, onde há alto consumo de carvão vegetal para a produção de ferro gusa. Hoje, há quatro siderúrgicas incluídas na "lista suja": Cofergusa (Indústria e Comércio de Ferro Gusa União), Simara (Siderúrgica Marabá S.A.), Simasa (Siderúrgica do Maranhão S.A) e Itasider Usina Siderúrgica Itaminas SA. Todas elas entraram nesse cadastro por comprar carvão de empresas que empregavam trabalho escravo. Com exceção da última, todas fazem parte do Pólo Carajás.

No entendimento do MTE, do Ministério Público do Trabalho (MPT) e de acordo com decisão recente da Justiça do Pará, as produtoras de ferro gusa também são responsáveis pelas condições dos trabalhadores no carvão, pois a produção da matéria-prima faria parte da atividade-fim das siderúrgicas. Depois de muita negociação, o governo do Pará publicou instrução em que exige comprovação prévia de carvão para autorizar a produção de gusa.

Lista própria
Para evitar problemas como esse, o próprio ICC fiscaliza fornecedores de carvão e divulga uma lista de locais nos quais foram constatadas irregularidades trabalhistas graves. Atualmente, esse relatório que contém 275 carvoarias é enviado para as siderúrgicas, que assumem a responsabilidade de eliminar ou não o fornecedor de sua cadeia produtiva.

De acordo com o diretor do ICC, as siderúrgicas têm restringido o número de empresas das quais compram carvão: "Quando começamos o nosso trabalho [em 2004], as 14 siderúrgicas tinham cerca de 1,6 mil fornecedores. Hoje elas têm pouco mais de 500. A maioria das siderúrgicas também começou a plantar eucalipto e produzir o próprio carvão", relata.

Estados problemáticos
Segundo estatísticas da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Pará é hoje o estado recordista em libertações de trabalhadores escravos. Desde 1995, quando o grupo móvel começou suas atividades, já foram resgatadas 10.242 pessoas no estado, isto é, 35,9% de todos os trabalhadores libertados no país.

O Maranhão, por sua vez, é a principal origem das pessoas encontradas em situação análoga à escravidão. Números do MTE mostram que, de 2003 até abril de 2007, 34,29% dos libertados pelo grupo móvel eram do Maranhão.

 

 

Sociedade Civil exige imediata indenização de familiares de vítimas da explosão de fábrica de fogos na Bahia

Boletim Eletrônico da Justiça Global
31 de janeiro de 2008 - nº 02
www.global.org.br

O Estado brasileiro não apresentou o cronograma de cumprimento da reparação às famílias de vítimas da explosão da fábrica de fogos em Santo Antônio de Jesus (BA) acordada em Washington, D. C., em 26 de outubro de 2006.

Até agora não houve nenhum acordo sobre o pagamento da indenização dos familiares das vítimas da explosão da fábrica de fogos, incluindo a ação judicial contra a União em trâmite na Justiça Federal. As organizações peticionárias – Movimento 11 de Dezembro, Fórum de Direitos Humanos de Santo Antônio de Jesus e a Justiça Global – encaminharam ofício à Secretaria Especial de Direitos Humanos – que aceitou intermediar o encontro – solicitando a reunião de emergência com a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, para exigir a imediata liberação de verba destinada à indenização das famílias.

O Estado brasileiro deve apresentar com urgência prazos e metas para os seguintes itens de reparação: 1) tratamento médico e psicológico aos sobreviventes e familiares das vítimas, incluindo cirurgias plásticas aos sobreviventes; 2) ato público de reconhecimento do Estado brasileiro acerca de sua responsabilidade na tragédia e mortes, com pedido de desculpas aos sobreviventes e familiares de vítimas; 3) indenização pecuniária aos sobreviventes e familiares de vítimas, inclusive a ação judicial contra a União em trâmite na Justiça Federal, seção judiciária do estado da Bahia.

 Entenda o caso

No dia 11 de dezembro de 1998, a explosão de uma  fábrica de fogos clandestina chocou a cidade de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, matando 64 pessoas – a maioria mulheres e crianças. Passados quase dez anos, os acusados  pela explosão da fábrica  de fogos ainda não foram levados a julgamento.

A fábrica de fogos pertencia ao empresário Osvaldo Prazeres Bastos, conhecido como “Vardo dos Fogos”, e indiciado pelo Ministério Público como o principal acusado pela explosão. O empresário armazenava material explosivo ilegalmente e produzia fogos de artifício sem quaisquer condições de segurança.

Sobre o julgamento de Osvaldo Prazeres Bastos, o Tribunal de Justiça julgou favorável o pedido de transferência do júri de Santo Antônio de Jesus para Salvador feito pelo Ministério Público da Bahia. O julgamento em Salvador, no entanto, continua sem previsão.

Desde 2001 tramita na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA uma denúncia contra o Brasil em razão da ausência de fiscalização e da permanência da impunidade no caso. Em 2006, em audiência realizada em Washington, o Estado Brasileiro assumiu a sua responsabilidade na explosão da fábrica e iniciou o processo de solução amistosa.

O Brasil vem realizando reuniões do Grupo de Trabalho responsável pela implementação da solução amistosa, mas pouco se avançou. Cerca de 10 mil pessoas continuam arriscando suas vidas na produção de fogos seja no quintal de suas casas ou em fábricas clandestinas.

Declarações homofóbicas de deputado contra relator especial são denunciadas à ONU

A Justiça Global e o mandato do deputado estadual Marcelo Freixo denunciaram à Hina Jilani, representante especial do secretário-geral da ONU para Defensores de Direitos Humanos, as declarações ofensivas e homofóbicas do deputado estadual Marcos Abraão (PSL/RJ) a respeito do relator das Nações Unidas sobre execuções sumárias, arbitrárias e extrajudiciais, Philip Alston, durante sua visita ao Brasil.

Em 21 de novembro de 2007, o deputado Marcos Abraão durante discurso na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em que tentou desqualificar o relator da ONU Philip Alston, revelou sua postura homofóbica, preconceituosa e discriminatória: “esses idiotas da ONU, esses antropólogos e ‘veadinhos’ estão sempre falando nos jornais; alguns jornalistas idiotas, imbecis falam de Segurança Pública, mas são todos uns asnos. Nenhum deles entende qualquer coisa de Segurança Pública, muito menos esse “veadinho” da ONU – ele tem que ser tratado assim, por ter falado o que falou. Chamo de “veadinho” porque deve ser uma bela “bicha”, daquelas bem arrependidas! Não dá para entender por que esse tipo de pessoa quer atrapalhar um processo que caminha bem”. Logo após a declaração, o parlamentar disse que não estava atacando os homossexuais, pois tem amigos gays que “são muito mais homens” que os tais “veadinhos” a que se referia.

Philip Alston esteve em visita ao Brasil no período de 4 a 14 de novembro de 2007. O relator veio ao país em missão oficial para investigar casos de execução sumária relatadas nos últimos anos por diversas organizações não governamentais, entre elas a Justiça Global. A visita incluiu os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e o Distrito Federal.

Alston ouviu denúncias de moradores de comunidades em situação de conflito, familiares de vítimas urbanas e rurais e representantes da sociedade civil. O relator encontrou-se ainda com autoridades na área de segurança pública, mas não foi recebido pelo governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Em São Paulo, Philip Alston esteve com um representante da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) que denunciou crimes homofóbicos ocorridos no Brasil.

Em comunicado à imprensa, em 14 de novembro, o relator das Nações Unidas condenou os crimes que envolvem agentes do estado. Em especial, o relator expressou a preocupação com a política de segurança pública posta em prática pelo governo Sérgio Cabral que tem resultado em muitos casos de execuções sumárias.

O deputado Marcos Abraão foi acusado de ser mandante do assassinato do colega Valdeci Paiva de Jesus, pastor da Igreja Universal. O parlamentar Valdeci Paiva de Jesus foi morto em 24 de janeiro de 2003 com 19 tiros, perto da sede do PSL na zona norte do Rio de Janeiro. Abraão era suplente do deputado assassinado e, por isso, assumiu a vaga na Assembléia Legislativa do Rio.

Execução de mais um jovem negro no Rio é comunicada às Nações Unidas

Era uma noite do dia 30 de novembro de 2007. Após um dia de trabalho numa lanchonete, Leonardo Souza Santos, negro, 17 anos, saiu de casa no Morro Azul, no bairro do Flamengo (RJ), para comprar sanduíches. Foi executado com oito tiros por agentes do Serviço Reservado da Polícia Militar, a P2.

A mãe do jovem, Doralice Maria de Souza, viu quando os policiais arrastaram o corpo do filho até outro ponto da favela, onde plantaram uma pistola 9 mm na mão da vítima e dispararam, simulando um tiroteio. A execução foi denunciada pela Justiça Global ao relator da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais, Philip Alston.

Depois de simularem o tiroteio, os policiais colocaram o corpo de Leonardo dentro do porta-malas e o levaram para o hospital. A morte de Leonardo foi registrada no Boletim de Ocorrência na 9ª Delegacia de Polícia (9ª DP) como mais um caso de auto de resistência.

A versão da polícia publicada na imprensa é contraditória. No dia 1º de dezembro, afirmaram que agentes realizaram uma operação no local para atender uma denúncia sobre suposta invasão de traficantes de outras favelas. Os agentes policiais teriam enfrentado resistência de homens armados de fuzil, pistola e metralhadoras na entrada do Morro Azul e, por isso, revidaram aos ataques gerando a troca de tiros.

No dia seguinte, a própria Policia Militar negou que tivesse havido alguma operação na comunidade e informaram que os agentes faziam o policiamento de rotina.

A Justiça Global manifesta profunda preocupação com a política de segurança pública posta em prática no Rio de Janeiro.Em 2007 foram registrados oficialmente 1260 autos de resistência, apresentando uma elevação em relação a 2006, quando 1063 pessoas foram mortas durante ações da polícia.  Grande parte dos chamados autos de resistência se traduz em execuções por parte da polícia, como aconteceu na chacina do Complexo do Alemão, quando 19 pessoas foram mortas durante uma mega operação da polícia em junho de 2007.

ONU recebe denúncia sobre uso de bastão de tortura com a inscrição “Direitos Humanos”

 A Justiça Global encaminhou à Relatoria de Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos e Degradantes da ONU informações sobre a apreensão de aparelhos de tortura com a inscrição “direitos humanos” durante operação policial no Rio de Janeiro.

Durante operação policial realizada no dia 07 de janeiro de 2008, nos bairros de Campo Grande, Inhoaíba e Cosmos, zona oeste do Rio de Janeiro, foram encontrados diversos instrumentos de tortura em veículo utilizado por integrantes da milícia local . Um dos objetos de tortura era um bastão de beisebol com a inscrição “direitos humanos” em tinta preta.

As milícias são grupos armados que promovem o controle de diversas comunidades do Rio de Janeiro através da coação armada da população. Esses grupos são formados, em sua maioria, por policiais militares e civis da ativa e aposentados, bombeiros, seguranças e guardas municipais. Tais grupos ampliaram sua ação no estado com a conivência do poder público que justifica a atuação ilegal das milícias como forma de combater o tráfico de drogas. E utilizam muitas vezes o equipamento de segurança do estado, como armas e carros, para dominar comunidades do Rio de Janeiro.

As milícias coagem os moradores a pagar taxas em troca de proteção, assim como de outros serviços como televisão paga, transporte, gás e jogos eletrônicos (caça níqueis). As lideranças locais e moradores que se opõe à atuação da milícia muitas vezes são torturados, expulsos das comunidades ou mortos. 

No documento encaminhado à ONU, a Justiça Global informa que a tortura é uma prática comum realizada por milicianos contra pessoas que se opõem de alguma forma ao domínio armado que esses grupos estabelecem em comunidades do Rio de Janeiro.

Após 13 anos, assassino de irmãos Canuto é preso no Maranhão

O pistoleiro José Ubiratan Matos Ubirajara, ex-Policial Militar, condenado pelo Tribunal do Júri de Belém, em 1994, a 50 anos de reclusão pelo duplo assassinato dos irmãos sindicalistas de Rio Maria (Pará), José e Paulo Canuto, e pela tentativa de homicídio contra Orlando Canuto, foi preso em dezembro de 2007, na cidade de São Luís, no Maranhão.

Ubiratan fazia parte do grupo de pistoleiros que em abril de 1990 seqüestrou os irmãos  Canuto e executou os dois primeiros e feriu gravemente Orlando, que conseguiu  fugir e sobreviveu. Quatro anos após o crime, Ubiratan foi julgado e condenado a 50 anos de prisão, mas estava foragido. A prisão foi realizada após simulação do caso no Programa Linha Direta, exibido pela TV Globo.

José, Paulo e Orlando eram filhos de João Canuto, ex- presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, assassinado a mando de fazendeiros em 18 de dezembro de 1985.

ACONTECE

O Fundo Brasil de Direitos Humanos (FBDH), organização que apóia iniciativas, movimentos e pequenas organizações de direitos humanos, lançou o edital de financiamento para novos projetos em 2008. 

O FBDH foi criado em dezembro de 2005 a partir da iniciativa de quatro defensores dos direitos humanos no Brasil – o ex-bispo de São Félix, Dom Pedro Casaldaliga, o artista, escritor, poeta e militante do movimento negro, Abdias Nascimento, a feminista Rose Marie Muraro e a ex-dirigente da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo, Margarida Genevois. O orçamento anual é de R$ 500 mil. Ano passado, apoiou projetos ligados a temas como infância e adolescência, raça, gênero, direito indígena, entre outros.

O Fundo prioriza projetos institucionais, mas este ano poderá oferecer até cinco bolsas individuais. Os interessados devem preencher o formulário até o dia 21 de março. Informações pelo tel. (11) 3256-7852 ou através do email informaçõ[email protected]

 
 

Campeões de desmatamento exploraram trabalho escravo

Nos últimos cinco anos, houve registros de casos de trabalho escravo em 26 dos 36 municípios que fazem parte da lista prioritária de combate ao desmatamento da floresta amazônica definida pelo governo federal

Repórter Brasil
Por Maurício Hashizume
31/01/2008

Entre os 36 municípios da Amazônia escolhidos pelo governo federal como prioritários para ações de prevenção e controle do desmatamento, 26 estão presentes na ingrata lista que reúne localidades onde já foi constatada a exploração de trabalho escravo (confira mapa abaixo). Levantamento realizado pela Repórter Brasil com base nas fiscalizações dos últimos cinco anos revelou que o avanço da derrubada das matas coincidiu com a prática da escravidão contemporânea em 72% dos municípios.

 
Elaborado pela Repórter Brasil a partir de mapa divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA)

Não houve registro de trabalho escravo apenas em Aripuanã (MT), Colniza (MT), Cotriguaçu (MT), Gaúcha do Norte (MT), Juína (MT), Machadinho D´Oeste (RO), Nova Mamoré (RO), Nova Maringá (MT), Novo Progresso (PA) e na capital Porto Velho (RO) nos últimos anos. Em todos os outros municípios, auditores fiscais flagraram ao menos uma ocorrência de escravidão entre 2002 e 2007.

Em São Félix do Xingu (PA), Dom Eliseu (PA), Novo Repartimento (PA), Paragominas (PA) e Santana do Araguaia (PA) o poder público encontrou trabalhadores em situação análoga à de escravidão com grande freqüência: nove ou mais vezes durante o período pesquisado. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a lista dos 36 municípios prioritários para o combate ao desmatamento foi definida a partir de três critérios: o total desmatado desde o início do monitoramento, em 1988; o total desmatado nos últimos três anos; e o aumento de taxa de desmatamento em pelo menos três vezes nos últimos cinco anos, de forma consecutiva ou não.

A emissão de licenças para desmatamento nesses 36 municípios foi suspensa. O descumprimento do embargo obrigatório, que será monitorado por satélite e por fiscalização de campo, acarretará ao infrator, conforme determina decreto presidencial de dezembro de 2007, a vedação de comercialização do produto da área embargada, a proibição de obtenção de crédito agropecuário em instituição oficial, o cancelamento de seus registros em órgãos ambiental, fiscais (Receita Federal) e sanitários, e multa cujo valor será o dobro à aplicada para o desmatamento ilegal e publicação dos dados do imóvel em lista de infratores florestais. Com isso, o governo pretende elaborar uma espécie de "lista suja" do desmatamento, nos moldes da "lista suja" do trabalho escravo mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

As sanções administrativas serão estendidas a quem adquirir, intermediar, transportar ou comercializar produto ou subproduto de origem animal ou vegetal produzido sobre área objeto do embargo lavrado.

Será exigida dos donos de terras nessas localidades selecionadas, de acordo com decreto presidencial publicado em dezembro de 2007, a "certificação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em relação ao georreferenciamento de precisão do seu perímetro com comprovação inequívoca da titularidade" de cada propriedade.

O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também elaborará uma lista positiva de imóveis com desmatamento monitorado e sob controle. Funcionará como um selo oficial para que o mercado possa selecionar produtos oriundos de imóveis rurais cujos produtores rurais aderiram a medidas de controle dos desmatamentos.

A lista de 36 municípios foi apresentada por conta da reunião extraordinária convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conseqüência da divulgação da derrubada de 3.235 quilômetros quadrados de floresta na Amazônia, de agosto a dezembro de 2007, registrado pelo sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Quando da divulgação, chegou-se a estimar que, tomando como referência dados históricos, a área desflorestada possa chegar a 7 mil km2 entre agosto e dezembro de 2007.

Os dados colocaram em rota de colisão o Ministério do Meio Ambiente (MMA), de Marina Silva, que identifica o aquecimento da atividade primário-exportadora como propulsora do desmate, e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de Reinhold Stephanes, que busca desvincular os fatos.

Depois de convocar reuniões extraordinárias e exigir providências aos ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou amenizar a situação. Em São Paulo, Lula saiu em defesa dos produtores agropecuários da região (incluindo o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi), atacou entidades ambientalistas e chegou a comparar os dados a uma coceira. "É como se você tivesse uma coceira e achasse que é uma doença mais grave", disse. O cruzamento de dados da devastação com a incidência do trabalho escravo mostra que não faltam sintomas de que a enfermidade, além de grave, pode ser fatal.

Confira a lista de municípios prioritários com casos de trabalho escravo de 2002 a 2007: Alta Floresta (MT), Altamira (PA), Brasil Novo (PA), Brasnorte (MT), Confresa (MT), Cumaru do Norte (PA), Dom Eliseu (PA), Juara (MT), Lábrea (AM), Marcelândia (MT), Nova Bandeirantes (MT), Nova Ubiratã (MT), Novo Repartimento (PA), Paragominas (PA), Paranaíta (MT), Peixoto de Azevedo (MT), Pimenta Bueno (RO), Porto dos Gaúchos (MT), Querência (MT), Rondon do Pará (PA), Santa Maria das Barreiras (PA), Santana do Araguaia (PA), São Félix do Araguaia (MT), São Félix do Xingu (PA), Ulianópolis (PA) e Vila Rica (MT).

 

 

TRABALHO DEGRADANTE EM MEGAFAZENDA NO MATO GROSSO

Ação resgatou 41 trabalhadores na Vale do Rio Verde, arrendada pelo Grupo Bom Futuro - um dos maiores produtores de grãos e algodão do país; mesma equipe libertou outras 20 pessoas em fazenda de ex-prefeito de Vera (MT)

REPÓRTER BRASIL
Por Beatriz Camargo
24/01/2008


Agrotóxico era lançado de avião sob trabalhadores (Foto: Grupo móvel)
Em ação que teve início sexta-feira (18), o grupo móvel de fiscalização do governo federal resgatou 41 pessoas de trabalho degradante na Fazenda Vale do Rio Verde, em Tapurah (MT), região norte do estado. Desde 2006, a propriedade está arrendada para o Grupo Bom Futuro, que tem como diretor-presidente Eraí Maggi (primo do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi), um dos maiores produtores de soja, algodão e milho do país.

Apenas na fazenda fiscalizada há cerca de nove mil hectares de soja e algodão plantados. Segundo o próprio grupo, a Vale do Rio Verde representa cerca de 5% do total da produção de algodão no estado.

Os 41 resgatados faziam a retirada do mato dos plantios de algodão e, sem nenhum Equipamento de Proteção Individual (EPI), recebiam "chuvas" de agrotóxicos que eram jogadas de avião. Enquanto os fiscais estavam na propriedade, uma pessoa que havia entrado em contato com agrotóxico passou mal e foi levada para o hospital. "A aplicação indiscriminada de agrotóxico foi a infração mais grave que encontramos", expõe o auditor fiscal Luiz Carlos Cruz, que coordenou a ação. As condições de trabalho no campo e de alojamento, adiciona o fiscal, também não seguiam as normas legais.

Pelo excesso de infrações, as atividades na fazenda foram interditadas, mas voltaram ao normal nesta terça-feira (22), depois que o Grupo Bom Futuro desativou os alojamentos e instalou banheiros na frente de trabalho. Além disso, a empresa se comprometeu a controlar a aplicação de agrotóxicos e a levar os trabalhadores diariamente do campo até o refeitório da fazenda. Há outros 70 empregados na Vale do Rio Verde, distribuídos em outras funções e que, segundo Luiz Carlos, estavam em alojamentos mais adequados.

Selo em xeque
O Grupo Bom Futuro faz parte do Instituto Algodão Social (IAS), extensão da Associação Mato-Grossense de Produtores de Algodão (Ampa) que reúne grandes fazendeiros da região e distribui um Selo de Conformidade Social para produção de fazendas do estado. Representante do Bom Futuro nas negociações do caso na Fazenda Vale do Rio Verde, José Maria Bortoli é fundador do IAS e fez parte da primeira diretoria executiva do Instituto, de 2005 a 2007.

Cinco ou seis centrais de produção e cerca de 20 propriedades no estado fazem parte do conglomerado de Eraí Maggi. Todas as seis fazendas de algodão do grupo estavam certificadas pelo Selo de Conformidade Social do IAS para a safra 2006/2007. Para a nova safra de 2007/2008, dez propriedades do grupo estão se candidatas à obtenção do selo.

De acordo com o diretor administrativo do grupo, Donato Cechinel, é "quase certo" que toda a produção será certificada nesta safra. Os auditores do IAS ainda não passaram este ano pela Vale do Rio Verde, mas o diretor promete sanar as irregularidades a tempo da verificação.

Félix Balaniuc, diretor executivo do Instituto Algodão Social, prevê, no entanto, que a Vale do Rio Verde não deve obter o selo nesta safra, em que se inicia a parceira com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). "Já estamos no novo padrão. Esse trabalho está diferente, mais aperfeiçoado. Acompanhados pela ABNT, acredito que este ano as normas serão rigorosas."

O episódio não levará à cassação do certificado já concedido à Vale do Rio Verde, adianta Félix. "Não é possível cancelar o selo porque este produto com selo já foi exportado", explica. "Vamos investigar o caso com mais profundidade. Os auditores estiveram na fazenda e relataram que não havia trabalhadores nessa condição, e que o alojamento era razoável. Espero que não tenha sido um erro da nossa equipe."

O caso, frisa o diretor executivo do IAS, será discutido na reunião do conselho do IAS, que deve acontecer dentro de dez dias. Depois disso, o fato será encaminhado ao conselho de ética da Ampa.

Ele lamenta o flagrante ocorrido, mas considera que o quadro geral das condições oferecidas no setor está melhorando. "Em 2007, de 395 fazendas associadas à Ampa, só 223 conseguiram o selo", defende. "Entre as culturas do Mato Grosso, o algodão é o que está mais na frente. Estamos fazendo o máximo, mas não é fácil, porque exige investimento. Os produtores gastaram mais de R$ 15 milhões para colocar tudo em ordem."

Lista suja
A Fazenda Vale do Rio Verde é reincidente no Artigo 149 da Constituição, que versa sobre trabalho escravo e degradante. Foi flagrada cometendo este crime em 2001 e esteve na "lista suja" de julho de 2005 a julho de 2007. O Grupo Bom Futuro disse não conhecer os dois Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) firmados anteriormente pelos donos da terra, Caetano e Orlando Polato. "O que eles nos passaram nós corrigimos. O refeitório, por exemplo, nós refizemos. Está lá bonitinho", justifica o diretor-executivo Donato Cechinel. "Nós não sabíamos que a fazenda estava na lista suja", completa.

No entanto, o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) que participou da ação, José Pedro dos Reis, esclarece que o grupo terá de arcar com as multas de descumprimento dos acordos anteriores. "Um novo TAC será firmado ainda esta semana. Estamos esperando os autos de infração para saber o que foi descumprido e calcular o valor."

O Bom Futuro se comprometeu a reparar todas as irregularidades trabalhistas e pagar as rescisões de contrato dos resgatados, que estão estimadas em R$ 80 mil. Também serão pagos outros R$ 30 mil em danos morais coletivos. Se houver interesse da empresa e dos trabalhadores, estes poderão ser recontratados. Todos os resgatados são oriundos do Estado do Maranhão.

Ex-prefeito
A mesma equipe fiscalizou, no domingo (20), a Gleba Rio Ferro, em Feliz Natal (MT), onde foram encontradas 20 pessoas em regime de trabalho escravo. Algumas famílias de trabalhadores moravam no local: quatro crianças e quatro mulheres, que cozinhavam para o grupo. O dono da terra, Dorley Rodrigues Freire, é ex-prefeito do município vizinho de Vera (MT).

A propriedade ficava isolada e não havia transporte regular. Esse quadro caracteriza, para o grupo móvel, restrição de liberdade. Todos dormiam em barracos de lona, sem nenhuma condição de higiene. O banheiro era o rio. Além disso, os salários estavam atrasados em cerca de três meses e não havia registro dos trabalhadores. Algumas pessoas preparavam o pasto para receber o gado e outras construíam casas de madeira para o fazendeiro.

Na Rio Ferro também havia aplicação de agrotóxico, mas diretamente no chão. O produto utilizado era o Tordon - conhecido como "agente laranja", usado pelos EUA na Guerra do Vietnã, nos anos 70. Ele era aplicado pelos trabalhadores com artigos inadequados e sem EPI.

Desmatamento
 
Do carro, o desmatamento causado na propriedade Rio Ferro. O dono da terra, ex-prefeito de Vera (MT), Dorley Freire, já havia sido multado pela devastação de 3 mil hectares (Foto: Grupo móvel)

A mesma propriedade já tinha recebido uma multa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pelo desmatamento ilegal de três mil hectares de floresta. "Ele [Dorley Freire] continuou desmatando. Constatamos a perda de floresta na beira da nascente, que é Área de Proteção Permanente (APP)", descreve o auditor Luiz Carlos.

Desde terça-feira (22), o valor da rescisão contratual dos libertados está sendo calculado. A soma do pagamento deve ficar em torno de R$ 60 mil. Todos os trabalhadores são da própria região, e devem voltar às suas respectivas casas depois de receber as dívidas trabalhistas. De acordo com o procurador José Paulo, o MPT está em negociação com Dorley Feire para firmar um TAC.

Tanto os libertados darrio Ferro quanto os resgatados da Vale do Rio Verde foram levados para a sede do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), em Sinop (MT), onde aguardam a conclusão das negociações.

 

 

CRIME DE UNAÍ COMPLETA QUATRO ANOS SEM JULGAMENTO DE ACUSADOS

Dos nove acusados pela execução de três fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho em 2004, quatro aguardam, em liberdade, ida ao Tribunal do Júri. Colegas dos mortos exigem agilidade da Justiça

CORREIO BRAZILIENSE
Renata Mariz
27/01/2008

Exatos quatro anos após a morte de três auditores fiscais e de um motorista do Ministério do Trabalho, numa estrada de terra em Unaí, onde o grupo inspecionava fazendas da região para evitar exploração de trabalhadores, os nove acusados de participação no crime ainda não foram julgados. O processo que apura as responsabilidades pelos assassinatos está parado no Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, em Brasília, aguardando decisão sobre recursos apresentados pelos réus. As famílias dos auditores Eratóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva, e do motorista Ailton Pereira de Oliveira, ainda aguardam justiça. Um manifesto será realizado hoje em Brasília para pedir agilidade.

Há pelos menos seis recursos na gaveta do TRF emperrando o desenrolar do caso. A atribuição do tribunal será avaliar se os pedidos apresentados pelos advogados de defesa dos réus têm coerência. Admitidos, os recursos são encaminhados às cortes superiores * Supremo Tribunal Federal ou Superior Tribunal de Justiça *, que terão a incumbência de julgar o mérito da questão. Para o procurador regional da República que acompanha o caso, Carlos Vilhena, a demora do TRF é "injustificada". "Veja que se trata de verificar a admissibilidade dos recursos. E essa função é específica da vice-presidência do tribunal, algo em que o órgão é especializado ", critica Vilhena. A assessoria de imprensa do TRF foi procurada pela reportagem, mas não respondeu aos questionamentos.

Foro privilegiado
Dos nove acusados pelo crime, cinco aguardam julgamento presos. Hugo Pimenta, apontado como um dos mandantes, ganhou a liberdade para aguardar o julgamento no ano passado e se converteu à religião evangélica em Unaí. Todos os indiciados irão ao Tribunal do Júri, na 9ª Vara Federal de Belo Horizonte. A exceção é Antério Mânica, que por ser prefeito de Unaí (MG) tem foro privilegiado. Ele será julgado por uma turma composta de dez desembargadores do TRF da 1ª Região, em Brasília. "É da vontade do meu cliente que o julgamento ocorra logo. Já pedimos isso formalmente, mas há uma ação por parte do Ministério Público em protelar", afirma o advogado Marcelo Leonardo. O procurador Vilhena rebate a crítica. "Todas as vezes que o MP fez um pedido, foi para pedir agilidade", afirma.

Vilhena afirma, no entanto, que há uma explicação lógica, dentro do direito, para que os mandantes de um crime enfrentem os tribunais no final. "Como vou convencer o juiz de que uma pessoa encomendou um assassinato, se aquele que apertou o gatilho ainda nem foi julgado?", questiona. A despeito disso, Vilhena afirma que já pediu o desmembramento do processo para que um dos nove acusados fosse logo julgado, mas a solicitação não foi ainda avaliada. "É muito difícil que consigamos julgar de forma isolada aqueles que não apresentaram recursos. De qualquer forma, o tribunal terá de dividir a audiência em dias, ao longo de uma semana, quem sabe, porque são oito acusados. Não dá para manter isolado um júri, que é formado por pessoas comuns, durante tanto tempo."

Uma grande manifestação em frente ao TRF está marcada para amanhã às 14h. Trabalhadores do Ministério do Trabalho vão vestir preto e erguer faixas de protesto. Tanta demora da Justiça revolta Helba Soares, viúva do auditor Nelson José da Silva. "Sabemos que o processo judicial tem seus prazos, mas desse jeito já é demais, sinto uma sensação de impunidade", desabafa. Rosa Maria Campos Jorge, presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho, lamenta que mesmo com a mobilização da entidade, que procura entrar em contato com os desembargadores para pedir agilidade, nenhum avanço ocorreu em 2007.

Quem é quem:

Antério Mânica  Um dos maiores produtores de feijão do país, com propriedades rurais no Paraná e em Minas Gerais, era alvo freqüente de fiscalizações. Ameaçou, de acordo com as investigações, o auditor fiscal do trabalho Nelson José da Silva em novembro de 2003. Acusado de ser mandante do crime, responde ao processo em liberdade. É o único com foro privilegiado, por ser prefeito de Unaí.
 
Norberto Mânica  Fazendeiro, irmão de Antério Mânica, também sofria fiscalizações freqüentes em suas fazendas. É considerado mandante, junto com o irmão. Chegou a ser preso, mas ganhou a liberdade em novembro de 2006, por força de habeas corpus concedido pelo STJ.
 
Hugo Alves Pimenta Empresário cerealista, é acusado de também ser mandante das execuções. As quatro mortes teriam diminuído em R$ 45 mil uma dívida de R$ 2 milhões que ele contraíra com os fazendeiros e irmãos Celso e Norberto Mânica. Está solto desde o ano passado aguardando julgamento.
 
José Alberto Costa
Conhecido como Zezinho, também empresário, é acusado de ter intermediado a contratação dos pistoleiros, a pedido do amigo Hugo Pimenta. Está em liberdade desde dezembro 2004, beneficiado por um
habeas corpus.

Francisco Elder Pinheiro Mais conhecido como Chico Pinheiro, é apontado como o homem que se encarregou de montar toda a estrutura para a chacina e também acompanhou a execução do plano pessoalmente. Confessa que contratou os três homens para executar os auditores, encarregando-se também de receber o dinheiro das mãos de Zezinho e fazer a divisão. Está preso.
 
Erinaldo de Vasconcelos Silva É suspeito de ter executado três das quatro vítimas. Integrante de uma quadrilha de roubo de cargas e de veículos que atua na região de Goiás e Minas, agia ao lado de Rogério Alan Rocha Rios, chamado por ele para matar os auditores. Recebeu R$ 22 mil pelos assassinatos. Permanece preso.

Rogério Alan Rocha Rios É suspeito de ter dado vários tiros no auditor fiscal Nelson José da Silva, o verdadeiro alvo dos mandantes do crime. Encarregou-se ainda de roubar os celulares das vítimas, que depois foram atirados em um riacho.
Diz ter recebido R$ 6 mil pela participação.
Aguarda julgamento preso.
 
William Gomes de Miranda Foi contratado para atuar como motorista dos pistoleiros durante a chacina. Sua função era fazer o levantamento dos passos dos fiscais depois que eles deixassem o hotel em que se hospedavam. Confessa ter recebido R$ 11 mil. Está preso.
 
Humberto Ribeiro dos Santos Conhecido como Beto, ele teria se encarregado de apagar uma das provas do crime. Depois das mortes, foi contratado por Erinaldo para arrancar a folha do livro de registros do Hotel Athos, em Unaí, onde os pistoleiros ficaram hospedados. Permanece preso.

 

 

FAZENDA DE PRIMO DE GOVERNADOR DO MT TEM TRABALHO DEGRADANTE -FOLHA DE S.PAULO

Primo de Maggi utiliza trabalho degradante
Ministério liberta 41 pessoas no MT, e fazenda pode ser incluída em lista de locais em que há trabalho análogo à escravidão


Grupo Bom Futuro tem como dono Eraí Maggi, primo de Blairo, que não soube dizer se sua empresa negocia com a do parente

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DA AGÊNCIA FOLHA

RODRIGO VARGAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE

O grupo móvel do Ministério do Trabalho libertou 41 trabalhadores rurais submetidos a condições degradantes em uma fazenda de Tapurah (477 km de Cuiabá) arrendada pelo grupo Bom Futuro para o plantio de soja e algodão, que tem como um de seus donos Eraí Maggi, primo do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR).
O grupo encontrou trabalhadores em alojamentos precários, usando banheiros em péssimas condições higiênicas e manipulando produtos químicos sem proteção. Quando o agrotóxico era jogado por aviões sobre as plantações, os funcionários eram atingidos.
O Bom Futuro deve ser autuado pelas irregularidades, o que gerará multa e um processo administrativo, no qual a empresa pode se defender. Se for considerada culpada, ela é incluída na chamada "lista suja", índice que concentra as propriedades onde foi encontrado trabalho análogo à escravidão.
José Pedro dos Reis, procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, participou da ação em Tapurah no último dia 18 e afirmou que, apesar de a empresa "ser bem estruturada", havia uma "discriminação" entre os funcionários. Os que ficavam na fazenda tinham boas condições para trabalhar, diferentemente dos que iam para o campo -como os libertados.
"Eles dormiam numa construção de madeira, uns dez homens enfiados num cubículo, deitados em colchões velhos e podres, uma salinha muito abafada e com um cheiro muito ruim", afirmou. "Até os representantes da empresa ficaram abismados com o que viram, mal conseguiram entrar no alojamento devido ao fedor."
Quando estavam na frente de trabalho, para cumprir jornadas de até 12 horas diárias, arrancando raízes ou descarregando cargas, esses funcionários eram obrigados a usar a mata como banheiro e se limpavam com o que havia à mão.
Na hora de comer, afirmou Reis, muitas vezes abriam suas marmitas com as mãos ainda sujas de agrotóxicos. Eles não usavam luvas ou botas ao manipular o produto. Uma vez terminada a jornada, tomavam banho em locais imundos, tomados por lodo e dejetos. "Eles reclamaram muito também da falta de proteção e de lugar para comer", disse Pedro dos Reis. Alguns libertados ficaram na região. Outros voltaram a seus Estados (Maranhão e Piauí).
O procurador afirmou que a empresa está com "boa vontade" e considerou a situação uma "negligência dos administradores". "Já vimos lugar muito pior." O procurador disse que foram pagos R$ 110 mil aos libertados, pelos direitos trabalhistas e por danos morais.
O Bom Futuro é um dos maiores produtores de soja e algodão do Estado. Eraí Maggi disse que o grupo já fez diversas melhorias no local. A Amaggi, uma das maiores beneficiadoras de grãos do mundo e da família do governador, disse não poder esclarecer a relação entre as duas empresas. Blairo não soube dizer se sua empresa faz negócios com o primo.
====================================================================
Fazenda já tinha "problemas", diz empresário
DA AGÊNCIA FOLHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE

Eraí Maggi, um dos donos do grupo Bom Futuro, afirmou à Folha que a fazenda já tinha "problemas trabalhistas" quando foi arrendada, há pouco mais de um ano, e que vem fazendo melhorias.
Ainda assim, ele assume que algumas irregularidades persistem na propriedade, que figurou na "lista suja" de fazendas com trabalho análogo à escravidão entre 2005 e 2007. Pela lei, o arrendatário é responsável pela situação dos trabalhadores. "Desde que assumimos, estamos melhorando as condições de trabalho, na medida do possível. Já temos cantina e refeitório de primeira. Agora, é preciso lembrar que faz pouco tempo e que nem tudo pôde ser colocado no padrão."
A qualidade da comida servida no local foi confirmada pelo procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, José Pedro dos Reis.
Sobre possíveis negócios com a Amaggi, de seu primo e governador Blairo Maggi, Eraí disse que "negocia com quase todo mundo" no Estado, mas não com a empresa da qual Blairo é acionista. "Ele tem o grupo dele, e eu, o meu. Não há relação de compra e venda", disse.
Blairo afirmou não saber dizer se as duas empresas têm negócios, até porque, segundo ele, desde 2002, quando se elegeu governador, se afastou de Rondonópolis (MT), sede da Amaggi.
Sobre Eraí, disse que ligou para o primo, com quem tem "boas relações", e que ouviu a mesma versão dada à Folha sobre as irregularidades encontradas pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho. "Nós tivemos até um problema político no passado [em 2002], mas hoje está tudo bem", afirmou.
Eraí disse considerar "louvável" a ação do grupo móvel e que pretende seguir todas as recomendações para se ajustar. "Realmente, precisamos fazer algumas melhorias no alojamento", afirmou. (JCM e RV)


 

GRAÇAS AO “LINHA DIRETA”, ASSASSINO DOS IRMÃOS “CANUTO” É PRESO, 13 ANOS APÓS O JULGAMENTO

  Foi preso em dezembro de 2007, na cidade de São Luís, Estado do Maranhão, José Ubiratan Matos Ubirajara, ex-Policial Militar condenado pelo Tribunal do Júri de Belém, em 1994, a 50 anos de reclusão pelo duplo assassinato dos irmãos sindicalistas de Rio Maria José e Paulo Canuto e pela tentativa de homicídio contra Orlando Canuto.

José Ubiratan Matos Ubirajara, fazia parte do grupo de pistoleiros que em  abril de 1990 seqüestrou os 03 irmãos e os levou algemados pela PA 150 momento em que executaram os dois primeiros e feriram gravemente Orlando que conseguiu escapar .

Quatro anos após o crime, Ubiratan foi julgado e condenado, a 50 anos de prisão e logo empreendeu fuga. Em abril 1997, Ubiratan foi localizado e preso no Estado do Piauí. O Comitê Rio Maria e a CPT pressionaram os órgãos de Segurança Publica do Pará para que o mesmo fosse recambiado para o Estado, mas nada foi feito.

Somente agora, o assassino foi preso pela Policia de São Luiz com falsos documentos e identificado graças a ajuda dos repórteres da Linha Direta.

 Deve-se também ao mesmo Programa televisivo, a captura de José Serafim Sales, o “Barreirito”, condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato do sindicalista de Rio Maria, Expedito Ribeiro de Souza, o qual foi identificado e preso em Boston, nos Estados Unidos em abril de 2006 e desde março de 2007 encontra-se preso no Pará. 

José, Paulo e Orlando Canuto eram filhos de João Canuto, ex- presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, assassinado em 18.12.85. Infelizmente, apesar da exibição no “Linha Direta”, nada foi feito para capturar Vantuir Gonçalves de Paula, mandante do assassinato de João Canuto e Edson Matos dos Santos, outro executor dos Irmãos Canuto, apesar de ter sido identificado em Gurupi-TO.

Parabenizamos a Policia do Maranhão e os repórteres do Programa Linha Direta que prestam um importantíssimo serviço social ao colaborar com a localização dos foragidos da Justiça.

  Rio Maria, 23 de janeiro de 2008         

               Luzia Canuto de Oliveira                                   Frei Henri B. des Roziers

                     Comitê Rio Maria                                        Comissão Pastoral da Terra



 

Revisão de plano contra trabalho escravo reforça expectativas

Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae) definirá novas metas para o Plano Nacional sobre o tema no início de 2008. Avaliação de entidades é de que o combate ao trabalho escravo saiu fortalecido de 2007

Por Beatriz Camargo e Vanusia Gonçalves

21/01/2008

O ano de 2007 definitivamente não foi fácil para as entidades governamenatais e não-governamentais envolvidas no combate ao trabalho escravo. Mas as disputas, as pressões e os debates relacionados ao tema que movimentaram o conturbado período fizeram de 2007 um ano de avanços. Contribuíram também para gerar mais expectativas com relação aos desafios para 2008.

O Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, principal eixo de ações contra a prática desse crime no país, está sendo revisto e pode ser aprovado pela Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), ligada à Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), ainda em fevereiro. "Vamos atualizar as metas, até mesmo por causa de uma perspectiva histórica. Isso traz novo fôlego para as entidades", comenta José Guerra, assessor da SEDH.

O esforço para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que prevê o confisco de terras onde houver flagrante de trabalho escravo, permanece como uma das prioridades para 2008 na opinião de Xavier Plassat, coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo. Para ele, outro objetivo para este ano diz respeito ao empenho para que haja um aumento de ações da Justiça Federal contra a escravidão contemporânea. Há um ano, a competência para julgar esse crime foi definida pelo Superior Tribunal Federal (STF).

Frei Xavier também frisa que é preciso uma "implementação efetiva, com mobilização social, das políticas estaduais de combate ao trabalho escravo, fazendo uma cobrança acirrada do pacto interestadual contra esse crime", que materializa uma articulação inédita de seis estados - Pará, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Piauí e Bahia. Ele destaca também a necessidade de fortalecimento dos instrumentos de pressão econômica sobre a cadeia produtiva dos produtos vindos da escravidão.

O governo deveria apoiar as iniciativas de geração de emprego e renda voltadas à integração social dos trabalhadores resgatados e sua famílias, recomenda Carmen Bascarán, coordenadora do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CDVDH), localizado na região de Carajás, onde há grande incidência de casos de trabalho escravo e de aliciamento de mão-de-obra. "Pela miséria na qual subsistem, essas pessoas são chamados a engrossar as filas dos escravos do século XXI."

Carmen corrobora a posição de Xavier Plassat e cobra uma política agrária mais consistente de incentivo à produção de pequenas e médias propriedades rurais. "A agricultura extensiva, o agronegócio e o latifúndio são fonte, causa e conseqüência da permanência do trabalho escravo, da superexploração e das mortes por excesso de trabalho."

A injeção de ânimo na Conatrae que pode ser impulsionada pelo engajamento de novos integrantes anima Andrea Bolzon, coordenadora do projeto de combate ao trabalho escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Brasil.  "Várias instituições que fazem parte da Conatrae trocaram seus representantes na instância. Vemos isso com interesse. Provavelmente, teremos que reconstruir alguns vínculos, mas isso é positivo", analisa 

Metas do governo
Neste ano, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) conta com um orçamento reforçado para o combate ao trabalho escravo e quer instituir medidas mais preventivas. Ruth Vilela, chefe da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE, declarou à Repórter Brasil que pretende destacar pelo menos uma equipe do grupo móvel para ficar permanentemente no monitoramento de fazendas da "lista suja", que relaciona empregadores flagrados pela utilização criminosa de mão-de-obra escrava.

Preocupado com os problemas trabalhistas na cana-de-açúcar (setor que concentrou fiscalizações de empreendimentos de grande porte em 2007 - veja retrospectiva abaixo), o MTE encaminhou uma notificação preventiva às usinas contendo especificações sobre condições de trabalho - como alojamento, alimentação e água potável - e atenção especial à remuneração por produção. "Nossa preocupação prioritária é com o corte manual da cana", reforça Ruth.

Além disso, o Ministério tem um projeto piloto, que será anunciado em breve, para acompanhar a migração de trabalhadores para fora dos estados de origem. A idéia é que a contratação de trabalhadores rurais seja feita por meio de instituições oficiais, em agências de emprego rurais mantidas pelo governo, e não mais por "gatos" (intermediário de empreitadas a serviço do fazendeiro). Segundo Ruth Vilela, o projeto inclui os estados Bahia, Maranhão e Piauí e, se for bem-sucedido, poderá ser expandido a outros estados.

Retrospectiva 2007
O número de trabalhadores libertados pelo grupo móvel atingiu a marca recorde de 5.877 pessoas em 2007, de acordo com dados divulgados pelo MTE nesta quarta-feira (17). Levantamentos prévios paralelos feitos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) dão conta da libertação de 5.467 trabalhadores da escravidão em 2007, contra 3.666 resgatados em 2006.

Em 2007, o grupo móvel enfrentou uma prova de fogo em conseqüência das repercussões do caso da fazenda e usina Pagrisa, palco da operação que constatou 1064 escravizados no empreendimento em Ulianópolis (PA). Foi a maior libertação realizada pelo governo desde 1995, quando o grupo móvel foi criado. A autuação da Pagrisa por trabalho escravo implicou na mobilização de lideranças empresariais e políticos que saíram em defesa da empresa e tentaram desqualificar o trabalho de fiscalização do governo. Foi instalada inclusive uma Comissão Externa no Senado com a finalidade específica de apurar possíveis abusos da equipe que atuou no caso.

Diante da pressão, as ações do grupo móvel foram suspensas por mais de 20 dias, entre setembro e outubro, sob a alegação de que seeria preciso garantir a segurança dos auditores fiscais. O impasse gerou manifestações de diversas entidades ligadas ao combate à escravidão, que criticaram a intervenção do Senado e pediram a volta das atividades do grupo móvel. "Nós tivemos uma fase de aparente fragilidade, mas conseguimos reverter o quadro com ajuda dos parceiros e logo pudemos retomar o trabalho", comenta Ruth Vilela.

Além do caso Pagrisa, outro caso que ganhou repercussão foi o dos mais de 800 indígenas resgatados de trabalho degradante da fazenda e usina Debrasa, em Brasilândia (MS), pertencente à Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), que faz parte do poderoso grupo José Pessoa. A fiscalização encontrou condições bastante precárias de transporte e alojamento. Por causa da operação, as empresas do grupo foram suspensas do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, e o presidente José Pessoa Queiroz Bisneto foi afastado do Conselho Consultivo do Instituto Ethos.

Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil

Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.

 

  RECORDE DE LIBERTAÇÕES EM 2007

Grupo de fiscalização do Ministério do Trabalho aumentou em 72% o número de pessoas resgatadas de fazendas onde eram mantidas em condições análogas à escravidão. Pará foi o estado com mais ocorrências


Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
17/01/2008


Apesar de ter paralisado as atividades por 22 dias, o grupo de fiscalização móvel do Ministério do Trabalho e Emprego conseguiu aumentar em 72% o número de trabalhadores libertados da condição de escravidão em fazendas do país em 2007. Segundo balanço divulgado ontem, 5.877 pessoas foram encontradas em condições degradantes nas 110 operações realizadas pelos fiscais com ajuda da Polícia Federal. Foi o maior número de trabalhadores resgatados desde a criação do grupo, há 12 anos. Em 2006, foram 3.414 pessoas libertadas. "Tivemos um ano conturbado, mas conseguimos o mínimo de eficiência", ressaltou a secretária nacional de Inspeção do Trabalho, Ruth Vilela.

A conturbação a que Vilela se referiu foi uma guerra travada com um grupo de seis senadores por conta de uma fiscalização na Fazenda Pagrisa, no Pará. Na operação, ocorrida em maio, foram libertados 1.064 trabalhadores submetidos a um regime análogo à escravidão. Os donos da empresa e o grupo de senadores disseram que, na ação, os fiscais teriam cometido abusos. O impasse ainda está na Justiça. "Os trabalhos só seguiram adiante porque tivemos apoio do órgão central (Ministério do Trabalho)", diz Ruth Vilela, que ameaçou pedir demissão do cargo três vezes por conta do lobby dos empresários da Pagrisa no ministério e no Senado.

No balanço anual do Grupo Móvel, foram contabilizadas as libertações feitas na Pagrisa, o que elevou o Pará ao posto mais alto no ranking nacional dos estados com maior número de trabalhadores escravizados. Só nas fazendas paraenses foram libertadas 1.947 pessoas. O segundo estado onde mais houve libertações foi o Mato Grosso do Sul, com 1.634. Das 27 unidades da federação , não houve libertações em 11, incluindo o Distrito Federal.

Desde 1995, os fiscais do Grupo Móvel percorreram 1.874 fazendas, libertando 27.645 trabalhadores e regularizando a carteira de outros 27.101. Em 12 anos, o grupo aplicou 18.116 autos de infração, gerando pagamento de R$ 38,4 milhões em indenizações, sendo R$ 9,8 milhões apenas em 2007. Atualmente, oito equipes compõem o grupo, formado por auditores fiscais, procuradores, delegados e agentes da Polícia Federal.

Mais fiscalização
Para 2008, Ruth Vilela avisa que o Grupo Móvel vai intensificar as fiscalizações, principalmente nos estados que concentram o maior número de denúncias * Pará, Mato Grosso do Sul e Goiás. Ela conta ainda que os fiscais vão atuar também na prevenção. "Nós vamos voltar in loco às fazendas onde houve flagrantes para verificar se há reincidências", diz Vilela. As ações de prevenções serão redobradas nos períodos de colheita, quando há um boom de recrutamento de trabalhadores.

Segundo estimativa da Organização Mundial do Trabalho (OIT), só no Pará ainda há pelo menos 25 mil pessoas submetidas ao trabalho escravo em fazendas. No ano passado, o Grupo Móvel não pôde contar com apoio da Delegacia Regional do Trabalho (DRT-PA) local porque os fiscais do núcleo regional, empresários e prefeitos de diversos municípios paraenses relutam em aceitar o rótulo de "trabalho escravo" na Amazônia. "Nossas ações independem do apoio da DRT do Pará", ressalta Vilela. Ela informa que as ações do Grupo Móvel são superiores às locais. No ano passado, a DRT-PA não libertou nenhum trabalhador de fazendas do Pará.

A "lista suja" do Ministério do Trabalho, que revela as empresas flagradas com trabalhadores em regime de escravidão, fechou o ano com 189 nomes. A maioria é do ramo agropecuário e de agricultura. As fazendas que figuram no rol são impedidas de conseguir financiamento em bancos, obter incentivos fiscais e comercializar produtos com os governos federal e estadual. Em 2007, seis empresários entraram na Justiça pedindo para ter o nome fora da lista e conseguiram o benefício.
 
 

 

SÃO FRANCISCO - Grupo acompanhará a revitalização do rio

Jornal do Commercio
16/01/2008

O Ministério da Integração Nacional instala hoje o grupo de trabalho que ficará responsável por coordenar as ações do plano de desenvolvimento nas áreas dos projetos de integração e revitalização do Rio São Francisco. João Mendes, secretário-executivo do grupo de trabalho, explica que a intenção é articular e potencializar as ações que estão sendo desenvolvidas nessas áreas, evitando desperdícios e agilizando o andamento delas.

O grupo montará um plano de ação que congregará as intervenções dos diversos ministérios nas regiões influenciadas pela integração e revitalização do São Francisco, com prazo para ficar pronto no final do primeiro semestre deste ano. Seriam definidas as intervenções emergenciais, de médio e longo prazos.

As ações envolvidas são de cunho social, econômico e ambiental, seguindo recomendações dos órgãos licenciadores, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Nacional de Águas (ANA). Na área do projeto de integração, vivem 12 milhões de pessoas e na região atendida pelo projeto de revitalização existem mais de 18 milhões.

Entre as atividades que passarão a ser acompanhadas pelo grupo de trabalho, Mendes cita as ações de recuperação das matas ciliares e de saneamento, que devem ocorrer nas áreas próximas ao rio. Outro exemplo é a recuperação do rio para atividades de piscicultura.

O grupo de trabalho será formado por representantes das secretarias executivas de Desenvolvimento de Políticas Regionais (SDR), de Programas Regionais (SPR), de Infra-Estrutura Hídrica (SIH), bem como membros do Programa da Revitalização das Bacias, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) e do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).

OBRAS

A pendência judicial envolvendo a licitação para as obras do lote 9 da transposição do Rio São Francisco, que diz respeito à parte do Eixo Leste, impede o andamento das licitações dos nove lotes. O lote 9 foi o segundo a ser licitado, atrás do lote 1 – referente ao Eixo Norte. São 14 lotes de obras.

Mas a execução dos serviços para as áreas já contratadas pode ser realizada. A assessoria de imprensa do Ministério da Integração Nacional informa, porém, que ainda não há data fechada para o início dos serviços do lote 1, mas eles podem começar a qualquer momento.